Política| 01/04/2009 | Copyleft

Carta Maior lança debate: o Marxismo e o Século XXI

A Carta Maior lança a partir de hoje um seminário virtual sobre a obra de Karl Marx e os problemas que afetam a humanidade neste início do século XXI. Diante da grave crise econômica, política e social, decorrente das políticas do modelo neoliberal implementado nas últimas décadas no mundo, o pensamento do autor alemão voltou à ordem do dia. A nova editoria terá a curadoria do professor Francisco de Oliveira, que escreverá e convidará, mensalmente, intelectuais para abordar o tema num debate que se estenderá até o final do ano e procurará ofecerer respostas à pergunta: o que Marx tem a dizer sobre os problemas do século XXI?

O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido de um “campo” (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos próprios Marx e Engels.(como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo.

A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta, numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas idéias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol. Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia, tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente.

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique, vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer, antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo poder, com seus dirigentes que se transformaram em condotiere mundiais, Lênin e Trotsky, para citar apenas estes.

Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo, talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido a mais importante. Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu a formação de seu Partido Comunista já em 1922.

Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política. Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o “pequeno grande sardo” é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais.

Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia – o que, infelizmente, ocorre hoje – Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria – o “compromisso histórico” – com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma.

Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar, marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do georgiano – que na verdade já se ensaiava sob Lenin - pelas realizações técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição do próprio Marx e dos frankfurtianos de que “progresso e barbárie” sempre formaram na história universal uma terrível unidade.

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o “marxismo soviético” (a expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotkysta, que cedo viu a “degeneração burocrática” do Partido, e a também ainda mais precoce crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes – nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin.

Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson para o que ele chamou de “marxismo ocidental”, a combinação da desestruturação produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus partidos social-democratas e comunistas; o “marxismo ocidental” descolou a reflexão teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo assim, na universidade, que apenas durante um curto período – uns 40 anos , se tanto – abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu.

Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras , mesmo em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos. É o caso das religiões- antes o “ópio do povo”, da psicanálise ,-uma ciência do inconsciente da justificação burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já originalmente pensados por Lukacs), na critica da cultura e da modernidade – os frankfurtianos – da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu “americanismo e fordismo”. Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes ampliou os horizontes.

A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI ? O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse “no calor da hora” não honrou muito as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do capitalismo na crise de 1929. E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à dominância financeira. E que mais ?

Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil, às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido. Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe. Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas do trabalho?

As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em suma, um marxismo dialógico e dialético.



 

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COMENTÁRIOS (48 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Para mim, mero mortal que n... Frederico Schmidt ... 30/06/2009
Daqui de Salvador,Bahia, te... José Mario Peixoto... 20/06/2009
Entendo que o Marxismo nunc... Euclides Lopes 23/05/2009
Primeiramente, é interessan... Amanda Costa Reis 22/05/2009
A proposta de debate é inte... Mahesh 26/04/2009
Pergunto novamente, QUANDO ... Fernando da S. Cos... 23/04/2009
Prezado Manfred Molz. O esp... Redação - Carta Ma... 14/04/2009
Iniciativa dessa pode contr... luiz carlos alves ... 13/04/2009
Com a crise mundial, tem-se... Rezenha 13/04/2009
Afinal... bela iniciativa. ... Cristóvão Feil 12/04/2009
Penso que é uma hora muito ... jurema Flor 08/04/2009
parabens!!! a iniciativa é ... vitor 07/04/2009
Caro Francisco Oliveira: Ba... Roberto Rodrigues 07/04/2009
ótima proposta. Analisar as... Robson Rafael Morb... 07/04/2009
A idéia é merecedora de elo... JAIRO JUSTINO DA S... 06/04/2009
Iniciativa como essa é semp... Nivaldo da Cunha 06/04/2009
Acho ótima a idéia e a inic... Marlene Soccas 05/04/2009
Através das descobertas da ... af sturt 05/04/2009
Gostaria também de acrescen... Marlene Soccas 05/04/2009
Necesário.. Imprescindível... Jacqueline Guerrei... 05/04/2009
A sugestão é ótima e a acom... Roberto Coelho 05/04/2009
O problema é que os " socia... francisco 05/04/2009
Quanto ao marxismo inglês, ... Daniel 05/04/2009
parabéns, parabéns, parabén... Paulo de Lima 05/04/2009
Quantas vezes ouvimos falar... Vinícius Lima 05/04/2009
De Marx-Engels, passando po... Patricia Rodrigues... 04/04/2009
A derrota do movimento oper... elder pacheco 04/04/2009
Muito interessante, devemos... ANGELA PAULA 03/04/2009
Ilmo. Sr. FRANCISCO, O SENH... ANTÔNIO ALBERTO (P... 03/04/2009
Me parece una excelente inc... Adriana 03/04/2009
Do PT, passando pelo PSTU e... Pmarkes 03/04/2009
Dez! Nota dez! Na atualidad... Júlio Ramon T da P... 03/04/2009
Brigado Chico e Carta! Flavia 03/04/2009
Se Marx estivesse vivo, com... Cyssu Pantaleão 03/04/2009
Excelente a iniciativa! ... Martinho Júnior 03/04/2009
O artigo inalgural deste se... DORI EDSON SILVEIR... 03/04/2009
Pe Alberto, o sr. tem razão... francisco 03/04/2009
Para os interessados no deb... DORI EDSON SILVEIR... 03/04/2009
É uma das iniciativas mais ... Vilson Vieira Juni... 03/04/2009
Antes de mais nada acredito... Vianna 03/04/2009
vera, excelente observação. feijao 03/04/2009
A Carta Maior está de Par... Vera Lúcia Lourido... 02/04/2009
Carta Maior cumpre um papel... Ricardo Pons 02/04/2009
é um tema necessário e indi... Carlos Santiago Si... 02/04/2009
Esses que hoje criticam os ... Rui Sereno 02/04/2009
Muito boa iniciativa. Vou a... Suzana Perrone 02/04/2009
O "AN ARQUÉ" = anarquismo (... ANTÔNIO ALBERTO (... 02/04/2009
Carta Maior está mais uma v... José Marques Porto 01/04/2009
 
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