Internacional| 22/05/2009 | Copyleft

Cheney x Obama: a ofensiva do medo

Os republicanos parecem temer que só um ataque terrorista devastador nos EUA (ou instalações americanas de outro país) será capaz de reabilitar seu partido, quase reduzido à condição de zumbi - comparável aos bancos-zumbis, outra herança das políticas desastrosas de Bush. Na ausência do ex-presidente Bush, recolhido ao silêncio, o ex-vice Cheney assumiu a ofensiva contra o governo Obama. A análise é de Argemiro Ferreira.

Discursos no mesmo dia do presidente Obama e do ex-vice Dick Cheney deixaram bem claro, de novo, que o Partido Republicano, despedaçado pela vitória democrata de 2008, aposta agora despudoradamente no medo. Os republicanos parecem temer que só um ataque terrorista devastador nos EUA (ou instalações americanas de outro país) será capaz de reabilitar seu partido, quase reduzido à condição de zumbi - comparável aos bancos-zumbis, outra herança das políticas desastrosas de Bush.

Na ausência do ex-presidente Bush, recolhido ao silêncio, o ex-vice Cheney assumiu a ofensiva com sucessivos pronunciamentos e num esforço para socorrer tanto o mais destemperado dos que se julgam "cabeça titular" informal do partido à deriva - caso de Rush Limbaugh, rei dos talk shows de rádio - como os que têm responsabilidade institucional, como Michael Steele, presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC) e os líderes do partido na Câmara e no Senado.

O fato de ter o presidente mantido o secretário da Defesa de Bush, Robert Gates, é na certa a razão de estar a oposição discreta ante o novo espasmo de violência no Iraque, que em dois dias matou 66 pessoas, entre elas três soldados americanos e mais de 20 iraqueanos. Ataques repetem-se desde abril, agravando a tensão sectária a semanas da saída das tropas americanas de Bagdá e outras cidades, onde a responsabilidade passará às próprias forças de segurança do Iraque

Falso renascimento e receita duvidosa
Na terça-feira Michael Steele tinha feito um discurso otimista, de cheerleader - o que talvez esteja sendo seu papel atual. Proclamou que os republicanos estão de volta, com toda a força, pois as coisas mudaram, a lua de mel de Obama acabou e está começando novo capítulo para os republicanos - o do “renascimento”. Mas a cada pesquisa o resulta mostra exatamente o contrário: o apoio ao partido continua a declinar.

Sexta-feira uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que de 2002, quando a popularidade de Bush (favorecida pela histeria patrioteira pos-11/9), empurrou os republicanos para virtual empate (43% a 43%) com os democratas na preferência partidária, a 2009 (com o início apoteótico do governo Obama) o quadro se transformou. Agora as pessoas que se identificam como democratas são 53% do eleitorado e como republicanos, 36%. Diferença de 17 pontos percentuais, a maior em duas décadas.

Cheney acha que pode mudar o desequilíbrio se insistir em apregoar que só os republicanos garantem segurança. "Em sete anos e meio o país foi protegido. Não houve ataque terrorista", pontifica a cada nova entrevista ou discurso, inclusive o de ontem no AEI (American Enterprise Institute). Ali defendeu, no mesmo contexto, até o uso da tortura (sob o eufemismo enhanced interrogation) para arrancar informações de presos. O discurso de Cheney traz ainda, implícita, a insinuação de que o atual governo é fraco, por rejeitar a tortura - e deixa o país vulnerável ao terrorismo.

"Sr. Cheney, seu governo não deu segurança"
O democrata Paul Begala, ex-assessor na Casa Branca de Clinton e atuante há anos nas arenas dos talk shows da TV, deu num artigo, a 13 de maio, a resposta demolidora que o Partido Democrata nunca ousou. "Sr. Cheney, o senhor não manteve o país seguro", disse ele. "Se 3.000 americanos foram mortos no seu governo, em ataque que devia ter sido evitado, talvez o senhor devesse hesitar em fazer acusação a qualquer pessoa de estar colocando a América em risco".

Também foi explícito sobre tortura: “Se o senhor defendeu a tortura e se a tortura produziu informações erradas, usadas ainda para enganar a população e lançar a América numa guerra equivocada (no Iraque), injusta e não justificada, o senhor devia ter alguma vergonha, ao invés de defender o uso da tortura". Ao se dirigir sexta-feira ao país, Obama ficou longe disso Mas fez seu discurso mais eloquente contra os desatinos de oito anos da dupla Bush-Cheney.

Sob pressão dos republicanos e até de democratas, por ordenar o fechamento da prisão de Guantánamo, fez defesa vigorosa dessa decisão do governo. "Não vamos libertar ninguém que coloque em perigo nossa segurança nacional", disse. "Se tomamos a decisão foi tendo em mente o seguinte fato. Ninguém jamais fugiu de nossas prisões federais de segurança máxima, onde estão atuamente centenas de terroristas condenados"

A lambança e os valores fundamentais
Enquanto expunha os planos para os 240 detidos ainda em Guantánamo, o presidente acusou o governo anterior de ter embarcado em "experimento mal orientado" que acabou resultando numa "lambança". Agora, garantiu, haverá um padrão de legitimidade jurídica para justificar a detenção de suspeitos perigosos de terrorismo, que antes não seriam julgados e nem libertados - proposta que causava inquietação entre defensores dos direitos humanos.

Obama falou num cenário diferente da capital - nos Arquivos Nacionais, onde são mantidas documentos fundamentais - a Declaração da Independência, a Constituição e a Carta de Direitos. Era evidente o simbolismo, conforme assinalou o New York Times. Como comandante em chefe, o presidente tem de preservar os valores americanos legados pelos pais fundadores (o repúdio à tortura entre eles) e ao mesmo tempo proteger a segurança nacional.

Ao insinuar que os democratas fraquejam, Cheney diz que o combate ao terror tem de ser implacável, sem contemplação ou meias medidas. Para ele, está certo abrir mão de certos valores sob o pretexto da segurança. Mas Obama tem outro enfoque para o quadro: "Acredito com cada fibra de meu ser que a longo prazo não podemos manter este país seguro a menos que usemos também a força de nossos valores mais fundamentais”.

Blog do Argemiro Ferreira



 

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COMENTÁRIOS (4 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Defensores de torturas e ma... bruno 26/05/2009
O artigo parece querer most... Guilherme Coelho 25/05/2009
O comentario acima d... Marcelo Francisco ... 24/05/2009
Esses Republicanos estão me... Pedro Miranda,Econ... 23/05/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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