Política| 31/05/2009 | Copyleft

Cracolândia: Ensaio sobre a barbárie

Pode-se imaginar o que é a noite na Cracolândia, o reduto do crack, no centro velho de SP.

Mas até quem sabe ou imagina saber o que acontece sob o domínio da droga e da miséria humana ficará chocado com as cenas reunidas neste ensaio fotográfico publicado agora por Carta Maior.

Um pequeno texto acompanha a coleção de fotos que seca a boca e angustia a alma. Nele, temos o testemunho de um ângulo de visão 'privilegiado', mas raramente incluído nas discussões sobre o problema: os vizinhos da Cracolândia, gente que vive no entorno do império da droga, condição que inclui milhões de brasileiros nas periferias conflagradas do país.

Há tempos, as ruas Vitória e Guaianases, localizadas no centro velho de São Paulo, foram tomadas por traficantes e dependentes de drogas. Formam as duas um pedaço da Cracolândia que a administração Kassab insiste em declarar extinta, mas que ressurge a cada noite como uma Fênix incandescente a ofuscar o marketing kassabserrista do Projeto 'Nova Luz'.

Moradores do local sabem mais do que ninguém o preço desse empurra-empurra entre sombra e luz. São eles que vivenciam diariamente a experiência de uma frente de guerra incrustrada, como tantas outras, na noite de uma cidade que supostamente dorme em paz. São eles também que se arrastam na peregrinação inútil para sensibilizar autoridades insensíveis, em busca de um armistício feito de segurança, assistência social e urbanismo, que lhes devolva algum traço de cidadania noturna.

Como sobreviventes de uma Faixa de Gaza esquecida pelo noticiário, os moradores das ruas Vitória e Guaianases já percorreram todas as etapas do mesmo fracasso que angustia cidadãos asfixiados por conflitos anônimos em algum ponto do fim do mundo: o apelo humanitário do abaixo-assinado; a denúncia e o pedido de socorro ao Ministério Público e a representação junto ao Conselho de Segurança do Centro, ironicamente autobatizado com seu antônimo: 'Conseg'...

Não, não se consegue. Representantes da prefeitura e da Polícia Militar chegam a zombar de cidadãos crédulos que os procuram: --Olha, não queria estar na pele de vocês"; ou então, "é assim mesmo; há 30 anos é assim; vocês vão esperar mais 15 ...".

A solicitação de uma base policial permanente para o local foi feita há três anos, isso, três anos. Não, não há uma unidade disponível. Nunca há. Curiosamente, bases policiais fixas fazem a segurança nas proximidades de grandes hotéis do centro, bem como de órgãos públicos e até de um shopping de motos, na rua Barão de Limeira. Não, não há uma unidade disponível para a segurança dos moradores, diz o mesmo governo kassabserrista que alardeia a recuperação urbanística da região. Não seria o caso de começar pela restauração do direito de ir e vir dos moradores já existentes? Não, o objetivo da administração kassabserrista é terceirizar a reconstrução do local, como Bush no Iraque; demolir tudo; higienizar e expulsar o problema para algum outro ponto do fim do mundo.

Uma realidade complexa como essa, a realidade de uma guerra antiga e surda nas entranhas de uma das maiores metrópole do planeta, pediria abordagens jornalísticas abrangentes, corajosas, competentes. Não, não há uma disponível. O enfoque da mídia segue a receita de repisar o drama do crack, com um toque de banalização que inocula a droga do fatalismo na opinião pública. O discernimento social é reduzido a uma cidadania zumbi, convencida de que é assim mesmo: a barbárie é um traço ontológico da natureza tropical, como a banana, ou o açaí.

A pauta fatalista inclui a versão requentada pela Globo, cujo foco de quando em vez recai na relação promiscua e violenta entre policiais e usuários. Ato contínuo, a Polícia surge tinindo na Cracolândia como se fosse uma novidade existir ali um parque temático do que há de mais sórdido na aliança entre o capitalismo, a pobreza e a corrupção. A operação higienista, tão facista quanto inutilmente publicitária, revela o 'torque social' da administração que comanda a cidade há duas gestões seguidas. Nada de novo. A emissora é a mesma, os personagens também, inclusive o teórico nativo do 'higienismo social' que orienta as ações oficiais na área, Andrea Matarazzo, braço-direito do kassabserrismo e introdutor das 'encostas anti-mendigos' nos baixos dos viadutos paulistas. A imprensa cobre a festa em sua homenagem e o faz com indisfarçável isenção, como manda o manual de redação.

Quando as luzes das viaturas se apagam, resquícios humanos reaparecem dos bueiros e a encenação da presença do Estado se esvai pelas calçadas. Da janela, as imagens da vida desmentem as do vídeo. O tráfico se move no azáfama de um formigueiro incansável; metáfora de um inverno que na verdade já se instalou para sempre na vida da maioria dos seus membros.

Se você mora no entorno de uma Cracolância qualquer do país --e milhares de brasileiros tem seu CEP aí-- vive a sórdida experiência de ser mastigado diariamente pela engrenagem destruidora, movida a abandono público e medos privados. Não justifica, mas é assim que a classe média emparedada entre a miséria e o imobilismo do Estado adere ao fascismo. O caso-limite da Cracolância tem sua universalidade como experiência de um fracasso histórico que não diz respeito apenas às vítimas mais visíveis da tragédia. Ele argüi, também, a democracia e a inércia da esquerda diante da exclusão social renitente, brutalizada cada vez mais pelo poder da droga nas periferias conflagradas de todo opaís.

Em São Paulo, há quase uma década, belos projetos são anunciados para 'resolver' o desafio; de quando em quando, o 'agora vai' é renovado pela elite conservadora que governa a capital há 14 anos. Nunca sairam do papel.

Imagine 200 pessoas sob o efeito do crack gritando sob a sua janela, numa madrugada interminável ... Surreal? Na Cracolância é normal. E mais uma vez foi a norma no último fim de semana. As fotos a seguir documentam essa experiência melhor que as palavras. São flagrantes de um mundo em decomposição, onde o Estado não existe e, portanto, a dignidade social derrete. A noite na Cracolândia é um ensaio da barbárie que suspira no ventre do país. Um inferno escuro que a esquerda prefere não discutir e o PSDB paulista promete transformar em parque luminoso, a cada véspera de eleição. Quem acredita?

(Clique nas imagens para ver ampliado)



 

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COMENTÁRIOS (58 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Eu não tenho dúvida que o S... Julio Angelo 28/05/2010
estas imagens sao uma vergo... gilmar pereira do ... 11/08/2009
Exelente matéria. havia uma... Ubiratan dos santo... 18/06/2009
Muito boa a reportagem, nos... ivan 15/06/2009
Matéria excelente. Como ser... GilbertoPuntel 14/06/2009
Sistema da exclusão, ou sim... Raimundo Candido d... 08/06/2009
Vivemos em Gotham City? Não... batman 06/06/2009
Não existe o que fazer. Os ... Julio Martins 05/06/2009
Inclusive eu, vou dar pitac... Marta Mohr 05/06/2009
Essa matéria deveria ser ed... nilce helena gomes 05/06/2009
Numa manhã da semana passad... Valdir dos Santos 05/06/2009
Estou chocado... como enten... Mario Rique Fernan... 05/06/2009
Trabalho na região central ... Haremhab 04/06/2009
Não pude deixar de identifi... Bianca Caetano 04/06/2009
Indefensável mesmo é usar i... alexandre a. morei... 04/06/2009
Essas fotografias tem image... Jorge Ernesto Cout... 03/06/2009
PARABÉNS EDUARDO. PRIMOROSO... Lucius de Oliveira 03/06/2009
O sistema democrático, pelo... J.MARCOS C.NEGREIR... 03/06/2009
Infelismente tem políticos ... José Brás da Silva 03/06/2009
Muito boa a matéria, retara... Adriano Almeida da... 03/06/2009
Excelente a matéria, as fot... Maria célia de oli... 03/06/2009
...em 02/06, a Izabel Delmo... sebastião deocléci... 03/06/2009
Serra/Kassab detestam pobre... anibal jr 03/06/2009
O texto é extremamente be... Lavinia Soares 03/06/2009
excelente texto,de muita se... palmira amancio da... 02/06/2009
Creio que o problema da cra... Izabel Delmondes 02/06/2009
Não sei dizer se policiar a... Marcos 02/06/2009
Quando a esquerda acordará ... Flavio Wittlin 02/06/2009
A C tem valor de negócio! ... anonimo de tal 02/06/2009
O retrato da sociedade é te... Artur Moret 02/06/2009
Certa vez vi um certo prefe... Claudio Agostinho 02/06/2009
Durante a campanha política... Kleber 01/06/2009
Acredito que o texto foi be... Pedro H. Marques 01/06/2009
Fiquei mal impressionado co... Joao Carlos Moreti... 01/06/2009
Somente compreendo esta sit... cido 01/06/2009
Acredito que são vários os ... Robson 01/06/2009
Onde esta sendo gasta a arr... Dayana 01/06/2009
Que não me entendam mal. A ... Fábio Rodrigues 01/06/2009
Esses problemas devem ser p... Arno 01/06/2009
Esse artigo levanta muitas ... Edgar 01/06/2009
Freud, disse depois de muit... MAURO MENDES DOS S... 01/06/2009
É impressionante o descaso.... katia 01/06/2009
Enquanto o Governo do Estad... Marcelo Cunha 01/06/2009
BRILHANTÍSSIMO O ESTUDO E A... Ruy Barbosa Maciel 01/06/2009
Os poucos princípios que as... Túlio 01/06/2009
Fraco o texto, pobre as fot... alarico 01/06/2009
Parabéns pela matéria apesa... Márcio Antônio 01/06/2009
Rodrigo, nem sei se poderia... alfio 01/06/2009
Medonho tudo isso, mas não ... alexander 01/06/2009
Parabéns à CC por meter a c... anonimo de tal 01/06/2009
Dizer que devido aos "nóias... tabax 01/06/2009
CONHEÇO BEM ESTA REALIDADE.... Fernanda 31/05/2009
Rodrigo, O que você fez ... Viana 31/05/2009
Eduardo, trabalhei10 anos c... antonio rodrigues 31/05/2009
Gente! A cada leitura torna... alfio 31/05/2009
Parabéns a equipe Carta Mai... Gilson Salla 31/05/2009
Mais uma matéria superficia... Rodrigo 31/05/2009
Certo, é absurdo que esta s... Rui FRATI 31/05/2009
 
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O sucateamento da saúde pública de São Paulo : Avaliação de 350 mil usuários do SUS de São Paulo, efetuada pela própria Secretaria de Estado da Saúde (SES) relata ausência de vacinas do calendário básico em diversas unidades de saúde da Secretaria, analgesia durante o parto realizada com “panos quentes” e a demora absurda na realização de diversos exames complementares. No município de São Paulo, o atual prefeito Gilberto Kassab pauperizou a tal ponto alguns dos hospitais sob tutela da Autarquia Municipal, que há vários meses, por exemplo, não existem colchões em hospitais da Zona Leste da cidade. O artigo é do médico João Paulo Cechinel Souza.

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