Internacional| 28/06/2009 | Copyleft

Persistente racismo no sul dos Estados Unidos

Na composição atual da Suprema Corte dos EUA, o bloco conservador tem leve vantagem (5x4). Mas mesmo depois de tantos prefeitos e governadores negros, inclusive no sul, e de já ter o país um presidente negro na Casa Branca, até juízes conservadores do tribunal mais alto ainda vêem racismo, ao contrário de ideólogos do jornalismo da elite branca brasileira, como Ali (“não somos racistas”) Kamel, que negam a realidade. A análise é de Argemiro Ferreira.

Em decisão quase unânime (8x1) na última semana a Suprema Corte dos EUA manteve intacta a Lei de Direito de Voto que em 1965 estendeu esse direito à população negra do sul. A lei foi aprovada um século depois do assassinato do presidente Lincoln e da vitória da União na guerra civil gerada pela obsessão da elite branca sulista de não abrir mão da escravidão negra - e, depois, da segregação racial.

Na composição atual da Suprema Corte o bloco conservador tem leve vantagem (5x4). Mas mesmo depois de tantos prefeitos e governadores negros, inclusive no sul, e de já ter o país um presidente negro na Casa Branca, até juízes conservadores do tribunal mais alto ainda vêem racismo, ao contrário de ideólogos do jornalismo da elite branca brasileira, como Ali (“não somos racistas”) Kamel, que negam a realidade.

A nova decisão da Suprema Corte americana foi no caso de um distrito de Austin, Texas, que desafiou a constitucionalidade daquela lei, buscando colocar-se fora de seu alcance - e dos organismos do governo federal. Ao assiná-la há 44 anos, o presidente Lyndon Johnson, democrata e texano, profetizara que por causa dessa lei seu partido perderia o sul, até no Texas - o que, de fato, viria a acontecer.

A vergonhosa herança confederada
Durante os 100 anos seguintes à guerra civil o Partido Democrata, sob o controle da elite branca no sul, tornou-se partido único nos 11 estados que antes formavam a Confederação - situação semelhante à da URSS stalinista. Na prática tirava-se o direito de voto dos negros (com exigências absurdas mas legais naqueles estados, como os testes de capacidade inventados para tal fim específico), preservando-se os valores pre-guerra civil.

O que mudou o quadro, em meio ao trauma criado pelo assassinato do presidente Kennedy em Dallas (no Texas, um daqueles 11 estados) foi a aprovação em 1965 da Lei de Direito de Voto. Ela criou, após 100 anos, um novo quadro político nos estados do sul: o Partido Democrata passou a acolher os negros e o Republicano a receber a elite branca (e racista) descontente e inconformada com a nova lei.

Após um período de acomodação os republicanos começaram a superar os rivais democratas nas eleições para presidente, governador, legislativos estaduais e Congresso nos estados que tinham integrado a Confederação escravocrata. Entre 2000 e 2006 praticamente cumpriu-se a profecia de Johnson de que depois da lei os democratas perderiam o sul, mesmo passando a eleger novos políticos negros.

O legislador esperava que certos dispositivos da lei se tornassem desnecessários ao se consumar a correção da anomalia. Era esse o caso da seção 5, que previa supervisão federal (aprovação prévia do Departamento de Justiça) em quaisquer mudanças legais em oito estados e muitos condados de outros. Com o voto das minorias garantido, seriam restabelecidos os direitos plenos dos estados nesse campo.

Uma cisão no bloco conservador
Pelo menos dois analistas respeitados - um colunista político do Washington Post, E.J. Dionne, e a professora da Escola de Direito de Stanford, Pamela Karlan, especialista em eleições - acham que John Roberts, presidente da Suprema Corte, inclinava-se agora a acolher a pretensão de Austin. E o teria feito se o juiz Anthony Kennedy e talvez Samuel Alito, conservadores como ele, não discordassem.

Antes da decisão, segundo Dionne, militantes de direitos civis temiam que a atual maioria conservadora estivesse disposta a usar sua vantagem de um voto na corte para golpear o coração da lei. E apesar do recuo ante a discordância, Roberts - a quem coube redigir o voto - teve o cuidado de deixar em aberto a questão maior, ao “evitar a resolução desnecessária das questões constitucionais” (a frase é dele).

Mesmo reconhecendo os avanços garantidos pela lei de 1965, esse presidente que Bush nomeou com o objetivo de consolidar a virada à direita do tribunal afirmou que aqueles progressos “não constituem justificativa adequada” para manter as atuais exigências de supervisão federal. Para ele, há “evidência considerável” de que “o estatuto deixa de atender às condições políticas atuais”.

Parece implícita a insinuação de que o remédio daquela lei tornou-se obsoleto por inexistirem as condições que levaram o legislador a aprová-la. Mas fatos recentes - dos episódios de racismo explícito na campanha presidencial de 1998, com o próprio candidato republicano repreendendo excessos em seu palanque, a casos de piadas ofensivas de políticos do sul - mostram o contrário. E no mesmo sul racista.

O bom exemplo de Earl Warren
Para a professora Karlan, Roberts primeiro tentou, sem conseguir, forjar uma maioria capaz de destruir inteiramente a seção 5 da lei. O que a decisão indica, conforme ela observou em entrevista (citada por Dionne), é que o bloco conservador do mais alto tribunal do país foi incapaz de garantir os cinco votos necessários. Assim, teve de se contentar com uma solução de compromisso.

Essa lei, como ressaltou Karlan, ganhou status emblemático no direito americano como uma das poucas na história a resultar de verdadeira mobilização de massa (aquilo que na certa horrorizaria o atual presidente do STF no Brasil). Golpear-lhe o coração, disse ainda, teria trazido um claro custo político para a Corte Suprema dos EUA. Mas ficou claro que o alto tribunal presta atenção à política.

Dionne observou: “Somos um governo de leis, não de homens. Mas homens e mulheres têm opiniões e orientações filosóficas que não evaporam no dia em que se tornam juízes da Suprema Corte. Pretender o contrário em nada ajudará a preservar nossas liberdades”. Pode ser. Mas se os conservadores impuseram-se tantas vezes, alguns deles - como Earl Warren, com período marcante na presidência - tornaram-se liberais na Corte.

Na imagem, aparece um cartão que a assessora de uma senadora estadual republicana da Carolina do Sul enviou em email aos membros da Casa gerando polêmica: nele estavam os 43 presidentes brancos desde George Washington e, por último, um quadrado negro com dois olhos, representando Obama.

Blog de Argemiro Ferreira



 

>> INSIRA SEU COMENTÁRIO >>

COMENTÁRIOS (9 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Sempre julguei Ali Kamel ... Lavínia 02/07/2009
Obama não é negro, é mestiç... Rodrigo 02/07/2009
Vamos parar com essa histór... Jair da Silva Sant... 02/07/2009
Continuo com o mesmo desenh... luiz ribeiro 02/07/2009
Gostaria de saber qual a te... anselmobarreto 30/06/2009
O comentário feito pelos ed... João Paulo Rodrigu... 29/06/2009
com a lei de direito de vot... Alais ,Aline ,Gabr... 29/06/2009
eu sou contra porque eu sou... kelvin 29/06/2009
Desde quando Ali Kamel é br... eduardo ferreira 29/06/2009
 
Leia Mais

31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

Busca:
  Cadastro: somos 64095
.

Boletim Carta Maior
.
.
.

.

.
Destaques
 
Parcerias
.
Principal | TV Carta Maior | Blog do Emir Sader | Colunistas | Análise & Opinião | Arte & Cultura | Direitos Humanos | Economia | Educação | Humor | Internacional | Meio Ambiente | Movimentos Sociais | Política | Radio Carta Maior | Cartas dos Leitores | Expediente | Quem Somos