Internacional| 04/07/2009 | Copyleft

As direitas e a América Latina

Nesta altura, é néscio não admitir que uma crise política de proporções está chegando na América Latina, que tenta emergir como uma região com voz própria e onde as respectivas burguesias conservadoras e liberais são os motores dos novos ânimos golpistas. Nunca subestimem o poder dos grandes meios de comunicação. Nem o reagrupamento das direitas latinoamericanas nem seus estilos sanguinários, nem a cegueira de sua ira. A análise é de Sandra Russo, colunista do jornal Página 12.

Álvaro Vargas Llosa está dizendo claramente o que até há pouco se evitava dizer: que o grande perigo, agora, para a América Latina não são os golpes de Estado clássicos, mas os presidentes que ainda que assumam constitucionalmente, uma vez chegados ao governo querem perpetuar-se no poder.

Penso em Chávez, naturalmente. Há pouco Álvaro Vargas Llosa esteve na Venezuela e houve muito tumulto midiático em função de sua suposta detenção no aeroporto. Não houve tal detenção, e a demora tampouco foi tanta (duas horas ele, e uma e vinte e cinco minutos seu pai) para ser chamada de “retenção”. Contudo, os grandes meios da América Latina trataram esses dois episódios (os Vargas Llosa iam a um colóquio “democrata” antichavista, o pólo do pensamento que inspirou há oito anos um golpe de Estado que tiveram de desandar) como se realmente tivessem sido detidos ou ao menos retidos.

Nos grandes meios, os jornalistas seguem chamando aos Vargas Llosa “democratas”. E ao antichavismo também. Visto que estão contra uma “tirania” ou uma “ditadura”, a explicação é que os que defendem a democracia são eles.

Bem: Vargas Llosa está dizendo claramente algo que há que se pôr em consideração com maior amplitude e menor obsessão: os presidentes eleitos democraticamente (Chávez, Correa, Evo; Kirchner ia se somar ao grupo, mas o repentino e virulento antikirchnerismo acaba de derrotar o kirchnerismo nas urnas) que apresentam não só um governo, mas um processo, devem ser derrotados, posto que só a idéia de reformar as respectivas constituições para permitir, mesmo num sistema eleitoral transparente, sua eventual continuidade, é elevada por seus ideólogos ao nível de “novos golpes de estado”.

Nesta altura, é néscio não admitir que uma crise política de proporções está chegando na América Latina, que tenta emergir como uma região com voz própria e onde as respectivas burguesias conservadoras e liberais são os motores dos novos ânimos golpistas. Nos grandes meios, inclusive alguns jornalistas que insistem em se definir como de “centroesquerda”, não falam sobre essas questões e nem falarão, porque o poder discursivo já lhes aplainou as análises: aqui ninguém é “golpista”, os que chamam de climas “destituintes” são idiotas pagos pelo governo. “Centroesquerda”, cabe esclarecer, é uma palavra com a qual se define também e sem que ninguém se assombre ao Acordo Cívico, que tem a Carrió como líder, ainda que pareça que também perderá essa liderança para Cobos. No caso, dá no mesmo. Quero dizer: todas as categorias que conhecemos já não nos dizem nada. Os significados mudaram.

Está um pouco difícil escrever isto. Melhor admiti-lo: isto aqui está sendo escrito com medo.

Nunca subestimem o poder dos grandes meios de comunicação. Nem o reagrupamento das direitas latinoamericanas nem seus estilos sanguinários, nem a cegueira de sua ira. Eu gostaria de saber o que pensam dos direitos humanos os candidatos eleitos. Esse não parece ser um tema que importe aos jornalistas da grande imprensa.

Não creio nas corporações e muito menos na corporação midiática. Há colegas neles que respeito, e outros que desprezo. Sou igualmente correspondida, ainda que a muitos jornalistas com quem compartilho uma leitura da realidade que não coincide com a dos grandes meios nenhuma mídia privada dará trabalho. A liberdade de imprensa há muito que não existe. Os jornalistas dos grandes meios são livres toda vez que replicam suas linhas editoriais. Nenhum deles interpelará Macri ou a De Narváez sobre os julgamentos pendentes dos repressores. Sobretudo todos os que se apregoam como de “centroesquerda” evitarão pôr em evidência suas próprias contradições.

Mas voltemos a Vargas Llosa. Que sempre tem sido o mais recalcitrante da direita. O que disse o mais jovem é que “os povos” estão habilitados a derrocar os governos democráticos se estes se não limitam à alternância do sistema, e lideram processos relegitimados pelo voto popular.

Restam perguntas, muitas perguntas válidas e interessantes neste continente historicamente aprisionado. A democracia por que tanto temos lutado corre riscos, agora sobretudo o de representar um valor ético, quando o que oculta é a reação do poder a outro avanço das “massas”, as “turbas”, as “hordas”. Por liderar a “uma turba” foi que derrocaram Manuel Zelaya. Esse golpe em três dias deixou de ser “tão” golpe para os grandes meios. Há muitas boas reportagens na CNN, firme junto à posição de Obama, que não é Bush e agora se nota. Porém, no Todo Noticias, Juan Miceli primeiro falou de um “golpe que havia que ser condenado”e se indignou ao ver um militar falar desde um tribunal, e no dia seguinte já disse que “Zelaya tampouco. No final das contas terminava seu mandato em janeiro”.

São necessários limites. Andaríveis. Saber qual é a avenida pela qual transitamos os que, realmente, desde muitas posições ideológicas ou políticas, acreditamos que o voto é soberano, e aceitamos triunfos e derrotas como parte das regras do sistema. Há outros, e são muitos, que acreditam em interesses superiores a esse voto. E nunca é a liberdade, esse interesse. Nunca é o bem da nação. Nunca é a democracia. Não se defende a democracia atentando contra o voto popular. E é bom dizê-lo agora e deixar escrito. Agora que o voto popular premiou a Macri e a Narváez. Esse voto adverso também é soberano. Mas seguirá sendo, ganhe quem ganhe. Se há que haver acordo, esse é um bom ponto.

Publicado no Pagina12, em 4 de julho de 2009

Tradução: Katarina Peixoto



 

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COMENTÁRIOS (1 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Esse artigo importantíssimo... Carlos Henrique Si... 06/07/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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