Um especialista em proteger suspeitos
Entre as múltiplas denúncias que o novo chefe da polícia de Buenos Aires, Jorge “Fino” Palacios acumula, o seu papel no encobrimento do atentado a AMIA é a mais comprometedora: o juiz Lijo recomendaria que fosse processado com base na acusação de Alberto Nisman, que investigou o atentado. A lógica indicava que o chefe de governo portenho, Maurício Macri, deveria esperar, ao menos, a resolução do juiz.
Raúl Kollmann - Página 12
O agente especial para a investigação do atentado contra a AMIA, Alberto Nisman, foi contundente em relação ao nomeado chefe de polícia da cidade de Buenos Aires, Jorge Alberto “El Fino” Palacios. Num diálogo com Página12 sustentou que “os elementos para processar o comissário aposentado são categóricos. Tinha ordens de invadir os domicílios de um suspeito do atentado. Seus efetivos chegaram às oito da manhã e, segundo eles mesmos declararam, Palacios lhes deu ordem pouco depois das sete da tarde, quando todo o bairro e o próprio suspeito sabiam que o estavam procurando. Ademais, do seu celular foram feitas duas chamadas ao suspeito. Não foram, como se pretende dizer agora, de três a cinco segundos. A primeira foi de quase um minuto e a segunda, de meio minuto. Isso significa que falaram. E, para completar, as comunicações se estabeleceram pouco depois das 11 da manhã, muito antes da entrada na casa do suspeito. Por outra parte, nos domicílios em que entraram, os homens de Palacios, segundo declararam testemunhas, atuaram de forma muito distentida e recolheram qualquer documentação, em que pese essa fosse a ordem. “Você imagina uma ordem de busca e apreensão no domicílio de um suspeito de participar de um atentado em que não se recolha uma agenda nem um papel?”
O fiscal Nisman acusou Palacios num vasto documento em que lhe imputou delitos de descumprimento dos deveres de funcionário público, omissão e retardamento dos deveres de ofício, descumprimento da obrigação de perseguição e repressão de deliquentes, falsidade de documento, destruição de prova e falsidade por destruição ou sustação de documentos. A decisão sobre se Palacios será processado deve ser tomada pelo juiz federal Ariel Lijo, que se pronunciará depois do décimo quinto aniversário do atentado, no próximo 18 de julho. Tudo indica que Lijo processará Palacios. A lógica indicava que o chefe de governo portenho, Maurício Macri, deveria esperar, ao menos, a resolução do juiz.
Palacios tem também outro antecedente igualmente grave. Na origem de uma investigação sobre roubo de carros, gravaram-se, com ordem judicial, todas as conversas, telefônicas de Jorge Sagorsky, o homem que fazia os pedidos de veículos ao bando que depois terminou sequestrando e assassinando a Axel Blumberg. Sagorsky lhes dizia qual marca, modelo e cor precisava para comercializar, a maioria das vezes através de estabelecimentos comerciais na avenida Warnes. A relação entre ladrões, atravessadores e policiais foi comprovada na investigação do sequestro de Axel, mas nas gravações apareceu uma chamada entre o atravessador Sagorsky e o comissário Palacios. O diálogo se estabeleceu através de um comissário inspetor aposentado, mas Sagorsky e Palacios se mandam mútuas saudações e abraços, inclusive falam da provisão – que não chega a se concretizar – de uma caminhonete 4x4 para que Palacios vá pescar. Sagorsky e Palacios ficam de se encontrar para tomar um café. No julgamento do sequestro de Axel Blumberg, Sagorsky foi condenado a seis anos e seis meses de prisão por ser integrante da quadrilha.
Página12: Argumenta-se que neste caso da AMIA, não foi Palacios que telefonou para o suspeito Alberto Jacinto Kanoore Edul, mas que um de seus subordinados o fez, é certo?
Alberto Nisman: Não, de maneira alguma. O celular utilizado está no nome de Palacios e, para completar, esse número foi ocultado durante boa parte da investigação. Citado na declaração indagatória, Palacios disse que entregou os celulares a seus subordinados, sobretudo ao principal, Carlos Alberto Salomone. Contudo, está provado que este e todos os demais policiais não usavam celulares de Palacios, mas os providenciados pela Polícia Federal. Ademais, o próprio Salomone desmintiu Palacios. Disse que nunca usou um celular de Palacios e que não ligou para Kanoore.
A investigação sobre Kanoore Edul tem sua importância, ainda que nunca tenha prosperado. Das escassas evidências do caso AMIA, a que mais chama a atenção é que em 10 de julho de 1994, oito dias antes do atentado, um celular no nome de Kanoore Edul fez uma chamada ao domicílio de Carlos Telleldin, o armador de carros fraudados que até esse dia teve em seu poder a caminhonete Trafic que explodiu na frente da mutual judaica. Kanoore Edul nunca pôde explicar essa chamada e deu três versões distintas dessa comunicação. Por outra parte, tampouco tem explicação um segundo fato assombroso. Cinco minutos antes do atentado, um caminhão deixou um folheto da empresa Nassib Haddad em frente a AMIA. Na rota de investigação que seguiu esse caminhão figura um terreno baldio da rua Constitución 2600, onde vive Kanoore Edul. A catastrófica investigação inicial impediu que se avançasse nessa pista e, segundo afirma Nisman, quando se retomou a investigação sobre Kanoore, um telefonema de Munir Menem, irmão do ex-presidente Carlos Menem, paralisou as coisas: a SIDE [Secretaria de Inteligência do Estado] suspendeu, sem avisar ao juiz, as escutas telefônicas e Palacios realizou o curioso telefonema sobre o qual é questionado.
Essa medida judicial tinha máxima importância, porque devia se concretizar muito pouco tempo depois do atentado, em 1 de agosto de 1994. Ou seja, tratava-se de uma pista quente. Na mira, estavam três domicílios de Kanoore, os três na rua Constitución.
Página12: Não é inabitual que às vezes haja algum telefonema a um lugar em que se vá fazer uma busca, para perguntar se o sujeito buscado lá está e poder irromper com maiores garantias de se poder prendê-lo. Por que neste caso as chamadas dão a entender que foram para avisar da busca e apreensão?
Nisman: É certo. Às vezes se usa esse método. Se faz a chamada, se verifica se a pessoa está e de imediato se irrompe. Mas preste atenção a três detalhes. Do celular número 411–5885, no nome de Palacios, se ligou às 11:29 e às 11:36. Os diálogos não foram curtos e não foi seguido da invasão, mas esta demorou 17:20 para acontecer. Em segundo lugar, as chamadas foram feitas aos telefones 4941-0024 e 4942-9146. Nenhum desses números figura no expediente e, curiosamente, Palacios pediu em 1997, três anos depois, que se idenficasse a quem pertenciam esses telefones. Como explicar isso, se ele mesmo ligou para esses números naquele 1° de agosto? Tampouco seu celular figurava no expediente, ele o manteve oculto e fora da investigação. Por último, alguém poderia ligar para os telefones para ver se a pessoa que se busca apreender está, mas o certo é que as duas chamadas foram feitas a negócios de Kanoore, ou seja, já se sabia desde antes que o suspeito não estava ali. Eu me pergunto: que outra razão que fosse para beneficiar aos Kanoore Edul podem ter tido essas ligações telefônicas tão zelosamente ocultadas?
Página12: O que finalmente aconteceu nas buscas?
Nisman: Das três buscas ordenadas, uma diretamente não se cumpriu, e se alegaram razões espúrias. Nas outras duas, não se apreendeu absolutamente nada, nem uma agenda, nem um talão de cheque, nenhum papel. Os testemunhos civis convocados disseram que ficaram surpresos com o clima tranquilo com que os policiais operaram. Para dar uma idéia, há uma escuta telefônica em que duas pessoas ligadas a Kanoore dizem que estão a ponto de cair e, às 17:20, isso era vox populi.
Alberto Jacinto Kanoore Edul, Albertito, é filho de Alberto Kanoore Edul, um amigo dos Menem que nesse momento participou da delegação que viajou a Líbia encabeçada por José López Rega. Chegou a ser presidente do Centro Yabrudense, que agrupa os que vêm da cidade síria de Yabrud, como os Yoma e os Al Kassar. Segundo Nisman, tanta proximidade fez com que uma chamada de Munir Menem – provada nos documentos – jogasse essa pista num pântano.
Vários anos depois, em 1998, uma delegação de especialistas do FBI chegou a Argentina. Foi enviada pelo então presidente Bill Clinton, no rastro de um diálogo que manteve quando veio em visita oficial a Buenos Aires, com os familiares das vítimas do atentado. O diálogo se concretizou, inclusive com a presença de sua esposa, Hillary, no hotel Sheraton. Os especialistas do FBI revisaram a causa judicial, a perícia sobre explosivos e as comunicações. Terminada sua visita emitiram um relatório de 12 páginas. A conclusão principal é que devia se voltar a investigar a pista Kanoore Edul. Essa mesma pela qual Nisman acusa o chefe nomeado da polícia metropolitana.
Publicado no Página12, em 4 de julho de 2009.
Tradução: Katarina Peixoto
| COMENTÁRIOS (1 Comentários) | |||
| Opinião | Comentário | Autor | Data |
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