Direitos Humanos| 08/07/2009 | Copyleft

A história de Lúcio Flávio Pinto, jornalista condenado por fazer jornalismo

Lúcio Flávio Pinto talvez seja hoje o jornalista mais respeitado e destemido da Região Norte. Ele é o solitário redator do Jornal Pessoal, empreitada independente, que não aceita anúncios, tem tiragem quinzenal de 2 mil exemplares. Há 17 anos, os representantes da família Marinho no Pará (O Liberal) perseguem-no de forma implacável. Ronaldo Maiorana, um dos donos do Grupo Liberal já emboscou Lúcio por trás, num restaurante, e espancou-o com a ajuda de dois capangas da Polícia Militar. Agora, um juiz do Pará condenou Lúcio Flávio a pagar 30 mil reais aos irmãos Maiorana. O artigo é de Idelber Avelar.

Artigo publicado no blog O Biscoito Fino e a Massa.

Prepare-se, caro leitor, para outro mergulho no Brasil profundo. Lúcio Flávio Pinto talvez seja hoje o jornalista mais respeitado e destemido da Região Norte. Ele é o solitário redator do Jornal Pessoal, empreitada independente, que não aceita anúncios, tem tiragem quinzenal de 2 mil exemplares e mesmo assim provoca um fuzuê danado entre os poderosos, dada a coragem com que Lúcio investiga falcatruas e crimes. Lúcio já ganhou quatro prêmios Esso. Recebeu também dois prêmios da Federação Nacional dos Jornalistas em 1988, por suas matérias dedicadas ao assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles e à violenta manifestação de protesto dos garimpeiros de Serra Pelada. Em 1997, ele recebeu o Colombe d’Oro per la Pace, um dos mais importantes prêmios jornalísticos da Itália. Em 1987, foi o jornalista que investigou o rombo de 30 milhões de dólares no Banco da Amazônia, por uma quadrilha chefiada pelo presidente interino do banco e procurador jurídico do maior jornal local, O Liberal.

Há 17 anos, os representantes paraenses da corja comandada pela família Marinho perseguem-no de forma implacável. Ronaldo Maiorana, dono (junto com seu irmão, Romulo Maiorana Jr.) do Grupo Liberal, afiliado à Rede Globo de Televisão, emboscou Lúcio por trás, num restaurante, e espancou-o com a ajuda de dois capangas da Polícia Militar, contratados nas suas horas vagas e depois promovidos na corporação. O espancamento, crime de covardia inominável, só rendeu a Maiorana a condenação a doar algumas cestas básicas.

Alguns meses depois da agressão, Lúcio foi convidado pelo jornalista Maurizio Chierici a escrever um artigo para um livro a ser publicado na Itália. O texto, eminentemente jornalístico, relatava as origens do grupo Liberal. Em determinado momento, dentro de um contexto bem mais amplo, ele fez referência às atividades de Maiorana pai no contrabando, prática bem comum, aliás, na Região Norte na época. Como se pode depreender da leitura do artigo, nada ali tinha cunho calunioso, posto que – uma vez processado --, Lúcio anexou aos autos toda a documentação que provava a veracidade do que afirmava. A obra investigativa de Lúcio fala por si própria: veja a qualidade da prosa e da pesquisa que informa o trabalho de Lúcio e julgue você mesmo. O que ele oferece em seus textos, entre muitas outras coisas, é a documentação, história e raízes daquilo que é sabido até mesmo pelos mosquitos do mercado Ver-o-Peso: que n'O Liberal só se publica aquilo que é de interesse da corja dos Marinho.

Mas eis que chega do Pará a estranha notícia de que o juiz Raimundo das Chagas, titular da 4ª vara cível de Belém, condenou Lúcio a pagar a soma de 30 mil reais aos irmãos Maiorana – representantes paraenses, lembrem-se, da organização comandada pelos Marinho. Lúcio também foi condenado a pagar as custas processuais e os honorários advocatícios. A pérola de justificativa do juiz fala do “bom lucro” de um jornal artesanal, de tiragem de 2 mil exemplares por quinzena. Ainda por cima, o juiz proíbe Lúcio de usar “qualquer expressão agressiva, injuriosa, difamatória e caluniosa contra a memória do extinto pai dos requerentes e contra a pessoa destes”, o que constitui, segundo entendo, extrapolação característica de censura prévia contrária à Constituição Federal. O juiz fundamenta sua decisão dizendo que Lúcio havia “se envolvido em grave desentendimento” com eles. É a velha praga do eufemismo: um espancamento pelas costas se transforma em “desentendimento”. A reação de Lúcio à sentença pode ser lida nesse texto.

O Biscoito se solidariza com Lúcio, coloca o site à disposição para o que for necessário - inclusive para a publicação de qualquer material objeto de censura prévia – e suspira de cansaço ao fazer outro post que mais parece autoplágio, dada a tediosa repetição desses absurdos. Resta a pergunta: até quando os Frias, Marinho, Civita, Mesquita e seus comparsas vão manter esse poder criminoso Brasil afora?



 

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COMENTÁRIOS (25 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Sera que o tucanalha do art... Sousa Primo 04/08/2009
A REDE GLOBO é uma vergonha... Evandro Tinti 30/07/2009
A Região Norte do nosso paí... GLEDSON LUIS DE AR... 29/07/2009
É engraçado: se fosse o Sar... Alceste Pinheiro 21/07/2009
Guardada as proporções, a c... Ronaldo 19/07/2009
Está rolando um blog para a... Ricardo 16/07/2009
Ronaldo, Romulo e agora, Ra... Sophia Cordeiro 16/07/2009
O jornalista Lúcio Flávio P... k o leitão 14/07/2009
Lúcio sofre as agruras por ... Manoel de Christo ... 12/07/2009
Caro Lúcio, esse tipo de in... Válber Almeida 11/07/2009
A INJUSTIÇA TAMBÉM ESTÁ NO ... Herodoto Carneiro 11/07/2009
Mais uma vez a (in) justiça... PABLO GUTIERREZ 10/07/2009
Sou de São Luís/MA, lendo e... André Albuquerque 10/07/2009
É isso aí mesmo José Carlos... Lúcia Adélia 10/07/2009
Conheço o Lúcio Flávio de l... Enio Squeff 10/07/2009
Prezado Flavio , nao desani... Sousa Primo 09/07/2009
O Estadão noticiou que Serr... jose carlos lima 09/07/2009
A grande forca desses veicu... Pietro Guerriero 09/07/2009
O fim deles é iminente. A i... Alberto Coutinho 09/07/2009
È isso o que ocorre com bra... Geraldo Moura da S... 09/07/2009
Que poderia eu fazer por ti... Lúcia Adélia 09/07/2009
Lúcio, pudesse eu, aqui do ... José Roberto 08/07/2009
Família marinho perseguin... fabio alves dos sa... 08/07/2009
Que o exemplo e a força de ... Maximiliano Marque... 08/07/2009
Se o jornal O Liberal é fil... Francisco Antonio ... 08/07/2009
 
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