Internacional| 25/10/2009 | Copyleft

Uruguai: quanto vale uma tradição republicana

A candidatura do ex-guerrilheiro tupamaro, José Pepe Mujica, representa uma tradição republicana que, mesmo com as políticas conservadoras dos partidos tradicionais, deu ao Uruguai a condição de vanguarda educacional da América no começo do século XX. Foi essa tradição que a ditadura, iniciada em 1973, espezinhou. E foi ela que, depois, repôs o Uruguai de pé, com o fim da ditadura e terminou levando Tabaré Vasquez primeiro, à prefeitura de Montevidéu, e depois à Presidência da República. O artigo é de Flávio Aguiar.

Em fevereiro de 1845, ao fim da Revolução Farroupilha, reuniram-se em Ponche Verde, perto da atual cidade de Dom Pedrito, 13 generais do Exército Riograndense. Examinaram a proposta do Tratado de Paz que lhes fora encaminhado, por ordem de D. Pedro II, pelo Barão de Caxias, comandante das forças imperiais. 12 votaram pela paz. Bento Gonçalves da Silva, que não compareceu, acometido pela doença que dois anos depois o levaria à morte, votou por carta. Só um votou pela continuidade da luta: o general Antonio de Souza Netto, que, quase nove anos antes, proclamara a República. Teria ele então declarado que, diante da esmagadora maioria dos demais, também assinava o documento. Mas teria, de acordo com a tradição, ajuntado:

“- Vou-me embora para a Banda Oriental [como às vezes ainda se chamava o Uruguai]. Lá é uma República. E o meu sombrero cansou de dar barretadas a Imperador”.

E se foi, levando com ele cerca de 200 ex-escravos e familiares que com ele tinham lutado na Revolução.

É essa tradição republicana que, respeitada, dará a presidência do pequeno, mas grande país, a José Pepe Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, hoje senador da República, e ex-ministro da Agricultura do Governo de Tabaré Vasquez. É essa tradição republicana que, mesmo com as políticas conservadoras dos partidos tradicionais, deu ao Uruguai a condição de vanguarda educacional da América no começo do século XX. Foi essa tradição que a ditadura, iniciada em 1973, espezinhou. E foi ela que, depois, repôs o Uruguai de pé, com o fim da ditadura e terminou levando Tabaré Vasquez primeiro, à prefeitura de Montevidéu, e depois à Presidência da República.

Em 2004 a TV Carta Maior cobriu ao vivo a posse de Tabaré Vasquez, desde um estúdio improvisado no alto de um hotel da capital. Mas fizemos também reportagens e entrevistas gravadas em outros locais, que editávamos e púnhamos no ar.

Um dos pontos altos dessa cobertura, e também, devo dizer, de minha trajetória como jornalista, foi a entrevista com o então senador recém eleito e mais votado, José Pepe Mujica. Fizemos a entrevista, de que também participou sua esposa, Lúcia, em duas visitas à sua chácara. Foi memorável.

Estávamos diante de um homem, ex-guerrilheiro, que passara anos de sua vida não só no cárcere, mas confinado numa cela que na verdade era um poço de pouco mais de dois metros de diâmetro, sem falar com ninguém. Contou-nos coisas terríveis e lindas ao mesmo tempo. Que conversava com os insetos. Que aprendera que as formigas gritam. Coisas assim.

Mas o mais memorável de tudo é que estávamos diante de um homem que não só não saíra alquebrado ou mesmo quebrado dessa ignomínia, mas saíra também sem amargura. Era ( e é) um homem pronto para guardar e compartilhar a alegria de viver. Por isso, José Pepe Mujica é um fenômeno político admirável. Por isso, além de pelas razões de sua competência e de seu programa libertário, o Uruguai e sua tradição republicana merecem tê-lo como seu Presidente. Esperemos que a eleição, que começa neste domingo 25 e pode ter um segundo turno, o confirme. Enquanto isso, as leitoras e os leitores podem conferir a entrevista da TV Carta Maior, na íntegra, na nossa página.



 

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COMENTÁRIOS (10 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Fosse eu um cidadão uruguai... augustinho 02/11/2009
Será que o Uruguai vai para... Luiz Cláudio Ferre... 01/11/2009
Lembro-me bem que ao começa... augusto 30/10/2009
O senador José Pepe Mujica,... Jorge Ernesto Cout... 28/10/2009
Eis ai um cenario geo polit... augustinho 27/10/2009
Apenas um comentário, o sen... José eduardo Lampr... 26/10/2009
Ao povo uruguaio desejo a s... Leda Maria Lucas 26/10/2009
A eleição é fundamental, ma... Luiz Antonio calda... 25/10/2009
Parabéns a Carta Maior e ao... Karla 25/10/2009
Aqui no Brasil as redes de ... jose carlos lima 25/10/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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