Política| 04/11/2009 | Copyleft

Marighella e os desafios da revolução socialista no século XXI

A maior homenagem que esse revolucionário de ação poderia receber é uma avaliação acerca da atualidade de seu exemplo e contribuições frente aos desafios impostos à revolução socialista neste Brasil de início de século XXI. Inúmeras são as possibilidade de avançarmos nessa direção. Escolhi uma delas: a de buscar em Marighella correspondências entre o contexto e os desafios dos anos 1960 e os dos dias de hoje. O artigo é de Carlos Henrique Metidieri Menegozzo.

Marighella notabilizou-se menos pelo que disse e mais pelo que fez: seu discurso foi a ação. Em 2009, passados 40 anos de seu assassinato, abre-se mais uma oportunidade de prestar-lhe uma justa homenagem. E a maior homenagem que esse revolucionário de ação poderia receber é uma avaliação acerca da atualidade de seu exemplo e contribuições frente aos desafios impostos à revolução socialista neste Brasil de início de século XXI. Inúmeras são as possibilidade de avançarmos nessa direção. Escolhi uma delas: a de buscar em Marighella correspondências entre o contexto e os desafios dos anos 1960 e os dos dias de hoje.

Embora o Brasil tenha mudado de lá para cá, há algumas semelhanças a se destacar. Nos anos 1960, Marighella viveu uma transição entre diferentes ciclos da esquerda onde alternativas emergiam à sombra do PCB, considerado incapaz de responder com profundidade aos desafios do momento. Muitos têm apontado certa analogia entre o PCB de então e o PT atual. Para estes, penso serem profundamente instigantes, por exemplo, indicações de Marighella a respeito da construção de alternativas: acusava o esforço de estruturação organizativa de novos instrumentos políticos como um desvio da atividade revolucionária, cujo centro reside na formação de militantes e na ação estratégica. Em Marighella, a organização é uma conseqüência da ação, e não o contrário.

Outro paralelo possível entre o contexto dos anos 1960 e o atual é a intensa fragmentação dos atores políticos. Provocada no primeiro caso pela repressão, corresponde agora a um traço constitutivo da sociabilidade engendrada pelo capitalismo. Por esta razão é que certas formas organizativas que Marighella concebeu com vistas à luta armada – cujas premissas foram, por outros meios, assimiladas pelo modelo de empresa capitalista flexível – revestem-se de certa atualidade. Este é caso de sua opção pela combinação entre unidade estratégica e autonomia tática em detrimento do centralismo-democrático; combinação adotada, por exemplo, pelos “grupos de fogo” da ALN.

Do ponto de vista organizativo, esse mecanismo contém uma resposta não apenas a um contexto de fragmentação, mas também ao espectro que ameaça toda organização de esquerda, sobretudo aquelas com expressão de massas: a burocratização. Com a expectativa de conversão das bases em instância de poder mediante a fórmula da autonomia tática na unidade estratégica, somada ao envolvimento na ação como critério de preenchimento de funções dirigentes, Marighella procura estabelecer mecanismos de enfrentamento ao processo de cristalização de posições próprio da burocratização de que foi vítima o PCB – e que hoje debilita partidos como PT, PSTU e PSOL, por exemplo.

Pelas razões expostas, o foco na formação e na ação estratégica, a ação como critério de autoridade política, bem como a autonomia tática na unidade estratégica, constituem alguns dos elementos presentes nas contribuições de Marighella que parecem pertinentes ainda hoje. O desafio atual consiste na capacidade das esquerdas em operacionalizá-los: em atualizar suas leituras e prioridades, defasadas em relação às mais avançadas formulações dos anos 1980, reorientando assim a sua ação estratégica; e em superar seus paradigmas organizativos burocráticos, assentados no binômio verticalismo-centralização. Se bem sucedidas nessas e noutras tarefas, as esquerdas serão capazes de acumular forças e avançar na luta contra o capitalismo.

Esse possível avanço, todavia, enfrentará uma resposta conservadora, o que implicará em novos desafios, em parte contemplados nas contribuições de Marighella. As classes dominantes já deram sinais de que para elas a democracia é meio e não fim. Se para os socialistas é promessa e compromisso; à burguesia é só promessa pois dela prescinde com vistas à manutenção de sua posição e privilégios. A ênfase de Marighella na necessidade de autodefesa do bloco contra-hegemônico é um tema que, estigmatizado por amplas parcelas da esquerda no período de “redemocratização”, deverá merecer mais atenção e desenvolvimento, sobretudo numa futura situação de equilíbrio na correlação de forças.

Resumindo: algumas contribuições de Marighella tocam desafios prementes da revolução socialista no século XXI. O foco na ação e na estratégia, a ação como critério de autoridade e a autonomia tática na unidade estratégica são algumas delas, sem as quais avanços significativos são bastante improváveis. A autodefesa, por sua vez – um tema caro a Marighella – consiste no desafio sem o qual a vitória simplesmente não virá. Dito isso, vale frisar uma vez mais: a maior homenagem que esse marxista imprescindível poderia receber reside não na sua mitificação ou assimilação dogmática; mas no nosso esforço em interpretar criativamente seu exemplo e formulações com vistas a operacionalizar a revolução aqui e agora.

Textos de Marighella para leitura: Questões de organização (dez. 1968), Mini-manual do guerrilheiro urbano (jun. 1969), Sobre a organização dos revolucionários (ago. 1969).

*Sociólogo e arquivista, hoje é militante de esquerda independente.





 

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Com os olhos na história e ... Ana Pontes 05/11/2009
 
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