Política| 15/11/2009 | Copyleft

A velha mídia e sua batalha inglória

A Folha de São Paulo publicou editorial neste domingo criticando "práticas desleais na internet" que estariam "colocando em risco as bases que permitem o exercício do jornalismo no país". A Folha, no caso, se apresenta como porta-voz deste jornalismo independente. Para o jornalista Luis Nassif, o editorial aponta o objetivo final do processo que explica o comportamento da mídia a partir de 2005: "a politização descabida, as tentativas sucessivas de golpes políticos, os assassinatos de reputação de políticos, juízes, jornalistas".

O jornalista Luis Nassif comenta neste domingo em seu blog o editorial publicado na Folha de São Paulo, que critica "práticas desleais na internet" que, supostamente, estariam "colocando em risco as bases que permitem o exercício do jornalismo independente no país". A Folha, no caso, se apresenta como porta-voz do "jornalismo independente". Uma piada, diz Nassif, que questiona:

"Qual o direito de conhecer a verdade que a Folha propõe? A ficha falsa de Dilma? Os arreglos com Daniel Dantas? A série sistemática e diária de matérias falsas, manipuladas, a deslealdade reiterada contra seus próprios jornalistas que não seguiram a cartilha?"

Abaixo o editorial da Folha e, depois, o comentário de Nassif:

O editorial: "Direito à informação"

Práticas desleais na internet colocam em risco as bases que permitem o exercício do jornalismo independente no país

DEMOCRACIAS tradicionais aprenderam a defender-se de duas fontes de poder que ameaçam o direito à informação.

Contra a tendência de todo governo de manipular fatos a seu favor, desenvolveram-se mecanismos de controle civil -caso dos veículos de comunicação com independência, financeira e editorial, em relação ao Estado. Contra o risco de que interesses empresariais cruzados ou monopólios bloqueiem o acesso a certas informações, criaram-se dispositivos para limitar o poder de grupos econômicos na mídia.

Essas salvaguardas tradicionais se veem desafiadas pelo avanço da internet e da convergência tecnológica nas comunicações -paradoxalmente, pois esse mesmo processo abre um campo novo ao jornalismo.

Apesar da revolução tecnológica e do advento de plataformas cooperativas, a produção de conteúdo informativo de interesse público continua, majoritariamente, a cargo de organizações empresariais especializadas. O acesso sistemático a informações exclusivas, relevantes, bem apuradas e editadas sempre implica a atuação de grandes equipes de profissionais dedicados apenas a isso. Essas equipes precisam ser remuneradas -ou o elo se rompe.

Quando um serviço de internet que visa ao lucro toma, sem pagar por isso, informações produzidas por empresas jornalísticas, as edita e as difunde a seu modo, não só fere as leis que resguardam os direitos autorais. Solapa os pilares financeiros que têm sustentado o jornalismo profissional independente.

Quando um país como o Brasil admite um oligopólio irrestrito na banda larga -a via para a qual converge a transmissão de múltiplos conteúdos, como os de TVs, revistas e jornais-, alimenta um Leviatã capaz de bloquear ou dificultar a passagem de dados e atores que não lhe sejam convenientes. A tendência a discriminar concorrentes se acentua no caso brasileiro, pois os mandarins da banda larga são, eles próprios, produtores de algum conteúdo jornalístico.

Quando autoridades se eximem de aplicar a portais de notícias o limite constitucional de 30% de participação de capital estrangeiro, abonam um grave desequilíbrio nas regras de competição. Veículos nacionais, que respeitam a lei, têm de concorrer com conglomerados estrangeiros que acessam fontes colossais e baratas de capital. Tal permissividade ameaça o espírito da norma, comum nas grandes democracias do planeta, de proteger a cultura nacional.

Contra esse triplo assédio, produtores de conteúdo jornalístico e de entretenimento no Brasil começam a protestar.

Exigem a aplicação, na internet, das leis que protegem o direito autoral. Pressionam as autoridades para que, como ocorre nos EUA, regulamentem a banda larga de modo a impedir as práticas discriminatórias e ampliar a competição. Requerem ao Ministério Público ação decisiva para que empresas produtoras de jornalismo e entretenimento na internet se ajustem à exigência, expressa no artigo 222 da Carta, de que 70% do controle do capital esteja com brasileiros.

A Folha se associa ao movimento não apenas no intuito de defender as balizas empresariais do jornalismo independente, apartidário e crítico que postula e pratica. Empunha a bandeira porque está em jogo o direito do cidadão de conhecer a verdade, de não ser ludibriado por governos ou grupos econômicos que ficaram poderosos demais.


Comentário de Nassif

Chega-se, finalmente, ao objetivo final do processo que explica o comportamento da mídia a partir de 2005, a politização descabida, as tentativas sucessivas de golpes políticos, os assassinatos de reputação de políticos, juízes, jornalistas. E para quê? Para se chegar ao embate final com pouquíssimos aliados. Esse acanalhamento do exercício do jornalismo fez com que a credibilidade da mídia atingisse o ponto mais baixo da história, viabilizasse outras alternativas no mercado de opinião.

Agora, qual a bandeira legitimadora para suas pretensões? A de que a mídia é a garantidora da liberdade de informação? Piada.

Esse mesmo álibi canhestro foi utilizado por Roberto Civita para tentar me convencer a aceitar o acordo com a Veja no final do ano passado. A revista passou todo o ano utilizando o jornalismo de esgoto para os ataques mais sórdidos, abjetos, não respeitando sequer família. E vinha o enviado especial dele trazendo o recado de que deveria aceitar o acordo em nome da liberdade de imprensa.

Conto apenas o meu caso. Como o meu, teve inúmeros. Em 2005, em entrevista ao Vermelho cunhei a expressão “o suicídio da mídia”, para descrever essa caminhada irreversível em direção ao fundo do poço. Agora, a mídia se posiciona para a grande batalha contra os portais e os grupos externos. Quem acredita nela?

Qual o direito de conhecer a verdade que a Folha propõe? A ficha falsa de Dilma? Os arreglos com Daniel Dantas? A série sistemática e diária de matérias falsas, manipuladas, a deslealdade reiterada contra seus próprios jornalistas que não seguiram a cartilha?

O futuro chegou e bandeiras que, antes, poderiam ser legítimas, ou estão rotas, puídas, desmoralizadas. Haverá uma grande batalha futura, contra os supergrupos que irão entrar no mercado. Mas dela não participará mais a velha mídia, que ficará restrito ao mundo fictício que ela próprio criou.



 

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COMENTÁRIOS (37 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Felizmente nossos jornalões... Nics 26/11/2009
Chegou a hora da batalha gr... Marco Santo 22/11/2009
Na verdade a Folha e demais... Francisco Goulart 19/11/2009
a mídia torta do Brasil, nã... adalberto 18/11/2009
Apoiadíssimo, Nassif! Pedro Belchior 18/11/2009
É isso ai Nassif, Vc disse... wagner Santos 18/11/2009
Quá, Quá, Quá, Quá, Quá! M... Paulo Couto Teixei... 18/11/2009
Tudo bem, mas cuidemos um p... Rogério Guiraud 18/11/2009
Caros Nassif e todos: algué... Romilda Raeder 18/11/2009
O Editorial diz: "... acess... Ariadne 18/11/2009
Essa matéria de Carta Maior... Jorge Ernesto Cout... 18/11/2009
Até que ponto a mídia vai ... Júlie Èvany Dos Sa... 18/11/2009
hoje em dia a internet que ... sarah 18/11/2009
Nassif, isto em nada me sur... José Simões 18/11/2009
O que a Folha e outros jorn... Carlos Alberto 18/11/2009
Enquanto a grande mídia his... Laurindo 18/11/2009
A propósito dessa questão e... Aldo Cardoso 18/11/2009
... A descoberta da penicil... Messias Franca de ... 18/11/2009
Parabéns Luis Nassif! Be... Almanakut Brasil 18/11/2009
Pois é... Não só a Folha..... mauro esteves 18/11/2009
ACREDITE SE QUISER! “B... Messias Franca de ... 17/11/2009
Este editorial é um atestad... victor 17/11/2009
Confiram esta bela foto do ... jose carlos lima 17/11/2009
Excelente texto! Muito b... T.P.M. - Teoria e ... 17/11/2009
A demonstração de que o pap... Pedro 17/11/2009
Em nada me espanta este Edi... Zé Brasil 17/11/2009
E depois esse pessoal se di... Eduardo 17/11/2009
É o nosso poder que está in... Ricardo Oliveira 16/11/2009
Gente, Não é o maior bar... moacyr pinto 16/11/2009
Esses golpistas são definit... Pereira 16/11/2009
É simplesmente patético est... José 16/11/2009
Por falar em mídia o que sa... edson costa 16/11/2009
A informação não tem dono, ... Remindo Sauim 16/11/2009
Esse editorial da Folha mai... Fabio Duarte 16/11/2009
"Práticas desleais na inter... Cláudia 16/11/2009
Uai... a Folha, a tal da di... luciana salgado 16/11/2009
E quão legal é poder assist... Ricardo Abdul Naji... 16/11/2009
 
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