Política| 01/12/2009 | Copyleft

Os filhos da verdade

Poucas vezes encontramos na grande imprensa do país um ataque tão direto ao caráter de um presidente da República e o que mais impressiona que poucas vezes tivemos refutações tão veementes quanto à fidedignidade do ataque. Um pouco mais de apuração jornalística faria cair por terra o excesso de paixão ideológica que como sarampo vive contaminando amplos setores de imprensa. Um celular e um pouco de vontade e mais umas pitadas de amor à verdade reduziriam aquela página A-8 inteira a rodapé de coluna social... ou policial. O artigo é de Washington Araújo.

Causou-me estranheza a Folha de São Paulo ter concedido uma página inteira para o artigo do cientista político Cesar Benjamin na última sexta-feira, 27/11/2009. O artigo, aparentemente sem sentido, relatava com minúcias de detalhes os dias em que o autor passara detido nas dependências do DOPS em São Paulo, em 1980 e que, à mesma ocasião estivera preso o atual presidente da República, Luiz Inácio. O título também queria transparecer que se tratava de um texto, digamos, ameno. A Folha titulou-o como “Os filhos do Brasil”. Em espaço de quatro colunas encimava um fotograma do filme “Lula, o filho do Brasil”, cena em que o ator Rui Fabiano fala a uma extensa platéia de sindicalistas, interpretando o personagem-título do filme. A narrativa é fluida, vamos lendo, lendo e em alguns momentos parecemos estar rememorando os dias de prisioneiro de Graciliano Ramos em sua excelente obra “Memórias do cárcere”. No primeiro caso não há estilo literário, apenas exercício mental do autor que é loquaz em alguns pontos e completamente amnésico em outros.

Benjamin tenta uma moldura de veracidade para sua condição de ex-preso político, sabe de cor nomes de ex-detentos e chega a afirmar que acompanhou a trajetória de vários destes. Mas o que deseja Cesar Benjamin com esse texto? Simples. Benjamin quer atacar a honra de Lula tendo como gancho o filme de Fabio Barreto que, segundo a linha editorial da FSP, é um filme feito para gerar o mito, um filme que varre do roteiro qualquer coisa que empane o brilho do caráter personagem-título. E o articulista já depois de dois terços do caudaloso texto – afinal, leva página inteira da Folha – vai ao ponto: relata ter ouvido do próprio Lula que este em crise de abstinência sexual tentou subjugar um jovem preso, mas que foi repelido por “socos e cotoveladas”. Seria este jovem militante de organização de esquerda, o Movimento pela Emancipação do Proletariado.

É óbvio que tal artigo se posicionava como contraponto ao filme dos Barretos, inspirado no livro da jornalista Denise Paraná. O lançamento, a estréia mundial em Brasília, na abertura do 42o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, do qual fui jurado, teve superlotação do Teatro Nacional, manifestação pró-libertação de Cesare Battisti, preocupações exageradas com a segurança do local que abrigava cerca de 1.800 espectadores, 400 a mais que o permitido e que, segundo Luiz Carlos Barreto não contava com brigadistas dos bombeiros. A grande imprensa optou repercutir esses pontos e deixou de falar do filme e, quando queria falar do filme era pelo viés de se tratar de obra de propaganda fora de época. Como não surtiu efeito os queixumes da Folha e seus confrades midiáticos o jeito mesmo era buscar um texto que atentasse contra a integridade moral do personagem central do filme e, que obra do destino, ocupa o cargo de Presidente da República desde janeiro de 2003.

César Benjamin cita, em seu texto, uma testemunha, "um publicitário brasileiro que trabalhava conosco cujo nome também esqueci". O "publicitário" é o cineasta Silvio Tendler, que em 1994 trabalhou na campanha de Lula à presidência da República. Em entrevista ao jornalista Bob Fernandes, Tendler afirma: ”Ele diz não se lembrar de quem era o "publicitário", mas sabe muito bem que sou eu. Eu estava lá e vou contar essa história...” E, então, Silvio Tendler conta o que viu e o que recorda daquele almoço em meio à campanha presidencial de 1994:

- Era óbvio para todos que ouvimos a história, às gargalhadas, que aquilo era uma das muitas brincadeiras do Lula, nada mais que isso, uma brincadeira. Todos os dias o Lula sacaneava alguém, contava piadas, inventava histórias. A vítima naquele dia era um marqueteiro americano. O Lula inventou aquela história, uma brincadeira, para chocar o cara... só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira...

Para quem não sabe Silvio Tendler já fez cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Além de vários prêmios é detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro: "Anos JK" (800 mil espectadores). "Jango" (1 milhão de espectadores) e "O Mundo Mágico dos Trapalhões" (1 milhão e 800 mil espectadores).

E não ficamos por aqui. Vejamos as falas de outros participantes do almoço onde foi servido o cozido que abasteceu o longo artigo do Cesar Benjamin.

O publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos, citado por Benjamin, afirmou que "o almoço a que se refere o artigo de fato ocorreu", que "o publicitário americano mencionado se chamava Erick Ekwall", e que não houve "qualquer menção sobre os temas tratados no artigo". Ex-companheiros de cela de Lula no Dops, José Maria de Almeida (PSTU), José Cicote (PT) e Rubens Teodoro negaram a tentativa de estupro, tendo Almeida acrescentado que não havia ninguém do Movimento pela Emancipação do Proletariado na cela e Cicote se lembrado vagamente de que um sindicalista de São José dos Campos seria apelidado de "MEP". Já Armando Panichi Filho, um dos dois delegados do Dops escalados para vigiar Lula na prisão, disse nunca ter ouvido falar disso e não acreditar que tenha acontecido, mesmo porque, segundo ele, nem sequer havia "possibilidade de acontecer”. O então diretor do Dops Romeu Tuma (atual Senador) também desmentiu "qualquer agressão entre os presos".

O irmão de Lula, o conhecido como politizado da família Silva, o Frei Chico, lembrou que a cela do Dops era coletiva e que nunca Lula ficou sozinho, pois estava preso com os outros diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (Rubão, Zé Cicote, Manoel Anísio e Djalma Bom).

Como disse Tendler ao fim de sua entrevista ao Bob Fernandes, “...isso não tem, não deveria ter importância nenhuma. Só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira...”

O Presidente do PSTU, José Maria de Almeida dividiu cela com Lula e declarou o seguinte: “O governo Lula é tragédia para a classe trabalhadora. Mas isso que está escrito não aconteceu. Benjamim viajou na maionese. Não lembro sequer de haver alguém do MEP conosco.”

Lula, de acordo com o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto de Carvalho, teria ficado triste e abatido, afirmando que isso era "uma loucura" e o próprio Gilberto de Carvalho qualificou a acusação de "coisa de psicopata" e recriminou a Folha por tê-la publicado, já o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, afirmou que o artigo é "um lixo, um nojo, de quem escreveu e de quem publicou". Coube ao ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, atribuir "essa coisa nojenta" aos ressentimentos e mágoas de Benjamin, que algum tempo depois deixaria o PT, mas não por causa desse episódio.

Para seguirmos o Manual da Folha... agora seria o exato momento para uma ampla entrevista – de preferência ocupando página inteira – com o cineasta Sílvio Tendler. Seria uma forma de reafirmar seu decantado compromisso com a verdade, seu apreço pelo “outro lado da notícia” e seu interesse de bem informar os leitores. Aliás, quem conhece Cesar Benjamin e quem conhece Sílvio Tendler sabe que a verdade é sempre modesta e que esta não requer amplos espaços para se tornar referência.

Poucas vezes encontramos na grande imprensa do país um ataque tão direto ao caráter de um presidente da República e o que mais impressiona que poucas vezes tivemos refutações tão veementes quanto à fidedignidade do ataque. Um pouco mais de apuração jornalística faria cair por terra o excesso de paixão ideológica que como sarampo vive contaminando amplos setores de imprensa. Afinal, a maior parte dos protagonistas do almoço citado por Benjamin está viva, e de facílima localização. Um celular e um pouco de vontade e mais umas pitadas de amor à verdade reduziriam aquela página A-8 inteira a rodapé de coluna social... ou policial.

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com



 

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COMENTÁRIOS (72 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Falou tudo Washington, sem ... Lúcia Adélia 07/12/2009
Não resisti e invoquei o ec... Carlos Martins 05/12/2009
No dia seguinte ao artigo a... Marta 05/12/2009
Fala, Washington! Bela Mate... Luiz F. Taranto 03/12/2009
Efusivos cumprimentos à don... Ruy Mauricio de Li... 03/12/2009
Esta publicação demonstra a... Marco 03/12/2009
O NOME DO ATOR É RUI RICARD... Sheila 03/12/2009
Texto irrepreensível e o sr... Carlos Ayres 03/12/2009
Bastava a FSP publicar esse... Kerginaldo Lopes 03/12/2009
Após a leitura do excelente... Helio Jaguaribe Fi... 03/12/2009
Indiscutivelmente, a Folha ... Lúcio Flávio V. Li... 03/12/2009
É uma pena que césar benjam... fabio nogueira 02/12/2009
Estou impressionado com a c... Da Silva 02/12/2009
A direita raivosa, acuada..... Aristides Borges 02/12/2009
É a velha história do casal... Julio Angelo De Ma... 02/12/2009
Ora, quem de nós, homens, n... Paulo José Esteia ... 02/12/2009
César Benjamin conseguiu um... Marcos Alexandre d... 02/12/2009
Prof. Washington, Obrigada... Márcia Regina 02/12/2009
Estou lendo um livro sobre ... Luiz Antonio Maia ... 02/12/2009
Cito do texto do seu colega... wellington andrade 02/12/2009
Acusar alguém de crime, é c... o martini 02/12/2009
A Folha é a vadia da mídia.... Daniel Gonzaga 02/12/2009
Quem ainda lê a Folheca a e... luciana salgado 02/12/2009
Fiquei com a impressão que... Paulo Ribeiro 02/12/2009
Interessante esta coisa de ... jose carlos lima 02/12/2009
O filme se chama "Lula, o f... Janio Vidal 02/12/2009
Serei breve. O NAZISMO NÃO... ALBERTO CARVALHO 02/12/2009
Inútel procurar na seção ... Alberto Magno Barr... 02/12/2009
É O PODER DA ELITE DOMINANT... AMAURI 02/12/2009
Pois é, tem momentos em que... Claudio Nascimento 02/12/2009
O que mais podemos esperar ... Roberto Barboza 02/12/2009
Pior do que a FSP foi a col... renata celeguim 02/12/2009
show de texto, também estou... Renato Abramovich 02/12/2009
Foi a gota que faltava para... Mauro 02/12/2009
Folha de SP faz jornalismo ... mariah 02/12/2009
Pois é, quem diria, o Benja... Ruy Mauricio de Li... 02/12/2009
O texto inteiro do Cesar Be... Adriana 02/12/2009
Mais uma vez podemos consta... José 02/12/2009
Depois de publicar um excre... damir vrcibradic 01/12/2009
Muita perspicácia em seus s... Roseli Cunha Cerqu... 01/12/2009
Não é a 1ª vez q/ a Folha d... Cibele Vrcibradic 01/12/2009
Prezado Washington Pergunt... Piort Ilianovic 01/12/2009
Ola pessoal, que papelão da... augusto 01/12/2009
Folha é um jornal que não s... Carlos Aires 01/12/2009
Quanto ressentimento cabe n... Alberto Coutinho 01/12/2009
Parabens senhor Washington ... Rene Couto 01/12/2009
É PARA ISTO QUE ELES QUEREM... Sofia 01/12/2009
Baixa formação ideológica, ... Carlos Correia 01/12/2009
A "Folha" levou 18 anos par... wellington andrade 01/12/2009
adorei ler seu artigo, lúci... Radjane Veras 01/12/2009
Obrigado, Washington, por m... Sergio 01/12/2009
Não acredito que Lula tenha... Belchior Medeiros 01/12/2009
Vou dar uma do "valentão" A... Francisco Antonio ... 01/12/2009
Ainda bem que temos o carta... Rafael Chat 01/12/2009
Mestre Washington Araújo: a... Carlos Aires 01/12/2009
E depois se espantam. Maté... Renato Gianuca 01/12/2009
A Folha dá seus últimos ext... Julia Nogueira 01/12/2009
Sempre que se aproximam ele... Pedro de Quadros D... 01/12/2009
Tenho dois comentários/suge... moacyr pinto 01/12/2009
Acredito que devemos nos pr... Maria Ronilda de O... 01/12/2009
Jornalismo de esgoto,do pio... Dimas 01/12/2009
Seu artigo tem um equívoco ... Nizinha 01/12/2009
Provavelmente os donos da F... alvaro 01/12/2009
É incrível a inveja, a cium... Jorge Ernesto Cout... 01/12/2009
A Folha de São Paulo não sa... Ricado Oliveira 01/12/2009
Que texto brilhante, corret... wellington andrade 01/12/2009
Respondendo ao Luiz, que nu... rodrigo 01/12/2009
muito bem araújo, já havia ... antonio rodrigues 01/12/2009
A folha não trabalha mais c... ivonete 01/12/2009
Meu caro Washington, sin... Enio Squeff 01/12/2009
Para Benjamin fica o papel ... Miguel Thomassim 01/12/2009
Me desculpe ao tal cineasta... luiz 01/12/2009
 
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