Internacional| 08/12/2009 | Copyleft

Quem tem direito à soberania nuclear?

O presidente brasileiro colocou o dedo em uma ferida. Quem possui autoridade para determinar quais países podem ingressar no clube atômico e quais não? Por exemplo, por que o Irã deve ser pressionado a abrir mão de seus projetos e Israel merece tolerância? A qual lógica obedece essa discriminação? Não há qualquer sensatez, é evidente, em se apostar na disseminação do poderio nuclear como caminho para a paz. Mas a renúncia unilateral ou forçada à soberania atômica, nos termos atuais, significaria aceitar como imutável a geopolítica da supremacia. O artigo é de Breno Altman.

O presidente Lula, na semana passada, questionou a legitimidade dos países que detêm o monopólio da bomba para se apresentarem como críticos do governo de Teerã. Mais ainda: colocou como pressuposto para um acordo sólido e democrático o desmantelamento de todos os arsenais nucleares. Foi o que bastou para a indignação estridente de alguns comentaristas.

O mandatário brasileiro colocou o dedo em uma ferida. Quem possui autoridade para determinar quais países podem ingressar no clube atômico e quais não?

Por exemplo, por que o Irã deve ser pressionado a abrir mão de seus projetos e Israel merece tolerância? A qual lógica obedece essa discriminação?

Retornemos um pouco no tempo. O documento que serve de base institucional para essa arbitragem é o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e foi assinado em 1968. Naquele momento, no auge da Guerra Fria, cumpriu papel de conjurar os riscos de um conflito atômico.

Com o mundo dividido em dois campos, a restrição ao uso militar da energia
nuclear nas mãos das duas superpotências, União Soviética e Estados Unidos, limitava as possibilidades de conflagração a partir de países que escapassem da hegemonia bipolar.

Na prática, os Estados alinhados a uma ou outra das superpotências delegavam sua defesa estratégica à nação-líder do sistema político-econômico a que pertenciam. Não foi uma regra de fácil implantação: França e China, membros do Conselho de Segurança da ONU, assinaram o tratado apenas em 1992.

Obviamente um acordo com esse perfil reforçava o papel hegemônico de
soviéticos e norte-americanos.

A fórmula continha, além do duopólio nuclear, regras de contenção que
forçavam relativa paridade entre os dois campos, evitando que a supremacia de um ou outro lado, geradora de vantagem comparativa insuperável, servisse de incentivo a puxar o gatilho.

O equilíbrio atômico impedia o choque entre União Soviética e Estados
Unidos. Também estabelecia limites para intervenção militar em guerras
regionais, como foi o caso do Vietnã, onde as forças americanas não puderam recorrer a seus arsenais nucleares. Por fim, ao bloquear a proliferação de armas dessa natureza, reduzia as chances de uma hecatombe que fluísse da periferia para o centro dos sistemas em disputa.

Mas o cenário que deu origem a esse tratado caducou. Após o colapso
soviético, o mundo mergulhou em uma situação de forte desigualdade militar, marcada pela preponderância dos Estados Unidos, que assumiram uma função pretoriana e unilateral sobre a questão atômica.

As conseqüências geopolíticas dessa disparidade são visíveis. A Casa Branca pode, nos últimos vinte anos, comandar guerras de dominação ou ocupação que possivelmente seriam inviáveis no passado. Apenas para lembrarmos os fatos mais notórios: os processos de pacificação da Iugoslávia, do Iraque e do Afeganistão, teriam ocorrido na era da bipolaridade?

Os aliados regionais de Washington passaram a contar com uma margem de manobra muito ampla. A situação mais emblemática é no Oriente Médio. O desequilíbrio bélico a favor de Israel, apesar desse país até hoje ter se
recusado a assinar o tratado de não-proliferação, é pedra angular na
política norte-americana.

A fragilidade defensiva e ofensiva de palestinos e países árabes, além do
Irã, garante ao sionismo não apenas a segurança das fronteiras israelenses como também a execução de uma política expansionista praticamente ilimitada. O desequilíbrio militar, afinal, é uma premissa para a hegemonia imperialista.

A verdade é que os Estados Unidos, com a cumplicidade de outras potências atômicas, lograram fazer do velho tratado um instrumento de sua supremacia, exatamente um dos cenários que se desejava evitar há quarenta anos. Os norte-americanos não são fortes o suficiente, por exemplo, para exigir a liquidação dos arsenais de Rússia e China, mas tratam de impedir que surjam novos protagonistas nucleares que desorganizem sua estratégia de poder.

Afinal, até países com economia frágil, incapazes de manter exércitos
regulares dotados com os equipamentos mais modernos, poderiam desenvolver o ciclo atômico completo e criar um arsenal tático, com poder dissuasório ou de médio alcance, ampliando sua capacidade defensiva. A Coréia do Norte, que rompeu com o tratado em 2003, é uma evidência dessa possibilidade.

Não há qualquer sensatez, é evidente, em se apostar na disseminação do
poderio nuclear como caminho para a paz. Mas a renúncia unilateral ou
forçada à soberania atômica, nos termos atuais, significaria aceitar como
imutável a geopolítica da supremacia.

O presidente Lula, com seu modo cordato, deixou claro que o antigo tratado
está com validade vencida. Suas palavras apontam para outro tipo de acordo, baseado na igualdade de todas as nações perante a lei internacional. Fora desse parâmetro, é o reino da hipocrisia.

Breno Altman é jornalista e diretor de redação do site Opera Mundi



 

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COMENTÁRIOS (19 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Jorge Nogueira, deixa eu v... Vítor Salgado 22/12/2009
Paulo Teixeira, quanto desc... Jorge Nogueira Reb... 17/12/2009
Só a arma nuclear dará ao B... Cesar Navarro 17/12/2009
Quando o então candidato à ... edmundo domingues ... 15/12/2009
Já venho me fazendo esta pe... Pascoal 14/12/2009
Como que um país que não po... renato 14/12/2009
Para mim pior que a Russia ... Ruy Dias 14/12/2009
Os Estados Unidos conquista... Jorge Ernesto Cout... 14/12/2009
Lucas Assis, não há nada de... Sofia 14/12/2009
Concordo com a maioria das ... Lucas Assis 11/12/2009
Devemos levar sempre em con... Piragibe Silva Bor... 11/12/2009
Que maravilha de texto! Cla... Filipe Aléssio 11/12/2009
Nada a acrescentar : tudo ... Marcelo no Rio de ... 10/12/2009
Sou favorável a que o Brasi... Roberto Locatelli 10/12/2009
Sr.Paulo Teixeira:discordo ... Haremhab 10/12/2009
Parabéns pelo excelente art... Guilherme Coelho 09/12/2009
Classe dominante é classe d... Pedro 09/12/2009
Lamentavelmente, Israel col... Paulo Teixeira 09/12/2009
Excelente! Às vezes penso p... Ronaldo Irion Dalm... 09/12/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

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