Meio Ambiente| 19/12/2009 | Copyleft

Duas visões de mundo se confrontam em Copenhague

Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo. Mas estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana. O artigo é de Leonardo Boff.

Em Copenhague nas discussões sobre as taxas de redução dos gases produtores de mudanças climáticas, duas visões de mundo se confrontam: a da maioria dos que estão fora da Assembléia, vindo de todas as partes do mundo e a dos poucos que estão dentro dela, representando os 192 estados. Estas visões diferentes são prenhes de conseqüências, significando, no seu termo, a garantia ou a destruição de um futuro comum.

Os que estão dentro, fundamentalmente, reafirmam o sistema atual de produção e de consumo mesmo sabendo que implica sacrificação da natureza e criação de desigualdades sociais. Crêem que com algumas regulações e controles a máquina pode continuar produzindo crescimento material e ganhos como ocorria antes da crise.

Mas importa denunciar que exatamente este sistema se constitui no principal causador do aquecimento global emitindo 40 bilhões de toneladas anuais de gases poluentes. Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidas como externalidades, vale dizer, realidades não intencionadas e que por isso não entram na contabilidade geral dos estados e das empresas. Finalmente o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo.

Ocorre que estas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana.

Não passa pela cabeça dos representantes dos povos que a alternativa é a troca de modo de produção que implica uma relação de sinergia com a natureza. Reduzir apenas as emissões de carbono mas mantendo a mesma vontade de pilhagem dos recursos é como se colocássemos um pé no pescoço de alguém e lhe dissésemos: quero sua liberdade mas à condição de continuar com o meu pé em seu pescoço.

Precisamos impugnar a filosofia subjacente a esta cosmovisão. Ela desconhece os limites da Terra, afirma que o ser humano é essencialmente egoista e que por isso não pode ser mudado e que pode dispor da natureza como quiser, que a competição é natural e que pela seleção natural os fracos são engolidos pelos mais fortes e que o mercado é o regulador de toda a vida econômica e social.

Em contraposição reafirmamos que o ser humano é essencialmente cooperativo porque é um ser social. Mas faz-se egoísta quando rompe com sua própria essência. Dando centralidade ao egoísmo, como o faz o sistema do capital, torna impossível uma sociedade de rosto humano. Um fato recente o mostra: em 50 anos os pobres receberam de ajuda dois trilhões de dólares enquanto os bancos em um ano receberam 18 trilhões. Não é a competição que constitui a dinâmica central do universo e da vida mas a cooperação de todos com todos. Depois que se descobriram os genes, as bactérias e os vírus, como principais fatores da evolução, não se pode mais sustentar a seleção natural como se fazia antes. Esta serviu de base para o darwinismo social. O mercado entregue à sua lógica interna, opõe todos contra todos e assim dilacera o tecido social. Postulamos uma sociedade com mercado mas não de mercado.

A outra visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos.

Essa cooperação não é uma virtude qualquer. É aquela que outrora nos permitiu deixar para trás o mundo animal e inaugurar o mundo humano. Somos essencialmente seres cooperativos e solidários sem o que nos entredevoramos. Por isso a economia deve dar lugar à ecologia. Ou fazemos esta virada ou Gaia poderá continuar sem nós.

A forma mais imediata de nos salvar é voltar à ética do cuidado, buscando o trabalho sem exploração, a produção sem contaminação, a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos mais fracos. Este é o grande salto que se impõe neste momento. A partir dele Terra e Humanidade podem entrar num acordo que salvará a ambos

Leonardo Boff é teólogo e escritor.



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COMENTÁRIOS (25 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Indiretamente o filme Avata... Jorge Ernesto Cout... 03/01/2010
Cada um de nós tem culpa pe... Eleni M Gomes 31/12/2009
Ler algo escrito por leonar... luiz carlos 27/12/2009
Explorar, contaminar,consum... lili angelika 27/12/2009
Dizermos que Leonardo Boff ... renato machado 24/12/2009
Eu realmente não sei qual é... Marcelo Santos 24/12/2009
Ler artigos de Leonardo Bof... Lucas Rafael Chian... 23/12/2009
caro Boff, colegas comentar... guimarães s. v. 22/12/2009
É a mais perfeita opnião am... Ewerton 21/12/2009
Zumbi dos Palmares nos deu ... Lúcia Ribeiro 21/12/2009
Afinal das contas, a tal re... Max Santos 21/12/2009
Está correto Leonardo Boff,... Oclydes Brolese Fi... 21/12/2009
Concordo com Frei Boff só p... Graccho Maciel 21/12/2009
Penso que devemos estabelec... Anna Margarida 21/12/2009
Enquanto isso, o Premio Nob... Maria Ronilda de O... 21/12/2009
Leonardo Boff e sua teologi... Felipe Andrade 21/12/2009
Eu tenho (???) dúvidas quan... AMAURI 21/12/2009
Resta saber como mudar comp... Raphael Carmezim 21/12/2009
Discordo quando o bom Leona... Weber Figueiredo 21/12/2009
Simples e eficaz: excelente... Fábio Faiad 21/12/2009
Excelente artigo do Profess... Tiago Zortéa 21/12/2009
O fato infeliz é que sempre... Buosi 21/12/2009
Caro Professor, obrigado pe... Sérgio Godoy 21/12/2009
Grande Leonardo, depois de ... Jefferson Guerras 19/12/2009
No binômio "possibilidades/... Aery Martini 19/12/2009
 
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09/02/2012

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