Estética da Tortura: sobre "A História Oficial"
“A História Oficial” não é um grande filme apenas porque aborda um assunto difícil. Mas porque evidencia a profunda solidão da tortura. Esta solidão é possível, porque existe uma estética, ainda atual, orientada à tortura. Um mundo privado. A idéia, todavia, é indagar sobre a possibilidade de uma outra estética, mais pública. Por certo, ela não será instituída pelo segredo político. Apenas conhecendo a crueldade, podemos pensar em evitá-la. O artigo é de Cesar Kiraly.
Cesar Kiraly (*)
Mas, qual é a estética da tortura? Ela nos remete a ambientes brancos de assepsia, quando pensamos na tortura médica. Naquela que orienta a política por enunciados pseudocientíficos e que se vale dos oponentes do regime (oponentes étnicos ou ideológicos) para experimentar crueldades. Ou a porões sujos, ambientes sombrios, de paredes mofadas e rudimentos de aparelhos elétricos, para os choques, e tinas d’água, para os afogamentos. Há também uma estética da tortura religiosa, com instrumentos de madeira, fogo, óleo quente etc. Mas nos interessa aqui o segundo tipo de estética da tortura: porque ela concerne à tortura militar. A máquina de morte e dor americana, recentemente, atualizou a estética da tortura militar com dispositivos de plástico. Mas quero tratar da tortura militar das décadas finais do século XX. Aquela praticada pelos franceses na Argélia, pelas ditaduras latino-americanas, inclusive, é a estética das torturas militares no Brasil [1].
Contudo, essa estética da tortura militar é sustentada por uma outra estética: aquela da sinestesia cheirosa da vida ordinária. Nesse caso, retratado no filme “A História Oficial”, trata-se de uma vida ordinária bastante específica, a da classe média alta argentina, extensível, com pequenas alterações, à classe média brasileira. Por certo, que a sustentação pode significar conluio, e estou de acordo com essa tese, a vida confortável e apática, e orientada por certa concepção imoral de ordem, permitiu os horrores da tortura. Mas quero ir um pouco mais longe e dizer que a vida privada latino-americana, certo tipo de vida privada, constitui uma grande imagem da qual a tortura faz parte. Quero dizer: trata-se de um mesmo plano. Habituamo-nos a ver a tortura como um contra-plano do plano classe-média, de orientação militar, no que concerne ao modo de viver. Mas penso que isso equívoco e tenho “A História Oficial” do meu lado.
Nesse extraordinário trabalho do diretor Luiz Puenzo, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986, representa-se a vida de uma pacata professora de História, que casada com um homem pertencente à classe média militar (ele não é militar, mas pertence a essa forma de vida), desconfia que sua filha adotiva, trazida pelo marido, seria uma das crianças desaparecidas, em virtude da tortura e morte de mulheres, durante a ditadura argentina. O plano é único: escolas arrumadas, sofás com estampas, copos de whisky, homens conversando de um lado e mulheres do outro, empregadas domésticas etc. Mas ao invés de cindir o plano, Puenzo faz com que a tortura esteja na vida ordinária: ele o faz apontando para (1) uma ausência e (2) uma resistência. E transfere esse duplo sentido da tortura para a composição das imagens. O torturado é aquele que está (1) ausente e consiste naquele que sofre porque (2) resiste.
Mas a relação entre ausência e resistência transita. Na escola o tema da tortura e dos desaparecimentos está ausente, a professora resiste a admitir o que lhe diz um aluno, que a História é escrita por assassinos, e os alunos resistem a esta ausência. No movimento social, das Mães da Praça de Maio, os filhos estão ausentes e elas resistem ao silêncio. Apenas a personagem efetivamente torturada (Ana) resiste a essa duplicidade, quando incitada a participar da imagem social da tortura, vale-se de um tropo cético: “por que não vão à merda”?
Este genial plano único fica ainda mais evidente, porque quase não existe nenhum recurso imagético ao passado, não se mostra pessoas sendo torturadas. A tortura está sempre na voz e nos silêncios. Dentre as cenas que exploram esse espírito, sem dúvida, a mais importante é aquela que mostra a conversa das duas amigas; a professora de História e amiga torturada tomam licor de ovo, e riem sobre assuntos do passado. Ao que a amiga torturada, num mundo de torturadores, começa a lembrar de seu passado recente: casa arrombada, surras, humilhação e estupros. Essa rememoração se inicia ainda sob risada, que se amainam aos poucos. O riso de ebriez cede espaço para algo de mais ambivalente. Como estar do lado, escutar, de quem sofreu, sem questionar a própria posição histórica no momento em que aquele sofrimento era provocado? Como estar próximo? O sofrimento do torturado, narrado numa estética da tortura, que apesar do decurso do tempo está quase inalterada, é constrangedor. A saída imoral consiste em perguntar: o que ela fez para merecer isso? Mas não era uma subversiva? Ao que pode ser adicionada uma conclusão imoral: afinal, ela foi presa por algum motivo. Mais a manutenção da estética: mas por que falar disso, depois de tanto tempo?
“A História Oficial” não é um grande filme apenas porque aborda um assunto difícil. Mas porque evidencia a profunda solidão da tortura. Esta solidão é possível, porque existe uma estética, ainda atual, orientada à tortura. Um mundo privado. A idéia, todavia, é indagar sobre a possibilidade de uma outra estética, mais pública. Por certo, ela não será instituída pelo segredo político. Apenas conhecendo a crueldade, podemos pensar em evitá-la.
[1] Estranhamente a imprensa de países torturadores, como a imprensa americana, impede a formação de uma estética de seus nacionais sendo torturados; esta estética, imagino, seria repleta de elementos grotescos, parece que o impedimento dessa estética, que nos coloca como vítimas, serve para que continuemos algozes. Talvez algo desse tipo explique a pouca repercussão pública dos torturados no Brasil e a insistente prática de tortura em nossas instituições. Por alguma lógica macabra parece que existe preferência em nos vermos como torturadores do que como torturados. Nada mais coerente com isso do que a idéia de ditabranda. Ela nos impede de estarmos do lado dos torturados.
Cesar Kiraly é coordenador executivo do Laboratório de Estudos Hum(e)anos do IUPERJ.
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