Internacional| 17/01/2010 | Copyleft

O Haiti antes e depois da tragédia

A morte de Zilda Arns emocionou o Brasil por sua história de vida e pelo trabalho humanitário ao longo de muito tempo. Nas últimas horas o secretário geral Ban Ki-Moon confirmou as mortes do tunisino Hedi Annabi, Representante Especial da ONU no Haiti, e de seu adjunto e número dois à frente da missão, Luiz Carlos da Costa (foto), um dos brasileiros mais graduados e experientes nos quadros da ONU. Os dois estavam familiarizados com as missões em pontos conturbados do mundo. O artigo é de Argemiro Ferreira.

Certas coisas que nos atormentam tornam-se menores, às vezes até insignificantes, diante de uma tragédia como a que golpeou o povo haitiano. Acompanhamos o quadro chocante também por estarmos mais próximos desse país graças ao papel relevante do Brasil na força de paz da ONU, onde são elevadas nossas baixas - ainda que seja bem mais dramático o custo em vidas humanas dos própros haitianos.

A morte de Zilda Arns emocionou o Brasil por sua história de vida e pelo trabalho humanitário ao longo de muito tempo. Nas últimas horas o secretário geral Ban Ki-Moon confirmou as mortes do tunisino Hedi Annabi, Representante Especial da ONU no Haiti, e de seu adjunto e número dois à frente da missão, Luiz Carlos da Costa, um dos brasileiros mais graduados e experientes nos quadros da ONU.

Os dois estavam familiarizados com as missões em pontos conturbados do mundo. Antes cabia a Da Costa, na sede de Nova York, planejar cada uma delas conforme a situação específica do país, criando os cargos e escolhendo, dentro ou fora da ONU, pessoas capazes para ocupá-los. O desaparecimento dele no dia do terremoto já levara o secretário geral a nomear, para o lugar de Annabi, Edmond Mulet, que o ocupara antes.

O nível dos três no quadro era de secretário geral assistente. Curiosamente, nos últimos dias emails estavam sendo disparados por um grupo político no Brasil com ataques levianos à missão de estabilização no Haiti, Minustah - criticada como ineficaz e inoperante. Na verdade, seus prédios estavam destruídos e suas autoridades maiores, Annabi e Da Costa, já estavam mortos.

Como Peter Sellers em “Being There”
Convivi alguns anos no prédio da ONU com gente dedicada que serve em tais missões. A jornalista brasileira Sonia Nolasco, esteve em Timor Leste e depois no Haiti. Já não estava lá no dia do terremoto. Em resposta a um email, explicou: “Por acaso estou aqui em Nova York, rezando por meus colegas. Nosso prédio desabou”. Antiga colega de redação no Rio, foi para os EUA em 1973, onde casou com Paulo Francis, seu namorado na juventude.

Os dois sempre moraram a uma quadra do edifício-sede da ONU, frequentado por Sonia como correspondente de jornais do Brasil. Algum tempo depois da morte do marido, ela decidiu servir em missões que exigiam sacrifício pessoal. Outro brasileiro, Manoel de Almeida e Silva foi porta-voz do secretário geral Kofi Annan e depois serviu mais de três anos na missão do Afeganistão.

O departamento de operações de manutenção da paz (peacekeeping) é um dos mais ativos da ONU. O jornalista James Traub, especialista em política externa que escreve para o “New York Times”, sabia bem como atuava com Annabi e Da Costa. Em artigo para o website “Daily Beast” observou: “Num filme, George Clooney poderia interpretar Sérgio Vieira de Mello. Mas não Annabi, tunisino seco, às vezes obscuro e cético mas nunca cínico. Seria um papel mais para o Peter Sellers de ‘Being There’”.

Traub uma vez ouviu o relato de Annabi sobre encontro com delegação dos EUA após o Conselho de Segurança decidir despachar soldados (em 2000) contra os assassinos psicopatas que tentavam depor o governo de Sierra Leone. “O que o senhor fará naquela confusão?”, perguntou alguém. E Annadi: “Vocês vieram me dizer como consertar aquilo com tropas que não estão me dando ou vão me ajudar a encontrar um meio de resolver a coisa? Se for o primeiro caso, a reunião será curta”.

Aquela maldição de Pat Robertson
A visita da secretária de Estado Hillary Clinton ao Haiti neste fim de semana busca dar ênfase ao empenho do presidente Barack Obama, que tem falado ao país diariamente sobre a tragédia e chamou Bill Clinton e George W. Bush para um esforço extra. Mas nos EUA é notória e chega a ser constrangedora a insensibilidade de personalidades, políticos e profissionais da mídia em relação ao Haiti. Quatro nomes destacaram-se negativamente nesse sentido nos últimos dias.

O primeiro foi o conspícuo tele-evangelista Pat Robertson. Criador da Coalizão Cristã, ele chegou a disputar em 1988 as primárias do Partido Republicano, como candidato à Casa Branca. Não emplacou. Mas como ex-dono de um canal de cabo o reverendo Robertson continua influente no partido graças a seu programa de TV “Clube dos 700”, financiado por milionários republicanos.

Apesar de se considerar teólogo, filósofo e sábio, Robertson é capaz de asneiras monumentais. No último dia 13 declarou que a causa da pobreza e das tragédias do Haiti é um pacto feito pelos escravos negros com o diabo: em troca da vitória deles na rebelião de 1804 contra a escravidão e o controle dos colonos franceses, segundo o piedoso pastor, passaram a servir ao senhor das trevas - e por isso foram amaldiçoados.

Essa idiotice virou tema de debates em “talk shows” das redes de TV a cabo dos EUA. No passado o mesmo Robertson vendeu fitas VHS acusando Clinton de homicídio, conclamou ao assassinato de Hugo Chávez, chamou Maomé de terrorista, ganhou mina de ouro do ditador liberiano Charles Taylor (hoje acusado de crimes de guerra) e disse que o 11/9 foi castigo divino por causa das feministas, dos gays e do aborto.

Os 'iluminados' e uma velha receita
Apareceram mais “iluminados”, além de Robertson, determinados a sabotar na mídia a campanha pela ajuda ao Haiti. Rush Limbaugh, extremista de direita e rei do “talk show” de rádio, conclamou as pessoas a negarem doações. “Já doamos antes. (…) Chega de jogar dinheiro fora". E dois conservadores - Bill O’Reilly, da Fox News, e David Brooks, do “New York Times” - apresentaram suas próprias receitas mágicas.

A de O’Reilly é risível, digna do mau jornalismo do império Murdoch. Para ele, a cura dos problemas econômicos e sociais do Haiti consiste em impor disciplina aos haitianos. “Metade da população é analfabeta, o desemprego é 50%, as pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia. Nenhuma caridade será suficiente e boas intenções não resolvem. O Haiti continuará caótico até se impor disciplina a eles”.

Já a receita “civilizada” de Brooks é contra a “cultura resistente ao progresso”. Ele explicou: “É hora de promover ali o paternalismo dirigido. Tentamos primeiro o combate à pobreza espalhando dinheiro, tal como fizemos em outros países. Depois, os esforços microcomunitários, como também fizemos em outros. Mas os programas que realmente funcionam envolvem paternalismo intrusivo”.

Ao reunir esses dados, o crítico de mídia Steve Rendall apelou para um grupo de direitos humanos, que chegou a esta conclusão: “a receita do ‘paternalismo intrusivo’ para ‘consertar a cultura’ foi a política dos EUA no Haiti nos últimos 100 anos: ocupação militar brutal (1915-34); apoio à ditadura (1957-86); e, recentemente, a imposição de políticas comerciais que empobreceram ainda mais o povo. É preciso consertar não a cultura haitiana mas as políticas dos que só ajudam a si próprios. Elas é que deixaram milhares de haitianos literalmente enterrados vivos”.

Blog de Argemiro Ferreira



 

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COMENTÁRIOS (9 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Reafirmando o que Eduardo G... Clara Sette 20/01/2010
obrigado, Argemiro, por dar... marcia denser 20/01/2010
Em 2005, quando o governo b... Cibele Vrcibradic 20/01/2010
É incrível que exista gente... Jorge Ernesto Cout... 19/01/2010
BLOCO HUMANITÁRIO DE PAÍSES... vbc 19/01/2010
Faltou esclarecer que os EU... Guilherme Coelho 18/01/2010
Talvez muitos não saibam qu... alberto barbosa 18/01/2010
Não há ajuda financeira ou ... Pedro 17/01/2010
Me deslocando um pouco do f... AMAURI 17/01/2010
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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