Internacional| 22/01/2010 | Copyleft

Quando começaremos a nos esquecer do Haiti?

A julgar pelo que já vimos acontecer em outros momentos, logo os meios de comunicação começarão a centrar sua atuação em outros temas. Uma semana depois do terremoto e de suas incontáveis consequências, as histórias sobre o Haiti começam a perder espaço. Hoje, já não ocupam todos os lugares entre as mais lidas ou visitadas nos portais da internet. As chamadas em rádios e TVs começam a refletir uma certa saturação que não é mal intencionada, mas sim resultado quase natural da super exposição midiática que parece não conduzir a nenhum lado. O artigo é de Gabriele Warkentin.

As tragédias têm a dimensão da atenção midiática que conseguem atrair. Já estamos acostumados a isso e temo que volte a acontecer no caso do Haiti. Há pouco mais de uma semana do terremoto devastador, e de suas quase incontáveis réplicas, parece que já vimos tudo. A história renderá mais? As audiências manterão o interesse ou logo virá outra tragédia espetacular que capture a atenção de todos e relegue o Haiti à posição em que estava antes do infeliz 12 de janeiro: o nada informativo? É preciso reconhecer: o Haiti não aparecia no radar de ninguém. E também por isso dói tanto. Não estou sendo cínica, só precavida.

A mobilização dos meios de comunicação internacionais foi extraordinária. Dezenas de jornalistas estadunidenses, mexicanos, espanhóis, canadenses, britânicos, venezuelanos... descobriram a existência profunda desta metade de ilha cujo futuro nos sacode de modo recorrente. Com o entusiasmo próprio de quem é testemunha de uma parte importante da História, assim, com letra maiúscula, muitos repórteres e apresentadores se lançaram a uma aventura complexa, incerta e perigosa. Começaram a chegar relatos, imagens, mais relatos, histórias de horror, imagens de esperança, mais imagens, áudios.

Houve momentos felizes – os relatos de resgates de pessoas -, episódios lamentáveis – o anúncio na televisão nacional, por parte do embaixador do México no Haiti, da morte do funcionário Gerardo Le Chevallier, sem ter a confirmação e sem ter informado previamente a família; a ligação em tempo real do professor Carlos Peralta Valle, resgatado entre os escombros, com a mãe; depois saberíamos que estavam há mais de um ano sem falar, mas não importa, a cena serviu para ilustrar o poder midiático da reunificação – chauvinismos manifestos – no tempo e no espaço, algo ao qual todos os meios de comunicação deram destaque. Porque nada comove mais que identificar entre as mortes anônimas e os escombros ameaçadores, um rosto com o qual se compartilha, ao menos, a origem. Estas e outras situações se repetiram em cada um de nossos países.

Mas é certo que o papel dos meios de comunicação tem sido fundamental para colocar o Haiti no cenário, para incluí-lo nas conversas, para mobilizar a ajuda e ativar a solidariedade. As esplêndidas crônicas e reportagens que recebemos pelo rádio, televisão, meios impressos e digitais, nos permitiram começar a compreender não só a dimensão da tragédia, mas também algo do contexto da mesma. Para quem quiser há um ótimo material circulando por aí: perfis, entrevistas, fotografias, ensaios. Poucas tragédias tiveram este nível imediato de exposição midiática. O problema é que, como espectadores, às vezes, ficamos satisfeitos com uma única história que consumimos, e não buscamos, não confrontamos. Quem gosta de ver o mundo de forma unidimensional, nunca o fará de outra maneira.

Uma semana depois do terremoto e de suas incontáveis consequências, as histórias sobre o Haiti começam a perder espaço. Hoje, já não ocupam todos os lugares entre as mais lidas ou visitadas nos portais da internet. As chamadas em emissoras de rádio começam a refletir uma certa saturação que não é mal intencionada, mas sim resultado quase natural da super exposição midiática que parece não conduzir a nenhum lado: porque o que mais recebemos são as mesmas histórias dramáticas, e a redundância nos traz uma sensação de impotência. Um pouco como no 11 de setembro, quando as televisões repetiam incessantemente a queda das torres gêmeas. “Quantas torres, afinal, caíram?” – perguntaram vozes angustiadas. As reações, as mortes (sobretudo as crianças mortas), o cheiro, a fome...., começam a repetir-se, e quando o drama se torna cotidiano, deixa de ser um drama.

Enquanto escrevo, no portal de um dos maiores jornais do México a notícia mais lida é que Scarlett Johansson faria um leilão para ajudar o Haiti. Sim, com a generosidade de nossos povos – e de alguns artistas – a ajuda segue fluindo de maneira impressionante: os donativos enviados por meio de torpedos de celulares, por exemplo, superaram recordes de arrecadação. As embaixadas não sabem o que fazer com tantas arrecadações, as mãos se multiplicam para ajudar. Mas, insisto, quanto tempo vai durar essa história?

Se tudo seguir o curso daquilo que já vimos em outros momentos, logo os meios de comunicação começarão a centrar sua atenção em outros temas. Uma jornalista argentina, residente na Venezuela, queixava-se de que nas redes sociais desse país predominavam as histórias relacionadas às últimas medidas de Chávez. No México, os meios de comunicação começaram a ceder espaços para a interminável luta contra o narcotráfico, as próximas eleições, o início das festividades do Bicentenário, o início da temporada de futebol e a iminente final de futebol americano. Não há tragédia que aguente tanto tempo. A menos que saibamos contá-la de outra maneira, torná-la importante, sustentar sua duração.

Em uma de suas notas para o El País, Pablo Ordaz relata como foi repreendido por um jovem haitiano que buscava cadáveres: “É verdade que irão contar?” – perguntou com uma boa dose de ceticismo, “ou se irão daqui quando já tiverem fotos suficientes?”. Saberemos manter o interesse nesta nação tão golpeada e tão digna ou encerraremos os despachos, voltaremos a nossos assuntos e abriremos a porta para que, na solidão, as feras sejam soltas. Ruanda é um claro exemplo: quando o interesse diminuiu, começaram as mortes. E não terminaram. A civilização do século XXI, tão rápida para reagir midiaticamente diante das histórias que nos competem, deve encontrar a forma na qual a dor não ceda espaço para o espetáculo seguinte. Essa não é uma tarefa só dos meios de comunicação, mas eles tem uma responsabilidade adicional ao dar visibilidade às histórias em importam, ou que deveriam importar.

Chegamos, contamos algumas histórias e vamos embora. Adeus Haiti?

Gabriela Warkentin é diretora do Departamento de Comunicação da Universidade Iberoamericana, na Cidade do México, e apresentadora de rádio e TV.



Fotos: Cubillos/AP
 

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COMENTÁRIOS (6 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Quando o espetáculo midiáti... Cibele Vrcibradic 28/01/2010
Pois o Haiti,mais do que um... ronan wittee 28/01/2010
Gabriela, a exposição da tr... Jorge Ernesto Cout... 26/01/2010
pelo q soube o haiti ja não... rony 23/01/2010
Imagina que essa exposição ... Marcos Belmonte 22/01/2010
Tem um material muito bom n... Sílvio Alexandre 22/01/2010
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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