Internacional| 30/01/2010 | Copyleft

Convergência Sul-Sul para uma nova economia pós-crise

Parte da programação oficial do FSM Temático Bahia, o Seminário Crise e Oportunidade reúne, até domingo, intelectuais, atores sociais e governos dispostos a debater as relações entre países do sul “com sentimento e sem Power Point”, como resume um dos principais agitadores do grupo, o economista Ladislau Dowbor. Uma das primeiras conclusões é que, em termos macroeconômicos, sociais e ambientais estamos todos à deriva, destruindo o planeta em favor de uma minoria, para ampliar a oferta de bens sem critérios de prioridade de uso ou de impacto ambiental e social.

SALVADOR - A solução para não submergirmos é uma nova economia, que surge a partir das relações entre países de economia emergente, como apontou a mesa na manhã desta sexta-feira (29) “Sul – Sul como alternativa”. O encontro em Salvador é fruto de um debate anterior que reúne nomes como Carlos Lopes, Darlene Testa, Eduardo Suplicy, Ignacy Sachs, Luiz Gonzaga Beluzzo, Moacir Gadotti, Márcio Pochmann, Paul Singer e Roberto Smith. Partindo de um excelente texto base o encontro, abriu, ainda que informalmente, as atividades do FSM em Salvador. A abertura oficial ocorreu na noite de sexta com a presença do Governador da Bahia, Jacques Wagner e representantes da Comissão Organizadora do FSM-BA. A noite encerrou com a conferência de Susan George: “A Convergência das Crises”.

O grupo acima defende que uma crise dos moldes da iniciada em setembro de 2008 pode trazer mudanças e oportunidades, inclusive o estabelecimento de novos modelos de desenvolvimento, o que torna urgente a análise de para onde navegam as economias do sul do mundo. Segundo o coordenador-residente das Nações Unidas e representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Carlos Lopes, a nova realidade dos países do sul desenha uma macroeconomia que pode gerar novas dinâmicas mundiais. “Até o ano 1.000 da História, o Sul representava 82% da população e da riqueza mundial. A partir deste século, surge um movimento de recuperação do seu papel em importância econômica, capitaneado justamente por países emergentes”.

São países como o Brasil, que apresentam uma realidade de crescimento e indicadores positivos na área econômica, ao contrário do cenário ainda preocupante constatado nos Estados Unidos e na Europa. A África do Sul, por exemplo, tem um estoque de capital superior ao da Bolsa de Valores de São Paulo – Bovespa e da maioria dos países europeus. Apesar da fama da exploração de minérios, 70% do seu PIB decorrem da produção industrial.

Para Lopes, a criação do G20 foi fundamental para que a crise não tivesse dimensões ainda mais catastróficas. “Os países do Bric vão assumir a liderança mundial junto aos Estados Unidos em 2050. Não falta muito tempo para que a China seja o primeiro líder. É a emergência de um novo poder no Sul, com uma camada de aspecto econômico, mas outras camadas igualmente interessantes”, completou.

Ao contrário do que dizia o título da mesa, no entanto, para o doutor em economia e professor das universidades de Buenos Aires e de Havana, Jorge Beinstein, o pós-crise não existe. “Diria que temos que pensar no papel dos países do sul no mundo em crise; e não pós-crise”. Autor, ainda em 2001, de Capitalismo senil: a grande crise da economia global, o argentino grifa que tal relevância dos países do sul também passa pela população. “Em números, a trama de acordos entre o sul representa hoje milhões de pessoas”, apontou. Segundo ele, o mundo não observará o surgimento de uma nova potência nas próximas décadas, mas sim a oportunidade de crescimento de pequenas experiências ao redor do mundo. “Há um fenômeno de declínio dos Estados Unidos. Não é uma partição em quatro ou cinco potências. O que presenciamos é a decadência da unipolaridade, um processo de despolarização, de aparição de espaços de liberdade e de desenvolvimento”, finalizou.

Contra a hegemonia do pensamento neoliberal e pela aglutinação destas novas experiências, Júlio Lopez Gallardo defende o valor do pensamento econômico do sul. O professor da Universidade Autônoma do México afirmou ser espantoso “existir tanta força na lógica do capital quando o paradigma neoliberal não possui base teórica consistente”. “A difusão da ideologia neoliberal possui uma inserção social tão grande que se atrever a mostrar possibilidades distintas a isto parece um atrevimento. A reconstrução do pensamento econômico virá do sul”, concluiu.

Outra evidência desta nova configuração se evidencia no aumento do fluxo migratório para os países do sul. O Brasil desponta na linha de frente como dono do maior potencial para abrigar um movimento de migração laboral. “A região tem um papel a cumprir e pode se beneficiar por estar nas rotas dos movimentos migratórios internacionais dentro dessa mudança de fluxos que estamos assistindo em função da crise e das atividades terroristas no mundo. Acredito que o Ministério do Trabalho e o Itamaraty estão agindo deforma acertada nesta dimensão”, acrescentou a pesquisadora da Unicamp e do IBGE, Neide Patarra.

Finalmente, para o secretário Nacional de Economia Solidária Paul Singer, a crise pode ser uma “grande oportunidade”. “Todos os governos do mundo simplesmente jogaram fora os ensinamentos da ortodoxia neoliberal e tiraram Keynes da naftalina. Isso significa aumentar o gasto público e o crédito o máximo possível”, disse. Para ele, um modelo de economia sem a figura do patrão e do empregado se sobrepõe como alternativa viável às práticas vigentes dentro do estratagema capitalista. “Se olharmos as coisas com a devida perspectiva do tempo, há uma grande esperança de superação do neoliberalismo; do capitalismo selvagem que gera um desemprego em massa de um lado, e super exploração dos trabalhadores de outro; e a construção de uma nova economia, que tem valor de uso como objetivo, e não o valor de troca”, completou. “Mas perante a crise, a proposta mais concreta que eu defendo é simplesmente nacionalizar os bancos”, enfatizou, seguido de uma salva de palmas.



Fotos: Eduardo Seidl
 

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COMENTÁRIOS (1 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Realmente os bancos servem ... Jorge Ernesto Cout... 05/02/2010
 
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06/09/2010

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05/09/2010

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El verdadero milagro de los mineros : El escritor chileno Ariel Dorfman pone en contexto el desastre en la mina San José: la secular explotación de los mineros, la sabiduría organizativa pasada de generación en generación. Y pide el milagro de que las cosas cambien en su país.

04/09/2010

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La contaminación informativa : He hecho público y sostengo que la Ley de Medios Audiovisuales sancionada por el Parlamento es necesaria, ya que permite romper el control de los monopolios informativos y generar el pluralismo periodístico, y recuperar la libertad de prensa. La reacción de las corporaciones, como el Grupo Clarín, han desatado una campaña virulenta contra el gobierno acompañada por la voracidad de una oposición sin ideas, que busca únicamente golpear al gobierno y que tienen todos los medios a su disposición, como la pitonisa que anuncia toda clase de catástrofes.

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