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O Zombar corajoso de Guilherme Zarvos
Novo trabalho apresenta uma maior incursão política, preocupando-se com os bastidores do mundo da cultura atual, com os recentes acontecimentos da história nacional e com os depoimentos de figuras midiáticas de prestígio no Brasil
Roberto Azoubel*
Na recente obra publicada no Brasil intitulada Reflexões
Sobre o Exílio, o falecido crítico e professor de origem
palestina Edward Said aponta no ensaio Sobre a provocação e
o assumir posições seis pontos importantes na relação entre
o intelectual acadêmico e a esfera pública. No terceiro
destes pontos, Said coloca que "ao sair da academia para o
mundo mais amplo, o intelectual desempenha um papel
específico que é, em essência, um oponente do consenso e da
ortodoxia, em particular no momento de nossa sociedade em que
as autoridades de consenso e ortodoxia são tão poderosas e o
papel do indivíduo, a pequena voz, se quiserem, do indivíduo
tende a não ser ouvida. Assim, o papel do intelectual não é
consolidar a autoridade, mas compreendê-la, interpretá-la e
questioná-la."
No ponto seguinte, lemos ainda: "parece-me que um dos
principais papéis do intelectual na esfera pública de hoje é
funcionar como uma espécie de memória coletiva: lembrar o que
foi esquecido ou ignorado, fazer conexões, contextualizar e
generalizar a partir do que aparece como ‘verdade‘ definitiva
nos jornais ou na televisão, o fragmento, a história isolada,
e ligá-los aos processos mais amplos que podem ter produzido
a situação de que estamos falando".
Estas idéias de Said servem para acamar o lançamento de
Zombar, sexto livro de Guilherme Zarvos, poeta e, pelo menos
por ora, intelectual (também) acadêmico - cursa o doutorado
em Letras pela PUC-Rio. Nascido em São Paulo, mas criado no
Rio - cidade na qual ajudou a fundar o Centro de
Experimentação Poética (o CEP 20.000) -, Zarvos consegue,
neste último trabalho, uma maior incursão política,
preocupando-se com os bastidores do mundo da cultura atual,
com os recentes acontecimentos da história nacional e com os
depoimentos de figuras midiáticas de prestígio no Brasil. Sem
se desvincular de sua verve poética anterior - que fica
explícita nos capítulos "Resistência", "Cartas de amor"
e "Poemas soltos" -, o autor traz à cena de forma contundente
a discussão de fatos e pessoas públicas que constroem as
verdades cotidianas do país.
No primeiro capítulo, que dá título ao livro, Zarvos descreve
o ambiente da produção de um comercial estrangeiro realizado
por uma produtora carioca, cuja presidência é ocupada pelo
neto herdeiro do homem mais poderoso da cidade do Rio de
Janeiro. No relato - que é uma espécie de conto-crônica - o
escritor revela de forma satírica a intimidade do meio
publicitário com suas hierarquias, suas confusões e
imprevistos, tendo como pano de fundo a ambição do referido
neto-presidente em construir uma empresa maior do que a do
avô. Diante da plausibilidade dos acontecimentos narrados e
do próprio formato híbrido da história (inicia num tom
confessional em primeira pessoa e passa para uma exposição
descritiva em terceira), fica-se com a sensação de se estar
colocado entre a ficção e a realidade. Mérito do autor.
No entanto, a conquista maior de Zarvos é a coragem em
publicar duas cartas-textos a dois destinatários precisos e
(re)conhecidos: Arnaldo Jabor e Elio Gaspari. A primeira é
uma resposta às crônicas publicadas por Jabor que tematizaram
sobre a idealização do passado recente do país pela esquerda
brasileira. Aqui o autor celebra a importância da retomada de
um projeto utópico-político - conforme fora transmitido pelos
trabalhos de Glauber Rocha, dos CPCs (Centros de Cultura
Popular), de Darcy Ribeiro - como contraponto à postura geral
da atual classe artística do país ("Mas onde está escrito o
destino e a quantidade de cada recurso que a ‘Eletrobrás
Cultural‘, subsidiária da grande empresa de energia estatal
brasileira, deve lotear entre os favoritos ?", pág. 139). A
segunda é a negação de duas informações contidas no livro
Ditadura Envergonhada de Gaspari: a de que Darcy Ribeiro
possuía uma "lista para matar gente" e a de considerar Jango
uma "figura pequena" no processo político nacional nas
vésperas do golpe militar ("dizer que Jango não tinha
biografia, apenas mostra sua pequena vontade de fazer
história ou sua destreza para fazer estória.", pág. 180).
Concordando ou não com Guilherme Zarvos, a importância do seu
Zombar não pode ser descartada. A vontade pública, a
disposição para a reconstrução histórica e para o debate do
autor nos remete imediatamente ao citado artigo do Edward
Said. Em Zombar, Zarvos assume posições, se opõe ao consenso
e não reprime sua pequena voz. Que, ao final da leitura, nem
fica tão pequena assim.
* Roberto Azoubel é pesquisador e doutorando em Letras pela Puc-Rio
Zombar
Guilherme Zarvos
Editora Francisco Alves
196 páginas


