26/09/2008
O neoliberalismo acabou?
O neoliberalismo se constituiu em um novo modelo hegemônico na história do capitalismo, sucedendo ao modelo regulador – keynesiano ou de bem-estar social, como se queira chamá-lo. Fez seu diagnóstico do esgotamento do modelo anterior e se propôs reorganizar o sistema capitalista no seu conjunto, conforme seus princípios liberais reciclados para o novo período histórico do capitalismo.
Foi um modelo absolutamente hegemônico, logrando estender-se da forma mais universal possível: da Europa Ocidental ao EUA, da América Latina à China, da Europa Oriental à África, da Rússia ao sudeste asiático. Teve crises precoces – ao longo da década de 1990, no México, no sudeste asiático, na Rússia, no Brasil, na Argentina – mas se manteve hegemônico, sem nenhum outro projeto alternativo que lhe disputasse hegemonia. Suscitou grandes mobilizações contrárias – como as iniciadas em Seattle, que desembocaram nos Foros Social Mundiais -, seguiu tropeçando, como na OMC, no enfraquecimento do FMI e do Banco Mundial, mas continuou a ser o único modelo globalizado. Depois de algum tempo, a proposta híbrida da China permitiu surgir a expressão Consenso de Pequim, no lugar do de Washington, mas girando sempre em torno de adequações às políticas de livre comércio.
Potências centrais do capitalismo já haviam sido vítimas das desregulação e do poder de ataque do capital especulativo, entre elas a Grã-Bretanha, na década de 80, vítima do mega-especulador George Soros. Mas todo ataque especulativo tinha aos EUA como beneficiário, toda fuga de capitais tinha a Bolsa de Valores de Nova York como refúgio. Sabia-se que essa farra especulativa só poderia encontrar um limite no momento em que o principal beneficiário dela fosse também vítima. Esse momento chegou.
As medidas emergenciais, como sempre, ferem a doutrina neoliberal, com intervenções diretas e maciças do Estado – como já vinha acontecendo desde a primeira crise neoliberal, a do México em 1994. Mas elas significam o fim do neoliberalismo? É possível a retomada de processos regulatórios globais – um novo Bretton Woods - que brequem estruturalmente a livre circulação de capitais e a revertam os processos de desregulação econômica, essência mesma do neoliberalismo?
Nada indica que isso seja possível. Não existe uma lógica racional do sistema capitalista, que faça com que seus agentes – de grandes corporações a Estados dominantes – ajam conforme uma lógica superior do sistema. Essa é uma de suas contradições estruturais, aquela entre dominação global e apropriação privada.
Trata-se de uma grande crise capitalista, já se diz que a maior desde a de 1929, que pode abrir caminho à construção de um modelo alternativo. Mas por enquanto não se vislumbra nenhum modelo que possa ter esse papel, nem sequer de maneira embrionária, no horizonte, no máximo versões híbridas, como as políticas econômicas da China ou do Brasil. A própria proliferação de governos conservadores, nada inovadores sequer em suas políticas, no centro do capitalismo, indica que nada de novo pode vir deles em substituição do modelo esgotado.
Tudo indica portanto que, entre a crise do modelo precocemente envelhecido e as dificuldades de surgimento de um novo, mediará um período mais ou menos longo de instabilidades, de sucessão de crises, de turbulências. Porque o que se esgota é não apenas um modelo hegemônico, é também a hegemonia política dos EUA – os dois pilares de sustentação do novo período político, que substituíram ao modelo regulador e à bipolaridade mundial. E também neste plano, não surge no horizonte uma nova potência ou um conjunto delas, em condições de exercer uma nova hegemonia.
O neoliberalismo não termina, mas se esgota, abrindo um período de disputa por alternativas, em que por enquanto só se vê na América Latina aparecerem propostas de sua superação. Ganha assim a região um protagonismo – junto com a China – na projeção do futuro do mundo em toda a primeira metade do novo século, na disputa entre o velho que se recusa a morrer e produz crises e suas conseqüências por todos os lados, e o novo, que começa a anunciar o posneoliberalismo, um mundo solidário, desmercantilizado, humanista, de que o Forum Social Mundial de Belém – de 27 de janeiro a 1° de fevereiro – será uma mostra pluralista e vigorosa das alternativas ao neoliberalismo.
Postado por Emir Sader às 07:13
antonio barbosa filho diz:
04/10/2008
Gostaria de ler uma análise mais aprofundada do prof Sader sobre a seguinte resposta na entrevista de Eric Hobsbawm: "Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo".
Abilio Maiworm Weiand diz:
03/10/2008
Gostaria muito que o pensador Emir Sader estivesse com a total razão em sua análise. Porém, parece-me que é mais o que eu quero acreditar que a própria realidade. Ainda vejo muito limitadamente a ação dos movimentos sociais, pois a grande massa trabalhadora ainda está muito desorganizada, afastada desses movimentos, alheia aos grandes temas e, por consequência, preocupada com a solução dos seus problemas cotidianos mais urgentes.
Apesar disso, a própria sociedade contemporânea é muito dinâmica e outras movimentações podem ocorrer. Bons exemplos são a Venezuela e a Bolívia. Mas não creio que sejam indícios suficientes para uma saída societária global ao capital financeiro.
Parece-me que tudo está aberto, inclusive a barbárie mais aguda que a atual, mas também me parece que as análises do Emir Sader têm fundamento na dinâmica do real, como um arguto observador costuma ter.
Assim, é necessário continuar na trincheira, inclusive da luta ideológica, para quando as condições sociais, polícas e econômicas estiverem amadurecidas, implementarmos as mudanças que almejamos. Afinal, foi o que a turma do Hayeck fez durante longo tempo de ostracismo sob os anos de ouro do capitalismo.
Emerson Mathias diz:
30/09/2008
É mais provavel um pos-neoliberalismo do que o fim deste. As organizacoes existentes em torno do processo civilizatorio neoliberal sao bastante amplas para incorporar mudanças que assegurem a dinamica dos mercados existente num grau ainda mais integrado, sofisticado e elitista. Essa crise só vai fazer ELITIZAR ainda mais o já seleto grupo de empresas e nações com cacife para bancar os custos dessa empreitada. Infelizmente...
Fabio Passos diz:
29/09/2008
Direto de Wall Street:
Rage Against The Machine - Sleep Now In The Fire
http://www.youtube.com/watch?v=Jz8wU9DdbqU
Direção de Michael Moore
Eduardo Quillfeldt diz:
27/09/2008
O direito positivo, a ciência positiva e o mercado positivo estão interligados e vem balizando os rumos desse mundo há muito tempo. Contudo, esse trio, baseado no egoísmo, orgulho e vaidade, está chegando conjuntamente ao fim. Os novos paradigmas da humanidade, se aprendemos a lição histórica, deverão ser essencialmente diferentes disso. O povo e natureza agradecem.
Saudações e reflexões
Fabio Passos diz:
27/09/2008
Muito bom o Alexandre Vianna.
1) Uma revisão dos processos de privatização (especialmente na área dos recursos naturais - vide Vale)
2) uma revisão nas concessões de rádio e tv para garantir a existência de uma vasta rede de comunicação pública
3) uma reforma política que reduza ou elimine os financiamentos privados em campanhas políticas.
assino embaixo.
Eu sugiro pelo menos mais um fundamental:
4) Estatização do BC.
Quem deve gerir a economia é a sociedade... não o mercado.
Chega deste neoliberalismo desvairado.
Fabio Passos diz:
27/09/2008
O neoliberalismo não acabou... nós é que precisamos dar cabo dele!
Viva la revolución!
http://fc53.deviantart.com/fs24/f/2007/312/e/1/From_Guevara_to_Chavez_by_BenHeine.jpg
Ben Heine!
altamiro souza diz:
26/09/2008
parabéns, professor pela coerência do comentário...a saída mesmo, entre outras, é a luta pela hegemonia de uma alternativa que está sendo construída pelos movimentos sociais etc, que se reunem no forum social...Outro mundo é possível, é preciso continuar lutando para construí-lo...Quem sabe possamos superar a contradição entre dominação global e apropriação privada - aliás, essa questão me parece a fundamental de tudo e mereceria maiores aprofundamentos...
Filipe Rodrigues diz:
26/09/2008
Queremos todos a volta do modelo keynesiano ou bem-estar social, contra a precarização do trabalho e pelas políticas de pleno emprego, pelo gasto estatal na infra-estrutura (petróleo, rodovias, ferrovias e etc) e no social (saúide, educação etc).
Alexandre Vianna diz:
26/09/2008
Emir,
Saúdo a você por idéias tão lúcidas.
Acredito, no entanto,que a realidade é algo inexorável e que nos impõe certos limites.
Este ano percebemos claramente a existência de alternativas, como você bem falou, ao projeto neoliberal.
Há a alternativa política: na América do Sul
Há a alternativa econômica: na China
Há a alternativa, enfim, militar: na Rússia (como o episódio da Ossétia do Sul demonstrou)
Mas apesar disso, não é visível no horizonte uma clara queda da hegemonia americana. Ela se construiu por décadas e não demonstra assim tão claros elementos de seu fim.
É provável no entanto (como diria Fiori) um declínio do unilateralismo americano.
Diante deste quadro visível, podemos situar melhor o Brasil (que é a nossa realidade, afinal de contas).
Os modelos que vêm sendo implementados em outros países da América do Sul ainda têm uma condução muito tímida neste nosso gigante.
A partir de 2010 será necessário uma nova polarização do país para que ele caminhe em uma direção oposta ao neoliberalismo. Como diria Cristovam Buarque, Lula despolarizou o país para garantir a governabilidade e um candidato futuro não terá as mesmas condições que ele teve para levar adiante um projeto político (que não é reformista, mas apenas programático, pois Lula não tem maioria).
Assim, um candidato de esquerda ás próximas eleições deverá caminhar no sentido de buscar três grandes prioridades.
1) Uma revisão dos processos de privatização (especialmente na área dos recursos naturais - vide Vale)
2) uma revisão nas concessões de rádio e tv para garantir a existência de uma vasta rede de comunicação pública
3) uma reforma política que reduza ou elimine os financiamentos privados em campanhas políticas.
Essas seriam as mudanças estruturantes do país que possibilitariam um salto gigante para o futuro, na minha opinião.
E se isso acontecesse, a alternativa política da América do Sul poderia se tornar a alternativa viável ao neoliberalismo vigente hoje no mundo.
Um abraço.
HEITOR CLÁUDIO LEITE E SILVA diz:
26/09/2008
Como um trotskysta histórico, não posso deixar de aceitar o desafio do professor e caro companheiro, que por sinal, sou solidário em relação a um fascistóide de plantão, que sabemos de quem se trata! O programa de transição já definia, em sua elaboração, o fim das peripécias imperialistas, á partir de uma série de elaborações de concluia com o que, hoje, chamamos de globalização. Estou errado, professor? Portanto, acho que a política de frente única anti-imperialista está mais correta que nunca, seja no terreno da s ilusões, onde uma reivindicação por moradia acaba incorrendo em retirar dinheiro do superávit primário e, portanto, uma luta prática e direta contra o império, na medida que retira o dinheiro que iria para seus cofres, seja na luta em defesa incondicional de Evo Morales ou da retirada do Exército do Haiti, que vai contra sua polítcas de ocupação para maior exploração dos povos atrasados e pobres!
Na frase socialismo ou barbárie, acho, Davidovich preparava-nos terreno contra os reformistas de plantão. Veja o que fêz alguns companheiros nossos, professor? Que na defesa de teses reformistas, acabou captulando de forma vergonhosa e corrúpta!
Um grande abraço e firmes em direção a uma sociedade justa fraterna e igualitária!
Druida Obelix diz:
26/09/2008
Com desculpas ao ilustre professor, penso que a análise seja precipitada e não esteja correta. A hegemonia política americana não cessará como fruto da presente crise financeira. Não devemos confundir vontade com realidade. Ainda que os valores envolvidos pudessem corresponder à 10, 20 ou 30% do PIB anual americano, e parece que algo entre o primeiro número e o segundo número é o mais aproximado, isso pouco representa sobre o estoque de capital acumulado, capacidade efetiva de inovação científica e tecnológica, ademais do evidente e sem contraponto poderio militar.
O que pode sim ser mitigado como consequência da crise é o modelo neoliberal, tal como o conhecemos, e ainda assim tomando enorme cuidado pois o que o tal "mercado", essa entidade quase sobrenatural sem personalidade definida, tentará fazer com toda a sua força será a simples socialização do prejuízo para que possa continuar na farra da apropriação de riquezas. Não há horizonte visível, contudo, para o decaimento da hegemonia política americana, vez que ela é fruto de variáveis muito mais complexas e contínuas do que a simples crise financeira atual.
ismael diz:
11/12/2008
ola emir.. sera que vc pode min ajudar..tenho uma questao a responder e nao sei a resposta.. olhaew.
(Unrio- rj)
os acontecimentos da segunda metade desse seculo geraram. novos problemas materias que todas as sociedades todos os seres humanos precisam enfrentar...
a afirmaçao do historiador Eric.Hobsbaw aponta principalmente para tres problemas fundamentais que as sociedades deveram enfrentar e que podemos constatar no nosso dias.. sao eles....
a) crise de confiança dos governos socialistas,a expanso do modelo liberal burgues, a bipolarizaçao do mundo na decada de 1990.
b) poluiçao sonora decorrente dos coglomerados urbanos, o trafico de drogas internacional e a politica do apaziguamento.
c)violencia urbana, a explosao de doenças infecto/contagiosas e os problemas de derivados global.
d) explosao demografica, a crescente desigualdade entre paises ricos e pobres e conjunto de problemas ecologicos.
e) desemprego estrutural, a ameaça das guerrras atomicas e o perigo do ressurgimento dos modelos libeirais.
se poder responder agradeço..!!