17/11/2008
A ditadura militar terminou, porém o Brasil continuou a ser o país mais desigual da América Latina – o continente mais desigual do mundo. Continuamos a ser assim uma ditadura social, em que as mesmas elites se apropriam, de geração a geração, do substancial da riqueza material e simbólica, ao mesmo tempo que ocupam os postos de poder político e ideológico.
A transição da ditadura à democracia foi política, de substituição de um sistema por outro, mas nenhuma reforma substancial promoveu a democratização econômica, social e cultural do país. Ao contrário, desde então o poder do sistema bancário e financeiro só aumentou, da mesma forma que o poder sobre a terra, o mesmo ocorrendo com o monopólio privado da mídia. (Recordemos que o Ministro das Comunicações do primeiro presidente civil foi ACM que consolidou a repartição do sistema de comunicações).
Estes são dois dos principais nós que obstaculizam a construção de uma democracia com alma social no Brasil: romper a hegemonia do capital financeiro e o monopólio privado da mídia.
As mais altas taxas de juros reais do mundo, a autonomia do Banco Central, são expressões dessa hegemonia, que é uma trava para um crescimento maior da economia, para um processo muito mais extenso e profundo de distribuição de renda, para a disponibilização de muitos mais recursos para os investimentos públicos e para as políticas sociais.
A mesma política neoliberal que provocou a crise econômica atual no mundo, levou, no Brasil, com o governo FHC, à quebra da nossa economia três vezes. A desregulamentação liberou o capital para buscar os maiores rendimentos, com menor – ou nenhuma tributação – e maior liquidez. Se deu um gigantesco processo de transferência de capitais para o setor financeiro e, mais diretamente, para a especulação, promovendo a financeirização do Estado e da economia.
Os diagnósticos consensuais sobre as causas da crise internacional fortalecem ainda mais a necessidade de quebrar essa hegemonia do capital financeiro. O que só pode ser conseguido terminando com a impunidade da sua livre circulação, induzindo investimentos produtivos e desincentivando a especulação. Tendo uma orientação clara de diminuição sistemática da taxa de juros – que remunera justamente o capital especulativo -, para o que é necessário terminar com a independência de fato do Banco Central, subordinando-o a uma direção econômica única e centralizada do governo.
Sem quebrar esse poder do capital financeiro, o Brasil não poderá dar continuidade ao ciclo expansivo da economia, agora com um contexto internacional desfavorável. Esse ciclo contou com um grande esforço de investimento por parte do Estado, com a diversificação do comércio exterior, com a extensão e aprofundamento do mercado interno de consumo de massas. Tudo isso apesar da taxa de juros mais alta do mundo, apesar do capital financeiro. Um luxo que o país não pode seguir tendo.
Da mesma forma, a quebra do monopólio privado da mídia, que fabrica uma opinião publica restrita, condicionada fortemente pelos laços da publicidade que financiam a mídia. A grande massa majoritária da população brasileira já demonstrou que pensa de forma totalmente contrária ao que a mídia afirma, no entanto não encontra espaços próprios para desenvolver e difundir suas opiniões.
Qualquer que seja a avaliação que se tenha do governo Lula, esses dois nós restam como obstáculos ao avanço econômico, social, político e cultural do Brasil na direção de uma sociedade justa, democrática, solidária, humanista.
Postado por Emir Sader às 06:29
Amauri diz:
19/11/2008
eu não entendo essa economia louca, nem governo algum, pois:
o trabalhador passa a vida toda sonhando em ter um determinado bem, ex: um carro 0 km e não consegue.
uma tal montadora, passa a vida toda vendendo milhões de unidades e aí basta rumores de uma crise, que já se fala que a tal montadora ta em crise, que vai quebrar e que precisa da ajuda do governo (do nosso dinheiro), e o pior é que os governos alegando que se tal montadora quebrar serão milhares de desempregados, então dá dinheiro pra tal montadora.
e o pobre trabalhador continua sem realizar o seu sonho, e com o "direito" de pagar todos os impostos para os governos fazerem caixa para enfiarem no..., digo socorrerem as tais montadoras.
eu sou muito burro mesmo, não entendo nada de economia.
marroni diz:
18/11/2008
Sr. Gregorio Caseiro,
Obrigado pelo seu comentário.
O sentido é que a crítica deve ir além da simples reclamação, do espernear impotente. A crítica pela crítica, essa denúncia que muitos concordam, se esgota em si mesma. Toda crítica que se contenta apenas com seu próprio discurso é estéril e auto-indulgente e disso o mundo está farto.
Importa que ela indique um caminho, que conduza a uma práxis. A pertinência da crítica está em não esperar que "outro alguém faça alguma coisa" a partir da denúncia, mas que ela induza a própria ação diante dos fatos criticados.
Criticar deveria propor mudança nos comportamentos, provocar a Crise, um retorno a sua raíz etimológica. Em outra palavra: Agir.
Quanto aos monopólios:
Já desligou sua televisão?
Já cancelou suas assinaturas de jornais e revistas?
Já cancelou sua conta no banco?
É isso que importa.
"Os filósofos têm interpretado o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformar o mundo." (Karl Marx: XI Tese sobre Feuerbach)
Gregorio Caseiro diz:
18/11/2008
O Marroni que comentou: "A crítica só é pertinente se propuser também a solução." deve estar brincando....quer dizer que quando se sabe que algo está errado não se deve criticar a menos que se tenha a solução? e como fora obtida esta solução? provavelmente pela onisciencia do Marroni...toda crítica é válida. As soluções devem ser discutidas....a"lógica só se forma socialmente pelo diálogo"(Debord)
Marroni diz:
18/11/2008
A crítica só é pertinente se propuser também a solução. Diagnosticado o problema dos monopólios, interessa quebrá-los. A internet com suas fontes de informação alternativas ameaça o monopólio da grande mídia. As pessoas deveriam procurar outros e novos conteúdos na web e desligar suas televisões, deixar de comprar essas revistas e jornais ao invés de criticar seu conteúdo. O monopólio financeiro será quebrado quando as pessoas também decidirem não mais ter contas em bancos ou pelo menos se recusarem a deixar seu dinheiro depositado neles. Esperar que qualquer governo financiado eleitoralmente por esses dois monopólios mude o status quo é ingenuidade. Se somos contra esse estado de coisas, devemos agir de acordo, não participando ou contribuindo para sua perpetuação. O resto é choro dos descontentes.
orlando sp-sp diz:
18/11/2008
Caro Emir.
Seu texto é muito oportuno, porém em algumas passagens me parece até óbvio.
-->Nossas elites sempre mudaram para que tudo fique exatamente igual.
-->Foi assim na abolição, proclamação da república e tantas outras mudanças.
-->O governo Lula é pragmático(o que não tem nada de errado) e conseguiu bons avanços sociais, claro, dentro do que permite o capitalismo.
--->Acabei de saber que em 2007 700 mil crianças passaram fome nos EUA.
-->Não temos no Brasil partidos capazes de transformar
a sociedade através da mobilização popular.
--->O PT preferiu apenas chegar ao poder e praticamente abandonou essa mobilização.
--->Não me considero enganado ou traído, pois sempre soube que Lula nunca foi de esquerda no sentido filosófico e político da palavra.
--->E não sou tão ingênuo de achar que Lula conseguiria introduzir mudanças profundas no Brasil. Barak Obama também terá dificuldades nos EUA.
-->Mas Lula esqueceu o principal: A Educação.
--->As sociedades primitivas tinham a oralidade e, ao transmitir suas histórias para as crianças, iam desenhando o futuro e ao mesmo tempo consolidando o passado nos corações e mentes das crianças.
--->Nossas pobres crianças estão à merce do que há de pior na educação, com histórias deformadas sobre nosso passado e sem nenhuma perspectiva de futuro.
--->Quanto a mídia, então, aí temos a destruição total dos neurônios, tanto dos pais quanto dos filhos.
---->A televisõa não vai mudar. Então mudemos a cabeça dos cidadãos para que não assistam essa baboseira.
-->Leva tempo, mas eu já faço minha parte. Tenho um filho de 12 anos. Não o proibo de assistir televisão, mas sempre faço meus alertas e procuro contar nossas historias verdadeiras sobre o Brasil.
--->A depender da escola que ele frequenta(pública) e se eu não tivesse uma cultura geral excelente, ele estaria perdido como tantos outros garotos do país.
--->Sou de esquerda, mas tenho certeza que Lula não está interessado em mudar a essência do capitalismo.
-->ao liberar dinheiro para banqueiros, empreiteiras e outros empresários que apostaram no cassino, dá prá ter uma idéia.
--->As montadores agora vem com a mesma ladainha de falta de recursos, cortar empregos. Simples: não tem
condições de administrar com competência, confisquem a empresa e deixem os funcionários gerenciá-la.
--->Agora, falando sério, vocês acham que isso vai acontecer aqui? E olha que isso pode ser feito usando apenas nossa legislação. Nem precisa mudar o sistema.
-->Basta ter coragem.
-->Lula tem?
-->Fábio Konder Comparato fundou uma Escola de Política, onde o único requisito para participar e querer mudar e não só adquiri conhecimento. As pessoas sõa selecionadas não por sua condição escolar, econômica.
-->Um dos melhores "alunos" é justamente uma pessoa que, apesar de não culta, possui espírito de liderança e capacidade de tornar realidade a teoria. Não podemos acusar Fabio Comparato de oportunista. Poderia estar milionário advogando, mas preferiu o sacerdócio de ensimar direito e, quem sabe, formar advogados que tenho na ética sua conduta basilar.
Carlos Henrique Simões da Costa diz:
17/11/2008
Como sempre suas opiniões são a expressão de uma lucidez gigantesca para o diagnótico dos reais problemas dessa Sociedade excludente em que vivemos. O quadro social perverso, existente no Brasil, continua o mesmo, em seu ordenamento fundamental, desde a colonização. Novos atores e dados surgidos, apenas mudaram a aparência, mas a essência, formada pela concentração da riqueza, da terra e da informação, continua a mesma. Até alguns aspectos explicítos da desigualdade mantêm-se imutáveis em sua aparência:qual a diferença dos latifúndios atuais para aqueles da época das capitanias hereditárias? Nenhuma, refletem a mesma Sociedade construída para poucos, que instituiu uma ditadura midiática terrível, na qual trez famílias controlam quase todos os meios de comunicação do país; e mantém um Capitalismo Financeirizado irresponsável e desumano, capaz de sustentar, na presidência do Banco de controle, um radical neo-liberal, Henrique Meirelles, totalmente voltado para a satisfação dos interesses dos banqueiros, condenando o país ao eterno papel de refém da especulação, impondo suas teses econômicas absurdas a um Governo Popular, que não foi capaz de enfrentar o poderio financeiro; e ainda sendo esse sujeito transformado em herói pela oligarquia midiática. Sem contar que todo o resto do aparato institucional, Justiça, Política, Controladoria; continua dominado por oligarquias, que impedem o acesso democrático ao controle dessas instituições, exercendo sobre elas um controle dinástico e utilizando-as para a perpetuação de seus privilégios. Superar esse quadro ditatorial, através da pressão popular visando a democratização do acesso às estrutura de poder, a elaboração de uma nova Constituição e o acesso pleno ao conhecimento é o caminho indispensável para a alteração desse modelo secular de opressão.
Carlos Henrique Simões da Costa diz:
17/11/2008
Como sempre suas opiniões são a expressão de uma lucidez gigantesca para o diagnótico dos reais problemas dessa Sociedade excludente em que vivemos. O quadro social perverso, existente no Brasil, continua o mesmo, em seu ordenamento fundamental, desde a colonização. Novos atores e dados surgidos, apenas mudaram a aparência, mas a essência, formada pela concentração da riqueza, da terra e da informação, continua a mesma. Até alguns aspectos explicítos da desigualdade mantêm-se imutáveis em sua aparência:qual a diferença dos latifúndios atuais para aqueles da época das capitanias hereditárias? Nenhuma, refletem a mesma Sociedade construída para poucos, que instituiu uma ditadura midiática terrível, na qual trez famílias controlam quase todos os meios de comunicação do país; e mantém um Capitalismo Financeirizado irresponsável e desumano, capaz de sustentar, na presidência do Banco de controle, um radical neo-liberal, Henrique Meirelles, totalmente voltado para a satisfação dos interesses dos banqueiros, condenando o país ao eterno papel de refém da especulação, impondo suas teses econômicas absurdas a um Governo Popular, que não foi capaz de enfrentar o poderio financeiro; e ainda sendo esse sujeito transformado em herói pela oligarquia midiática. Sem contar que todo o resto do aparato institucional, Justiça, Política, Controladoria; continua dominado por oligarquias, que impedem o acesso democrático ao controle dessas instituições, exercendo sobre elas um controle dinástico e utilizando-as para a perpetuação de seus privilégios. Superar esse quadro ditatorial, através da pressão popular visando a democratização do acesso às estrutura de poder, a elaboração de uma nova Constituição e o acesso pleno ao conhecimento é o caminho indispensável para a alteração desse modelo secular de opressão.
Fabio Passos diz:
17/11/2008
Falou e disse Emir Sader!
São as questões capitais.
O regime é exercido pela imposição dos interesses do capital e do mercado sobre os interesses da sociedade.
E a máquina de propaganda do regime é a mídia-lixo-corporativa.
Por mim... a revolução começa hoje.
Cassio diz:
17/11/2008
Mas o Lula já criou a TV Brasil deu um orçamento milionário pra ela, do nosso bolso.
O problema é que ninguém quer ver o que ela passa.
Se as pessoas querem de fato ver outra coisa, ler outra coisa, existe uma oportunidade de mercado não atendida.
E se tem gente que acredita nisso, deve saber então o que o povo quer ver e ouvir. Por que não captar investidores, ou ir dirigir a Tv Brasil e mais umas publicações de tiragens irrisórias?
Chauke Stephan Filho diz:
17/11/2008
Eminente Professor
Quando eu entro numa banca de revistas e dentro dela vejo as publicações da Editora Abril e outras que tais, sinto-me mortificado, tal é a contrariedade por que passo diante de tanta tendenciosidade em pró da aliança imperialista de Israel com os senhores ianques do mundo. Então, revoltado, eu penso: não estou numa banca de revistas, mas numa banca de lixo. Saúde!
Alexandre Marques diz:
17/11/2008
Sr. Emir. Saudações efusivas sinceras.
Conheci o BCM há pouco mais de um ano. A realidade fere mas enfim há alguém que conseguiu materializar um espaço para ela. Meirelles anunciado em solo dos EUA, Banco Mundial investindo nas bolsas(família-escola), mídias de massa sob controle mais cerceamento da sua democratização mesmo frente ao custo menor em função dos avanços tecnológicos, apropriação da poupança do trabalho com a forçada legalização de práticas financeiras espoliantes como recordes de juros extratosféricos por décadas. Ativos que ora valem, ora não valem, ora não valem, ora não valem nem duram uma fração de espelhinhos e contas de vidros, trocados por terra com água e sol e outras commodities de valor intemporal e inquestionável, A eugenia a serviço do holocausto é explicita e a raça inferior é a dos pobres que tem as opções da miséria ou do extermínio.
Enfim uma fresta para espiar, que já é uma grande janela para ver. Domesticada mídia e encabrestados intelectuais agora terão mais e mais pessoas sabendo da sua covardia e da sua venalidade. A verdade liberta e a liberdade mostra quem é quem.
Bom trabalho Emir.
clovis eduardo vicentino diz:
17/11/2008
Na minha modesta opinião, de nada adianta " terminando com a impunidade da sua livre circulação, induzindo investimentos produtivos e desincentivando a especulação. Tendo uma orientação clara de diminuição sistemática da taxa de juros..."com este custo-brasil, com execesso de risco x lucro. No país da corrpção, falta punição.
Leonardo Günther diz:
17/11/2008
Concordo plenamente no que tange a democratização da mídia.
Mas na minha opinião, mais urgente é a redução da jornada de trabalho sem redução do salário.
Para que tenhamos uma democracia forte e de fato eficaz o cidadão necessita de tempo para exerce-lá, para pensar ela, para interagir com os demais convivas, para estudar, para criar, para ter acesso a cultura.
Entao, essas são as duas principais, ócio e democracia dos meios de comunicação.
abs e sorte
Pietro diz:
17/11/2008
Nao sei nao... na Russia, Cuba, Venezuela, alguns paises da Africa, todas estas condicoes foram atendidas e a sociedade democratica, justa, ..., etc ainda nao chegou.
Se, se acordo com seu argumento, a realidade que a midia "fabrica" e' condicionada por lacos publicitarios e as maiores verbas publicitarias vem exatamente do Governo, nao seria correto supor que a realidade reflete o grande anunciante?
Banco Central: A diretoria e' nomeada pelo Governo. Quao independente e' o BC?
Na minha opiniao a sociedade que voce postula e que todos nos queremos nao vem de simples medidas administrativas, nao.
Ela vira', sim, quando o poder aquisitivo da maioria da populacao aumentar em decorrencia de uma Educacao melhor, de uma Economia mais centrada em Producao e menos especulativa.
Quando o emprego pleno nao significar emprego publico e a classe media for composta de professores, policiais, enfermeiras, bancarios, industriarios e , sim, funcionarios publicos.
Estamos ha' pelo menos duas geracoes de chegar la'... 40 anos, se comecarmos hoje. Nao ha' futuro senao na Educacao das novas geracoes. Gente educada, vota melhor, conhece seus direitos e luta por eles.
Com todo respeito, Emir, justica social nao vem por decreto.
Alceste Pinheiro diz:
17/11/2008
Professor Emir,
Permita-me uma pergunta que novamente ficará sem resposta: o que esse governo fez para travar esse monopólio sem-vergonha e antidemocrático?
Ao que me recorde, o Presidente Lula só fez fortalecê-lo. Quer não fazendo nada em contrário, quer não propondo alternativas, quer indo na onda de seu ministro das Comunicações, quer instalando um sistema digital que contraria os inteerses populares, quer chorando lágrimas amargas sob o corpo inerte do capo Marinho, exposto na mansão do Cosme Velho.
Julia diz:
22/11/2008
Emir, vc poderia escrever ou indicar um texto não muito erudito sobre as vantagens do socialismo sobre o capitalismo Eu sei, para nós são óbvias essas vantagens, mas meu filho de 15 anos não consegue entender e ele quer bons argumentos...