28/06/2009

O eixo do caos

A exportação dos seus problemas é uma das características da estratégia imperial dos EUA. É o complemento indispensável da “missão civilizadora” que se atribui como potência pelo mundo afora. Não houvesse um mundo selvagem fora, não se poderia justificar a ação “civilizatória” que os EUA reivindicam.

Em janeiro de 2002, George W. Bush, então presidente dos EUA, anunciou a existência de um “eixo do mal”, que promoveria o terrorismo, os ajudaria a obter armas de destruição em massa, etc., etc. Três países seriam os membros mais importantes desse eixo: Irã, Iraque e Coréia do Norte. As duas “guerras infinitas” a que se meteu os EUA se fundavam nesse enfoque: invasões do Afeganistão e do Iraque.

Agora, sem que se tenha fechado esse período, os ideólogos da doutrinas das “guerras preventivas” apontam para um novo eixo: o "eixo do caos". É o que anuncia Niall Ferguson, intelectual orgânico da estratégia norte-americana, na edição espanhola do Foreign Policy. Esse novo eixo contaria com “pelo menos nove membros e talvez mais”. Estariam unidos “pela perversidade de suas intenções assim como por sua instabilidade, que a crise financeira só faz piorar a cada dia”.

Segundo Ferguson, a “turbulência brutal” que caracterizaria o mundo atual teria três causas primárias: a desintegração étnica, a volatilidade econômica e o declínio dos impérios. No Oriente Médio os três fatores estaria fortemente concentrados, justificando, segundo ele, sua situação explosiva.

A revista seleciona três casos dessa lista “caótica”: Somália (“a anarquia interminável”), Rússia (“o novo estilo agressivo) e México (“as misérias causadas pela guerra do narcotráfico"). São três casos de uma lista de nove membros do suposto eixo do caos.

Gaza, a partir da frustrada ofensiva militar de Israel, viu piorar suas condições econômicas e sociais, ao mesmo tempo que fortaleceu o Hamas e enfraqueceu as forças consideradas moderadas – como o Fatah e o Egito, ao mesmo tempo que favoreciam a eleição de um governo de direita radical em Israel, dificultando mais ainda qualquer nova iniciativa de paz na região.

Claro que o Irã faz parte também desta lista, porque apoiaria às forças desestabilizadoras na região – Hezbolah no Libano, Hamas na Palestina -, possuindo armamento nuclear, enquanto sofre os efeitos da crise econômica internacional e da baixa do preço do petróleo.

O Afeganistão, evidentemente, seria outro pivô do eixo do caos, agora fazendo um casal inseparável com Paquistão. Os governos dos dois países estariam “entre os mais fracos que existem”, envolvidos entre taliban e armamento nuclear.

Outros membros do eixo seriam a Indonésia, a Turquia e a Tailândia, onde a crise exacerba os conflitos internos. Mas usar estes critérios permite estender a lista muito mais, então se fala da pirataria na Somália, na guerra na República Democrática do Congo, na violência em Darfur e em Zimbabwe. E se ameaça: “Não é arriscado dizer que a lista vai aumentar ainda este ano.” O diagnóstico remeteria a três fatores, que se articulariam entre si: “a volatilidade econômica, mais a desintegração étnica, mais um império em declive: a combinação mais letal que existe em geopolítica.” O que apontaria para o inicio de uma “era do caos”.

Os casos escolhidos servem como exemplos. A Somália seria “o lugar mais perigoso do mundo”, um “Estado governado pela anarquia, um cemitério de fracassos em política exterior que só conheceu seis meses de paz nos últimos vinte anos”, onde “o caos interminável do país ameaça devorar toda uma região.”

Na Rússia, “Putin baseou seu apoio popular em um Estado autoritário que fez crescer as rendas mais altas e devolveu à Rússia o orgulho de grande potência. Mas a crise está ameaçando tudo. E o que se avizinha pode ser pior.” Já o México estaria em um “estado de guerra”, em que os narcotraficantes “se converteram em uma autêntica insurgência. Só no ano passado a violência cobrou mais vidas do que estadunidenses mortos no Iraque. E o fim parece próximo.”

Da mesma forma que ocorria quando se anunciou “o eixo do mal”, nenhum diagnóstico global para definir o que tem a ver a globalização, a dominação imperial estadunidense, os modelos econômicos neoliberais tem a ver com isso. Se naturaliza o caos. Ele não seria uma das conseqüências da “ordem global”, da “ordem imperial”, da “ordem estadunidense” no mundo.

O terror se combatia com “guerras infinitas”. E esse suposto “caos”, quando os centros do sistema, eles mesmos, geram caos, insegurança, instabilidade, miséria, concentração ainda maior de pode e riqueza, industrias bélicas em crescente expansão? Somente outra ordem, outro mundo, pode diagnosticar e superar o caos – tanto nas periferias, quanto nos centros agonizantes do sistema financeiro global.

Postado por Emir Sader às 07:21

9 Comentários

Jair Macedo diz:

29/07/2009

O império, agora, elege mais um pretexto para justificar sua agressividade contra os povos, e desviar a atenção da população do caos vividos internamente pelos milhões de americanos deseperados por trabalhos, perda de moradias, adquiridas através de ofertas mirabolantes de um sistema perverso.

jose carlos lima diz:

30/06/2009

"(...)blogs como o seu estão se espalhando aos montes, conforme post recente seu abordando o assunto, e esse movimento é irreversível, as pessoas querem democracia, liberdade de expressão, valores que nos foram negados desde 1500. A Internet, cedo ou tarde, tomará o lugar dos grandes veículos de comunicação (..)" (Dario). Ao dar uma olhada em jornais expostos numa banca vi que todas as notícias estavam defasadas por um simples motivo. Eu já havia lido tudo na internet e, o melhor, com comentários isentos, o que não ocorre no imprensalão. Fiquei com a impressão de que eles tinham ido ao google para copiar os textos, adaptar ao seu modo e colocar no jornal. Jornal de papelão prá que? Prá derrubar as árvores? O futuro são blogs como o seu, daí as ameaças. O Congresso Nacional quer censurar a web nas eleiçoes http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2009/06/29/04023366C0B15346.jhtm?com-medo-politicos-querem-restringir-internet-em-eleicoes-04023366C0B15346

Maurício Fiederichs da Silva diz:

29/06/2009

Hoje,vendo a geopolitik, não vejo mais motivos para culpabilizar EUA pelos desvarios de alguns de seus representantes. É um povo oprimido como outros, com a diferença de ser pago para se calar, ao invés de ser sufocado. Mas com a crise, o seu stablishment não há de se manter, pois o american way of life não terá de onde suprir sua fome de glutão e a ruína poderá ser uma solução. Mas no texto assustam as mensões a "outra ordem" - leia-se nova ordem mundial

Fabio Passos diz:

29/06/2009

Oficialmente eles negam... mas será que tem a pata suja dos ianques nesta patifaria em Honduras?

"
The Coup in Honduras
Obama's Real Message to Latin America?
by Nikolas Kozloff
"
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=14161

Olha só a explicação do porque desta atitude covarde dos oligarcas golpistas...

"
Zelaya began to criticize powerful, vested interests in the country such as the media and owners of maquiladora sweatshops which produced goods for export in industrial free zones. Gradually he started to adopt some socially progressive policies. For example, Zelaya instituted a 60 per cent minimum wage increase which angered the wealthy business community...
"

Sandro Machado diz:

29/06/2009

Caro Emir Sader: O mundo todo está condenado o golpe criminoso das elites civis e militares de Honduras. Já a grande mídia brasileira, dando uma lida hoje em seus sites e jornais, está onde sempre esteve, do lado anti-democrático e golpista

Índio Tupi diz:

29/06/2009

Caro Emir Sader,
Aqui do Alto Xingu, os índios sugerem que a administração do "site" Cartamaior disponibilize no próprio "site" o curso "Reading Capital", de Karl Marx, ministrado pelo Professor David Harvey em 14 vídeos (em Inglês), e disponível em www.davidharvey.org
Com o tempo, mediante ajuda de dois ou três professores universitários, especialistas em Inglês e na obra do Marx, e com financiamento de órgãos de pesquisa (Finep), o "site" providenciaria a tradução dos vídeos e edição com legendas em Português, para posterior disponibilização no "site".
Poderia ser feita uma parceria com a Boitempoeditorial, com vistas à disponibilização dos vídeos e, no futuro, das traduções nois dois "sites".
O Professor David Harvey ministra esse curso sobre o "O Capital", de Marx, há mais de 40 anos, sendo que, em alguns anos, mais de uma vez. Segundo o Professor Harvey, cada curso permite-lhe captar mais significados nos ensinamentos de Marx, tendo em vista que a realidade muda, o nível de especialização ou de conhecimento geral de seus alunos -- alguns até professores, filósofos, economistas, historiadores, linguistas, etc. -- proporcionam novos lampejos, e seu próprio conhecimento se aprofunda, permitindo-lhe, assim como aos alunos, extrair dessa obra prima novos significados.
Os índios já fizeram essa sugestão na parte do "site" cuja curadoria é do Professor Chico de Oliveira, mas não tiveram retorno.

William Mendes diz:

28/06/2009

Professor Sader, hoje os militares executaram um golpe de estado em Honduras. Eu tenho dito que nós não temos muito como fugir de ondas políticas e econômicas. Tenho andado preocupado, cismando que a qualquer momento os EUA começarão a promover (ou "não fazer nada contra") golpes de direita, militar ou midiáticos, para derrubar os governos progressistas que vigoraram na década de 2000 por aqui, com esses argumentos citados em seu artigo. Creio que a catarse dos golpes pode novamente nos levar ao imobilismo por toda a América em termos de não fazer a resistência imediata).

Fabio Passos diz:

28/06/2009

O grande perigo para a humanidade é a ditadura estadunidense.

Onde os eua colocam suas patas sujas - e fazem isso por todo o globo - provocam destruição e sofrimento em massa.

Estes ianques não tem um pingo de vergomha na cara...

Rubin diz:

28/06/2009

Lembro bem que, nos meses anteriores à eleição presidencial de 2002 na qual Lula sairia vitorioso, a imprensa americana batia insistentemente na tecla de que Lula levaria o Brasil a fazer parte do tal "eixo do mal".
Comparavam Lula aos líderes dos países do "eixo" e vaticinavam os desdobramentos sinistros que sua eleição traria.
Muitos textos absolutamente delirantes, originados da extrema direita americana, ganharam espaço na grande imprensa dos EUA e até mesmo na imprensa brasileira.
Com o beneplácito - e certamente a colaboração - da direita brasileira, desesperada com a inevitável eleição do "barbudo".
Como somos um país de memória curta, lembro também a estratégia da direita, altamente prejudicial ao país, que levou pânico aos mercados, subida do dólar, alta da inflação, etc.
Agora só escapamos dessa nova teoria em função do inegável sucesso dos dois mandatos de Lula, em todos os aspectos.
Em que pese seu afastamento das causas sociais e econômicas mais urgentes, que exigiriam ações mais concretas e algum grau de enfrentamento do grande capital, interno e externo.
Não fosse esse sucesso, estaríamos agora, com certeza, na lista desse novo "eixo".

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