04/07/2009
Três acontecimentos simultâneos refletem, em direções distintas, os dilemas latinoamericanos atuais: o golpe em Honduras, a derrota eleitoral dos Kirchner na Argentina e a escolha dos candidatos a presidente para as eleições uruguaias. Os três apontam para o tema da continuidade e aprofundamento dos processos de transformação que estão vivendo grande parte dos países latinoamericanos ou a restauração conservadora, com o retorno da direita aos governos da região.
O golpe em Honduras – que tem possibilidade de ser revertido pela rejeição internacional e pelas mobilizações populares internas – aponta para a tentativa do presidente Zelaya de obter um segundo mandato via referendo, para dar continuidade ao processo recém iniciado de transformações internas na contracorrente do neoliberalismo até então vigente no país. O golpe, por sua vez, dado pela cúpula do Judiciário, das FFAA e do Congresso, expressa a inércia das forças conservadoras que sempre dirigiram a Honduras. Zelaya, filho desgarrado do Partido Liberal que, em rodízio com o Partido Conservador, dirigiram por décadas ao país, de forma praticamente harmônica.
Como sinal dos tempos e da perda de influência norteamericana, especialmente durante o governo Bush, a onda de novos governos no continente chegou à América Central, através da Nicarágua, de Honduras e, mais recentemente, de El Salvador. A direita, comandada pela imprensa oligárquica – similar à que se estende a praticamente todo continente -, se precipitou e pode pagar um preço caro por isso. Zelaya termina seu mandato no fim do ano, já havia afirmado que a consulta informal, caso levasse à introdução da reeleição, não afetaria seu mandato, que terminaria em janeiro de 2010.
Confirmando que se pode tudo com as baionetas, o golpe dificilmente viabilizará o governo que pretende se instalar. Resta saber se Zelaya retornará enfraquecido, cumprindo o final do mandato seu capacidade de iniciativas, abandonando o referendo. Ou se sentirá fortalecido, retomando a consulta e punindo pelo menos alguns dos golpistas. Caso ocorra esta segunda hipótese, o tiro terá saído pela culatra para a direita e Zelaya poderá dar continuidade ao processo de transformações recém iniciado em Honduras. Se a ofensiva fracassa, como havia acontecido com as aquelas contra Hugo Chavez, contra Lula, contra Evo Morales e contra os Kirchner, se consolida a idéia de que o contexto continental impede novos golpes militares, notícia importante para os governos progressistas e, na área, para o recém começado governo de Mauricio Funes em El Salvador, em particular.
A derrota eleitoral do governo Kirchner se dá no marco da contraofensiva da direita, iniciada com a mobilização do campo contra a elevação de impostos, no cenário dos ganhos monstruosos que, especialmente a exportação de soja, permitiu nos últimos anos na Argentina. Aproveitando-se do erro do governo de taxar a grandes, médios e pequenos proprietários de maneira indiferenciada, favorecendo a unificação do campo sob a direção dos grandes exportadores sojeros, a direita conseguiu articular aliança desses setores com a classe média branca de Buenos Aires, colocando o governo na defensiva. As eleições refletem essa mudança na relação de forças entre governo e oposição, com o governo perdendo maioria no Parlamento e condenando a Cristina Kirchner a difíceis 2 anos e meio, alem de alentar a direita para a possibilidade de conseguir derrubar o primeiro dos governos progressistas eleitos na região.
No Uruguai, o candidato que mais diretamente expressa a possibilidade de aprofundamento da superação do modelo herdado por Tabaré Vasquez, é seu ex-ministro da agricultura, Pepe Mujica, ex-dirigente tupamaro, que derrotou o candidato da preferência de Tabaré, o moderado Danilo Astori, ex-ministro da economia. Aqui, sendo favorito para ganhas as presidenciais, Mujica aponta para o aprofundamento das transformações começadas no Uruguai, enquanto na Argentina se aponta para o risco de uma restauração conservadora e em Honduras, depende do desenlace da crise. Trata-se dos mesmos dilemas do Brasil nas eleições presidenciais de 2010.
Postado por Emir Sader às 05:29
Raimundo W. S. Melo diz:
12/07/2009
Oligarquia golpista :
...a pesar de usted
mañana ha de ser
otro día
tendrá entonces que ver
al día renacer
derramando poesia
cómo va a explicar
ver ao cielo clarear
de repente, impunemente
cómo va a silenciar
nuestro coro al cantarle
bien de frente
apesar de usted
mañana ha de ser otro dia
(C.B. Holanda)
Sandro Machado diz:
07/07/2009
Caro professor: A questão é a seguinte: É bom que o Brasil e toda a América Latina fique de olho bem aberto, pois se houver golpe de estado em seu respectivo país, a imprensa toda estará do lado dos golpistas, e as Forças Armadas, tirando Venezuela, Bolívia e Equador, marchará todinha com os golpistas. No Brasil, por exemplo, a lei de Segurança Nacional, continua a mihão nas escolas militares nacionais. O dia 31 de março, é comemorado com festa pelas Forças Armadas, assim como seguidamente temos o desprazer de deparar com discursos reacionários e golpistas proferidos por altos membros das Forças Armadas do Brasil, não acontecendo nada com estes Generais anti- democráticos. Exemplo foi aquele General Heleno, comandante da região da Amazônia, afirmou com todas as letras, que devia obediência somente ao País e não ao Presidente da República, que é o Comandante em Chefe das Forças Armadas, conforme preceitua a Constituição da República. Como se vê, uma afronta a hierarquia presidencial, não tendo acontecido nada com este General, que pelo que falou, se vê claramente, é um GOLPISTA. Abre o olho ministra Dilma, pois esta será a futura presidente do Brasil, e contra ela pode nascer uma reação golpista, contra o Lula não vai dar, a reação popular ia ser avassaladora. Reflitamos sobre isso professor Emir Sader.
emir diz:
06/07/2009
O ministro de relações exteriores do governo de fato de Honduras afirmou sobre Obama: "Esse negrinho nem sabe onde fica Tegucigalpa."
Zilda diz:
06/07/2009
Fico impressionada com a diferença entre os povos de países pobres e insignificantes na AL como Honduras, Bolívia, El Salvador e nós, povo brasileiro. Eles são guerreiros, lutadores, vão atrás de sua dignidade e de seus direitos. Nós brasileiros somos passivos, acomodados, desfibrados. Só temos força para esbravejar nos comentários de blogs. Enquanto isso, a corrupção corre solta na sociedade - porque não é só no meio político que ela viceja e toma corpo. Temos um quadro gravíssimo de mau caratismo e corrupção permeando as ações do cidadão comum brasileiro que para mim, leiga, chega a ser preocupante. A nossa complacência com essas figuras considero como sendo um dos fatores que contribuem para esse quadro atual. Não é só "o mau exemplo que vem de cima".
Fabio Passos diz:
05/07/2009
O apoio ao assassino covarde "goriletti" vem de onde se espera...
http://www.rebelion.org/imagenes/t_05_07_2009.jpg
Douglas Yamagata diz:
05/07/2009
Vejo com grande preocupação este golpe em Honduras. Ao mesmo tempo que a mídia golpista critica o terceiro mandato de Lula, simplesmente não dá a mínima para um terceiro mandato de Uribe na Colômbia. Criticam insistentemente Chavez, Moralez, além de fazer o "meia culpa" em cima do Zelaya. Vejo com grande preocupação o nítido envolvimento da CIA não só em Honduras, mas também no Irã. Outra preocupação é a volta do Fascismo na Europa, como é o caso da Itália, que está perseguindo os imigrantes e prendendo-os.
Jose Carlos Medida diz:
05/07/2009
Seria necessário o governo ptista ensejar um projeto agressivo de construção de uma mídia vigorosa que apoiasse o governo e sua continuidade. A mídia chapa branca tem um alcance restrito, a blogosfera cresce mas não aparece com a força que tem. Agentes do governo deveriam ir aos agentes da mídia aberta e coopta-los para trabalharem pelo governo ptista. Esta pureza no trato das ações políticas é de fato só burrice, como pontuou acima o Romero. O governo ptista tem mesmo que chutar embaixo do saco da direita, e com força, pra alejar logo, imobilizar só não basta.
José Ricardo Romero diz:
05/07/2009
È difícil entender e aceitar o apoio do Lula ao Sarney. Mas é importante lembrar algumas coisas: nesta mesma época, em 2005, há pouco mais de um ano das eleições, FHC convocava a cúpula da direita e ordenava "vamos bater no Lula e sangrar o PT". Ele não podia acreditar que o governo de um metalúrgico "que não sabia falar inglês" estava dando certo e se encaminhava para a reeleição. Traiu o trato com o Lula de fazer uma oposição civilizada e democrática e partiu para o golpe! Uma semana depois começou o mensalão que pegou o governo de calças curtas e causou tantos prejuizos. Felizmente os eleitores perceberam a cascata e voltaram a apoir o lulapetismo. Agora o governo está escolado. Enquanto a diretita vem com o milho o governo está voltando com o fubá. As CPIs das ONGs, da Petrobrás e as denúncias no Senado concentradas no PMDB tem propósitos claramente golpistas. É absolutamente certo que se o PMDB se curvar às pressões e deixar de apoiro o governo e apoiar o Serra, como quer o Quércia em SP, acaba toda esta pressão e o escâncalo se esvazia em menos de uma semana.
Não sejamos, portanto, ingênios como são amadores alguns senadores petistas. É pau na direita. Isto aqui é uma guerra e ainda vai piorar. Qualquer delicadeza justificada pela mística da democracia e do estado de direito é burrice. A direita quer retomar o poder à força para cancelar a história de 2003 até hoje e recomeçar novamente desde 2002 para completar o 1º Reich dos 20 anos de poder preconizado pelo Serjão, gurú dos tucanos.
Fabio Passos diz:
04/07/2009
Além da mídia-corrupta no Brasil, "goriletti" tem outros admiradores na América Latina:
A organização neo-fascista UnoAmérica.
É o mesmo pessoal que participou da tentativa de assassinato de Evo Morales em Abril.
Saca só o naipe dos figuras…
”
De corte claramente neonazi, la organización sudamericana basada en Colombia, reune a ex militares que participaron en el siniestro Plan Condor, desarrollado por las fuerzas armadas de varios países del Cono Sur en los años donde impusieron dictaduras con el apoyo del gobierno estadounidense.
”
Basta ver quem está entusiasmado com “goriletti” prá saber do que se trata este golpe…
”
Organización neofascista UnoAmérica “reconoce” a los golpistas hondureños.
Por: Jean-Guy Allard.
”
http://www.todosconhonduras.org/index.php?lang=1&cont=articulo_interno&id=88
Fabio Passos diz:
04/07/2009
Oscar Niemeyer pede a participação de todos os brasileiros em solidariedade a Honduras:
”
Amigos,
Honduras necessita da sua solidariedade. Encabecados por Adolfo Perez Esquivel - Premio Nobel da Paz pedimos sua adesao em defesa da humanidade. No site, http://www.todosconhonduras.org/ , você encontra informacoes, pronunciamentos, e mensagens de apoio ao Presidente Manuel Zelaya e ao povo Hondurenho.
Oscar Niemeyer — presidente de honra
Rede das Redes em Defesa da Humanidade – Capítulo Brasileiro
”
Está repercutindo lá no Azenha:
“Niemeyer pede sua solidariedade a Honduras”
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/niemeyer-pede-sua-solidariedade-a-honduras/
Fabio Passos diz:
04/07/2009
Jorge Nogueira, a globo torce descaradamente por "goriletti". E você também. Cara... já passou o tempo dos golpes fascistas na América Latina.
Cobertura que não se vê na mídia-corrupta do Brasil:
http://www.telesurtv.net/noticias/canal/senalenvivo.php
Luiz diz:
04/07/2009
O que os golpistas chamam de ilegalidade seria a inclusão da consulta ao povo hondurenho, formulada nos seguintes termos:
¿Está de acuerdo que en las elecciones generales de 2009 se instale una cuarta urna en la cual el pueblo decida la convocatoria a una asamblea nacional constituyente? Si / No"
O que isto tem a ver com o mandato de Zelaya?
ivaldo gomes da silva diz:
04/07/2009
prezado professor, com todo o respeito não acredito que os três acontecimentos descrito pelo senhor refletem direçoes distintas. acreditos que esses acontecimentos com outros que estao ai na midia fazem parte da estrutura social latino americana de tradiçao autoritaria, hierarquica e desigual. Na verdade, os golpes de estado neste continente, o sucesso de lideranças politicas de direita e a ausencia de alternativas nas mesmas, inclusive no Brasil nao sao aleatorios. Eles fazem parte de uma longa tradicao autoritaria e elitista que ainda nao esta inteiramente superada. Vejamos o caso do Brasil e do nosso presidente (sou filiado ao PT): apoio um dos ultimos representantes da oligarquia e do patrimonialisno, afirma que existe pessoas comuns e incomuns e obriga os senadores do nosso partido a apoiar o poder do atraso, no feliz conceito de sociologo Jose de Sousa. O meu descontentamento é que isso parte de uma liderança como o lula, que claramente esta contemporizando com a politica tradicional. No Brasil, nao temos a distinçao magistral elaborada por Bobbio, de direita e esquerda, pois o governo atual esta indo muito mais para a direita do que canalizar as demandas do Estado democratico de Direito.
Um grande abraço
fraternalmente,
Ivaldo Gomes da Silva
Jorge Nogueira Rebolla diz:
04/07/2009
Fábio, o globo tratou a queda do zelaya como golpe militar desde o primeiro momento, de onde vc tirou que ele apoia o atual governo?
Mas afinal o quê é Honduras? O quê ocorreu em Honduras? Acredito que teria sido melhor processarem o presidente por desrespeito as determinações legislativas e judiciárias sem afastamento imediato, caso fosse condenado, aí sim defenestra-lo.
O casal K está em contagem regressiva para ser ejetado da casa rosada, também quem manda ser impopular, ter contra si 70% do eleitorado não é pouca coisa. Prova de total incompetência. Nestor lembra muito fhc no desempenho.
O Uruguai é um daqueles países que são quase uma abstração, tivesse continuando como província Cisplatina teria sido melhor. Afinal, o que é o Uruguai? Um imenso pasto utilizado principalmente para a lavagem de dinheiro. Portanto, lá não serve como balizador de tendência. O Paraguai pelo menos é um entreposto para as muambas chinesas.
Quanto ao Brasil, o quê posso dizer?
A esquerda brasileira criou um mito para encabrestar o que seria o voto ideológico ou o consciente no lulismo, foi uma grande jogada de marketing o tal do golpismo, e o seu agente provocador: o PIG, o partido da imprensa golpista. Por enquanto está funcionando. Blindou o governo lulista contra tudo o que ele mesmo faz de errado. Qualquer denúncia sobre ilícitos ou críticas contra falhas na adminsitração federal entra na conta do tal golpismo, e assim o goveno lula faz o que quer ,quando bem entender, sem ter a menor preocupação em ser fiscalizado.
Quem diria, nos meus tempos de adolescente eu era um desses politizados, que acreditava nas baboseiras esquerdofrênicas. Se estivesse continuando assim estaria chamando sir ney de companheiro, e acreditando que o neo-caudilhismo destas bandas é tão democrático como o conselho supremo do Irã.
A grande mudança que pode ocorrer no continente, principalmente em relação aos países menores, depende da cotação do petróleo. Caso continue baixa enfraquece muito a diplomacia bolivariana e por consequência os aliados de hugo chavez. Basta ver que o país latino-americano que está encontrado as maiores dificuldades nesta crise é Cuba. Até racionamento de energia esta entre os problemas que podem vir a ocorrer, sem contar que o governo está encontrando sérias dificuldades para continuar a recuperação das áreas devastadas pelos furacões no ano passado.
O grande jogo está retornando a uma situação de equilíbrio na américa latina, só que numa disputa muito parelha podemos ter ânimos exaltados, por isto temo que possa haver radicalização de qualquer dos lados ou de ambos. Seria um grande retrocesso, visto que precisamos de décadas para superar as sanguinárias ditaduras militares, e espero que totalitarismo nunca mais.
Fabio Passos diz:
04/07/2009
É... o momento é importantíssimo.
A direita-fascista da América Latina está toda assanhada com o golpe em Honduras.
Repararam na torcida descarada de globo, quadrilha veja, fsp e estadão pelo sucesso do golpista "goriletti"?
"goriletti" é o herói da mídia-corrupta.
E saca só o tipo do figura que agrada marinho, civita, frias e mesquita:
http://www.rebelion.org/imagenes/p_03_07_2009.jpg
Adalberto diz:
04/07/2009
Saudações Professor!
O problema talvez esteja no fato de alguns governos progressistas terem uma característica personalística e serem relativamente fracos em alianças com movimentos sociais, com as classes trabalhadoras. Essa fraqueza se reflete em políticas sociais e econômicas tímidas, em indecisões e erros, como o que aconteceu na Argentina e, também e isso é importante dentro da institucionalidade democrática atual, em fraqueza ou minoria eleitoral parlamentar, como parece que aconteceu em Honduras. Se a estratégia é o reformismo democrático, precisa-se de uma boa articulação entre movimentos sociais progressistas e formação de lideranças e maiorias parlamentares para a viabilização do aprofundamento das transformações requeridas pelos povos.
Rodrigo diz:
15/07/2009
Eu gostaria de entender quando o peronismo, que é um movimento político de matriz claramente direitista, nao só na sua origem como também na sua evolucao se tornou associado a uma perspectiva "progressista". O peronismo K é um movimento político de confronto, que foge dos consensos sociais e marginaliza economica e politicamente a Argentina a nível global. Um movimento que nao tem conseguido dar respostas aos desafios economicos E SOCIAIS de um pais onde aumenta a marginalizacao, o trafico de drogas, a inseguranca. O relacionamento do peronismo com a massa trabalhadora se dá via sindicatos extremamente corrputos que defendem posicoes corporativas compativeis com uma visao fascista de estrutura social e que vive em profunda promiscuidade com o sistema político. Entao, onde está o "progresismo" de tudo isso?