13/10/2009

Sapatos ou sandálias

“Melhor um mafioso de sapato que um ignorante de sandália.” O comentário preconceituoso foi feito por uma mulher branca, no vôo de Santa Cruz de la Sierra a Cochabamba. Dá uma idéia do sentimento dessa minoria branca, que sempre governou a Bolívia, durante séculos, ao sentir que o país lhes tinha sido expropriado pelas mãos da grande maioria de povos indígenas – 64% da população se reconhecem como de origem indígena – aymaras, quéchuas, guaranis ou de outras nacionalidades -, mas nunca tinham governo o país.

Na época da campanha eleitoral havia uma charge em um jornal boliviano, em que quatro mulheres brancas jogavam baralho, quando uma delas pergunta:

- Mas um índio pode ser presidente?

Ao que respondeu uma outra:

- Sim, da Índia.

A forma usual de se dirigir a Evo Morales, presidente da república, é chamá-lo de “esse índio de merda”. No ano passado, na praça central de Cochabamba, estudantes brancos submeteram índios e índios a vexames públicos, violentamente. O racismo da direita, da imprensa e dos governos da região oriental é extremado.

Esse sentimento se aguçou quando as pesquisas eleitorais confirmam o que as eleições do ano passado já haviam revelado: o governo de Evo Morales goza de ampla maioria no país e desta vez deve conseguir não apenas a reeleição e repetir a maioria na Câmara de Deputados, mas conquistar a maioria do Senado, talvez até com 2/3 dos parlamentares. A oposição, derrotada politicamente, concorre com vários candidatos, sempre muito atrás – mesmo somados – da votação prevista para Evo.

Um deles, candidato também nas eleições passadas, Samuel Doria, é quem detêm a marca da Burger King na Bolívia. Seu lema, pintado nas paredes daqui de Cochabamba: “Fazer Bolívia voltar a trabalhar”. Expressa outro preconceito: o de que a região ocidental do país, em que está La Paz e os estados de maioria esmagadora de indígenas, vivem do Estado, de políticas sociais, de subsídios, etc., enquanto o dinamismo e o trabalho ficariam por conta da região majoritariamente branca – a região oriental.

Depois de tentativas de deslegitimação do governo, promovendo projetos autonômicos nas províncias, de forma violenta, a direita se viu derrotada na consulta sobre confirmação de mandatos em agosto do ano passado. Diante dos resultados, promoveu atos violentos de ocupação de prédios do governo federal, agressão a fucnionarios públicos, até que um dos governadores da região oriental, do estado de Pando -, reprimiu uma mobilização de camponeses, matando a vários deles. Isso por si só já gerou seu isolamento, mas o governo passou a atuar, com a prisão do governador e uma grande mobilização de 100 mil pessoas dirigidas por Evo Morales em La Paz. A oposição passou à defensiva, derrotada politicamente. Um dos reflexos dessa derrota é não ter conseguido se unificar e lançar vários candidatos.

A vitória de Evo Morales, com maioria – com a possibilidade de chegar a 2/3 no Senado – permitirá que todo o processo, recém iniciado, de refundação do Estado boliviano, com todo o novo embasamento legal que isso requer, poderá ser feito conforme as orientações do governo. A direita ainda não está derrotada economicamente, dispõe de grande poder econômico – ainda que enfraquecido – e do poder midiático, graças ao monopólio que exerce, tal como acontece nos outros países do continente.

Mas, a três anos e meio da sua primeira eleição, o governo boliviano caminha, seguro, para a sua consolidação. Elabora neste momento uma lei de gestão pública do novo Estado multinacional e autonômico, avançando no projeto de refundação do Estado boliviano. O ex-presidente Sanchez de Losada, refugiado nos EUA, com pedido de extradição pelo governo boliviano para responder na Justiça pelas dezenas de mortes de responsabilidade do seu governo, quando tentava evitar sua queda, representa bem o “mafioso com sapato”. Evo, de sandálias, a saberia indígena, camponesa, popular, que para os preconceitos racistas aparece como “ignorância”.

Postado por Emir Sader às 05:35

19 Comentários

Jorge Ernesto Couto de Castro diz:

21/10/2009

A democracia tem a vantagem de permitir que na Bolívia um descendente de índio se eleja presidente.
Essa é a maior vantagem da democracia a possibilidade de corrigir injustiças como a que aconteceu na Bolívia de que depois de séculos de perseguições um índio tenha a chance de mudar o país e enfrentar as injustiças é lógico que a elite branca não vai gostar disso e vai querer combater Evo Morales.

Jair diz:

19/10/2009

A autora desse comentário preconceituoso reflete muito bem o pensamento burguêz, sobre o povo des-possuído e pobre, não só da heróica Bolívia de Evo e seu bravo povo, mas de toda a burguesia deste continente.
Apeadas de seus poderes, por governos democráticos, sintonizados com os anseios populares, elas partem raivosamente para o ataque, expelindo seu ódio mortal contra os representantes de nosso sofrido povo.

Pablo diz:

16/10/2009

Parabéns Emir pelo belo texto.
Tive a oportunidade de estar em La Paz em janeiro quando da aprovação da Nova Constituição Boliviana, foi emocionante ver, e constatar por meio de muitos dialogos, a sensação de real mudança que os trabalhadores bolivianos expressam. Também foi comico, de tão trágico, ver o desconsolo da elite e da Igreja em Santa Cruz, que se utiliza da municipalidade para lançar campanha contra o Evo.

Lúcia Adélia diz:

14/10/2009

VIVA OS IGNORANTES DE SANDÁLIAS, VIVA OS INDIOS DE LÁ E DE CÁ. VIVA A AMAERICA LATINA E VIVA O POVO LATINOAMERICANO.

Aurora Conor diz:

14/10/2009

Devagar avançam as minorias para ocuparem seus lugares sociais.E não adianta nada essa burguesia de m...achar que pode continuar metendo o bedelho em tudo.Aqui no Brasil, vão ter que rebolar para tirar do páreo o candidato(a) que for indicado poelo Lula

Roberto Locatelli diz:

14/10/2009

Prezado Emir, não sei o que é pior: o racismo virulento e violento da Bolívia ou o racismo disfarçado, fingido e venenoso da elite brasileira. Talvez o nosso seja pior, por ser dissimulado e envenenar a sociedade silenciosamente.

Clayton Mendonça Cunha Filho diz:

14/10/2009

Não foi Cochabamba, foi Sucre onde aconteceu o linchamento de indígenas em maio do ano passado.

Ney diz:

14/10/2009

Estou cada vez com mais pena, e me despeno, dessa burguesia retrógrada, reacionária, elitista, racista obrigada a aguentar um pau-de-arara na presidência do Brasil, um índio na Bolívia, um negro nos States, a fora o fato de essa mesma burguesia ser machista e ter que suportar várias mulheres Presidentas e Primeiras Ministras.

Ceça Costa diz:

14/10/2009

Emir, "mas é preciso estar atento e forte", eles continuam no poder ou tentado voltar a qualquer custo, um índio desceu e provou que podemos mais que do eles (os don do poder) querem. Ceça - Observatório Negro

Eduardo diz:

13/10/2009

Hum, será que além de dar uma sapatada nos bush da vida, devemos também dar uma "sandaliada"?

José Roberto diz:

13/10/2009

Emir, gracias por mais este belo texto. Evo Morales está nos mostrando que apesar do horror dos enfrentamentos com a classe dominante que se supõe "superior" -claro que apartir de seu preconceito -, é possível lutar para construir uma sociedade mais justa, mais plural, onde os redundantes, no dizer de Zygmunt Bauman, insistem em construir um mundo onde eles (os dominantes) e seus interesses não exercam sua hegemonia..
Está claro que é possível lutar e construir este outro mundo, pois nós, os de sandália, os que trabalham e lutam cotidianamente por nossas vidas podemos viver sem eles; agora eles não podem viver sem nós, pois é a apropriação do fruto do nosso trabalho que os mantém; eles só tem poder porque lhes outorgamos, o poder deles é o nosso poder. Para vencê-los, basta construir um mundo onde eles não sejam necessários. Sem nós eles não existem.
Um OUTRO MUNDO já está sendo delineado, se quisermos ver a luta pelo mesmo é só acessar, por exemplo, sites da ECONOMIA SOLIDÁRIA (ex. FBES, ECOSOL, OTRAECONOMIA...) COMÉRCIO JUSTO, MOVIMENTO FABRICAS RECUPERADAS, na Argentina, Uruguai e Brasil, FRENTE POPULAR DARIO SANTILLAN, da Argentina, entre tantos outros. São lutas que ocorrem do, lado de cá, sem recorrer aos que excluiram, mas ao contrário buscando construir um mundo a partir do lugar em que estão, com seus sonhos, valores, e sua cultura.
Esta gente preconceituosa insiste em não perceber que só usam sapatos porque os de sandália os fabricam. O dia em que para calçarmos nossas sandálias não precisarmos mais fazer seus sapatos, eles andarão descalços.
NOSSO MUNDO É OUTRO, PRECISA SER OUTRO, PELA DIGNIDADE HUMANA.

Fabio Passos diz:

13/10/2009

Pois estas madames e madamos, dondocas e dondocos, se derem um pulo não... alcançam as chinelas do gigante Evo Morales!

E a ricaiada avarenta e branquicela do olho azul não odeia o Evo apenas porque não concorda com sua política. É racismo mesmo. E é assim em todo o continente.

A grã-finagem despreza tudo o que tem a cara e a alma do nosso povo!

Haremhab diz:

13/10/2009

Preconceitoé um dos piores sentimentos, principalmente, quando parte dos "perdedores", não adianta, "maioria é maioria, tem que engolir seco".Incrível como ainda persistem os sentimentos de superioridade, desses "branquelos que não deixam de ser latinos, mas julgam-se espanhóis".Testemunhei, em determinada ocasião, o seguinte comentário, "proferido de um imigrante(coreano)sobre outro imigrante(boliviano, na região do Bom Retiro-Sp):Nossa, como estes índios são ESTRANHOS, parecem sujos, sem nenhuma higiene...minha resposta-pergunta:mas vc tb é imigrante, entrou no país ilegalmente, foi anistiado e faz esse tipo de comentário, não tem vergonha?"Nós, brasileiros, como latinos ou sulamericanos, temos "mais em comum com os ditos índios, que vcs, orientais, alias, não são em suas oficinas de costura, que esses índios são escravizados"?Leitores, imaginem a expressão facial da figura!

Marcos Antonio diz:

13/10/2009

Parabéns pelo texto Emir! Cada vez mais admiro os teus textos e sua visão de mundo. Você ja se tornou leitura obrigatória pra mim. Agora voce pertence ao grupo dos confiáveis, juntamente com Eduardo Galeano, Paulo Freire e o jornalista Beto Almeida.

Fernanda diz:

13/10/2009

Parabéns EMIR por mais esse belo texto, que demonstra o preconceito dessa elite branca que sempre governou a América Latina.
Essa frase sobre os sapatos e sandálias demonstra quem é essa elite branca e essa imprensa golpista que a acompanha.

Aproveito, por fim, para parabeniza-lo pela eleição para a CLACSO, e desejar um ótimo trabalho no proximo período.

um abraço

Fábio Faiad diz:

13/10/2009

Ouvir comentários como esse da "senhora do avião" me faz sempre ter certeza de que estou do lado certo: do lado OPOSTO à direita retrógrada, elitista, egoísta e mentirosa. Aliás, cada vez mais percebo que tais características não são só da direita brasileira...

Torço para que Evo Morales continue a avançar na construção de uma Bolívia mais democrática e mais justa: direitos do povo indígena respeitados, trabalho para todos, nenhuma discriminação racial, saúde e educação públicas e universais etc.

Piragibe Silva Borges diz:

13/10/2009

É...

Lembro-me de algumas pessoas comentando: "O quê? Ser governado por alguém com menos instrução do que eu? Não admito!"...
Lembro-me da desilusão da esquerdinha brasileira, também chamada esquerda festiva - PPS incluso? - Quando o impossível aconteceu. Ah! Se Lula ganhasse esse país mudaria totalmente... Pois é, se Lula ganhasse mandaríamos uma banana para essa elite discriminatória (falavam de seus Audi/Mercedes/BMW, do interior de suas mansões ou em uma mesinha reservada nos botequinhos do Maximo's(não lembro a grafia correta)/Fasano's da vida.).
Putz! Lula ganhou! O impossível aconteceu! Mas... não está fazendo o que eu esperava que fizesse, não me deu uma teta, apenas fica jogando dinheiro fora para quem não quer trabalhar! Que furada! Até ao irmão negou uma boquinha! Assim não quero... Ainda vem com essa de jogar mais dinheiro fora dizendo que universidade é para todos, financiando quem não estuda e não consegue passar no vestibular... Vai tirar a vaga de meus filhos que estudaram em colégio de primeira, a peso de ouro, fizeram cursinhos personalizados para aprovação no vestibular e vão ter de competir de igual para igual para cursar uma universidade grátis? Qual é? Isso é anarquia! Quero MINHA democracia de volta!!

Alguém escreveu tempos atrás: "Democracia boa é a minha democracia")

Um abraço Emir

Piragibe

dermeval vianna diz:

13/10/2009

Parabéns, Emir.Apesar de contar com apenas 1/8 (um oitavo) de sangue indígena -bisneto de índia guarani, da região de Tibagi-Paraná, mesmo assim, sinto-me agredido cada vez que ouço comentários rascistas desse naipe.Geralmente quem discrimina índios são os mesmos que atacam negros, judeus e homosexuais. A maioria dessa gente integra a baixa classe média suburbana, e que não tolera mestiço de qualquer etnia, cujas condições sociais e econômicas possam aparentar serem mais elevadas que a dele. Houve uma época, tempos atras, quando as passagaens aéreas competiam com as de ônibus, era comum ouvir comentário depreciativos dessa elitezinha racista, acerca das pessoas mais humilde que podiam viajar de avião. Ao meu modesto entender, a luta de classes deveria passar pelos divãs da psicanálise, nobre companheiro...

Douglas Luiz diz:

13/10/2009

Guardadas as devidas proporções, conjunturas etc., não é esta a opinião do serrismo, do ali kamel, da imprensa brasileira em relação ao Lula?

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