01/02/2010

A economia política das drogas

Desde que o Richard Nixon declarou a “guerras às drogas”, nada de fundamental mudou, a não ser as somas milionárias gastas nas campanhas: um trilhão de dólares, deste então. A afirmação é de artigo do The Wall Street Journal, assinado por Davis Luhnow, republicado pelo Valor.

Um mexicano que esteve dedicado a essa luta por mais de duas décadas, resumiu o que cada vez mais especialistas declaram: “Essa é uma guerra que não é possível vencer.” Se dá voltas e voltas e se volta sempre para o mesmo lugar.

Quando um traficante importante é morto ou preso, passa-se a avaliar quem o substituirá, porque os mecanismos do tráfico não são afetados. Um numero crescente de autoridades norteamericanas e mexicanas - segundo o jornalista -, em privado, consideram que o passo mais importante para enfraquecer as operações comerciais dos cartéis mexicanos seria simplesmente legalizar seu principal produto: a maconha, que representa mais de metade da receita dos cartéis.

Não se costumava combater o lado comercial dos cartéis, por exemplo, pelo sistema financeiro. (Recordar que foi por aí que se pegou Al Capone, não por suas outras atividades delitivas.)

Diz-se no artigo que, sem querer, os EUA ajudaram os cartéis mexicanos, porque no fim dos anos 80 e inicio dos 90, reprimiram vigorosamente o transporte de cocaína da Colômbia para os EUA através do Caribe, que era a rota de fornecimento mais barata. Isso simplesmente desviou o fluxo para a segunda rota mais barata: o México. O dado é impressionante: em 1991, da cocaína destinada aos EUA, 50% já entravam pelo México, mas em 2004, já tinha chegado a 90%. Isto é, instalou-se no México um corredor de chegada das drogas àquele que é, de longe, o maior mercado consumidor do mundo, unido à corrupção e à violência já existentes.

Com a mudança dos grandes cartéis – de Medellin e de Cali – para uma profusão de minicartéis, os mexicanos ganharam força, impondo os preços aos colombianos. Cínicos especialistas norteamericanos chegam a cogitar um retorno à rota do Caribe, com o argumento de que é menos grave para os EUA desestabilizar pequenos países do Caribe do que um país com fronteira de mais de 3 mil quilômetros e 100 milhões de habitantes.

Os cartéis mexicanos, considerados hoje os mais fortes do mundo, traficam quatro grandes drogas ilícitas: maconha, cocaína, heroína e metanfetamina. O México tornou-se o segundo maior produtor de maconha do mundo (o primeiro são os EUA), o principal fornecedor de metanfetamina para os EUA, a principal escala para a cocaína da América do Sul e o maior produtor de heroína das Américas. Quando uma mercadoria declina, é compensada pela comercialização da outra.

Os cartéis são – segundo o jornal – a multinacional mexicana de maior sucesso, empregando cerca de 450 mil mexicanos e gerando 20 bilhões de dólares em venda, apenas atrás da indústria petrolífera e da exportação de carros. Um dos seus chefões, Joaquin Guzman, entrou para a lista mundial dos bilionários da Forbes.

Os jovens traficantes de hoje usam ternos Armani, BlackBerrys e malham em academias. O contador de um traficante preso tinha trabalhado 15 anos no Banco Central do México.

A ilegalidade das drogas multiplica brutalmente o seu preço, gerando altos lucros para os que se aventuram ao seu transporte. Um quilo de cocaína no atacado, na Colômbia, custa 1,2 mil dólares, no Panamá 2,3 mil, no México 8,3 mil e entre 15 e 25 mil nos EUA, isto é, uma multiplicação por 20 ao longo do circuito. No varejo das ruas de Nova York, chega perto de 80 mil, elevando o cociente por quase 70 vezes. Com lucros dessa dimensão, o negócio da droga tem todas as possibilidades de se perpetuar, caso seja atacado como foi até hoje.

A legalização da maconha representaria a perda de metade dos lucros dos cartéis. Além de que, menos presos, menos superlotação e contaminação nas prisões.

Postado por Emir Sader às 07:03

16 Comentários

danilo diz:

08/02/2010

acho q a legalização das drogas é uma etapa do crescimento da humanidade, mas o sitema deve mudar primeiro. Educação e conscientização!
A REVOLUÇÃO COMEÇA NA INFORMAÇÃO!

Jorge Ernesto Couto de Castro diz:

05/02/2010

Eu sou contra a legalização das drogas porque isso seria como uma rendição e vitória dos traficantes, além disso a legalização talvez não acabasse o crime, talvez os traficantes emigrem para outras formas de crime.
Mas me espanta e me intriga que muitas pessoas queiram consumir substâncias que além de ilegais, são verdadeiros venenos tanto para o corpo quanto para a mente. Atualmente praticamente estão proibindo o consumo de cigarros, impondo uma série de restrições para o consumo, legalizar as drogas seria uma contradição.

JOÃO MARTINS diz:

04/02/2010

Em meio às discussões sobre "legalização" ou "descriminalização" das drogas, camuflam-se objetivos militares geoestratégicos que condicionam as políticas públicas de segurança, nos países periféricos produtores, ao passo que nos paises centrais se realizam os grandes lucros; CIA e DEA atuam em conjunto com as mídias corporativas; as oligarquias conservadoras e moralistas, com suas campanhas de "guerra às drogas" como um dispositivo contra-insurgênte para se garantir estabilidade às elites mafiosas. Assim é que se organizam planos como o Colômbia e se espalham bases militares por todo o planeta e, sobretudo na América Latina. As tensões armamentistas provocadas pelos EUA que estão em nossas fronteiras têm como pano de fundo este convencimento e ideológico controle do que se discute. O Rio de Janeiro é o melhor modelo dessa subserviência à extensão do plano Colômbia: epicentros para o controle militar da América do sul e Latina. Esta é também a justificativa para a presença da IV Frota no Atlântico sul.

Acusações e estigmatizações, quanto a essas análises, carimbando de "teorias conspiratórias", fazem a blindagem dos interesses mafiosos e militaristas. Alegres papagaios idiótas.

Documentários que esclarecem:

1 - http://www.revolutionvideo.org/agoratv/secciones/portugues/favelas_portugues.html - (Sobre muros e favelas - documentário produzido pela TV tagarela da Rocinha, sobre esta realidade vista a partir da favela)

2 - http://www.venezuelaenvideos.com/titulos/pt12v07.htm - (Guerra falsa contra as drogas feita pela DEA/CIA (depoimento e denúncia feita por ex-agente da DEA/CIA)

A luta é por redução de danos : fim dos genocídios aos adolescentes pobres das periferias, escravizados pelas máfias policiais e grandes traficantes atacadistas de drogas e armas; fim da militarização da segurança pública; descriminalização e tratamento dessa questão no campo da saúde pública.

Um caminho civilizatório que resista a toda essa barbárie

Abraços

Júlio diz:

03/02/2010

Pietro,
de fato a questão qto a nomenclatura não é das primordiais, mas se você ler nosso post verá que esse tipo de desmistificação conceitual é importante para não jogarmos água no moinho proibicionista. Denominar as empresas narcotraficantes de "cartéis" é parte da estratégia legitimadora da guerra às drogas através da cultura do medo.

Quanto à questão da sociedade estar preparada ou não ela é, além de elisita (quem pode dizer para o que a sociedade está preparada ou não? certamente não sou eu), uma falsa questão. Segundo pesquisa do CEBRID, de 2005, quase 25% dos brasileiros adultos já fizeram uso de psicoativos ilícitos. As drogas são usadas por todos, e continuarão sendo, a questão é regulamentar, como bem disse Luiz Fernando, uma vez que o proibicionismo é a ausência de regulamentação, deixando que o mercado seja regido pelo crime e pela violência. Não existe "e se as pessoas usarem drogas", todos já usam.

Os investimentos em educação e saúde pública obviamente são fundamentais, e também em cpolíticas de redução de danos, mas inclusive é o enfoque no Estado Penal que retira boa parte da verba que poderia estar indo para esses setores, investindo-os em repressão, prisões, burocracia, etc (sem falar que uma legalização pressupõe impostos né). Recomendo para isso a leitura de "Quatro estratégias para reduzir o custo do encarceramento em massa nos Estados Unidos", do sociólogo Loic Wacquant, no qual ele mostra exatamente esse deslocamento dos investimentos para o caráter repressivo do Estado de direita.

Uma coisa é certa, em 100 anos de proibicionismo a situação só piorou, inclusive no que tange ao abuso no uso de drogas (lembrando que o uso de drogas não é maléfico a priori). Nos resta pensar em alternativas. Não acredito que uma hipócrita despenalização do usuário enquanto se mantém a repressão ao tráfico atenue questões fundamentais como a criminalização da pobreza e o imperialismo estadunidense.

Fraternalmente,
Júlio

Luiz Fernando diz:

02/02/2010

Coutinho:
O senhor é professor de escola pública e o que vê são jovens estudantes que tem acesso fácil à droga. Isso é devido ao simples fato das drogas serem proibidas e vendidas sem controle por traficantes.
Legalizar é colocar as drogas na mão do Estado. sob controle de produção comercio e consumo. Com políticas de redução de danos atuando em conjunto para informar a população sobre os efeitos e consequencias do uso de drogas.

REGULAMENTAÇÃO é a palavra chave. regulamentar para que jovens tenham a mesma dificuldade de acesso que o cigarro e o alcool. (ou deveriam ter se o governo levasse essas políticas mais a sério )

Pietro Guerriero diz:

02/02/2010

"Julio", defendi (e defendo) que legalizar as drogas apenas para se ver livre do custo da repressao ao trafico e' contraproducente.
Em debates anteriores, citei a questao do alcool que tem livre consumo e pouquissimo investimento na area de prevencao e educacao. O mesmo com o tabaco.
O resultado e' a sociedade arcando com os custos dos tratamentos para os individuos ou, pior, tendo que lidar com a consequencia do consumo descontrolado (violencia familiar, no transito, etc).
Porisso defendo que a legalizacao (se houver) deve ser precedida de mecanismos que eduquem, principalmente os mais jovens, no conceito do uso responsavel.
Mas, antes de se promover uma liberacao geral, seria importante dotar a sociedade de mecanismos de controle, por exemplo, da publicidade, da distribuicao, da idade limite e por ai' vai...
Olhando o cenario de hoje, voce diria que a sociedade brasileira esta' preparada?
Vendo as estatisticas de violencia causada apenas pelo consumo de alcool, so' nos finais de semana, voce diria que pode se liberar a maconha, sem problema?
Quanto a chamar-se estas quadrilhas de cartel talvez nao seja a denominacao correta mas esse e' um aspecto menor. Como diz o ator Kevin Spacey no filme The usual suspects : "O maior truque do diabo foi fazer o mundo acreditar que ele nao existe"

Júlio diz:

02/02/2010

Em primeiro lugar, louvo a iniciativa em se debater a questão das drogas, tema infelizmente historicamente "esquecido" por praticamente toda a esquerda.

Como membro do coletivo antiproibicionista Desentorpecendo A Razão (DAR) me alinho não só a proposta de legalização da maconha como de todas as drogas hoje ilícitas (importante sempre lembrar que há diversas drogas lícitas, como álcool, tabaco, café, etc), única maneira de atacar não só o crime organizado como a violência e a corrupção estatais, além da sanha imperialista estadunidense.

No entanto, tenho divergência quanto a utulização do termo "cartel" para designar essas organizações comerciantes de substâncias psicoativas por enquanto ilícitas. Remeto os interessados a um pequeno post que colocamos em nosso blog sobre o assunto:

http://coletivodar.wordpress.com/2010/02/02/dialogando-com-emir-sader-por-que-nao-utilizar-o-termo-cartel/

Em outros momentos podemos debater questões levantadas nos comentários aqui, feitos por exemplo por "Coutinho" ou "Pietro", cujos discursos simplesmente repetem a ideologia e o status quo, interessado na proibição das drogas como mecanismo de lucros exorbitantes e controle de setores vulneráveis da população.

Abraços antiproibicionistas,
Júlio

Luis José Ariosto Pereira Silva diz:

01/02/2010

essa situação horrorosa do México tem que ser colocada primeiro na conta do Uribe, o mesmo ao reprimir o tráfico sobre ordens dos EUA, acabou deslocando as quadrilhas para o México, a irresponsabilidade desse cara eh impressionante, depois tem que entrar na conta dos EUA, porque consomem toda essa droga, eh um país decadente, e os estadunidenses se afundam no sexo e nas drogas para esquecer da vida dificil, agora imaginem se o projeto do FHC de liberar as drogas dá certo no Brasil, o Brasil vai ter uma população imensa de zumbis da droga, que nao aceitam a palavra de nosso senhor Jesus Cristo, e que vao causar violência e confusão, por isso nao podemos deixar os tucanos voltarem ao poder, ok!!!!!!!!!!!!!!

Fabio Passos diz:

01/02/2010

Bob Marley
http://www.youtube.com/watch?v=_EzBEvHWGN8

"
Por que essas pessoas que querem fazer tanto bem, a todo mundo, que se denominam governos, e isso e aquilo... por que elas dizem que você não deve usar a erva?

Daí você pára para pensar e não consegue achar.... A gente só ouve elas dizerem: "não, você não deve usar, porque lhe transforma em um rebelde".

Contra o quê?
"

Fabio Passos diz:

01/02/2010

Criminalizar o baurets é uma tolice enorme.

Esta coisa puritana horrorosa é imposição dos ianques.

Se os estadunidenses querem continuar fracassando nesta estúpida "guerra as drogas" o problema é deles.

Eles que fracassem sozinhos, ora bolas.

Dimas Antonio Granado de Padua diz:

01/02/2010

O leitor Luciano Faustia da Rosa,colocou de maneira objetiva o dedo da ferida.Não irá se combater as drogas com mais prisões,com mais repressões.Duas vias podem se tomar no sentido de se encaminhar provaveis soluções para tão agudo problema:conscientizar a população alvo dos traficantes em potencial sobre o uso reiterado de algumas substancias entorpecentes e suas consequencias letais e outra via seria liberar as drogas com o rigoroso controle do Estado,como ocorrem em alguns paises europeus(caso da Holanda).Pode parecer utopia ou simplismo de minha parte,mas não vejo no horizonte outras possibilidades,principalmente se levarmos em conta que a batalha contras as drogas já foi perdida ha muito tempo queiram ou não queiram os defensores da ordem.

Mauricio diz:

01/02/2010

Enquanto isso, no Brasil: tenho recebido e-mail de uns caras que querem boicotar a Petrobrás para reduzir o preço dos combustíveis. Enquanto isso está se formando um grande cartel de combustíveis no país. A Cosan, que já comprou a Esso brasileira, agora associou-se à Shell. O Brasil cultiva cana desde os tempos coloniais: foram os lusitanos que nos forneceram o know-how. Por que não somos líderes no setor alcooleiro? Os EUA são os maiores produtores mundiais, embora produzam o etanol a partir do milho, cuja produtividade é menor. Será que há interesse em produzir mais álcool? Se aumentar a produção o preço cai. É melhor vender a metade do produto dobrando o preço, como estão fazendo agora. Dá menos trabalho, menos despesa e mais lucros. Dizem que a Shell vai produzir álcool. Será? Já disse que isso é coisa de lusitano. Melhor seria encontrar um sócio na terrinha. A cana é um produto sazonal: o período da safra vai de maio a novembro. Por que não produzir álcool a partir da mandioca, por exemplo, para que no período da entressafra não haja falta do produto, nem desemprego no campo, com o consequente aumento da criminalidade?

Adnan Sangirardy Herrera diz:

01/02/2010

O mundo tem dificuldade de tratar de seus problemas, os carteis colombianos foram sufocados, Uribe provocou uma reviravolta no quadro e infelizmente o grosso do crime, passou a ser administrado a partir do México, lá os traficantes mandam e desmandam, dias desses fez uma super chacina para demonstrar a que veio, não tem nem mesmo roteiro de Holywood que desbanque tanta matança.

Pietro Guerriero diz:

01/02/2010

Emir,
o Mexico efetivamente tem um problema - e dos grandes - com o narcotrafico. O problema e' a penetracao insidiosa do poder do trafico nas instituicoes da sociedade civil e ali se instalando.
Corrompem policia, politicos, juizes, jornalistas, forcas armadas.
Nada, nem ninguem, se sobrepoe ao poder do dinheiro. Este fala alto e determina quem serao as proximas vitimas. 'As vezes, o indicado para um cargo num orgao de seguranca nem chega a tomar posse e e' assassinado pelo narcotrafico, como medida preventiva.
Legalizar drogas apenas para tentar resolver a equacao pelo lado do custo, perde de vista o custo social do consumo livre.
Reprimir, encarcerando usuarios tambem nao e' a melhor solucao.
Educacao, politicas sociais de emprego e de saude podem e reduzem o consumo.
O trafico - este sim - deve ser duramente reprimido.

Luciano Faustina da Rosa diz:

01/02/2010

As estruturas do tráfico de drogas são indestrutíveis uma vez que o consumo de drogas (legais e ilegais) parece ter se tornado um traço cultural universal e permanente. Ao que tudo indica, a legalização é a maneira mais célere de por fim à violência que cerca o comercio de drogas ilícitas.

Coutinho diz:

01/02/2010

Sim professor, diminuiria muito os lucros dos grandes traficantes, mas talvez não dos pequenos que dominam as periferias e tiranizam-nas com suas disputas territoriais e sua arrogância dominadora e que realmente praticam a violência contra os jovens filhos dos trabalhadores pobres nas ruas e nas escolas. Sou professor da rede pública paulista e tenho visto o uso de drogas, principalmente da maconha se multiplicar e com ele, a violência e a criminalidade - roubos e furtos. Na maioria das vezes, os roubos e furtos são feitos para sustentar o uso que se tornou dependência e já causou prejuízos sociais e familiares consideráveis. E o pior, as drogas estão disseminadas, mas são os jovens pobres suas principais vítimas.

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