28/08/2012
Um grande banco de São Paulo reuniu nesta 3ª feira três vigas chamuscadas do incêndio neoliberal que ainda arde no planeta: Clinton, Blair e FHC. Que um banco tenha promovido um megaevento com esses personagens a essa altura do rescaldo diz o bastante sobre a natureza do setor e da ingenuidade dos que acreditam em cooptar o seu 'empenho' na travessia para um novo modelo de desenvolvimento. Passemos.
As verdades às vezes escapam das bocas mais inesperadas. Clinton e Blair jogaram a toalha no sarau anacrônico do dinheiro com seus porta-vozes. Coube ao ex-presidente norte-americano sintetizar um reconhecimento explícito: 'Olhando de fora, o Brasil está muito bem. Se tivesse que apostar num país, seria o Brasil'.
Isso, repita-se, vindo de um ex-presidente gringo que consolidou a marcha da insensatez financeira em 1999, com a revogação da lei de Glass-Steagall.
Promulgada em junho de 1933, três meses depois da Lei de Emergência Bancária, que marcou a posse de Roosevelt, destinava-se a enquadrar o dinheiro sem lei, cujas estripulias conduziram o mundo à Depressão de 29.
A legislação revogada por Clinton submetia os bancos ao rígido poder regulador do Estado. Legitimado pela crise, Roosevelt rebaixou os banqueiros à condição de concessionários de um serviço sagrado de interesse público: o fornecimento de crédito e o financiamento da produção. Enquanto vigorou, a Glass Steagall reprimiu o advento do supermercado financeiro, o labirinto de vasos comunicantes dos gigantes financeiros em que bancos comerciais agem como caixa preta de investimento especulativo, com o dinheiro de correntistas.
O democrata que jogou a pá de cal nas salvaguardas do New Deal elogiou o Brasil, quase pedindo desculpas por pisotear o ego ao lado do grande amigo de consensos em Washington e de corridas de emergência ao guichê FMI.
Mas FHC é um intelectual afiado nas adversidades.
A popularidade contagiante do tucano, reflexo, como se sabe, de seu governo, poupa-o da presença física nos palanques do PSDB, preferindo seus pares deixá-lo no anonimato ocioso para a necessária à defesa do legado estratégico da sigla.
É o que tem feito, nem sempre dissimulando certo ressentimento, como nessa 3ª feira mais uma vez.
Falando com desenvoltura sobre um tema, como se sabe, de seu pleno domínio sociológico, ele emparedou Clinton, Hair e tantos quantos atestem a superioridade macroeconômica atual em relação à arquitetura dos anos 90.
Num tartamudear de íngreme compreensão aos não iniciados, o especialista em dependência - acadêmica e programática - criticou a atual liderança dos bancos públicos na expansão do crédito, recado oportuno, diga-se, em se tratando de palestra paga pelo banco Itau; levantou a suspeição sobre as mudanças que vem sendo feitas - 'sem muito barulho'' - na política econômica ("meu medo é que essa falta de preocupação com o rigor fiscal termine por criar problemas para a economia”) e fez ressalvas ao " DNA" das licitações - que não reconhece, ao contrário de parte da esquerda, como filhas egressas da boa cepa modelada em seu governo.
Ao finalizar, num gesto de deferência ao patrocinador, depois de conceder que a queda dos juros é desejável fuzilou: 'houve muita pressão para isso'.
O cuidado tucano com os interesses financeiros nos governos petistas não é novo.
Há exatamente um ano, em 31 de agosto de 2011, quando o governo Dilma, ancorado na correta percepção do quadro mundial, cortou a taxa de juro pela primeira vez em seu mandato, então em obscenos 12,5%, o dispositivo midiático-tucano reagiu indignado. A pedra angular da civilização fora removida por mãos imprevidentes e arestosas aos mercados.
O contrafogo midiático rentista perdurou por semanas.
Em 28 de setembro, Fernando Henrique Cardoso deu ordem unida à tropa e sentenciou em declaração ao jornal ‘Valor Econômico’: a decisão do BC fora 'precipitada'.
Era a senha.
Expoentes menores, mas igualmente aplicados na defesa dos mercados autorreguláveis, credo que inspirou Clinton a deixar as coisas por conta das tesourarias espertas, replicaram a percepção tucana do mundo:"não há indícios de que a crise econômica global de 2011 seja tão grave quanto a de 2008", sentenciou, por exemplo o economista de banco Alexandre Schwartzman,indo para o sacrifício em nome da causa.
Nesta 4ª feira, o BC brasileiro completa um ano de cortes sucessivos na Selic com um esperado novo recuo de meio ponto na taxa, trazendo-a para 7,5% (cerca de 2,5% reais).
Ainda é um patamar elevado num cenário de crise sistêmica, quando EUA e países do euro praticam juros negativos e mesmo assim a economia rasteja.
Uma pergunta nunca suficientemente explorada pela mídia, que professa a mesma fé nas virtudes do laissez-faire, quase grita na mesa: 'Onde estaria o Brasil hoje se a condução do país na crise tivesse sido obra dos sábios tucanos?'
As ressalvas feitas por FHC no evento de banqueiros desta 3ª feira deixa a inquietante pista de que seríamos agora um grande Portugal, ou uma gigantesca Espanha - um superlativo depósito de desemprego, ruína fiscal e sepultura de direitos sociais, com bancos e acionistas solidamente abrigados na sala VIP do Estado mínimo para os pobres.
Em tempos de eleições, quando candidatos de bico longo prometem fazer tudo o que nunca fizeram, a fala de FHC enseja oportuna reflexão.
Postado por Saul Leblon às 19:11
nina diz:
01/09/2012
Esse senhor "brasileiro" não larga o osso mesmo ! É no centro das decisões, é pelas beiradas, está sempre tentando se aproximar de figuras que supõe notórias, para aparecer na foto. Deve ficar mesmo é ao lado de Serra, eles se merecem.
policarpio quaresma diz:
29/08/2012
Peço vênia para manifestar um assunto fora de pauta: Democracia. Gostaria de destacar a postura de um comentarista: Senhor Patriota, para parabenizá-lo pela postura democrática demonstrada, coisa não muito comum de ver-se nesses debates na internet. Ele não é petista, muito pelo contrário; mas, no entanto, não se subtrai a admitir o valor de um governo com o qual não simpatiza nem um pouco. Se todos não petistas assim agissem, teríamos um partido de oposição no Brasil, como é salutar para a democracia, e para nosso país.
Renato Luís Schmitt diz:
29/08/2012
Ainda bem que temos este site de notícias. Aqui, no meu computador é prazeroso abrir este site e ler as informações. Nos canais de Tv as notícias me causam ânsia de vômito, meus nervos não aguentam quando tenho que ficar junto com alguém, em sua casa com a Tv ligada assistindo notícias tão triviais. A questão do mensalão como notícia tornou-se tão enjoativo que chega a dar dor na espinha. Não se tocaram ainda que a maioria dos telespectadores não estão nem aí para essas notícias. Não sabem esses jornalistas que uma grande maioria sabe as reais intenções das notícias veiculadas por eles. Se realmente a intenção é fazer um país melhor porque não noticiaram a política fraudulenta das privatizações na era de FHC. Não somos idiotas, ignorantes, a tal ponto de não perceber as inteções dos noticiários das tvs abertas e os jornais escritos. Esses meios de comunicação estão perdendo espaço justamente por falta de notícias de qualidade. para isso acontecer é preciso não estar atrelado a ninguém.
Volnei Meller diz:
29/08/2012
E ele nunca cansa de falar e fazer bobagens...
Fernando Luís diz:
29/08/2012
Ainda bem que essa tríade do mal serve apenas para se reunir e trocar olhares. O Blair saiu escoraçado, o Clinton mais conhecido pelo charuto do que pelas idéias, e o FHC vive escondido só aparecendo em evento chulo, dessa natureza.
wendel diz:
29/08/2012
O que vem destes senhores não me surpreende, e acho que tb não deveria surpreender mais ninguém!
Se estão reunidos às expensas de um banco, nada mais fazem que cumprir a Agenda, pois para isto são pagos!
Que se dane os povos, ou a raia miúda, eles querem e sugar os recursos naturais e praticarem a usura.
Haja visto o que o Brasil e outros países pagam em juros, e fazem de tudo para cumprirem o superávit primário.
Então meus caros. Não se surpreendam, eles estão fazendo jus aos seus salários frente à Banca Internacional!
Um patriota diz:
29/08/2012
Um dos maiores traidores da licota brasileira, esse tipinho junto de Collor devem ser expulsos do país, por sua vez exilados. Mesmo com todo mensalão petista e a podridão do sistema burocrático, o governo Petista da qual detesto, prefiro ele do que a morte da economia pelos tucanos.
Argemiro Pertence diz:
29/08/2012
Quando se fala em F. H. Cardoso não se pode esquecer o episódio de salvamento de bancos falidos com dinheiro público, conhecido como PROER. Além disso, o sociólgo praticou como político, a Teoria da Dependência que ele mesmo teorizou lá nos anos 60. Os fatores que resultariam na emancipação de países latinoamericanos em sua teorização são vazios e
abstratos, sendo claramente baseados em uma visão sistemática que relaciona o padrão de desenvolvimento latinoamericano com a dependência.
Portanto, o Brasil estaria ainda mais mergulhado na dependência do eixo EUA/Europa, hoje em franca deterioração. Seríamos uma Grécia tamanho gigante ou uma Espanha sem touradas.
Paulo Ribeiro diz:
29/08/2012
Três fracassados que deveriam estar atrás das grades e não desfilando pelas hostes burguesas do sistema financeiro e conspirando contra governos que lutam em favor dos oprimidos.
joao diz:
29/08/2012
Um "neoliberal" dizer que o Brasil vai "muito bem" é preocupante!
Mauricio diz:
29/08/2012
O boca de suvaco não se cansa da ladainha neoliberal falida.
Eugênio L. Sarmento diz:
28/08/2012
Não é todo dia que três cavaleiros do apocalipse aparecem juntos em um único evento. É incrível o FHC falar em preocupação com rigor fiscal. Nos governos Lula e Dilma acabou-se com a dívida externa e a dívida líquida interna caiu cerca de 40%, sendo, hoje, com toda a crise mundial, uma das mais baixas dívidas internas do mundo. Nunca é demais lembrar que no governo do "preocupado" FHC ele quebrou o país três vezes e ainda ampliou a dívida líquida interna para quase 60%. O sujeito é um grande cara de pau.
simas mayer, hebert diz:
28/08/2012
Esse encontro ilícito, mais parecendo reunião de gigolôs da antiga, trocou-se idéias de como eram boas as minhas liberalidades... Só q não deu certo. Falimos, tdos. No q me tange, acho q esses mesmos, faziam o q seria pra ser feito, pra dar no q deu. Agora, aposentados por invalidez, ganham, algum, dos mesmos senhores... Espero q nas próximas eleições, os eleitores não se esqueçam do bem q nos praticou esse prof cardoso - grde traidor da Pátria, e seus amestrados.
Newton Barbosa diz:
01/09/2012
Acho até indevido, para não dizer: sacanagem, chamar de "liberais" ou de "liberalismo", este sistema e seus "representantes", onde tudo se resolve mesmo, é nos encontros de bastidores, entre os poucos que detem o monopólio de quase tudo, do sistema financeiro ao sistema da grande mídia, do petroleo ao vidro, dos produtos farmaceuticos aos satélites. Concorrencia e livre mercado é piada e nunca existiu neste sistema. Só mesmo no nosso pequeno mundo real, entre o bar da esquina e a padaria do outro lado...