08/03/2012

GRÉCIA: MERCADOS FESTEJAM O FUNERAL DE UMA NAÇÃO

Mercados e bolsas festejam o acordo fechado nesta 5ª feira entre a Grécia e os bancos credores, que concederam ao país um desconto médio de 50%, em troca de garantias e reformas que asseguram o pagamento do passivo restante.

Há razões para a banca comemorar: a adesão dos bancos ao desconto de 50% representa, no fundo, o oposto do que transparece e se alardeia. Trata-se de uma gigantesca transfusão, talvez a mais radical desde o Tratado de Versalhes, do sangue de um povo a credores pantagruélicos e interesses assemelhados. Uma derrota superlativa da democracia grega, que marcará a história do país por décadas; e provavelmente destruirá seu sistema representativo, marcado por traição nacional maiúscula.

As eleições parlamentares de abril agora podem funcionar como a espoleta dessa bancarrota. O processo consumado nesta 5ª feira compromete a vida da atual geração, a dos seus filhos e a dos netos que um dia eles terão. Em troca de um desconto sobre uma dívida impagável -- contraída num intercurso entre governos irresponsáveis e banqueiros cúmplices-- o Estado grego assinou uma espécie de testamento à favor dos mercados. Em seguida, consumou o suicídio político da democracia. A partir de agora, e por prazo indeterminado, a Grécia rende-se ao papel de protetorado das finanças internacionais. Um protetorado a ser alardeado como paradigma de bom comportamento.

Um diretório nomeado pelos mercados terá poderes legais para monitorar a tosquia do país, com direito a vetar orçamentos e redirecionar recursos prioritariamente ao pagamento de banqueiros. O que a coalizão socialdemocrata e conservadora fez foi municiar-se de um álibi internacional para sancionar um arrocho salarial indecente -o salário mínimo foi ineditamente reduzido; como ele, as pensões;demissões maciças da ordem de 150 mil funcionários públicos estão em marcha (15 mil já foram efetuadas este ano); privatizações e cortes na saúde e educação desencadearam surtos de suicídios e fome nas escolas. A entrega de crianças pobres a orfanatos é a tragédia mais recente protagonizada por famílias desesperadas.

Compare-se com o que fez a Argentina de Kirchner há nove anos para se ter a medida da regressividade acatada por Atenas. Em 2003, a Argentina era uma espécie de Grécia da América do Sul. Desacreditada aos olhos de seu próprio povo, balançava como um 'joão bobo' nas mãos do capital especulativo interno e externo. Nestor Kirchner herdou do extremismo neoliberal uma taxa de pobreza de 60% sobre uma população de 37 milhões de argentinos.

A dívida de US$ 145 bilhões, impagável, corroía seu sistema financeiro. Os credores sobrevoavam a nação argentina à espera do melhor momento para arrancar os seus olhos e o que lhe restasse ainda da carne, como fizeram nesta 5ª feira com a Grécia. O cerco internacional era avassalador. A diferença é que Nestor Kirchner não se dobrou: impôs um desconto unilateral e incondicional de 75% da dívida aos credores --ganhou margem de soberania, portanto, ao contráreio da rendição grega espetada em sacrifícios brutais. Com independência, a Argentina desvalorizou o câmbio, congelou tarifas, destinou a receita crescente a programas sociais e de fomento; não ao pagamento à banca, como reza a rendição grega.

A taxa de pobreza recuou a 10% da população. A economia argentina foi a que mais cresceu no hemisfério ocidental na última década. Cristina foi reeleita em 2011 com apoio esmagador. Os desdobramentos virtuosos desse braço de ferro são espertamente omitidos pela crítica conservadora que tenta desmerecer os ganhos econômicos e sociais da soberania argentina, ao mesmo tempo em que edulcora o escalpo da sociedade grega. E o faz por uma razão compreensível: eles realçam as dimensões catastróficas dos desastres em marcha na Grécia, Espanha, Portugal e outros, submetidos à dose dupla de um purgante ortodoxo inútil, que o êxito da nação latinoamericana derrotou e desmoralizou.

Postado por Saul Leblon às 17:44

10 Comentários

Bruno Fernandes diz:

11/03/2012

Esta coluna me emocionou mais do que esperava. A situação da Grécia virou tragédia consumada. Muito triste, e o é porque sabemos como este povo sangrará para pagar uma dívida e bancar lucros que não os competem.

Maria Luiza Silva Telles diz:

10/03/2012

Qual será o próximo país a cair?

Rogerio Krieger diz:

10/03/2012

...A Argentina mostrou o caminho a ser enfrentado numa bancarrota social e econômica,mostrando aos povos ditos de primeiro mundo,que os caminhos são outros,e que hoje a esquerda latina e os governos democráticos e populares do continente apontam novas formas de enfrentar o deus mercado...O Brasil caminha numa construção macroeconnômica de fortalecimento da economia nacional,com a forte participação do estado-naçao,indutor de desenvolvimento e inclusão social...A europa,e principalmente a Grécia tomaram um rumo sombrio de nefastas conclusões.Pobre povo,que sofrerá na pele as consequencias da quebradeira geral.Assim o Kapital se espraia pelo cosmos se infiltrando na mente das pessoas e no bolso dos homens...questões....saudações socialistas....

Bob diz:

09/03/2012

Ótima matéria e comentários anteriores!
Isso é LUCIDEZ!

PedroAurelioZabaleta diz:

09/03/2012

Donde se conclui que FHC foi um presente de grego que os "mercados financeiros" neoliberais deram ao Brasil.
E o "coiso" é o "novo" presente que eles ainda tentam nos impor.
Vaderetro!

fabiano diz:

09/03/2012

Muito boa a comparação com a Argentina que encarou o FMI com postura e responsabilidade de um país que tem compromisso com o bem estar da sua população. Não adianta fazer um “excelente” “acordo” com o FMI, receber elogios da mídia se esse não se traduz em beneficio para os cidadãos que habitam neste país.
Se um “acordo” celebrado entre o Fundo Monetário Internacional e um país, qualquer país que seja não trás benefício para a existência humana, qual a sua real finalidade? Se os governantes não fazem da administração um instrumento em prol da população, essa administração perde a sua função, pois “(...) todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem, procuremos determinar o que consideramos ser os objetivos da ciência política e o mais alto de todos os bens que se podem alcançar pela ação. Em palavras, quase todos estão de acordo, pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem que esse bem supremo é a felicidade e consideram que o bem viver e o bem agir equivalem a ser feliz(...)” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. São Paulo: Editora Martin Claret, 2000.).

Jueli Cardoso diz:

09/03/2012

NAO CHORES POR MIM ARGENTINA !...... devem dizer hoje os gregos. Porém, além de chorar, o que é normal, os gregos devem erguer a cabeça e dar um basta à bancarrota de seu povo com a entrega do seu país aos banqueiros.
Onde estão os partidos de esquerda da Grécia para levantar as palavras de ordem que possam mobilizar seu povo no levante contra esta espoliação?!....

Eugênia diz:

09/03/2012

É importante registrar que a Argentina também foi ajudada pelo apoio do Brasil e outros países da América do Sul, naquele momento já em processo de transformação política. Apoio que falta à Grécia que também não está fazendo nada para conseguí-lo etc.

Ignez diz:

09/03/2012

Na era FHC o Brasil fazia o mesmo papel da Grécia: entregava de mão beijada todas as nossas riquezas; solapava os poucos direitos dos trabalhadores; destruía o Estado; ajudava a combalir nossa soberania e nossa diplomacia, a ponto desta, literalmente, tirar os sapatos para revista em solo americano. Os entreguistas daqui - tucanos e demos - ainda querem essa submissão. Lula - o PT - reergueu o Brasil. Conferiu-lhe alguma dignidade. Os "deslumbrados" demo-tucanos ainda tentam impor aos brasileiros o "complexo de vira-latas". O predatório mercado financeiro ainda quer nos mastigar, como mastigou a Grécia. Essa ruminação bovina o instiga a ir adiante, avaçando sobre Portugal, Espanha, Irlanda, Bélgica, etc. Que Dilma esteja atenta ao PIB brasileiro.

Renato Luís Schmitt diz:

08/03/2012

E quem disse que eu fico na frente de uma televisão perdendo meu tempo com as desinformações ou com notícias pífias ou que compro jornais para ler.

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