Terça-Feira, 22 de Julho

18/03/2012 - Copyleft

A janela e o espelho

por Emir Sader em 18/03/2012 às 11:47




Emir Sader

A mais importante função da teoria nos nossos tempos é a de historicizar a realidade, isto é, a de demonstrar como toda realidade é produto da ação – consciente ou inconsciente – dos homens, revelar como foi produzida, quem a produziu, para desembocar em como pode – e deve – ser desarticulada e reconstruída conforme a ação consciente dos seres humanos.

O mecanismo mais alienante de todos hoje é o da naturalização do mundo: as coisas são como são, não podem ser diferentes, a pobreza, a miséria, as catástrofes sempre existiram e sempre existirão. Os próprios pobres não querem sair da sua pobreza. Os países pobres sempre foram e sempre serão pobres. A riqueza é produto do trabalho, do empenho, da seriedade de alguns países, enquanto o atraso é resultado de mentalidades retrogradas, de gente que não gosta de trabalhar, de preguiçosos.

Não por acaso, no auge do seu ufanismo, ideólogos do sistema capitalista proclamaram o “fim da história”. Houve história até o momento em que festejavam sua vitória. A partir dali se teria chegado ao suprassumo do desenvolvimento humano – economia capitalista de mercado e democracia liberal -, insuperável patamar da felicidade e da realização da civilização.

O capitalismo seria o ponto de chegada natural da história e a burguesia sua encarnação. A pós-modernidade é a teoria dessa visão. O abandono das grandes narrativas representa a renúncia à compreensão dos processos contemporâneos, que já não seriam nem possíveis, nem necessários. Faz parte de um ceticismo profundo, que marca esse pensamento e que contribui para o fatalismo.

A pós-modernidade se define contra a totalidade, contra a teleologia e contra o utopismo, sob o pretexto de lutar contra o totalitarismo e os reducionismos. Renuncia assim às grandes interpretações de compreensão global da realidade, mais ainda aos projetos de sua transformação. Contribuem para naturalizar a realidade.

Compreender o mundo é, sobretudo, historicizá-lo, entender como ele foi constituído da forma que o conhecemos e como a ação humana reproduz essa realidade. Para poder captar a forma pela qual é possível desmontar e reconstruir de outra forma essa realidade.

Dessa maneira podemos olhar a realidade não desde uma janela, como algo alheio a nós, mas como um espelho, reflexo da ação humana.

Tags: Política






Terezinha de Oliveira Gonzaga - 25/03/2012
Concordo plenamente e as visoes do fundamentalismo que cresce cotidianamente se baseia na visão de que sempre foi assim. Nós do movimento feminisita que cotidianamente temos que desconstruir esse paradigma de que é natural a submissão das mulheres.Ao valorizarmos as discussões estruturais e esclarecer com dados históricos dos processo da construção pela humanidade dos pilares da opressão como o patriarcalimso, o patrimonialismo para garantir extratos de classe e opressão por sexo e raça. Estas reflexões e estudos coleitvos tem contribuído para que mais mulheres vejam o mundo de forma que pode-se constlruir novos paradigmas e compreenderem de que direitos humanos com respeito a diversidade e a justiça socio ambiental tem que ser construido cotidianamente e de forma global e passam a fazer política. Tira travas e abre perspectivas.


Iná Scarcelli - 24/03/2012
O abandono da reflexão de nóssa própria história é deixar que outros a guiem, outros a conduzam... é entregar a chave de nossos destinos aos que já a escrevem... Prof. é muito lúcida sua análise...


Tiago Felipe Ambrosini - 21/03/2012
Emir,



Concordo com você. O projeto da modernidade, de uma razão autonomia capaz de construir uma ordem racional para uma sociedade universal, pautada por uma ética comum, esse projeto, foi demasiadamente criticado pelas teorias pós-modernas: pós-estruturalismo, filosofia da linguagem, pragmatismo. Essas teorias apontom o enfraquecimento da razão objetiva e a denuncia da razão instrumental, manipuladora da realidade. Porém, penso que é necessário reconstruir certas ideias da modernidade, em especial, a emancipação humana. Se a diversidade cultural e linguistica impõe a necessidade de repensar o conceito de razão universal, nem por isso se deixara de propor um nucleo normativo comum, capaz de fundamentar uma nova ética e os direitos humanos.


Lidiane dos Anjos - 21/03/2012
Muito bom ter acesso a leituras como esta, que fogem da rotineira ideia capitalista. Pensando a realidade assim, temos a eseprança de transformá-la!


P. Ilianovic - 20/03/2012
Concordo quanto às crítias aos "pós-modernos" com relação à ideologia de suas críticas ao que chamam de metanarrativas, porém desconfio de crenças em teleologias...


Pedro Castro - 20/03/2012
Caro Emir,

Este seu texto fez-me llembrar de outro, a seguir:

"O mundo companheiro não é um desenho de metafisicas magnificas como imaginei outrora,

quando ainda me perturbava a rosa...O mundo nasceu das necessidades. O Caos, ou o Senhor,não filtraria no

escuro um homem inconsequente, que apenas palpitasse ao sopro da imaginação. O homem é um gesto, que se faz ou não se faz. Seu absurdo - se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça

Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo

entre os filhos da terra. Força aos que o herdaram é faaer esse gesto disputar esse fruto... Por isso, agora,

organizei meu sofrimento ao sofrimento de todos: se multiplliquei a mnha dor, também multiplliquei a minha

esperança" (Paulo Mendes Campos)


mario - 20/03/2012
Fukuyama foi quem pregou o fim da Historia, mas ela não morrerá enquanto o ultimo homem na Terra viver.

As utopias infelizmente morreram, o socialismo, o comunismo , o movimento hippie entre outros.

Parece que quem levou o embate(ainda que claudicante) foi o capitalismo, então acho que foi isso que Fukuyama quis dizer.


Marcos Antônio - 19/03/2012
Sempre aprendo algo mais com o professor Emir!


ze - 19/03/2012
O evolucionismo que diz do fim, diz tb do início com a escrita, como se a tradição oral não existisse ( falam que só há história com a escrita ). No princípio não havia moeda e sim apenas a economia do dom e contra dom, como os antropólogos e historiadores bem mostram - a moeda atualmente está destruindo a economia : precisamos voltar às origens.


Oscar Henrique de Souza e Silva - 19/03/2012
Parabéns Professor Emir!



O Senhor sabe se neste ano terá algum Fórum na Bolívia?



Abraços,



Oscar


Marcelo Silva Taveira - 19/03/2012
Legal, mas como entendê-lo????


Nivaldo Barbieri - 19/03/2012
Caro Emir

Gosto muito das tuas idéias e visões das coisas, és brilhante.

Como ninguem é perfeito, precisas dar uma melhorada nos teus artigos quanto a organização da apresentação das belissimas ideias.

É isto Brilhar e refletir.

Nivaldo


Wagner Pacheco - 19/03/2012
Marcelo, o grande barato é perpetuar o questionamento, a reflexão e não se limitar à busca por definição!


Rogerio Krieger - 18/03/2012
Grande sacada professor Emir:"os espelhos como reflexos da'lma".Interpretar o mundo com uma visão transformadora.Não acatar a mesmice que a pastelaria do pig serve diariamente no café da manhã do povo brasileiro,distorções e falsos interesses.Por essas e outras temos o Portal Carta Maior como referencia nas análises sócio-políticas,economicas e filosóficas com uma visão alternativa ao senso comum do facismo midiático do neoliberalismo financeiro que dá as cartas no tabuleiro do xadrex político mundial.Outras visões,novas interpretações.Ousar e atuar sempre.Saudações prof.Emir Sader!

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