Quinta-Feira, 22 de Junho

08/10/2014 - Copyleft

A velha e a nova polarização

Os governos de FHC e os governos do PT colocaram as alternativas centrais do nosso tempo: neoliberalismo x antineoliberalismo.

por Emir Sader em 08/10/2014 às 04:25



Emir Sader


Pela quarta vez se enfrentam o PT e os tucanos no segundo turno. Repetição mecânica do passado? Falta de inovação na politica? Ou é a realidade que permanece colocando as mesmas alternativas para escolhermos?

O governo de FHC e os governos do PT colocaram as alternativas centrais do nosso tempo: neoliberalismo x antineoliberalismo. O primeiro representou, em estado puro, um programa neoliberal, que conteve a inflação, mas aumentou a exclusão social, até que foi incapaz de seguir contendo a própria inflação e jogou o país numa profunda e prolongada recessão economica.

Os governos do PT se erigiram em torno do tripé antineoliberal:

a) modelo econômico com distribuição de renda e não priorizando o ajuste fiscal

b) prioridade da integração regional e dos intercâmbios Sul-Sul e não a Tratado de Livre Comércio com os EUA

c) papel ativo do Estado como indutor do crescimento e garantia dos direitos sociais e contra a centralidade do mercado.

Desde então as alternativas do país giram em torno desse eixo: neoliberalismo ou antineoliberalismo. A direita não encontrou alternativa e retorna ao modelo do governo FHC. Bem que o Serra tentou, na primeira parte da campanha de 2010, mudar a plataforma da oposição, mas acabou recaindo na tradicional proposta neoliberal dos tucanos.

Eduardo Campos levou o PSB a romper com o PT, para finalmente recair numa aliança estratégica da oposição com os tucanos, tendo na Marina sua sucessora na mesma direção, confirmando a polarização entre neoliberalismo – que uns e outros encarnam – e posneoliberalismo – expresso no PT e no bloco de forças que ele dirige.

A esquerda radical tampouco conseguiu formular outro projeto e aglutinar forças em torno dele. Em 2006 buscou aparecer como força alternativa, mas nas campanhas seguintes – confirmando nesta – voltou a um papel secundário, sem lograr descaracterizar a polarização PT-tucanos, que representa a grande polarização da era neoliberal.

Por isso tudo parece repetitivo, mas o campo político reproduz a verdade histórica de cada época. A desta é a polarização entre projetos neoliberais – ainda hegemônicos em escala global no capitalismo – e governos posneoliberais. As palavras podem divagar sobre aspectos dessa polarização, mas a realidade é implacável, seleciona os projetos que correspondem à situação concreta do período histórico atual.

Os governos progressistas latino-americanos, com suas especificidades, correspondem a essa polarização. Por isso perduram no tempo. Hugo Chavez e as forcas que o sucedem na Venezuela. Evo Morales na Bolivia. O kirchnerismo na Argentina. A Frente Ampla no Uruguai. Rafael Correa no Equador. O PT de Lula e Dilma no Brasil.

Porque são governos que respondem ao desafio maior da nossa época: a superação do neoliberalismo e a construção de alternativas a esse projeto de radicalização do capitalismo. A polarização de hoje atualiza a contradição fundamental do Brasil e da América Latina contemporâneos, entre neoliberalismo e posneoliberalismo. 

Tags: Política





José Arigo da Silva - 11/10/2014
OK, Emir, sem ler o resto, que deve estar bom,

mas, paciência, meu caro. Lula era anti-neoliberal,

mas D. Dilma?! Qual o que? D. Dilma é fogo,

neoliberalzona na veia, na alma, no tutano, no DNA.


Carlos Norberto osilieri - 11/10/2014
É a disputa do partido da situação(PT) e o partido mais forte e rico da oposição(PSDB), com o apoio total da mídia.


Edu Montesanti - 11/10/2014
O norte-americano Noam Chomsky, filósofo mais respeitado do mundo, e o canadense Michel Chossudovsky, economista mais renomado do globo, ambos famosos por brilhantes trabalhos progressistas, qualificam os governos latino-americanos de maiores sucessos mundiais das últimas décadas em termos sociais, e colocam o atual governo brasileiro, em quem votarei, repito, como neoliberal. Portanto, não são apenas os brasileiros de esquerda os "radicais", na visão de Emir Sader. E vale lembrar: este mesmo já foi, em um passado nada remoto, da "esquerda radical" assim como Lula, Dilma, etc. Moral dessa história: se não saírmos da retórica, se os interesses político-partidários continuarem falando mais alto este país jamais mudará substancialmente ÿÀ


roberto danunzio - 10/10/2014
Waldemar, não tenho nenhuma explicação macroeconômica ou tecnocrática da dívida pública para te dar, pergunte ao Saul Leblon. Quanto à questão constitucional do servidor é muito simples: o servidor federal tem o direito de reajuste anual na data base inscrito na constituição. Nenhum governo pós 1988 cumpriu este item da lei, portanto, todos agiram fora da lei. O servidor é então forçado a fazer greve e todos os governos usam da grande mídia para demonizar o movimento grevista, seja qual for. A partir da greve para a qual são empurrados, os servidores forçam uma negociação. FHC foi forçado e se rendeu, quando viu que estava pressionado, negociou. Lula enrolou até o último minuto e Dilma, esgotada a tática da enrolação, partiu para a repressão. Esta é uma rotina de luta fartamente documentado em todos os sindicatos dos servidores públicos federais das três esferas, basta consultar os arquivos e debater com os sindicalistas que o senhor vai se informar como as coisas se passaram ontem e se passam hoje. Não é jogando o lixo para debaixo do tapete que vamos a sala limpa, meu caro. Se o PT teve seus méritos em relação a uma classe de despossuídos e trabalhadores, está pecando feio em relação a outras e não há um motivo deste mundo que me impeça de falar a respeito, até porque é nesta época de eleições que podemos forçar um pouquinho os políticos no sentido que prezamos. Agora, se o senhor está satisfeito do jeito como está, se não se importa com a agressão que sofre o trabalhador público, é uma postura sua que eu não respeito.


Edu Montesanti - 10/10/2014
Colocar o atual governo, em quem votarei neste segundo turno, no mesmo patamar dos outros progressistas da América Latina, Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina que entre outras tantas regularam a mídia, é uma grande piada! São governos que possuem a mesmíssima agenda do que, no Brasil, Emir Sader qualifica de "esquerda radical". Um leitor aí fez uma pergunta a outro, irônica, suguerindo revolução socialista como alternativa ao governo do PT. Basta, meu caro, sair da retórica e colocar em prática o programa dos países vizinhos. Simples assim. Só acredita que nosso país vive sistema semelhante ao dos vizinhos, quem não sabe o que ocorre lá, quem se limita a ler a mídia grande e sua prática da desinformação. Nisso, há também semelhança entre Emir Sader e a direita. Ele diz que a esquerda se alia à direita quando critica o PT, pois aí está...


Edu Montesanti - 10/10/2014
O norte-americano Noam Chomsky, filósofo mais respeitado do mundo, e o canadense Michel Chossudovsky, economista mais renomado do globo, ambos famosos por brilhantes trabalhos progressistas, qualificam os governos latino-americanos de maiores sucessos mundiais das últimas décadas em termos sociais, e colocam o atual governo brasileiro como neoliberal. Portanto, não são apenas os brasileiros de esquerda os "radicais", na visão de Emir Sader. E vale lembrar: este mesmo já foi, em um passado nada remoto, da "esquerda radical" assim como Lula, Dilma, etc. Moral dessa história: se não saírmos da retórica, se os interesses político-partidários continuarem falando mais alto este país jamais mudará substancialmente


Edu Montesanti - 10/10/2014
Colocar o atual governo, em quem votarei neste segundo turno, no mesmo patamar dos outros progressistas da América Latina, Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina que entre outras tantas regularam a mídia, é uma grande piada! São governos que possuem a mesmíssima agenda do que, no Brasil, Emir Sader qualifica de "esquerda radical". Um leitor aí fez uma pergunta a outro, irônica, suguerindo revolução socialista como alternativa ao governo do PT. Basta, meu caro, sair da retórica e colocar em prática o programa dos países vizinhos. Simples assim. Só acredita que nosso país vive sistema semelhante ao dos vizinhos, quem não sabe o que ocorre lá, quem se limita a ler a mídia grande e sua prática da desinformação. Nisso, há também semelhança entre Emir Sader e a direita. Ele diz que a esquerda se alia à direita quando critica o PT, pois aí está...


Orlando F. Filho - 10/10/2014
Fico estarrecido como algumas pessoas não entendem nada de greve. Dizer que o PT cooptou os sindicatos através da CUT é uma idiotice sem tamanho. E a força sindical e as outras centrais. Eu fiz greve nos correios(fazia parte do comando de greve) no tempo da ditadura militar na época em que o ACM era ministro das comunicações e nos ameaçou com polícia, demissões(minha mulher foi demitida, eu também fui). Quando a categoria tomou consciência que podia se mobilizar, ninguém segurou. Lula comandou uma das maiores greves em 78 e foi preso, mas foi solto pois a ditadura percebeu que prendê-lo de nada adiantaria. Quem fala isso ou nunca fez greve ou não manja nada mesmo de política. Nenhum governo consegue desmobilizar uma categoria unida. Já vi muitas greves sem o comando do sindicato pois a categoria percebeu que os caras eram pelegos. Já disse anteriormente que o governo tem um orçamento o qual foi aprovado pelo congresso e todos sabemos que sempre a oposição faz de tudo para limitar o alcance deste orçamento, principalmente em se tratando de reajustes ou aumentos para servidores públicos. Não levar em conta isso também significa não manjar nada de como funciona o congresso nacional. Estou cansado destes caras que aqui entram e ficam com aquele samba de uma nota só, mas não declaram em quem vão votar; Ficam posando de pedra(o que é muito fácil), jamais querem ser vidraças. Conheço esse tipo de gente muito bem, querem apenas criticar mas não declaram seu voto e na minha opinião, são covardes. Votarei em Dilma porque o PT mudou muito a maneira de fazer política no Brasil e não é toda hora que aparece um lider como Luiz Inácio Lula da Silva quem, inclusive, foi personagem de filme e alguns analfabetos políticos ficam falando um monte de besteira sobre o cara sem conhecer sua história política.


Waldemar M. Reis - 09/10/2014
O Danunzio escreveu um bocado e mostrou só a parte pessedebista que lhe interessa. Que desenvolva mais sobre a dívida pública, os ítens (todos) que a motivaram e o cenário duma eventual inadimplência. Que também discorra mais sobre as disposições legais e constitucionais do serviço público para ver se fazemos algum sentido maior de suas palavras aqui. Está lançado o desafio.


Victor Emanuel Giglio Ferreira - 09/10/2014
O grande empecilho ao avanço dos projetos progressistas anti-neoliberais, tanto na América Latina quanto no resto dos países do ocidente, é que o balanço do poder político quase sempre lhes é desfavorável. Os poderes institucionais (executivo, legislativo e judiciário) são apenas pequena parte do poder político real. Na realidade, os maiores poderes nas sociedades modernas são o midiático e o militar. Simbolicamente, equivaleriam respectivamente à dama e às torres em um jogo de xadrez, enquanto a presidência da república e congresso equivaleriam no máximo ao pobre rei e o povo apenas os peões. Portanto, é dificílimo fazer deslanchar o projeto anti-neoliberal enquanto todas as forças militares existentes no país e o poder midiático estão inteiramente controlados pelos setores ultra-conservadores, por sua vez representando os interesses do imperialismo e do grande capital financeiro internacional. Vejam só a sequência de ataques e mentiras de todos os tipos, praticamente diários e ininterruptos, com os quais a grande mídia (televisões, rádios, revistas, etc.) vem promovendo uma verdadeira lavagem cerebral em toda a população para que acredite que o atual partido governista seria corrupto e incompetente e os oposicionistas não, ao contrário, seriam "muito bonzinhos". Essa é a única e única explicação para a acachapante e acachapante vitória da mais velha e conservadora direita em quase todo o centro-sul do país (mais acessado e influenciado por essa mídia) nessas eleições. O povo iludido simplesmente vota no carrasco que lhe vai liquidar no matadouro. É por isso que Lenin, já faz século, nunca acreditou na "democracia burguesa" como meio para transformações reais nas sociedades - porquê ela é inteiramente dominada pelas forças midiáticas e militares burguesas. Enquanto os poderes militar e midiático continuarem nas mãos das forças mais conservadoras, dificilmente teremos como avançar em mudanças importantes. Quase todas as mudanças reais ocorridas no mundo implicaram em prévia conquista do controle dos poderes reais acima mencionados - midiático e militar. Infelizmente mesmo é a realidade, sendo o resto apenas ilusões da existência de um atalho fácil através do caminho "democracia burguesa", mas que não passam de miragem. A carnificina midiática contra o governo nessas eleições vêm nos provando isso mais uma vez.


Francisco Mendes - 09/10/2014
Meu caro Victor, que eu saiba ainda estamos vivendo em uma sociedade capitalista. O que v, propõe? Fazermos a revolução socialista?


Norma de Mello Massa - 08/10/2014
Sim, isso a meu ver, é o que está por trás da disputa política atual. Mas infelizmente não é o

que interessa à geopolítica das grandes potências

ocidentais nem aos bancos e às grandes riquezas mundiais. Só que isso tudo agora fica rapidamente muito claro para quem está interessado em acompanhar os fatos, ouvir sociólogos e ler os pensadores (filósofos) do assunto. Acho que corremos grande risco de um grito global contra tudo isso.


roberto danunzio - 08/10/2014
Leitor, você não acredita nestas dicotomias tão estritas que saem da pena de Emir Sader, acredita? No mundo real, alguma situação pode ser caracterizada assim de forma tão simplista, ou é preto ou é branco, ou é neoliberal ou não é? Quando os dirigentes do governo FHC sentiam a pressão das greves do serviço público, assentavam-se para conversar com o trabalhador, não porque queriam, mas porque eram forçados. O PT cooptou as grandes centrais e com a ajuda da CUT tem usado todo tipo de truque sujo, porque são ex-sindicalistas e sabem fazer isto muito bem, contra os sindicatos independentes e contra o funcionalismo em greve. Se isto não é tática de gente de direita, se isto não é desmonte do estado, se isto não é neoliberalismo, alguém me acode aí, pois tenho a impressão de que o colunista está querendo me manipular com este discurso maniqueísta. O servidor é quem faz o estado, o estado não funciona no automático como os mistificadores vendem para a sociedade e o cidadão é melhor atendido na medida em que o servidor é mais bem pago e mais capacitado. O PT, a exemplo do PSDB, nunca teve uma política específica para os trabalhadores que estão sob suas ordens, temporariamente. Não cumpre a constituição que determina a data base do servidor e está sendo muito mais radical no uso da força do estado contra o trabalhador, incluindo aí o pegar carona no PIG no movimento que sempre demoniza os grevistas. Para onde vai o reajuste salarial e a falta de investimento na estrutura do estado? Ora, vai engordar o bolso já abarrotado da aristocracia financeira através do sacrossanto pagamento da dívida pública, rubrica intocável do orçamento. Ora, se isto não é desmonte do estado para robustecer o caixa e o poder do sistema financeiro, que vai ficando imbatível, se isto não é neoliberalismo, alguém aí me ilumine, porque estou ficando cego. Alguém já viu o Saul Leblon, o Emir Sader e algum colunista da Carta Maior defender o direito constitucional do trabalhador do estado de ter o salário reajustado na data base? Alguém já viu o Saul e o Emir defenderem o trabalhador que serve ao cidadão, o trabalhador que faz o estado, o trabalhador que é o estado?


arquimedes andrade - 08/10/2014
Muito bom. Com os tucanos e a tucanália é o Estado máximo para os mais ricos e o mínimo para o povão.

Com Lula e Dilma um Estado protagonista das mudanças e políticas públicas inclusivas. Vamos de Dilma ou será um grande retrocesso com mais cacete, pau e bala (de borracha) nos movimentos sociais.

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