Terça-Feira, 27 de Junho

25/08/2014 - Copyleft

De que solidariedade nos fala a União Europeia?

Não se sabe bem por que razão a América Latina teria que ser solidária com a UE e com os EUA, que decidiram sanções contra a Rússia, sem nenhuma consulta a AL.

por Emir Sader em 25/08/2014 às 15:19



Emir Sader


Porta vozes da União Europeia reclamam contra países latino-americanos que aceitaram exportar produtos alimentícios e laticínios para a Rússia, como alternativa a exportações para a Europa e os EUA. Queriam que fossemos solidários com ele nas sanções que impõem à Rússia pela questão da Ucrânia.

É uma expressão mais de como a Europa está fechada sobre si mesma, sem se dar conta do que acontece no mundo, menos ainda na América Latina e, talvez, nem sequer do que acontece na própria Europa.

Quando solicita um tipo de solidariedade com os países que perdem mercado na Rússia, não se sabe muito bem por que razão a América Latina teria que ser solidaria com a UE e com os EUA, que decidiram sanções contra a Rússia, sem nenhum tipo de consulta com a América Latina. Por acaso acreditam que existe ainda alguma forma de alinhamento automático dos países do “Ocidente” com eles, como se fossem lideres “naturais” desta parte do mundo?

Eles tomaram medidas por sua própria conta e agora querem que países latino-americanos – Brasil, Argentina, Equador, Chile – se somem a decisões deles, deixando de defender seus próprios interesses. Supõe que seus inimigos são nossos inimigos e que eles são, por definição, nossos amigos?

Já há muito tempo a Europa optou por ser aliado subalterno dos EUA. Vários governos latinoaemricanos decidiram por um caminho oposto: contra o modelo neoliberal ainda vigente na Europa e contra a hegemonia imperial norteamericana e a favor de um mundo multipolar.

Talves nem se dêem conta da importância das resoluções da reunião dos Brics, na recente reunião no Brasil, assim como da reunião dos Brics com o Mercosul e com a Celeac. Ensimesmadas e pegas na armadilha pela crise ucraniana, não sabem que o mundo caminha na direção oposta à que eles tomaram.

 Tão encerrada em seus enormes problemas que parece que a Europa não se dá conta da tristemente acelerada decadência da Europa. Depois de ter construído o Estado de bem estar social, um dos mais generosos e democráticos sistemas que a história já conheceu, essa mesma Europa se põe agora, dolorosa e cruelmente, a destruí-lo.

Depois de ter acenado, em alguns momentos, para uma liderança alternativa à dos EUA e com alianças com regiões como a América Latina, a Europa decidiu aderir ao modelo neoliberal – de que a política de austeridade é expressão direta – e à posição subalterna em relação aos EUA. As sanções à Rússia são produto dessa postura, com a qual a America Latina não tem por que ser solidária.

Ao contario, nós somos solidários com as vítimas das políticas de austeridade na Europa. Solidários com a África e com a Ásia, na resistência às politicas imperiais dos EUA, às quais a Europa se associa. Não nos peçam solidariedade com essa política de adesão a Washington na sua política imperial.

Nós, ao contrário, estamos construindo outro tipo de sociedade, distinta do neoliberalismo, outro mundo possívei, fundado no desenvolvimento com inclusão social - como dizia o lema da reunião dos Brics no Brasil, - e nao na estagnação com exclusão – como faz tristemente a Europa.

Tags: Internacional





Paulo Silva - 29/08/2014
Complicada essa historia. Se o Brasil resolvesse aderir ao "embargo economico" contra a Russia, como seria a proxima reuniao dos BRICS?


Marcia Eloy - 27/08/2014
Na Espanha 50% dos jovens está sem emprego. meu irmão que foi professor de Mestrado da PUC-RIO disse que o curso de Mestrado da PUC 50% das vagas foram preenchidas por portugueses e espanhóis. Entra 4 pessoas só uma possui emprego nas Espanha, mas isto a mídia Isenta não revela pois não interessa.


roberto danunzio - 27/08/2014
Oliveira, dê um passeio pela Espanha e depois tente fazer como eu faço há pelo menos duas décadas, mergulhe no Brasil de verdade, ande pelos confins da zona sul de São Paulo ou numa periferia qualquer, de Cabrobó ou Altamira. Depois voltamos a conversar. Na avenida Paulista e no discurso da Carta Maior o Brasil, de fato, não parece um país de despossuídos, afinal, é campanha política, o reino da mistificação, o os isentos desta publicação, ops, não são isentos, estão a serviço de um partido político que está a serviço de certos grandes interesses inconfessos. Este interesses, claro, não são revelados aqui.


Arnaldo Bertoni - 26/08/2014
Que morram abraçados com os yankees, o imperialismo e o neoliberalismo irão desaparecer do mapa em breve.


Oliveira Simões - 26/08/2014
Achei o artigo muito bem ponderado. Realmente, é um absurdo que esperem solidariedade da América Latina quando não somos consultados em assuntos importantes. O Brasil tem mais é que aproveitar as oportunidades que comércio que se abrem com a Rússia. Seria tolo se não o fizesse. Que se danem os europeus capachos do Tio Sam. Não concordo com o Roberto Danunzio quando se refere ao Brasil como um "país repleto de despossuídos". Esse é o discurso da direita que não enxerga os avanços sociais dos governos Lula e Dilma. Muito pelo contráio. Só sabem escrachar.


Renato Luiz Menze - 26/08/2014
Não somos e nunca seremos, em nosso íntimo, subservientes a povo algum, muito menos a esse capitalismo nefasto e desumano. Parabéns pelo escrito.


Rui - 26/08/2014
Será que alguém tem alguma dúvida, que, se o Menem brasileiro, o Zé bolinha ou o tucano de nariz grande, fossem presidentes isso não iria ocorrer? Nem precisaria o Obama ligar para cá, como no SIVAM, ligariam urgente para ele para prestar solidariedade e mandar o chanceler descalço lá para abanar o rabo. Por isso que eles não entendem de agora não serem atendidos, foram 500 anos assim, como agora querem mudar? Por isso a suspeita de ter vindo de lá um atentado contra o avião de Eduardo Campos, só a Curupira, como segunda opção da segunda via, pode retornar ao que eles querem.


jose carlos lima - 26/08/2014
Mais grana pro brasil por causa dos acordo com a Russia, dai o ciume

Os brasileiros são felizes e não sabem

http://www.jornalggn.com.br/blog/iv-avatar/os-brasileiros-sao-felizes-e-nao-sabem


Marcia Eloy - 26/08/2014
Eles pensam que ainda somos colônias.


roberto danunzio - 26/08/2014
Não nos esqueçamos que o neoliberalismo vai levar uns vinte anos para transformar uma Espanha num Brasil repleto de despossuídos e que o Brasil levará outros cinquenta, no ritmo em que as coisas andam, para se tornar um arremedo de estado de bem estar social semelhante ao que uma Espanha é agora. Claro, isto se tivermos muita sorte, se o PSDB ou produto similar não voltar ou se o PT não continuar andando para trás. Se não colocamos as coisas em perspectiva, fica parecendo que nós vivemos no melhor dos mundos e que, em relação a nós, eles são os decadentes. O discurso político tem dificuldade em colocar as coisas em perspectiva.

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