Quinta-Feira, 22 de Junho

20/10/2014 - Copyleft

Neoliberalismo século XXI?

O neoliberalismo do século XX foi uma tragédia. Um neoliberalismo do século XXI seria uma nova tragédia e uma farsa.

por Emir Sader em 20/10/2014 às 06:48



Emir Sader


O neoliberalismo surgiu com o diagnóstico de que a economia capitalista deixava de crescer por excesso de regulamentações. “O Estado não é uma solução, é o problema”, não se cansou de proclamar Ronald Reagan. O que seria problema no Estado seria o excesso de limitações à livre circulação do capital. Liberado desses entraves, o capital voltaria a investir, a economia a crescer e todos voltariam a ganhar.

Porem Marx dizia que o capital não está feito para produzir, mas para acumular. Se ele ganha mais na especulação do que na produção, ele se transfere maciçamente para a especulação. Que foi o que aconteceu em escala mundial, fazendo do capital financeiro, na sua forma especulativa, o setor hegemônico no capitalismo, conforme o modelo neoliberal foi se impondo em escala mundial.

Na América Latina, a crítica ao Estado – que abre caminho para o neoliberalismo – se fez em torno da inflação. Ela foi transformada no problema central das nossas sociedades pela propaganda neoliberal, valendo-se de que a crise da dívida de final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, acelerou os desequilíbrios econômicos e, com eles, a inflação.

As candidaturas e os governos providenciais que se valiam do combate à inflação voltaram todas suas baterias contra o Estado porque afinal de contas é o Estado quem, com as contas desequilibradas, gasta mais do que arrecada e emite mais moeda do que a criação de riqueza, gerando inflação. Terminar com a inflação a todo custo levou a Carlos Menem, depois de crises de hiperinflação, a decretar a paridade entre o peso e o dólar, como se fosse possível fazê-lo por decreto. Se estancava a hemorragia, mas ao preço de terminar com a vida do paciente, que foi o que aconteceu com a mais grave crise a historia argentina, entre 2001 e 2002, quando explodiu a paridade e o país se viu jogado na miséria.

FHC subiu nessa onda, com seu Plano Real, que lhe permitiu se eleger e reeleger como presidente do combate à inflação. Ele usava um mote com raízes na realidade: a inflação é um imposto aos pobres que, quanto mais avança o mês, mais perdem seu poder aquisitivo, enquanto outros setores se defendem o até ganham com a inflação. E esta havia realmente ficado fora de controle, sem chegar à hiperinflação pelos mecanismos de indexação que existiam na economia brasileira.

Daí veio o sucesso do governo de FHC, sua eleição e reeleição. Porém, nao distribuiu renda, promoveu a desigualdade e a exclusão social, levou à quebra da economia brasileira, transferindo a inflação para dívida pública, que aumentou mais de 10 vezes no seu governo. Assinou três leoninos acordos com o FMI, com todas suas implicações econômicas e sociais, jogando o país numa estagnação profunda e prolongada, de que só saímos no governo Lula.

Este não apenas conseguiu retomar o crescimento econômico, como o fez com distribuição de renda e saída dos endividamentos com o FMI. Se FHC já havia sido derrotado pela incapacidade de eleger seu sucessor, a consagração do modelo levado a cabo por Lula fez da imagem de FHC uma das mais desgastadas no país.

Como é possível que agora o Brasil esteja sob o risco de um novo ciclo neoliberal? Sem ir às discussões dos erros do governo e da esquerda em geral – incluindo os movimentos do campo popular -, é preciso destacar a monstruosa campanha que a mídia monopolista privada desenvolve contra o governo há anos, preparando um cenário como o atual.

Para criar um clima que necessitaria soluções neoliberais – como corte dos salários, elevação do desemprego, redução a um mínimo dos bancos públicos, duro ajuste fiscal – foi necessário criar um pais fictício, em que a inflação de 6% ao ano foi tornada um clichê de “descontrole inflacionário”. Sem este mote seria impossível elaborar o programa de ajuste da direita. Associado ao diagnóstico absurdo de que seria um salario mínimo alto que brecaria a retomada da expansão, fica pronto o cenário para as medidas impopulares que Aécio anuncia.

Da primeira vez, no governo FHC, o neoliberalismo foi uma tragédia. Desta vez seria uma farsa, porque nem sequer o descontrole inflacionário existe. Foi em nome dele que FHC fez os ajustes que levaram ao Estado mínimo, às privatizações, à abertura escancarada da economia ao mercado internacional, a precarização das relações de trabalho, entre outras medidas antipopulares. Agora, nem sequer o detonante – o descontrole inflacionário – existe. Seriam medidas tomadas a frio, contra os salários, contra o nível de emprego, contra os bancos públicos, contra o papel regulador do Estado, contra a política externa soberana, contra a exploração do pré-sal pelos e para os brasileiros.

A crise profunda e prolongada da economia na Europa, no EUA, no Japão ou, aqui mesmo, a situação catastrófica do México, confirmam o que o neoliberalismo pode prometer para os países no século XXI.

O neoliberalismo do século XX foi uma tragédia. Um neoliberalismo do século XXI seria uma nova tragédia e uma farsa.

Tags: Política





John Cowperthwaite - 23/10/2014
José, li seu link. Ele confirma o que eu disse e não coloca nenhuma palavra a favor de bolivarianismo, socialismo ou comunismo. Lamento. A Coréia do Sul venceu pela aplicação de conceitos neoliberais: ensino fundamental de boa qualidade, economia exportadora ("capitalistas exploradores"), ambiente favorável a investimentos externos ("especuladores"), livre iniciativa e muito capitalismo. Devem ter em alguns detalhes realizado feitos de sua própria criação, como o Chaebol. O neoliberalismo não impede a inovação. Existe apenas uma receita básica que vem encurtando o caminho de quem quer paz, liberdade, tranquilidade econômica e desenvolvimento de riquezas. O restante pode ser criado. Tanto no "neoliberalismo" quanto no comunismo vai ser difícil de encontrar algo puro como a teoria. O que temos são casos que tendem mais a um lado de que a outro do espectro. A minha crítica é que filósofos do Brasil são contra o neoliberalismo em qualquer sentido. Lamento por quem se deixa levar por filósofos. O direito deles de falar se segue ao meu direito de falar também. O melhor caminho para o sucesso é o trabalho duro. Roubar não é um bom caminho. Abr.


José Almeida de Souza Jr. - 22/10/2014
@John Cowperthwaite: o Sr. realmente sabe do que está a falar? Na sua maçaroca de "exemplos em contrário" não há o menor fundamento e fio condutor. Tome-se como exemplo apenas o caso da Coréia do Sul: http://pubs.aeaweb.org/doi/pdfplus/10.1257/jep.4.3.41.


José Carlos Maciel - 21/10/2014
O Sr. Hélio Trindade faz uma análise bastante pertinente em relação aos "erros de governo" que, passado o susto (!?) do 2º turno, temos de retomar, aprofundar e solucionar p/ não corrermos o risco de perder o trem da História.


Marcia Eloy - 20/10/2014
O Problema não é a classe rica porque está votará sempre com o PSDB, este é o partido deles. O problema é a classe média, esta classe é que pela primeira vez está dividida e beneficiando a candidatura Aécio. Não estou entendo o porque do voto no Aécio...


arquimedes andrade - 20/10/2014
Independe dos resultados do dia 26 e outubro, a esquerda tem como primeira tarefa repensar e desenhar um novo caminho. O processo de transformação numa sociedade conservadora como a nossa é longo. O PT que fazer uma aliança com o capital produtivo, crescer a renda da população, universalizar a saúde e educação, estatal e de qualidade. Por na pauta a reforma política, a Constituinte exclusiva para este fim e acabar com a especulação financeira ou "capitalismo parasitário" mãe de todas crises, especialmente a de 2008. Vamos que vamos de Dilma, de 13.


Marcia Eloy - 20/10/2014
O Problema não é a classe rica porque está votará sempre com o PSDB, este é o partido deles. O problema é a classe média, esta classe é que pela primeira vez está dividida e beneficiando a candidatura Aécio. Não estou entendo o porque do voto no Aécio...


John Cowperthwaite - 20/10/2014
Tenho exemplos em contrário como Coréia do Sul, Taiwan, Shanghai, Hong Kong e Cingapura. Para ficar apenas em poucos e mais recentes. Depois de 15 anos, 9 meses e 19 dias, o que a aventura marxista bolivariana cristã entregou na América Latina, sobretudo no país com a maior reserva de petróleo do planeta? Dizem que na família de Hugo Chaves não há mais pobreza graças à soberania anti-imperialista da PDVSA.


Claudia Maria vilar de melo - 20/10/2014
Este é o verdadeiro golpe branco! Por favor brasileiros acordem, não deixem que está mídia egoísta, e insensata, e desumana, ceguem vocês. Olhem, percebam que a verdadeira mudança começou com o Pt. Sei que temos que melhorar, mais juntos conseguiremos!


Hélio Trindade - 20/10/2014
"Sem ir às discussões dos erros do governo e da esquerda em geral - incluindo os movimentos do campo popular " - Pois é justamente aí que nós podemos encontrar as respostas sobre como o neoliberalismo conseguiu se restabelecer como proposta alternativa para os desafios da economia brasileira. É necessário buscar as respostas nas contradições internas do governo do PT e não na suposta "mídia golpista". O verdadeiro culpado é o próprio PT. Por exemplo: onde estão as quarenta horas da classe trabalhadora? Porque os sindicatos não avançaram para fazer essa conquista histórica, justamente agora que o Partido dos Trabalhadores estava no poder? O fator previdenciário criado por FHC, porque não acabou? E a reforma agrária? Onde está o MST que teve treze anos para consolidar suas lutas e ocupações ? Desapareceu, ninguém mais ouviu falar deles... E as taxas de juros altíssimas, onde isso se encaixa para ajudar o movimento popular? E as rádios comunitárias? Como o Ministério das Comunicações está ajudando a quebrar os monopólios da grande mídia? Essas e outras questões nos mostram que o verdadeiro culpado é a própria esquerda que não soube permanecer no poder! Perdeu o bonde da história e quer vender a idéia de que foi derrotada pela mídia golpista!


Marcia Eloy - 20/10/2014
O Problema não é a classe rica porque está votará sempre com o PSDB, este é o partido deles. O problema é a classe média, esta classe é que pela primeira vez está dividida e beneficiando a candidatura Aécio. Não estou entendo o porque do voto no Aécio...

PARCERIAS