Quinta-Feira, 22 de Junho

08/08/2014 - Copyleft

O ano em que o mundo começou a mudar

Há um ano a hegemonia política e econômica dos EUA parecia consolidada. Um ano depois surge um bloco de forças que aponta para a superação dessa hegemonia.

por Emir Sader em 08/08/2014 às 12:07



Emir Sader


Há um ano os EUA estavam prestes a atacar a Siria, capitulo prévio a um ataque ao Irã, cedendo às pressões de Israel. Era apenas um capítulo a mais do cenário instaurado desde o fim da guerra fria, com a predominância inquestionada dos EUA, que militarizara todos os conflitos, do Afeganistão à Líbia, ameaçando estender a lista para a Síria e o Irã.
   
Um ano depois, o quadro internacional mudou radicalmente. Saiu de pauta a possibilidade de bombardeio à Síria, foram iniciadas negociações de paz em relação à Síria e ao Irã, sob protesto isolados de Israel, da Arábia Saudita e do Kuwait. Negociações em que a Rússia é um participante central. Impotente para intervir, os EUA e a UE tiveram que aceitar, pelas vias de fato a decisão da Crimeia à Rússia e tampouco conseguem controlar a rebelião das outras regiões que querem seguir o mesmo caminho.

Há um ano se anunciava a normalização da vida no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, com  a retirada das tropas norte-americanas nos dois primeiros e com realização de eleições nos três países. Hoje os três se encontram em avançado processo de desagregação, sem Estado nacional no Iraque e na Líbia, com aumento da violência no Afeganistão. Os EUA voltam a envolver-se mais militarmente no Iraque, com bombardeios, tentando frear a ofensiva dos sunitas radicais sobre Bagdá.

Há um ano o FMI e o  Banco Mundial pareciam ainda reinar soberanos. Um ano depois os Brics fundaram um Banco de Desenvolvimento e criaram um fundo de divisas de apoio a países com dificuldades.

Há um ano as potências ocidentais acreditavam ter a Rússia submetida econômica e politicamente. Hoje a Russia tornou-se um ator fundamental em negociações de paz como nos casos da Síria e do Irã, assim como participante que os EUA necessitam para a retirada de suas tropas do Afeganistão.

Os EUA e a Europa decidiram uma série de sanções econômicas à Russia, mas a resposta desta, com a suspensão das compras de produtos agrícolas deles e sua substituição por países da América Latina deixou as potências ocidentais desconcertadas, revelando toda sua fragilidade. A possibilidade do corte de gás pela Rússia apavora a Europa. Enquanto isso a Rússia e a China assinaram um acordo estratégico de longo alcance, que inclui o fornecimento de gás aos chineses por 30 anos.

Obama tentava aparecer forte o suficiente até um ano atrás, ameaçando resolver as crises com a Síria e o Irã através da força. Hoje  é consensualmente acusado, dentro e fora dos EUA, de ser um presidente impotente de atuar em todas as múltiplas frentes que estão envolvidos e sem capaz de resolver nenhuma delas.

Há um ano a hegemonia política, militar e econômica dos EUA parecia consolidada. Um ano depois surge um bloco de forças que aponta para a superação dessa hegemonia.

Tudo isso – entre outras  coisas – se passou no espaço de um ano, desde agosto de 2013 até agosto deste ano. Um ano em que o mundo, que parecia ter sua correlação de forças congelada, começou a mover-se em outra direção, na direção de um mundo multipolar.

Tags: Internacional





Maria Barros - 10/08/2014
Emir, parabéns. Artigos como este fazem toda a diferença nos caminhos da humanidade. Na lua de povos pela libertacao. O antigo quadro se deteriorou e o novo está surgindo e se consolidando rapidamente. Artigos como este ajudam a compor o que vem por aí.


Jair Macedo - 09/08/2014
O Emir descreve com precisão a mudança, lenta, mas efetiva de uma nova arquitetura geopolítica mundial. Interessante ver que os acordos estratégicos entre a Russia e a china, já vem de certo tempo; e estão certíssimos, pois garante a segurança daquela imensa região.


Orlando F. Filho - 09/08/2014
Gente como pode uma pessoa ser tão analfabeta política como esse tal de ezequiel faria????!!!! Será que ele esqueceu das guerras da coreia, vietnã e todas as 145 intervenções armadas feitas pelo tio sam? Os milhões que os americanos assassinaram, incluindo mulheres e crianças? Se fizermos a contagem, poderemos chegar quase aos mesmos números de assassinatos que os nazistas cometeram. Ezequiel, sei que este espaço é democrático, mas por favor, toma aquele chazinho chines chamado CHIMANCOL e vá esdrever na sessão de cartas da veja.


Ezequiel Faria - 09/08/2014
China persegue opositores políticos como a Russia, em Cuba e Coreia do Norte nem se quer existem, é isso que defendem? Sera que a inveja do ocidente é capaz de gerar tamanha articulação nestes países vizinhos que estão dispostos a ceder a liberdade econômica, politica a políticos fanáticos de esquerda?


josé fonseca - 09/08/2014
Que comece o terceiro milênio, sr. Daniel ! Que sob a égide do comunismo e do socialismo façamos uma grande festa de comemoração com inauguração de estátuas de Marx, Lenin e Mao : se sobram na europa oriental, faltam na AL.


Marcia Eloy - 09/08/2014
Eu já vi comentários reacionários, mas como o do Sr. Ezequiel é difícil. Ele além de defender os métodos de Israel nesta guerra é contra Os BRICs e acha que eles estão destinados ao fracasso. Talvez ele viva no século XIX. Eu assisti uma palestra que falava dos dois deuses gregos do tempo. Um era o deus cronológico, não mutável e o outro era o deus do tempo em que você queria estar, este você poderia manipulá-lo, a sua vontade.


Ezequiel Faria - 08/08/2014
Brics tem mais aliados americanos que o Brasil, no máximo consideram o Brasil como parceiro econômico, mercosul é uma piada, Unasul outra, a esquerda está fadada ao fracasso se duvidam aguardem, é ideologicamente impraticável na vida real, só sobrevive parasitando o capitalismo e a liberdade econômica e privada, além de ser um antro de fanatismo e genocídios históricos.


Waldemar De Gregori - 08/08/2014
Parabéns, Emir, por este testemunho histórico. Estava na hora desse elefante imperial parar de arrasar nossa loja de louças planetária. Viva!


Roberto Locatelli - 08/08/2014
Que artigo estimulante!! Sim, tudo isso aconteceu em um ano. Desejo, em breve, ler esta manchete: "BRICS, Mercosul e Unasul impõem pesadas sanções econômicas aos EUA e a Israel.


Daniel Camargo - 08/08/2014
Que comece o século XXI, para o desalento de Daniel Bell, Fukuyama e seus prosélitos


Marcia Eloy - 08/08/2014
Boa notícia de que a Rússia passou a comprar produtos agrícolas da América latina e carne do Brasil. Isto mostra a União Europeia que s subserviência aos Estados Unidos não é o melhor caminho

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