Quinta-Feira, 22 de Junho

21/12/2014 - Copyleft

Os avanços da direita no Brasil

A incapacidade da esquerda de fortalecer sua presença no Congresso e o aumento da representação da direita terá consequências em todo o segundo mandato de Dilma

por Emir Sader em 21/12/2014 às 07:56



Emir Sader


As sucessivas vitórias nas eleições presidenciais permitem que o PT siga governando até pelo menos quase o final da segunda década do século. É a melhor oportunidade que o país dispõe para mudar irreversivelmente as duras heranças construídas ao longo de muito tempo de desigualdade, exclusão social, pobreza e miséria.

Nestes 12 anos, além das conquistas sociais inquestionáveis, que já mudaram a fisionomia do país em tantos aspectos, avanços políticos e ideológicos foram se consolidando também. A desmoralização do Estado foi revertida, em grande medida. O diagnóstico de Ronald Reagan, de que o Estado não era solução, mas era ele mesmo o problema, adotado pelo neoliberalismo brasileiro – dos marajás do Collor à virada de página do getulismo de FHC -, foi revertido pelos governos Lula e Dilma.

As políticas sociais só tem sido possíveis pela capacidade do Estado de formulá-las e colocá-las em prática. A resistência à profunda e prolongada recessão internacional tem sido possível graças à capacidade do Estado de induzir o crescimento econômico, de fortalecer os bancos públicos, de estender o mercado interno de consumo popular. A recuperação da soberania brasileira na política externa conta com a atuação firme do Estado brasileiro na defesa dos interesses do Brasil, na promoção de projetos de integração latino-americana, na intensificação do intercâmbio Sul-Sul.

A centralidade das políticas sociais foi a chave do sucesso político e eleitoral dos governos  do PT. Mas houve retrocessos, que precisam ser levados em conta, mais além dos herdados do governo FHC.

Entre os retrocessos, os avanços da direita, devemos destacar a reversão da imagem do PT com o chamado processo do mensalão; a reversão atual da imagem da Petrobras; a eleição de um Congresso mais conservador; a reeleição dos tucanos em São Paulo, apesar de vários aspectos negativos, como escândalos e a falta de água.

O caso do mensalão foi a maior derrota que o PT sofreu na sua história, tanto pelas denúncias que, formuladas e difundidas numa escala nunca vista na imprensa brasileira, calaram em grande parte da opinião pública brasileira e reverteram a imagem do PT, de partido que defendia a ética na política, para partido envolvido com corrupção. Mais além do que efetivamente ocorreu, o que foi projetado no imaginário de boa parte das pessoas – dentro e fora do Brasil – é a de um partido que se valeu de cargos no governo para promover negociatas que misturaram alianças políticas com utilização irregular de recursos públicos.

Dessa imagem o PT – mesmo protestando, denunciando as manipulações e o uso escandaloso político feito pelo Judiciário – nunca conseguiu se livrar. Das denúncias ficou uma imagem negativa dos “petistas”. Por erros efetivamente cometidos e por sua instrumentalização brutal por parte dos meios de comunicação, chancelada pelas condenações do Judiciário, a reversão da imagem do PT foi uma derrota de proporções estratégicas para a esquerda brasileira. Lutando para o resgate da política, do Estado, dos partidos, esse baque veio fortalecer os que promovem a desqualificação dessas categorias e acentuar o descredito com a política, com os governos e com os partidos mas, sobretudo, enfraqueceu a imagem do partido de esquerda de maior sucesso na história brasileira e de um dos que havia adquirido mais prestígio na esquerda em escala mundial.

A recente reversão da imagem da Petrobras é outro retrocesso imenso para a esquerda brasileira. Depois de ter sido desmoralizada no governo FHC  - junto com todas as empresas estatais e com a própria ação do Estado -, a Petrobras teve sua imagem recuperada de forma espetacular a partir do governo Lula. Seja como empresa estatal de sucesso, seja como uma das empresa petroleiras mais fortes no mundo. A descoberta do pré-sal veio coroar essa recuperação da imagem da Petrobras.

Para a direita esse prestígio foi sempre uma espinha na garganta. Era impossível seguir fazendo a apologia das empresas privadas e a desqualificação das empresas estatais, diante do sucesso inquestionável da Petrobras. Até que a campanha de denúncias reverte a imagem pública da empresa – mais além da sua capacidade como empresa petrolífera – e permite à direita desmontar na opinião pública a imagem da Petrobras e das empresas públicas em geral, fortalecendo a campanha da direita, que busca demonstrar que tudo o que é estatal é ineficiente e passível de corrupção.

No recente processo eleitoral, apesar da reeleição da Dilma e de outras vitórias regionais – das quais aquela em Minas e na Bahia foram especialmente relevantes -, é preciso destacar a capacidade da direita de, apesar dos escândalos do governo de São Paulo e do racionamento de água, conseguir reeleger Alckmin no primeiro turno, como um feito notável. Devido, em grande medida, à blindagem que o absoluto monopólio da mídia em São Paulo conseguiu impor. De qualquer forma, a compreensão – e a desmontagem – da hegemonia da direita em São Paulo é dos maiores desafios para a esquerda atualmente. O braço de ferro entre o governo Haddad e a elite paulista é um dos momentos decisivos nessa luta.

A incapacidade da esquerda de fortalecer sua presença no Congresso e, ao contrário, o aumento da representação da direita, foi outra conquista da direita, que terá consequências por pelo menos todo o segundo mandato da Dilma.

Esta lista de avanços da direita não é suficiente para caracterizar a correlação de forças atual no Brasil, porque ela é sempre uma correlacao de forças. Existem os elementos de força da esquerda, que se contrapõe a eles. Mas é impossível pensar o Brasil contemporâneo sem levar em conta os avanços da direita.

Tags: Política





José Arigo da Silva - 25/12/2014
"O diagnóstico de Ronald Reagan, de que o Estado não era solução, mas era ele mesmo o problema, adotado pelo neoliberalismo brasileiro - dos marajás do Collor à virada de página do getulismo de FHC -, foi revertido pelos governos Lula e Dilma."



Prof.Emir Sader, sua frase acima é verdadeira apenas na parte de Lula. Dilma agiu e age co o uma tremenda neoliberal. Duvidas? Basta ver a reforma da previdência pública, nova fonte de pobres e pobreza. Basta ver a privatização de rodovias, aeroportos, portos ( no aeroporto do Galeão a concessionária de agosto até hoje nada fez e compete à INFRAERO fazer obras. Que maravilha explorar!). Basta ver o aumento do dólar de 1,73 para 2,50. Basta ver a criação da Agência de Extensão Rural em lugar de recriar a EMBRATER-Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural. Basta a privatização do pré-sal, os leilões. Basta ver que o Sistema Financeiro come a metade do orçamento federal e D. Dllma ainda cria uma caixa dos funcionários para servir aos bancos.



Pena que ela seja assim. Rezemos por ela. Por nós mesmos. Por um mundo melhor, com o Brasil melhor.



Proteja-nos, Senhor.


Ernesto F. Pichler - 25/12/2014
A direita não teve um avanço ridículo, mas avança para o ridículo com as manifestações bolsonaras, a pregação do golpe e o não reconhecimento das eleições. Agora é preciso conter a direitização dentro do próprio PT, que dificilmente pode ser considerado, ainda, um partido da esquerda.


Horácio Joaquín Perez - 24/12/2014
Compreendo o nervosismo com o avanço da direita, também me aflige. Mas devemos evitar atirar uns nós outros, como acusar uma internauta de aumentar a audiência da Globo. Penso que faz falta sim uma mídia de esquerda, incluindo jornal e TV. Discordo que a TV dos trabalhadores ou qualquer outra TV publica esteja jogando esse papel. De modo geral mais parecem a Voz do Brasil televisionada que outra coisa. Minha hipótese sobre o avanço da direita: a falta de iniciativa da esquerda. A quem cabe a iniciativa ? À Dilma e seu núcleo mais íntimo, pois nela depositou-se um quantum de energia de esquerda nada desprezível nestas e outras eleições. Abro o jornal Página 12 da Argentina diariamente há mais que 5 anos e vejo contra-ataques diários da Cristina ao Clarin. A liderança principal tem que produzir fatos que motivem a militância e mudem a correlação de forças. O método de acumular força progressivamente em eleições, que eu chamo de crescimento por osmose, não tem funcionado. Que tal comprar umas brigas com os monopólios ?


Antonio Carlos Vitoriano Pinheiro - 23/12/2014
Maria Eloy, o governo tem sim canal de TV, o problema é que a maioria dos meus amigos esquerdistas (e também deve ser o seu caso) não assiste a TV Brasil e dá audiência à rede globo.


José Arigo da Silva - 23/12/2014
Emir, ótima matéria. Muito bem pensada e belamente escrita. Só caberia um erro estratégico. Não há homogeneidade entre os governos Lula e Dilma, como você explicita. Não. Há uma diferença enorme. Dilma -- como Lula tem dificuldade de escolher gente!! -- se saiu uma tremenda recuperadora das práticas tucanas.


vicente torres mourão - 22/12/2014
São essas as tarefas dos bons brasileiros reverter o que a direita destruiu .


Marcia Eloy - 22/12/2014
E por que estes avanços se deram? Na minha opinião pela inércia da esquerda, que não tem jornal, canal de televisão, deixou seus Núcleos desaparecerem, etc...


SERGIO GOVEA - 22/12/2014
Prezado Emir,

Gostaria de ler quais seriam as suas ideias, para que esse avanço da direita pudesse ser contido.



Obrigado.


Francis Gomes Vale - 22/12/2014
É necessária uma mídia que defenda o projeto da esquerda: um jornal popular de circulação nacional; fortalecimento dos blogs independentes ; e povo nas ruas pra pressionar o congresso conservador. A acomodação dos partidos de esquerda na luta puramente institucional e burocrática vai possibilitar cada vez mais o avanço da direita.


Jerdeson Soares da Silva - 22/12/2014
Alguém me explique por favor. Tem algum sujeito que se diz de esquerda e apoia o governo que começará a privatizar A Caixa econômica(pergunta)


Carlos Salgado - 21/12/2014
Querido Emir,



em parte, esses avanços da direita se fizeram não só por nossos erros, mas também pela força deles. Eles tem sua estratégia e não deixariam de gastar seus cartuchos.



Quanto ao mensalão estou de pleno acordo. Não seria nosso papel mudar a estratégia do "não fizemos nada de mais" e reconhecer publicamente o erro de usar o método da velha política?



Como Lula sempre nos lembra, o povo não escolarizado entende bem os acontecimentos, e atua conforme seus interesses.



Reconhecer o erro seria passível de perdão. Seguir dizendo que roubamos menos, para a massa é o mesmo que dizermos que além de ladrões somos tolos.



O nosso grande Zé Dirceu(sem o qual não haveria governo democrático e popular) poderia, sem abrir mão de sua estratégia jurídica, que é legítima, capitanear esse Mea culpa.



Seria o tal Mensalão como combustível para a reforma política.



Um abraço.


Victor Emanuel Giglio Ferreira - 21/12/2014
Ótima análise. Muito bem elucidada a atual situação e correlação de forças políticas no país.


decio carvalho - 08/02/2015
enriquecendo o texto, faltou dizer que a incompetência econômica e de gestão, vão causar perda maior do que os ganhos sociais que o Governo implantou....ou seja, nem para executar a sua "marca", o Governo foi competente...


Luiz Augusto Rodrigues - 04/01/2015
Emir, a Dilma tem a tarefa gigantesca de mudar a Constituição e fazer a reforma política. Não tem maioria simples no Congresso. Costurou "uma tentativa" de maioria simples e absoluta, a primeira com esses partidos nanicos(PROS, PSD, etc.), sem o PMDB, e a segunda, com o PMDB. Vai dar certo? Não se sabe, mas vai ser uma baita luta! De resto, os comentários expostos são, no mínimo, "alienados". Um exemplo do esforço da Dilma de manter o governo à esquerda é a convocação dos ministros do centro do poder: Rossetto, Pepe, Mercadante, etc. Nós, caro Emir, temos que dar sustentação popular pra não sucumbir a ofensiva neoliberal(pra não dizer fascista). Mas bah, tchê!!

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