Quinta-Feira, 22 de Junho

14/12/2014 - Copyleft

Para que servem os partidos de esquerda?

Hoje, recoloca-se com força a questão do papel dos partidos de esquerda nos processos de construção de alternativas superadores do neoliberalismo.

por Emir Sader em 14/12/2014 às 08:41



Emir Sader


 Ao longo da década de 1990 a esquerda resistiu como pôde aos avanços do neoliberalismo. Parecia que estávamos frente a uma onda irresistível, até que alguns governos latino-americanos reagiram e começaram a construir alternativas a esse modelo

  Duas correntes conviviam na resistência ao neoliberalismo: uma, que defendia a autonomia dos movimentos sociais, a rejeição à política, aos partidos e ao Estado. Outra, que propunha a necessidade de resgate da política, dos partidos e do Estado para conquistar hegemonia e construir alternativas ao neoliberalismo.

 Triunfou esta segunda corrente, dado que a superação do neoliberalismo requer a construção de um bloco de forças hegemônico e a construção prática de novas políticas de caráter público, que requerem redirecionar o Estado, superando a centralidade do mercado, promovida pelo neoliberalismo. Trata-se de resgatar o Estado e a política e não de abandoná-los, o que faz o jogo do neoliberalismo.

 O resgate do papel ativo do Estado, tanto como indutor do crescimento econômico, como na sua qualidade de garantia dos direitos sociais, foi decisivo na capacidade de governos para avançar na superação do modelo neoliberal. A ultraesquerda foi derrotada porque não soube compreender a natureza da disputa e do papel do Estado nela. 

 Os que propunham a autonomia dos movimentos sociais não foram capazes de passar da força acumulada no plano social na resistência ao neoliberalismo à construção de alternativas políticas a esse modelo. Permaneceram na fase de resistência a esse modelo. Algumas forças praticamente desapareceram – como foi o caso dos piqueteros na Argentina – outras ficaram reduzidas à intranscendência – como é o caso dos zapatitas no México.

 Foi decisivo o papel do Estado nos avanços na superação do neoberalismo, tanto no plano econômico, como no social. Mas a desmoralização da política e o enfraquecimento dos partidos não se deteve sequer nos países que resgataram a importância do Estado.

 Hoje, recoloca-se com força a questão do papel dos partidos de esquerda nos processos de construção de alternativas superadores do neoliberalismo. Como se trata de governos de alianças amplas, de centro esquerda, esses devem representar a alternativa de esquerda, que representa a superação radical do neoliberalismo. E, mais além dessa luta, apontar para alternativas anticapitalistas.
   
 Por outro lado, o papel de um partido de esquerda é o de formular estratégias para chegar aos objetivos do programa dos partidos. Enquanto os governos se movem no plano das conjunturas, é necessário apontar para esses objetivos, para que não se percam nos enfrentamentos imediatos.
   
 Além disso, os partidos devem discutir permanentemente com os movimentos populares as plataformas de luta, as formas de organização dos distintos setores populares, as relações com os governos. Porque são esses movimentos – sindicatos, movimentos sociais, culturais, etc.  – os que devem se dedicar a organizar os mais amplos setores de massa.

 É também responsabilidade dos partidos as constantes avaliações das conjunturas, das relações de força, dos aliados, do inimigos.

 Em síntese, o papel dos partidos é o de dar direção política, de elaborar e construir a hegemonia dos programas estratégicos da esquerda e as formas de sua realização.
   


Tags: Política





Orlando F. Filho - 21/12/2014
Já que houve um comentário sobre a teologia da libertação, A TVBrasil(canal 4 na net), está exibindo um documentário dramatizado sobre a atuação do bispo D. Pedro de Casaldáliga na região do Araguaia na década de 70 na fase mais cruel e violenta da ditadura civil/militar. Sábado próximo é a segunda parte e o horário é 22 horas do dia 27/12/2014. Vale a pena.

Quanto a questão dos partidos de esquerda, o mais incrível foi o PSB dar seu apoio ao paybloy das alterosas, o que provocou a sáida do presidente do mesmo, que declarou seu apoio público à candidatura Dilma. Nós, da esquerda, temos que esclarecer o cidadão brasileiro, inclusive dizer com todas as letras que a democracia só será vitoriosa no brasiil quando atingir o mínimo de desigualdade social, econômica e política. Existe uma questão muito séria que é o financiamento das campanhas, que não pode mais ser da maneira que é causando uma desigualdade financeira brutal. Nos EUA é um assunto muito sério e as fraudes são punidas severamente. Aqui, as contas do PT foram aprovadas, com ressalvas, porém nada falou-se no PIG das contas do partido do playboy, pelo menos não soube nada pelo PIG. O financiamento público pelos deixaria mais igual a disputa e as punições para as fraudes financeiras nas campanhas devem ser duríssimas, inclsuive com suspensão do partido por períodos longos, não podendo participar das eleições. Mas no brasil...agora mesmo maluf foi presenteado com sua aprovação pelos ministros do STE à condução para a cadeira no parlamento. Os ministros disseram, não é brincadeira, que maluf "não teve a inteção de superfaturar as obras do túnel ayrton senna", o qual inclusive visitou as obras junto com maluf. Esta obra custou três vezes o orçado. O governo suiço concorda em devolver os mais de cinco milhões de dólares que a família maluf roubou do povo brasileiro, porém ele não está sendo processado então o dinheiro não volta. Maluf sabe de muita coisa de muita gente, né.


SERGIO GOVEA - 21/12/2014
Mais um excelente texto do mestre Emir.



Sem Estado forte não há como haver justiça social.



As vozes das bases devem ser ouvidas pelas cúpulas partidárias.



Os partidos devem buscar meios para ampliar os canais de comunicação com as bases e com a sociedade em geral.



Não há como disputar hegemonia sem disseminar opiniões, tendências, notícias, análises.



É isso aí,



Valeu.



Francis Gomes Vale - 19/12/2014
Concordo com as considerações do Professor Emir. No entanto, gostaria de acrescentar algumas observações que tenho feito nos últimos tempos.

Penso que os principais partidos da esquerda brasileiras têm se afastado de seus programas e suas bases, reduzindo suas atuações ao jogo político institucional e burocrático. Falo do PT, do PSB e PCdoB, principalmente. Tentam crescer apenas ganhando assentos nos parlamentos, governos e prefeituras. A organização popular tem ficado em secundarissimo plano. A meu ver, apenas as Comunidades Eclesiais de Base, orientadas pela Teologia da Libertação, têm assumido algum protagonismo nas lutas sociais. Os dogmáticos crescem e minguam aos poucos. Pra encurtar, já é tempo de as esquerdas criarem juízo e promoverem uma grande discussão a fim de encontrarem o rumo mais correto de enfrentar as forças conservadoras.


Alice Franca Leite - 17/12/2014
PROFESSOR EMIR:É URGENTE QUE FALE SOBRE O "DESEMBARGO" DE CUBA FEITO HOJE POR OBAMA:SERÁ QUE ISSO É "ABERTURA" OU "FECHADURA"???


venceslau alves de souza - 17/12/2014
Professor, em suas aulas de análise dialética, aprendemos que o melhor caminho a trilhar, na análise sociológica de cunho marxista, é encontrar as contradições, como passo inicial para o exame da situação social em questão. Sugiro, pois, que reveja seu texto; está repleto delas! Chega ao absurdo de afirmar: "Hoje, recoloca-se com força a questão do papel dos partidos de esquerda nos processos de construção de alternativas superadores do neoliberalismo. Como se trata de governos de alianças amplas, de centro esquerda, esses devem representar a alternativa de esquerda, que representa a superação radical do neoliberalismo. E, mais além dessa luta, apontar para alternativas anticapitalistas". Para ficarmos num exemplo, apenas, professor! Pergunto: quais são os Partidos de Centro Esquerda que dão sustentação às políticas sociais (sic) do governo petista, o PMDB, o PP, o PR, o PRB, o PC do B, o PDT? A verdade, caro Emir, é que o PT afastou quaisquer possibilidades de a Esquerda que não se rendeu chegar ao poder nos próximos 30/40 anos, querido! É pena, reconheçamos!


Ernesto F. Pichler - 17/12/2014
Não se pode mais considerar que o PT seja de esquerda, com o ministério que está sendo montado, com Katia Abreu e Levy. É o partido da social democracia brasileira.


José de Oliveira Santos - 15/12/2014
Há que se repensar os papéis dos partidos. É preciso reconhecer o esgotamento de um modelo centralizado e burocrático..

Um seminário para discutir quem pesquisa e estuda o assunto me parece uma boa idéia.

Sem preconceitos, idiossincrasias e tentativas de monopolizar o debate em uma vertente tradicional e herdeira da construção hegemônica de esquerda.


Victor Emanuel Giglio Ferreira - 15/12/2014
Muito correta a análise do Emir Sader. Os partidos de esquerda são essenciais no processo de superação do sistema capitalista e a conquista do estado pelos partidos verdadeiramente socialistas é condição imprescindível para a conquista desse objetivo. E a forma de socialismo que, historicamente, se mostrou mais eficaz foi aquela em que o capital financeiro - especialmente os bancos - que controla todos os demais, através do crédito - é integralmente estatizado, deixando-se, contudo, a maioria dos demais setores econômicos em mãos privadas (embora submetidos ao poder do estado socialista através do crédito). Essa é a fórmula que tão bem funcionou na URSS de Lenin - 1921-1928 - e vem dando certíssimo na China, Índia, Ásia Central ex soviética, Rússia moderna, Vietnã, etc. Essa fórmula, chamada Socialismo de Mercado pelos chineses, que funcionou extremamente bem em todo lugar onde foi implantada, permite o pleno controle da economia pelo estado socialista, mas evita o burocratismo e a inércia econômica observados nos sistemas de estatização econômica integral, como o implantado por Stalin - pós 1928. Os resultados estão aí, basta observar a história.


Marcia Eloy - 14/12/2014
O papel dos partidos de esquerda, é antes de mais nada, politizar o povo. Mostrar que sem política, ou seja, sem reuniões, debates, lançamento de ideias através de palestras, nada se constrói.. E isto não foi feito nos últimos anos.


arquimedes andrade - 14/12/2014
Concordo com essa linha do Professor Emir Sader. Os partidos de esquerda, especialmente o PT deve voltar- se ao trabalho de base, de formação, de debates dos grandes temas nacionais e dá apoio nas ruas ao governo Dilma, empurrar o governo pra frente. E cabe ao governo transformar o Estado em em Estado protagonista das mudanças, encharcado de democracia e transparência. Creio que a minha geração lutou para chegar lá e fazer as mudanças. Agora é hora de um novo ciclo para ultrapassagem do neoliberalismo e colocar na pauta nacional as reformas com alternativas anticapitalista. Aproveitar tudo de bom que tem no capitalismo e acabar com os presídios (simbolo da opressão aos pobres) e com a corrupção (simbolo do capitalismo desde o período da acumulação primitiva do capital).

Um partido que estimule a militância voluntária, aguerrida e sem medo de ser feliz.

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