Quarta-Feira, 28 de Junho
Colunista
01/04/2014 - Copyleft

50 anos depois de um infame 1º de abril de 1964

A verdade é que nem os militares podiam fazer o que fizeram e nem os jornais mostraram ter míseras gramas de juízo ao se aliarem aos coturnos.




1. Das figuras de proa da cena política nacional chama atenção Dilma Vana Rousseff
 
Presidenta da República, foi militante de esquerda, guerrilheira em um tempo em que ser são era ser guerrilheiro, viveu na clandestinidade, foi presa e torturada no antigo pavilhão para presos políticos que funcionava no Palácio Tiradentes do Rio de Janeiro. Candidata à reeleição, é a única aspirante ao posto maior de nossa representatividade política que tem credenciais de ter lutado ao risco de perder a própria vida por um Brasil liberto do garrote militar.
 
Seus adversários, Aécio Neves e Eduardo Campos têm de se contentar com as histórias típicas de netos contadas por seus avôs, Tancredo e Arraes. 
 
Mas que diferença abismal e brutal existe entre aqueles que “ouvem histórias para pegar no sono” e aqueles que se arriscam, militam, caem na clandestinidade, sofrem na pele angústias físicas e psicológicas próprias de quem luta por uma liberdade não apenas para sí, mas antes, para toda uma Nação. 
 
É essa a distância histórica a separar Dilma de Aécio e de Campos.
 
2. O papel da grande imprensa ainda precisa ser melhor esquadrinhado. A própria imprensa sabe que pisou feio na bola chamada “amor ao Brasil”
 
Deu sustentação aos golpistas ao preço de garrotear seu predicado maior e mais nobre – o direito à liberdade de pensar e opinar, o direito de informar e formar consciências contra o bacilo do totalitarismo. A Folha de S. Paulo não apenas apoiou como deu infraestrutura aos senhores de negros coturnos. O Globo envergonhou também a imprensa. O Estado de São Paulo se acovardou tremendamente. É quando os interesses patrimonialistas, comerciais e financeiros falam mais alto e passa a viger a máxima do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
 
A verdade é que nem os militares podiam fazer o que fizeram – rasgar o cânone constitucional e mergulhar o país em uma longa noite de horrores que duraria o tempo exato de uma geração (21 anos) e nem os jornais mostraram ter míseras gramas de juízo para tão rápida ação obsequiosa aos que rapinaram nossas liberdades fundamentais, nossos direitos humanos essenciais – direito de ir e vir, direito de livre expressão, direito de reunião.
 
3. Passados 50 anos ainda resiste nos meios de comunicação tradicionais aquele clima de “subversão de direita”
 
A Folha de S.Paulo não faz o necessário mea culpa, ao menos para fazer as pazes com a história, mas faz editorial de página inteira para dar à volta ao infame cinquentenário, como aquele que publicou no último dia 30 de março de 2014 sem abordar a questão central: que medidas tomar para não voltar a percorrer os mesmos caminhos antidemocráticos e de lesa-pátria?
 
Não, o jornal paulista dos Frias vende sua participação no golpe de 1964 como mero erro de avaliação e, cínica ironia, tenta fazer paralelos entre o país sequestrado pelos militares em 1º de abril de 1964 e o Brasil de 2 de abril de 2014, este da justiça social, de uma nova e pujante classe média agora incluindo 27 milhões de brasileiros que estavam condenados à pobreza e à miséria, o país que avança para ser a 6ª maior economia do mundo e que dispõe das mais valiosas e extensas reservas de petróleo na camada de Pré-Sal do planeta.
 
Tem como se comparar esses dois momentos? Só se for a pretexto de dar um sonoro passa-moleque na História.
 
4. Vozes reacionárias abrigadas em veículos da grande imprensa sempre ciosos por zelar pela liberdade de imprensa e, suprema ironia, são bem pouco afeitos a condenar regimes ditatoriais derrotados
 
Arnaldo Jabor, do alto de sua tribuna na TV Globo, de longe nosso canal de tv aberta de maior audiência, tem o desatino de afirmar que “o Brasil mereceu a quebra da democracia”. Seria como, 50 anos após o genocídio judeu na Alemanha dos anos 1939-1945, algum Jabor alemão, pontificando em sua DeutscheWelle afirmasse que “o “a Alemanha mereceu a experiência totalitária e sanguinária de seu Fuhrer Adolf Hitler”. Ou, ainda pior, que “povo judeu mereceu o holocausto”.
 
O dublê de porta-voz do reacionarismo requentado com blogueiro daquela que se autorefere como a revista de maior circulação da América Latina, Reinaldo Azevedo, não se fez de rogado e, tão esperado como esperadas são as fogueiras no mês de junho, escreveu que a culpa por ter os militares sequestrado o país foi da esquerda. Previsível, como de hábito.
 
Porque veículos de comunicação com a abrangência de telespectadores (Organizações Globo) e de leitores (Editora Abril), com várias décadas de existência, responsáveis pelas mais aquinhoadas fatias no bolo publicitário pago pelo Governo Federal com o seu, o meu e o nosso suado imposto, se sentem tão à vontade para atuar como tribunas a louvar os horrores da ditadura militar, falsear a história tal como foi a pretexto de ganhar pontos em uma atual e hipotética lide ideológica?
 
5. Para quem costuma pedir que “esqueça o que escrevi” tudo se pode esperar
 
É do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso atilado a fazer comparações indevidas, inapropriadas, inoportunas. O princípe dos sociólogos aproveita a passagem dos 50 anos do golpe militar de 1964 para comparar João Goulart, o presidente deposto em 1964 pelos militares, com a presidenta Dilma Rousseff, eleita que foi pelo voto universal dos brasileiros em 2010.
 
Quais as intenções do antes aguerrido pensador das esquerdas ao fazer tais ilações? Dar respaldo a novas marchas com da família com Deus pela liberdade?
 
Trapacear a história criando assim trampolim para as eleições presidenciais de outubro próximo?
 
Gerar um cenário de instabilidade institucional para o governo Dilma Rousseff que legitime quaisquer ações com ecos na caserna, não importando quão tímidas estas sejam?
 
6. Quando menos se espera surgem testemunhos que avançam rumo ao conceito de ditabranda, aquele infeliz neologismo para a ditadura militar cunhado pela Folha de S.Paulo
 
O ex-deputado Célio Borja negando ter havido no país uma ditadura, e sim não mais que "um governo com plenos poderes" é a pista clara para se falsear a história e colocar sob suspeição muitos dos que posaram por tempo demasiado como democratas.
 
Sim, foram qualquer coisa, menos democratas.
 
Estará Célio Borja se candidatando a algum prêmio ‘Mahmud Ahmadnizhad de Revisionismo Histórico’? Não foi aquele infame presidente iraniano que ainda em 2012 afirmou, em fórum internacional, que nunca existiu o holocausto dos judeus na Alemanha nazista?
 
Irá Borja enveredar pelo mesmo caminho da rude falsificação de fatos históricos ainda muito frescos na memória emocional de milhões de brasileiros? O ex-governador paulista Paulo Egydio Martins, com 50 anos de atraso, deu provas de caráter titubeante, para se dizer o mínimo, ao relatar a Geneton Moraes Neto “caso de tortura e chantagem sobre o qual lavou as mãos em nome com combate "ao comunismo".
 
7. Em datas redondas como decênio, cinquentenário, centenário ou milênio, a tendência dominante é ressaltar os aspectos históricos mais evidentes, os números que impressionam, os nomes dos protagonistas, os feitos e as desfeitas que mais chamam atenção
 
Neste 1º de abril de 2014 é o momento de render homenagem a outra espécie de resistência ao arbítrio, àqueles que fizeram da arte suas trincheiras, das composições e dos versos suas principais armas. No período que vai de 1964 a 1984 o Brasil viveu um dos mais trágicos momentos de sua história. Um momento longuíssimo que se eternizou por por 21 anos. E que calou vozes.  Prendeu, bateu, arrebentou, torturou homens e mulheres. E matou muita gente. Mas, os vencidos, é bom que nunca esqueçamos, foram energizados, motivados e "empurrados" em direção à liberdade por belas e tocantes canções.
 
A todos esses compositores e interpretes, que criaram trilha específica para os corações indomáveis e impetuosamente livres, a nossa genuína homenagem. E aqui 13 inesquecíveis canções em estado de paz:
 
:: Prá Não Dizer Que Não Falei Das Flores - Geraldo Vandré
:: Opinião - Nara Leão
:: Cálice - Chico Buarque
:: Carcará - João do Vale
:: Acorda Amor - Chico Buarque
:: É Proibido Proibir - Os Mutantes/Caetano Veloso;
:: Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua - Sérgio Sampaio
:: Que as Crianças Cantem Livres - Aretha
:: Alegria, Alegria - Caetano Veloso
:: Ponteio - Edu Lobo
:: Mosca na Sopa - Raul Seixas
:: Apesar de Você - Chico Buarque
:: O Bêbado e o Equilibrista - João Bosco









+deste colunista por data

por título




PARCERIAS