Quarta-Feira, 28 de Junho
Colunista
22/09/2015 - Copyleft

Porque a oposição venceu as eleições sindicais na UFRJ

Esta é uma reação vitoriosa dos docentes da UFRJ a um tipo de política sindical cujas práticas ultrapassaram os estoques de paciência da maioria dos professores



A recente vitória da oposição (Chapa 2) nas eleições para o sindicato de professores da UFRJ (ADUFRJ) por 883 a 594, duas semanas depois de os professores em assembléia terem decidido suspender, na UFRJ, uma greve que se dizia nacional, são acontecimentos, ambos, cuja importância política transcende os limites das intestinas disputas sindicais ou mesmo os do campus carioca. Nos dois casos, não se trataram de vitórias de alguma corrente sindical tradicional sobre outra corrente sindical tradicional, mas de reação vitoriosa dos docentes da UFRJ a um tipo de política sindical, quaisquer que sejam as correntes envolvidas nestas, cujas práticas ultrapassaram, definitivamente, os estoques de paciência da maioria dos professores. Os derrotados, a rigor, foram a própria ADUFRJ e sua matriz maior, a ANDES-SN, ainda que por dentro de suas próprias estruturas.
 
Sem conhecimento da sociedade, em geral, logo também, ao que parece, das autoridades em Brasília, até porque a imprensa, quando muito, só abre espaço para narrar as versões, digamos, "institucionais", do movimento grevista, já vinha crescendo, desde a greve de 2013, quando não de antes, um surdo movimento de resistência a recorrentes paralisações de professores, longas por um lado, e sem grandes resultados por outro. Em que pese, para a sociedade, via imprensa, a "universidade estar em greve", o fato concreto era que a UFRJ não estava em greve. As maiores unidades da UFRJ em termos de professores e alunos, a exemplo da Medicina, da Engenharia, da Economia, além de outras, não paralisaram as suas atividades um único dia, em uma única sala de aula, até o encerramento formal, na primeira quinzena de julho, do calendário letivo relativo ao primeiro semestre de 2015. Simplesmente não tomaram conhecimento da greve decretada no final de maio, em assembléias com pouco mais de 100 professores presentes. Em muitas outras unidades, uma parte dos professores podia aderir, mas não todos – estes, 50% ou mais nas diferentes unidades, também seguiram ministrando seus cursos com frequência normal de estudantes. Já tinha sido assim também em 2013. Acrescente-se que, nestas duas últimas "greves", também a militância estudantil decidiu paralisar as aulas "em apoio à greve dos professores" – e, também, tanto em 2013, quanto agora, a grande maioria dos estudantes preferiu permanecer em sala de aula.
 
No entanto, é verdade, as salas e corredores da UFRJ exibiam-se vazias e desertas em agosto e setembro. Explica-se. Os conselhos superiores da Universidade decidiram, como dizer?, aderir à greve. Basta, para isso, suspender o calendário e "trancar" os sistemas informatizados necessários a lançamento de notas, abertura de turmas, realização dos atos burocráticos necessários à matrícula em cada início de semestre. Para a grande maioria dos professores e estudantes, a greve começou, de fato, na segunda semana de agosto, depois das férias de meio de ano, porque se viram impedidos, contra a vontade, de retornar às suas atividades. Precisariam esperar por novas decisões dos colegiados superiores, redefinindo o calendário semestral e reabrindo os sistemas informatizados. Esses colegiados, por sua vez, ficavam esperando pelas decisões das assembléias de professores e estudantes (e, também, pelas dos funcionários administrativos). Se tal acontece em algum segmento de empresas privadas, a isso se denomina "lock out"...
 
Se uma dada pauta trabalhista (sindical) mobiliza, de fato, o conjunto da categoria, é de se esperar não apenas grande presença nas assembléias, como também muita discussão nos locais de trabalho. Mas também pode-se aceitar que, uma vez decretada a greve em assembléia com baixa participação relativa, o apoio à decisão se expresse pela simples adesão dos demais, ou seja, no caso de professores, pela disposição de suspender as aulas e não entrar em sala, por parte da grande maioria do corpo docente. O mesmo raciocínio se aplica ao inverso: se a disposição da grande maioria é a de prosseguir as suas aulas, ignorando a decisão da assembléia, significa claramente que, para usar uma expressão da moda, "eles não nos representam".  Ou seja, a "categoria", ao boicotar concretamente, através da ação consciente da grande maioria dos seus membros que permaneciam em sala de aula, a decisão da assembléia e os encaminhamentos da ADUFRJ, demonstra não se sentir atraída pelas suas pautas e motivações.  
 
Mas se sentia cada vez mais incomodada e irritada pela paralisação compulsória em função, não da força do sindicato, mas do comportamento dos colegiados superiores. Neste ano, a paralisação compulsória catalisou a mobilização da grande "maioria silenciosa" que, normalmente, prefere dedicar seu tempo às suas pesquisas, publicações, aulas, inclusive atividades de extensão universitária do que a uma "pauta" que não lhe diz respeito. Um dos resultados dessa reação foi a elaboração de uma "carta dos Eméritos" ao MEC, denunciando sérios desvios acadêmicos-administrativos no curso da "greve". Cresceu também a presença de professores nas assembléias sindicais. Estas inflaram embora nunca tenham chegado a reunir mais de 600 professores – num universo de cerca de 4 mil. A proposta grevista precisou ser duas vezes derrotada, em duas assembléias distintas, para a ADUFRJ desistir... Porém, o "êxito" da paralisação já estava assegurado, inclusive na mídia, pela suspensão do calendário acadêmico...
 
Foi essa crescente mobilização dos professores que os levou a formarem uma chapa para disputar a própria direção do sindicato, liderada pela reconhecida pesquisadora Tatiana Roque, professora do Instituto de Matemática. Venceu por quase 60% a 40% porque, entre outros motivos, vieram para a campanha e compareceram às urnas centenas de professores sindicalizados mas há anos distantes de um sindicato mais preocupado com a agenda político-partidária de seus militantes do que com uma real pauta docente.
 
Muito provavelmente, o que está acontecendo na UFRJ repete-se, em maior ou menor grau, em outras universidades federais. Independentemente dos graves problemas enfrentados pela educação brasileira e por nossas universidades, agora em vias de serem agravados pela decepcionante política fiscal deste segundo governo Dilma, ao longo dos anos, um sindicalismo sem muito compromisso com a produção acadêmica (como fica claramente revelado na sua esdrúxula proposta de nova reestruturação do plano de carreira, já não bastasse a anterior, de três anos atrás) veio se impondo sobre um grande conjunto majoritário de professores e professoras sem tempo a perder e sem muito interesse por suas propostas e práticas. Na UFRJ, essa maioria decidiu fazer ouvir também sua voz. Considerando a dimensão física e simbólica da Federal do Rio no conjunto da vida universitária brasileira, este seu exemplo poderá ensejar movimentos similares em outras universidades. E considerando que somos todos, professores universitários, sustentados pelo contribuinte, a real representatividade e legitimidade dessas greves minoritárias deveriam também ser melhor avaliadas pelas autoridades, em Brasília. 


Marcos Dantas é Professor Titular da Escola de Comunicação da UFRJ e membro do CONSUNI-UFRJ





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