Quinta-Feira, 22 de Junho

13/06/2017 17:51 - Copyleft

Leituras de um brasileiro: "O Brasil é um país gay?"

No Brasil, como na maioria dos países latino americanos e do leste europeu, o machismo tende à bestialidade, insuflando e justificando crimes, (...)


Antonio Vicente SERAPHIM PIETROFORTE *
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Muitas vezes, os poetas precisam inventar gêneros literários para se expressar. Em 2007, a editora Lumme publicou, do poeta brasileiro Horácio Costa, “Homoeróticas e Paulistanas”. O que seriam Homoeróticas e Paulistanas? No mínimo, são gêneros literários, cuja característica principal é fazer encaminhamentos temáticos: as “homoeróticas” são poesias com temática gay; nas “paulistanas”, trata-se de tematizar a cidade de São Paulo.
 
Porque de São Paulo muitos poetas já falaram – vale a pena conferir a antologia “Paixão por São Paulo”, organizada pelo poeta Luiz Roberto Guedes, edição Terceiro Nome, 2004 –, hoje vou escrever a respeito das “homoeróticas”, já que poucos escritores, como Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan, Glauco Mattoso e Horácio Costa são corajosos o suficiente para mostrar o quanto o Brasil é um país gay.
 
No Brasil, como na maioria dos países latino americanos e do leste europeu, o machismo tende à bestialidade, insuflando e justificando crimes, inclusive, assassinatos. Consequentemente, isso engessa o comportamento masculino, gerando repressão sexual e segregação. Dentro das cercas do patriarcado, como se sabe, qualquer alternativa ao sexo heterossexual – feito em casal e circunscrito à entediante posição de missionário – é rapidamente enquadrada no imenso conjunto das perversões sexuais. Uma vez perversão, trata-se de doenças; isso significa que gays, lésbicas, sadomasoquistas – enfim, quem se diverte – não são pessoas normais. Ora, esse é o ponto de vista da Santa Inquisição e do Terceiro Reich.
 
Entre as muitas formas de resistir a pontos de vista sexualmente comprometidos com a repressão dos direitos civis, está a literatura. Muitos leram, durante as aulas do ensino médio, a obras de Machado de Assis e Aloísio de Azevedo, mas poucos devem se lembrar de Adolfo Caminha e de seu romance “O Bom Crioulo”. Publicado em 1885, trata-se de história de Amaro, que, fugindo da escravidão, torna-se marinheiro; em suas viagens, ele conhece o grumete Aleixo, por quem se apaixona. “O Bom Crioulo” é um romance Naturalista, portanto, fruto da ideologia positivista, cujo ponto de vista tendia a ver, na homossexualidade, antes perversão sexual do que prática erótica entre seres humanos. Mesmo assim, as descrições dos amores de Amaro são bastante efusivas, como se o reprimido se manifestasse à revelia das repressões sociais e de suas ideologias reacionárias e conservadoras.
 
Ao pouco destaque dado à obra de Adolfo Caminha, podem ser somados os escassos comentários a respeito do homoerotismo de Mário de Andrade, ou às ainda mais raras referências, nas histórias e críticas da literatura, ao amor entre homens tematizado em “O Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, considerada uma das obras máximas em língua portuguesa.
 
Sem querer levar adiante uma história da literatura homoerótica feita no Brasil, vale a pena lembrar os trabalhos de, pelo menos, três militantes da ação afirmativa gay: João Silvério Trevisan, Horácio Costa e Glauco Mattoso.
 
Publicado em 1983, pela editora Codecri, do Rio de Janeiro, o romance “Em Nome do Desejo”, de J. S. Trevisan, contrariamente às censuras do século XIX, celebra o amor entre homens, justificando-o, inclusive, com referências à mística barroca do século XVII. Essa mística, como se sabe, é inspirada diretamente no livro da Bíblia “O Cântico dos Cânticos”. Nesse livro, são narrados os enlaces amorosos entre o Amado e a Amada, cujos significados, dependendo da tradição que os interpreta, pode variar consideravelmente: (1) na tradição judaica, o Amado é Deus de Israel e a Amada, o povo israelita; (2) na tradição cristã, o Amado é Jesus e a Amada, a igreja católica; (3) na mística barroca, o Amado é o espírito divino e a Amada, a alma humana. Todavia, apesar dos diferentes contextos em que os Cânticos são interpretados, trata-se sempre de fazer com que o ato sexual e os êxtases que o acompanham se tornem metáforas do êxtase religioso. O romance de Trevisan, por ser ambientado em um seminário, seria campo fértil para denúncias de abuso sexual; entretanto, contrariando esse tema, o autor encaminha-se para a mística religiosa, referindo-se, oportunamente, a “O cântico dos cânticos”, e, com bastante coragem, dando novos sentidos ao casal Amado-Amada – em seu ponto de vista, Amado-Amado –. Em outras palavras, Trevisan aproxima o ato homoerótico do êxtase religioso.
 
Horácio Costa, professor de literatura portuguesa da Universidade de São Paulo, é outro escritor que merece atenção. Horácio é poeta; cabe a ele a autoria do já mencionado livro “Homoeróticas e Paulistanas”. Seguem os primeiros versos de “A voz do Brasil”, a primeira poesia “homoerótica” que aparece no livro. O poema discorre sobre uma lembrança específica, a voz dos autofalantes dos aeroportos, tão conhecida para quem viajava de avião no Brasil, na década de 80: “A nitidíssima voz / A inesquecível voz / Que meus ouvidos associam / À brasilidade // A voz dos aeroportos ouvida / Em Congonhas em Guarulhos / No Galeão desde os anos ‘80 // A cada vez que eu chegava / Cada vez que me ia”. No decorrer do poema, essa voz, que se julgava pertencer a uma mulher, revela-se como sendo de um locutor masculino; isso motiva o poeta a questionar a respeito da sexualidade gay daquela que, para ele, seria a voz do Brasil.
 
Paralelamente à militância literária, Horácio Costa atua em outros campos acadêmicos. Em setembro de 2008, foi organizado por ele, na FFLCH-USP, o IV ABEH (Associação Brasileira de Estudos sobre a Homocultura). Segundo Horácio, o congresso “foi importante porque na USP nunca tinha havido um encontro tão numeroso sobre o tema (mais de 500 participantes, não me lembro bem). Mas seguiu os passos do encontro de militantes homossexuais que aconteceu na mesma Letras em 1978, ou seja, quarenta anos antes, que foi o primeiro na história da universidade brasileira, e do qual participaram alguns militantes de primeira hora, como o João Silvério Trevisan, que também participou do IV ABEH. A associação se reúne a cada dois anos e cada vez em um estado do país, e o de São Paulo seguiu aos de Rio de Janeiro-Niterói, Brasília e Belo Horizonte. Depois vieram Salvador, Natal, Rio Grande e Juiz de Fora, o último. O próximo será no Ceará”.  
 
Por fim, algumas linhas sobre Glauco Mattoso. Glauco esteve envolvido com muitas vanguardas da segunda metade do século XX, entre elas, a poesia visual, a arte pornô – arte que envolve a tematização de conteúdos eróticos, muitas vezes chamados pornográficos por moralistas conservadores, vindo dessa polêmica o seu poder de contestação – e a arte postal – o Jornal Dobrabil, formado por uma folha de papel sulfite, tamanho A4, datilografada à máquina e enviada regularmente, por correio, para algumas pessoas da mídia e das artes brasileiras –. Atualmente, Glauco Mattoso, como seus 5555 sonetos, bateu o recorde mundial; desde de 1300, Glauco é o poeta que mais fez sonetos no planeta Terra.
 
Em sua literatura abrangente, pois escreve prosa e poesia, Glauco fala de tudo, tematizando o homoerotismo com intensidade. Além do mais, Glauco também tematiza o sexo sadomasoquista, afirmando outra minoria sexual que ainda sofre bastantes preconceitos. Essa sua militância, entretanto, vamos deixar para comentar em um próximo texto.
 
 Evidentemente, muitos autores importantes, como Caio Fernando Abreu, deixaram de ser comentamos nesta brevíssima resenha sobre a resistência da literatura à homofobia. Entre tantos autores contemporâneos, preferi escolher aqueles que felizmente ainda estão vivos e que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente. No próximo artigo, pretendo falar sobre a literatura lésbica e, em seguida, sobre a literatura sadomasoquista.


 
 * Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor de Semiótica do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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