Quarta-Feira, 20 de Agosto

 

26/03/2011 - Copyleft

Islândia, um país que pune os banqueiros responsáveis pela crise


Alejandra Abad - El Confidencial
Attac - Madri

Na semana passada, nove pessoas foram presas em Londres e em Reykjavik (capital da Islândia) pela sua responsabilidade no colapso financeiro da Islândia em 2008, uma profunda crise que levou a uma reação pública sem precedentes, que mudou o rumo do país.

Foi a revolução sem armas da Islândia, país que hospeda a democracia mais antiga do mundo (desde 930), e cujos cidadãos conseguiram mudar com base em manifestações e panelas. E porque é que o resto dos países ocidentais nem sequer ouviram falar disto?

A pressão da cidadania islandesa conseguiu não só derrubar um governo, mas também a elaboração de uma nova Constituição (em andamento) e colocar na cadeia os banqueiros responsáveis pela crise no país. Como se costuma dizer, se você pedir educadamente as coisas é muito mais fácil obtê-las.

Este processo revolucionário silencioso tem as suas origens em 2008, quando o governo islandês decidiu nacionalizar os três maiores bancos - Kaupthing, Landsbanki e Glitnir - cujos clientes eram principalmente britânicos, americanos e norte-americanos.

Depois da entrada do estado no capital a moeda oficial (coroa) caiu e a Bolsa suspendeu a sua atividade após uma queda de 76%. A Islândia foi à falência e para salvar a situação o Fundo Monetário Internacional (FMI) injectou 2.1 bilhões de dólares e os países nórdicos ajudaram com mais de 2.5 bilhões de euros.

As grandes pequenas vitórias das pessoas comuns
Enquanto os bancos e as autoridades locais e estrangeiras procuravam desesperadamente soluções econômicas, o povo islandês tomou as ruas, e com as suas persistentes manifestações diárias em frente ao parlamento em Reykjavik provocou a renúncia do primeiro-ministro conservador Geir H. Haarde e do governo em bloco.

Os cidadãos exigiram, além disso, a convocação de eleições antecipadas, e conseguiram. Em abril, foi eleito por um governo de coligação formada pela Aliança Social Democrata e Movimento Esquerda Verde, chefiado por uma nova primeira-ministra, Johanna Sigurdardottir.

Ao longo de 2009, a economia islandesa continuou em situação precária (fechou o ano com uma queda de 7% do PIB), mas, apesar disso, o Parlamento propôs pagar a dívida de 3.5 bilhões euros à Grã-Bretanha e Holanda, um montante a ser pago mensalmente pe as famílias islandesa durante 15 anos com juros de 5,5%.

A mudança trouxe a ira de volta dos islandeses, que voltaram para as ruas exigindo que, pelo menos, a decisão fosse submetida a referendo. Outra nova pequena grande vitória dos protestos de rua: em março de 2010 a votação foi realizada e o resultado foi que uma esmagadora de 93% da população se recusou a pagar a dívida, pelo menos nessas condições.

Isso levou os credores a repensar o negócio, oferecendo juros de 3% e pagamento a 37 anos. Mesmo se fosse suficiente, o atual presidente, ao ver que o Parlamento aprovou o acordo por uma margem estreita, decidiu no mês passado não o aprovar e chamar de volta os islandeses para votar num referendo, para que sejam eles a ter a última palavra.

Os banqueiros estão fugindo atemorizados
Voltando à situação tensa de 2010, enquanto os islandeses se recusaram a pagar uma dívida contraída pelos os tubarões financeiros sem os questionar, o governo de coligação lançou uma investigação para resolver juridicamente as responsabilidades legais da fatal crise econômica e já havia detido vários banqueiros e executivos de cúpula intimamente ligados às operações de risco.

Entretanto, a Interpol, tinha emitido um mandado internacional de captura contra o presidente do Parlamento, Sigurdur Einarsson. Esta situação levou os banqueiros e executivos, assustados, a deixar o país em massa.

Neste contexto de crise, elegeu-se uma Assembleia para elaborar uma nova Constituição que reflita as lições aprendidas e para substituir a atual, inspirada na Constituição dinamarquesa.

Para fazer isso, em vez de chamar especialistas e políticos, a Islândia decidiu apelar directamente ao povo, soberano, ao fim e ao cabo, das leis. Mais de 500 islandeses apresentaram-se como candidatos a participar neste exercício de democracia direta de redigir uma Constituição, dos quais foram eleitos 25 cidadãos sem filiação partidária, que incluem advogados, estudantes, jornalistas, agricultores, representantes sindicais.

Entre outros desenvolvimentos, esta Constituição é chamada a proteger, como nenhuma outra, a liberdade de informação e expressão, com a chamada Iniciativa Islandesa Moderna para os Meios de Comunicação, um projeto de lei que visa tornar o país um porto seguro para o jornalismo de investigação e liberdade de informação, onde se protejam as fontes, jornalistas e os provedores de internet que alojem órgãos de informação

Serão as pessoas, por uma vez, para decidirão sobre o futuro do país, enquanto os banqueiros e os políticos assistem (alguns da prisão) à transformação de uma nação, mas do lado de fora.

Tradução para o português: Vermelhos.net

Créditos da foto: Attac - Madri




Maria Libia Faria Spina - 28/03/2011
JAIR DE SOUZA; O fato occoreu porque o povo em 1o.lugar estava INFORMADO; tb. porque uma democracia tão antiga, já cedimentada, lapidou o povo, caso contrário, eles não tomariam as atitudes que tomaram; porque o governo OUVIU o povo. Vc está comparando o irlandes com o brasileiro que tem complexo de vira-lata, que não adianta fazer nada, que só o que é bom é o que vem do estrangeiro.


Webston Moura - 27/03/2011
Se alguém argumentar com "a Islândia é um país pequeno e 'fácil' de ser transformado", lembremos que há outros países pequenos e difíceis em suas situações. Aquele povo está nos dando um ótimo exemplo! Mudaram a té a constituição. Aqui no Brasil o STF impede a Lei da Ficha Limpa e alega questões legalistas, constitucinais, como se as leis fossem mais vivas e mais importantes que as pessoas. E nós qo que fazemos? Não fazemos como os islandeses. Reclamamos uns dias e depois... "deixa rolar". Gostei dessa democracia da Islândia! Gostei de saber de tudo isso. Abraços.


francisco pereira neto - 27/03/2011
Que inveja sinto de não ser islandes!!!


Antônio - 26/03/2011
Gostaria que todos que lessem esta reportagem [políticos, empresários, governo e sociedade] também aprendessem um pouco mais com ela. E que deixassem sobrar um pouco para o Brasil. Simples assim.


Ronaldo Irion Dalmolin - 26/03/2011
Vou divulgar... O direito à informação é a base da verdadeira democracia. (e lugar de parasita é na cadeia)


Ana Cruzzeli - 26/03/2011
Uau, todo mundo tem que ler isso. Fantaaaaaaaastico, eu adorei, esse povo é porreta. Nesses últimos dias lendo aqui e acolá a pressão do atual-e-já-vai-tarde presidente da Vale do Rio Doce em ficar no cargo, a pressão da imprensa de SP para a sua permanência e o discurso dos comentaristas da Globo só fizeram aflorar em muitos como eu uma revolta contida desde da privataria do FHC. Li recentemente que está na justiça à contestação da venda da Vale e parece que de quebra a venda da CSN, pois a entidade que avaliou as duas foi compradora, Banco Bradesco. Isso segundo os Procuradores da Republica configura vício passível de anulação da transação. Esse texto que vocês do Carta Maior estão postando mostra claramente que não podemos, não devemos confiar nos agentes privados financeiros, mas principalmente como devemos tratá-los. Nesse exato momento a minha raiva está chegando ao limite e a simples troca de administrador da Vale para mim já não basta mais. De hoje em diante não vou sossegar enquanto essas empresas não forem pelo menos economia mista de administração publica. O Bradesco tem que deixar a Vale e o povo brasileiro devem mostrar a porta da rua. Obrigada Miriam Leitão, por ter defendido a administração do Agnelli, isso despertou em mim a vontade de lutar, obrigada também a Islândia vocês são demais.


Jair de Souza - 26/03/2011
Ler este artigo sem uma posição crítica pode levar a uma compreensão equivocada do problema. Pode levar a que se acredite no espontaneísmo da população para resolver os grandes problemas. Coisa semelhante ocorreu na Argentina durante o roubo cometido contra a nação pelo governo Menem e a banca privada. A população saiu em massa às ruas gritando "Que se vayan todos!". Mas, como não estavam organizados, o resultado foi o de costume: os magnatas causadores dos problemas sairam ilesos (além de muito mais ricos) e o povo ficou com a dívida. Na Islândia, até agora, não há nada que indique que será diferente. E não vai ser, se depender tão somente do espontaneísmo daqueles que se sentiram lesados. Sem povo organizado, não vai sair nada de positivo. Sinto muito por querer esfriar o entusiasmo de alguns leitores.

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