Segunda-Feira, 24 de Julho

 

14/02/2017 11:59 - Copyleft

O enganoso otimismo com o futuro da economia mundial

Podemos dizer que tudo vai bem. Entretanto, tenho que jogar um pouco de água fria sobre essas previsões de crescimento econômico alto e sustentável.


Michael Roberts *
reprodução

Os mercados de valores do mundo quebrando recordes máximos, em particular as bolsas dos Estados Unidos, que têm alcançado tetos históricos. “O Donald” pode dominar as manchetes com seus decretos presidenciais e tuítes, mas os investidores, em geral, continuam otimistas. Existe um crescente consenso entre os economistas e os investidores, de que as coisas estão melhorando e que a economia mundial está a ponto de uma recuperação sustentada.
 
Por exemplo, as últimas previsões de Gavyn Davies, ex-economista chefe da Goldman Sachs – que agora dirige sua própria agência financeira, a Fulcrum – dizem que “uma das questões mais importantes para 2017 é se esta tendência de reativação econômica poderá ser mantida. Minha resposta, baseada em parte nos últimos resultados dos modelos de predição e de inflação da Fulcrum, é que vai se manter, ao menos em comparação com os baixos índices registrados de crescimento do PIB nominal desde a grande crise financeira”. Por outra parte, diz que “os últimos dados continuam apontando a fortes crescimentos em todos os âmbitos, com um crescimento mundial de 4,2% anual. Este forte crescimento é especialmente evidente nas economias avançadas, onde a taxa de crescimento é de 3%, uma cifra que está muito por cima da tendência a longo prazo de 1,8%. Por outra parte, o crescimento da atividade se estima que será superior à tendência em todas as principais economias avançadas: nos Estados Unidos 3,6%, na Zona Euro 2,5%, no Japão 1,8% e no Reino Unido 2,5%”.
 
Podemos dizer que tudo vai bem. Entretanto, tenho que jogar um pouco de água fria sobre essas previsões de crescimento econômico alto e sustentável. Um crescimento sustentado da tendência não depende do consumo, não depende de um maior gasto dos lares em bens e serviços financiados com mais empréstimos ou induzido por um maior preço das ações. Depende de um maior investimento em capacidade de produção que produza um maior crescimento da produtividade – e que, por sua vez, depende de melhores benefícios para os setores empresariais mais estratégicos de uma economia. Até agora, há poucas sinais apontando para esse cenário.
 
Por exemplo, nos dados para o último trimestre de 2016 da economia dos Estados Unidos, a recuperação dos investimentos das empresas foram mínimos. As cifras do PIB real do país mostram um aumento anual de 1,9%. Portanto, o crescimento real em 2016 foi de apenas 1,6%, contra 2,6% em 2015 – a taxa mais baixa desde o final da Grande Recessão. Houve um pouco mais de investimento empresarial depois de três trimestres de queda. Porém, o investimento empresarial segue sendo de somente 0,3% interanual. O setor crucial, que o de equipamentos tecnológicos, continua caindo, desta vez em um 3,6% interanual.
 

 
Como resultado, o crescimento da produtividade (que é o aumento da produção por trabalhador), está estancada, especialmente nos setores produtivos mais importantes, como a manufatura.
 

 
Estes comentários são similares aos do jornalista britânico John Ross, em seu último artigo sobre a economia dos Estados Unidos, no sentido de que é um mito que se esteja produzindo uma forte recuperação econômica.
 

 
Bom, poderíamos sustentar a ideia de que isso já é passado. Como Gavyn Davies e outros defendem, as coisas serão diferentes este ano. Inclusive a Grã Bretanha “pós-brexit” é provável que tenha um crescimento razoável, de até 2% este ano, segundo o Banco da Inglaterra e outros organismos, contrariando suas previsões apocalípticas depois do referendo do último verão europeu.
 
Porém, reitero que os indicadores chave são o aumento do investimento empresarial, e por trás disso o aumento dos benefícios empresariais. As cifras que temos para o terceiro trimestre de 2016 (em geral as últimas) sugerem uma leve recuperação dos benefícios globais, após a desaceleração experimentada desde 2014. Mas não é o melhor lugar onde se apoiar.
 

 
A tendência geral dos benefícios empresariais nos Estados Unidos caiu durante mais de dois anos. O seguinte gráfico mostra o que ocorreu com os benefícios por ação (EPS) das 500 maiores empresas dos Estados Unidos.
 

 
Por trás desse descenso se encontra uma queda nos níveis recorde alcançados nas margens de lucro das empresas (ou seja, a parte dos lucros na produção total) a partir já de 2011. Em outras palavras, os benefícios empresariais aumentaram, porém mais lentamente que as vendas corporativas ou a produção total. Alguns economistas convencionais sustentam que isso é uma boa notícia, porque as margens mais estreitas aumentarão a competição e reduzirão a desigualdade. Mas isso não tem sentido. A queda dos benefícios e das margens de benefício anunciam uma queda no investimento, e logo uma queda na produção e no emprego. Os analistas do JP Morgan e outros economistas de bancos de investimentos argumentam o mesmo.
 
As margens de benefício empresariais seguem estando muito acima da sua média histórica. Para chegar à sua média teriam que cair até um 9%, de acordo com os analistas de Casey Research. A última vez que as margens de lucro caíram tão baixo, a economia dos Estados Unidos entrou na Grande Recessão de 2008.
 

 
A rentabilidade de tudo o espectro do setor empresarial nas principais economias capitalistas avançadas segue sendo frágil, e uma parte considerável desse setor são empresas “zumbis”, incapazes de obter outros benefícios que não os imprescindíveis para arcar com suas dívidas, e que não podem investir em novas tecnologias produtivas para aumentar a produtividade e crescer.
 
Por trás dessa situação está o nível de dívida das empresas, algo que os Gavyn Davies deste mundo ignoram. Como o economista austríaco William White escreveu num artigo crítico, “a pergunta que todos os analistas de mercado devem responder hoje, em última instância, é se esta acumulação épica de dívida global é sustentável. Se não é, e eu creio que não é, a pergunta seguinte é como identificar os sinais que indicam que os excessos estão se tornando insustentáveis, e levando a uma crise”.
 
Michael Lewitt indica que os mercados de valores “estão alcançando seus valores mais altos em toda a história”. Como mostra o gráfico adjunto, ainda há muito caminho por percorrer para alcançar os excessos da bolha tecnológica do ano 2000. Entretanto, o mercado de valores dos Estados Unidos já igualou o nível de valorização que existia logo antes da crise de 1929.
 

 
Mas os mercados financeiros não se apoiam em fortes lucros corporativos e um crescimento do PIB real. Segundo a consultora FactSet, o crescimento estimado dos benefícios no PCGA (princípios de contabilidade aceitos) para as empresas que cotizam em S&P no ano 2016 foi um magro 0,1% (e o crescimento dos benefícios PCGA foi negativo). A renda aumento em 2% ou menos. “Os estrategas de Wall Street, que tentam seduzir os investidores para que comprem mais ações a estes níveis, estão brincando com fogo”.
 
* Michael Roberts é um conhecido economista marxista britânico, responsável pelo blog The Next Recession.
 
Tradução: Victor Farinelli



Créditos da foto: reprodução



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