Sexta-Feira, 25 de Julho

 

15/07/2008 - Copyleft

O fundo político da atual crise econômica


Mike Whitney - Sin Permiso

Mike Whitney entrevistou o economista Michael Hudson sobre a crise econômica nos EUA. Profundo cientificamente, político de princípio ao fim e, como sempre, rápido e original em sua forma de argumentar, o respeitado especialista em mercados financeiros e política fiscal oferece uma análise político-econômica tão clara quanto instrutiva sobre as causas de fundo da atual crise econômica.

Mike Whitney: Antes de John Kennedy tomar posse, aqueles que tinham renda superior aos 200.000 dólares estavam, em termos tributários, submetidos a altos impostos. As corporações empresariais também pagavam uma porcentagem muito maior do que hoje da carga tributária total. As taxas fiscais muito mais altas que pesavam sobre os ricos jamais prejudicaram o PIB, que se manteve, ano após ano, com um crescimento acima de 4%, e as classes médias floresceram de um modo que não tinha precedentes na história universal. Por que não voltamos às políticas "redistributivas" que tão bem funcionaram no passado? Você acredita que a "tributação progressiva" é crucial para manter a democracia e estabelecer uma igualdade maior entre as pessoas?

Michael Hudson: Eu acho que sua pergunta contempla o problema fiscal de uma forma estreita demais. O que está em questão não é simplesmente a dimensão da taxa sobre os rendimentos tributáveis, que agora mesmo não são mais do que, sobretudo, os de origem salarial, seguidos por aqueles que são provenientes dos lucros. Os economistas clássicos focaram, primeiro, e acima de tudo, a questão de determinar o que deveria ser objeto de cargas tributárias. Desde os fisiocratas, passando por Adam Smith e John Stuart Mill, até os socialistas, como Ferdinand Lasalle e os reformadores da Era Progressista norte-americana, todos concluíram que a fonte fiscal principal tinha que vir da “renda não ganha” (unearned income), definida como rendimento da terra, renda monopólica, outras formas de renda econômica (lucros obtidos sem desempenhar o necessário papel na produção) e os rendimentos de capital obtidos a partir desses ativos geradores de renda, principalmente terras.

Tal como estão as coisas agora, você poderia elevar as taxas fiscais sobre a renda para 100%, e continuaria sem sequer tocar o fluxo de dinheiro procedente dos rendimentos dos bens imobiliários, dos monopólios e das transnacionais, que se servem, todos, do mecanismo de transferência de preços para manipular suas declarações de renda e de gastos, com a finalidade de demostrar que não têm nenhum tipo de rendimento tributável. De modo que a primeira questão que deveria nos ocupar é a de que tipo de renda deve ser tributada. Possuir uma propriedade rentista sobre um bem imóvel é como possuir um poço de petróleo na época da depletion allowance (1). Além de contar o juro como um gasto que se pode deduzir (e não como uma escolha financeira), os proprietários alegam que seus edifícios estão se deteriorando, apesar do fato de que os preços da propriedade praticamente não deixaram de crescer.

Ou seja, na maioria dos anos, não se declara renda tributável alguma. Os proprietários de bens imóveis nem sequer precisam pagar um imposto pelos ganhos de capital (aquilo que Mill chamou de “aumento não ganho”, que ocorre quando se usam os recursos gerados pelas vendas para comprar ativos posteriores). E isso é, justamente, o que faz a grande maioria dos possuidores de riqueza. Fazem comércio e acumulam, livres de impostos. A situação é muito parecida à das companhias que ficam sob controle dos profissionais do assalto financeiro das corporações empresariais. Pagar juros aos donos de "moedas podres" (títulos de baixo valor) absorve o que antes eram rendimentos tributáveis, pagos como dividendos. Isto é o que realmente está corroendo o sistema fiscal norte-americano e desindustrializando nossa economia.

Quando Kennedy chegou à presidência, uma das primeiras coisas que fez foi aprovar uma lei de crédito fiscal ao investimento (a Tax Investment Credit). Isso deu às companhias industriais um crédito para fazer investimentos tangíveis de capital. Os bens imóveis também subiram nesse carro, mas a idéia era usar o sistema fiscal para incentivar o investimento e o emprego, com a finalidade de manter os EUA no caminho da industrialização.

Vamos voltar rapidamente aos nossos dias. O sistema fiscal favorece a especulação financeira e a propriedade absentista (a propriedade que não é para uso pessoal e direto do proprietário). Pode parecer uma ironia, mas quem é realmente rico prefere não ter rendimento algum. Preferem centrar-se nos retornos totais, que chegam a eles em forma de ganho de capital. Por isso, os bilionários dos fundos hedge pagam muito menos impostos que suas secretárias. O setor dos bens imóveis é agora o maior da nossa economia –o grosso do seu valor de mercado provém do valor da localização—, não a indústria ou outros meios de produção. Dadas as brechas fiscais existentes, eu preferiria não tributar os lucros empresariais, ou, inclusive, não tributar nenhum tipo de rendimento, se o governo pudesse transformar em fonte de recursos fiscais o atual vale tudo da renda econômica. Assim, a discussão sobre o que deve ser tributado precisa ser prévia à discussão sobre o nível de pressão fiscal que é necessário exercer sobre o parco rendimento proveniente do setor FIRE (finanças, seguros e bens imóveis, por suas iniciais em inglês; N. do T.) que os ricos estão obrigados a declarar.

Talvez a melhor forma de categorizar o assunto seja convocar essa discussão ou debate da reindustrialização. Resta dizer que quanto mais regressivo for o sistema fiscal, maiores serão a pobreza e a desigualdade. E, como disse Aristóteles, a democracia é a etapa política que precede imediatamente a oligarquia. Nessa direção está evoluindo agora a economia.

MW: Por que os Democratas têm tanta apreensão em fiscalizar aqueles que mais se beneficiaram com o nosso sistema? Você vê algum sinal de que os liberais de esquerda estejam se somando à luta contra os ideólogos de extrema direita que vêm dominando o debate econômico nos últimos 30 anos?

MH: A explicação mais rápida para o fato dos Democratas não terem tributado a riqueza está no poder dos lobistas, mercenários de interesses particulares, e no poder dos think tanks, contratados por eles para promover uma teoria econômica lixo. A maior parte da riqueza é obtida, hoje, por meio de privilégios fiscais especiais, e o setor financeiro é o maior contribuinte das campanhas políticas, seguido pelo setor dos bens imobiliários. Os Democratas têm suas bases, tradicionalmente, nas grandes cidades. E, como disse Thorstein Veblen, em Absentee Ownership, a política urbana é, substancialmente, um projeto de promoção dos bens imobiliários.

Um século atrás, a questão fiscal estava no primeiro plano da política norte-americana. Os reformadores lutaram vigorosamente a favor de uma legislação fiscal que tributasse os rendimentos: exatamente o oposto da tentativa atual de aboli-la. A razão era que o primeiro imposto sobre a renda recaía principalmente sobre os ricos, e especialmente, sobre os bens imobiliários, a mineração e os monopólios, que eram, na época, exatamente como agora, as fontes principais de riqueza.

O problema de fundo é que não há uma filosofia econômica capaz de esclarecer o modo pelo qual funciona a economia como um sistema de conjunto. Sem distinguir que tipo de investimento e que tipo de atividades queremos, é bastante difícil definir uma política fiscal. A idéia de uma taxa fiscal plana, por exemplo, parte do pressuposto de que todos os rendimentos são igualmente valiosos, com a cautela de que essa taxa evita incluir a fiscalização da propriedade e dos fluxos de dinheiro do setor FIRE, que os lobistas deram um jeito para que, frente a agência fiscal norte-americana, apareça como despesas e deduções. Ou seja, que essa idéia não só não é axiologicamente neutra e livre de valores, senão que é explicitamente hostil ao mundo do trabalho. E você pode vê-la aplicada hoje em sua forma mais pura nos países da antiga União Soviética, como os Estados bálticos.

Eu não vejo o Congresso discutindo a questão fiscal, exceto quando são apresentadas propostas de cortes fiscais por parte dos inimigos da intervenção estatal. E não vejo, também, que seja possível iniciar uma discussão realista enquanto não for definido o significado preciso de uma contribuição tributária progressiva. É necessário começar definindo alguns tipos de rendimentos e investimentos que são mais produtivos do que outros. Isso terminaria com os subsídios fiscais à rolagem de dívida e à especulação financeira.

MW: Como Obama deveria abordar o assunto do "alívio da dívida" para as vítimas do boom imobiliário que estão, agora mesmo, perdendo suas moradias? Os afro-americanos estão sendo especialmente golpeados pelo fracasso das hipotecas podres. Existe alguma forma de minimizar as perdas das pessoas que foram apanhadas nessa fraude bancária?

MH: A questão das moradias hipotecadas é um problema muito antigo, ou seja, há um amplo repertório de vias para abordá-lo. Na minha opinião, a lei mais efetiva é a lei do Estado de Nova York sobre transmissão fraudulenta. Registrada quando Nova York era uma colônia, manteve-se quando Nova York passou a fazer parte dos Estados Unidos. O problema era, na época, que os gananciosos credores ingleses tentavam apropriar-se do rico território agrícola de Nova York. O estratagema consistia em emprestar dinheiro hipotecário aos granjeiros, que ofereciam suas terras como garantia para a dívida. Então, podiam executar a hipoteca, às vezes antes da chegada da colheita, ou seja quando os granjeiros careciam de liqüidez para pagar. Outros prestamistas emprestavam demais em relação às possibilidades dos contratantes de devolver o crédito quando se exigia, subitamente, que pagassem. De modo que Nova York aprovou uma lei prescrevendo que se um credor concedia um empréstimo sem ter uma idéia realista das possibilidades de devolução do devedor, a transação seria considerada fraudulenta e a dívida declarada inválida e nula de pleno direito.

Na década de 1980, muitas empresas buscaram amparo nessa lei para defender-se do assalto das grandes corporações, que usavam títulos podres como arma predileta. As empresas, na alça da mira, alegaram que seriam forçadas a reduzir drasticamente seus negócios, ou ficariam sem ativos ao ponto de terem que declarar falência. Eu pensei, então, que os países do Terceiro Mundo que tinham contratado empréstimos dos grandes bancos de Nova York podiam defender-se desta maneira, porque as únicas formas de pagar eram pedir empréstimos para cobrir o serviço da dívida ou —como acabou acontecendo— liquidando seus ativos pela via de privatizar seu setor público, com a finalidade de juntar dólares.

Hoje, os empréstimos bancários fraudulentos, como no caso da Countrywide, são acusados de fabricar hipotecas podres com aparência normal, que, exatamente por isso, deveriam ser anuladas. Mas o prefeito de Cleveland foi além. Acusou de estrago público os bancos cujos empréstimos hipotecários levaram às alienações que deixaram as moradias vazias. Moradias que estão sendo depredadas por ladrões e usadas como antros de droga. Os prestamistas de hipotecas podres deveriam responder judicialmente por isso e assumir os custos de limpeza da contaminação que as dívidas induzidas por eles geraram.

MW: Parece bastante radical.

MH: Mas é o que a própria lei manda. Justamente na semana passada, no dia 26 de junho, depois que os fiscais gerais da Califórnia, Illinois e Connecticut apresentaram cargos contra a Countrywide, o Wall Street Journal citava a opinião de um professor de direito. Segundo ele, se os estados conseguem convencer as cortes de justiça para que garantam a restituição, a coisa poderia terminar em um gigantesco problema para a Countrywide, que teria que devolver os benefícios provenientes de todos esses empréstimos e, provavelmente, devolver todas as moradias alienadas até agora. A fraude financeira é um assunto muito sério. Há muito tempo que os remédios estão nos livros.

MW: Existe uma forma menos radical de manter as pessoas em casas que se tornaram caras demais para suas rendas ou deveríamos procurar outras alternativas?

MH: A resposta depende do modo em que você defina o fato de que as casas ficaram caras demais. Se falamos do salto dos juros hipotecários e de que os pagamentos de amortizações aumentaram demais para as rendas dos proprietários dessas casas, então uma forma de manter as pessoas em suas casas é um reajuste parcial do seu empréstimo hipotecário. O secretário do Tesouro, Paulson, já deu um passo que, contudo, continua baseado no mecanismo de mercado: estimar realisticamente o valor de mercado da propriedade e reajustar a hipoteca segundo esse valor.

O problema com essa solução são as casas que se tornaram mais do que muito caras. O que poderia ser resultado do problema de encarecimento repentino da saúde, em cujo caso terão, provavelmente, que deixar a casa, porque os EUA carecem de uma cobertura de saúde pública ao estilo europeu; preferem culpar as vítimas por suas doenças ou seus percalços. Mas se o prestamista fez, conscientemente, um mau empréstimo e, depois, o comprador tem que abandonar a casa porque sua renda é insuficiente para honrar a dívida, deveria, pelo menos, receber algum tipo de compensação e, no melhor dos casos, também uma reparação jurídica completa pela fraude de que foi vítima.

MW: Há alguma alternativa viável para o "livre mercado", ou os trabalhadores norte-americanos terão que continuar sofrendo com perdas de emprego, com quedas do nível de vida e com a "corrida para o abismo"?

MH: A razão para que o trabalho tenha perdido competitividade nos EUA não é simplesmente a corrida para o abismo. Para entender por que as exportações norte-americanas perderam a corrida dos preços nos mercados mundiais, não apenas é preciso observar os salários depois dos impostos dos trabalhadores, mas também o fato de que os empresários não estão fazendo investimentos para aumentar a produtividade, assim como o que eles deixam de receber, por parte do governo, em matéria de manutenção da infra-estrutura pública básica.

Uma das causas para que os empresários não tenham realizado investimentos suficientes para aumentar a produtividade de suas fábricas e equipamentos é que são forçados a desviar um fluxo dos seus fundos para pagar juros aos proprietários de bônus e aos bancos, além de dividendos que acalmem os acionistas ativistas, o novo eufemismo para referir-se aos especuladores financeiros.

A filosofia das corporações empresariais norte-americanas tem seguido mais pela ideologia do ato reflexo que pela do interesse próprio. A General Motors declarou que tem que pagar enormes custos com saúde, enquanto seus concorrentes, não. Com uns 60 anos de atraso, descobrem, finalmente, que a medicina socializada é mais eficiente do que a saúde privatizada em mãos dos predadores que operam no mundo das finanças e dos seguros. Os serviços públicos não se constróem com custos de taxas de juro, com dividendos, com exorbitantes remunerações dos executivos, com opções de ações e com honorários de advogados. Tudo isso absorve uma parte gigantesca do gasto das empresas com sua força de trabalho, sem, por outro lado, contribuir para elevar o nível de vida.

Além disso, formar médicos, dentistas e enfermeiras é muito mais barato fora dos EUA. Aqui, eles saem de suas faculdades universitárias com dívidas de centenas de milhares de dólares, e depois ainda precisam endividar-se mais para abrir seus consultórios, e ainda, precisam, depois, pagar caríssimos seguros de responsabilidade profissional. Quando recebem uma licença do escritório federal de sanidade (HMO, nas iniciais em inglês), o normal é que tenham que esperar um ano, mais ou menos, antes de começar a cobrar. Contudo, precisam contratar seus próprios contadores apenas para que eles se entendam com o escritório federal de sanidade. O fornecimento de médicos, dentistas e enfermeiras está racionado.

Mas, acima de tudo, o preço do trabalho reflete os altos custos da moradia aqui: principalmente o custo de ter uma hipoteca imobiliária (além da dívida não hipotecária). O trabalho não se beneficia desses custos. E tal como as coisas se desenvolveram, a indústria também não é beneficiada. É o preço que a economia dos EUA tem que pagar, em seu conjunto, por ter sucumbido a um processo de financeirização e privatização completamente disfuncional.

MW: Você já disse alguma vez que a crise financeira parece com uma "cobra que, enroscada em torno da economia, está estrangulando-a lentamente". Poderia aprofundar um pouco mais nessa idéia?

MH: Eu estava falando da deflação por dívidas. Quando o gasto com dívida cresce exponencialmente, detrai mais e mais dinheiro do seu gasto habitual em produção e consumo. O setor financeiro aplaude isso como o milagre do juro composto. O volume do empréstimo mantém-se crescente segundo princípios puramente matemáticos, despreocupado da capacidade —ou incapacidade— da economia de gerar um excedente suficientemente grande para permitir o pagamento. Para pagar os credores, cada vez são necessários mais salários, mais e mais lucros e rendimentos fiscais. Esses credores, então, vão lá e emprestam seu fluxo proveniente do serviço da dívida para outras pessoas. O que tem como conseqüência encontrar cada vez mais mercados de risco, enquanto a dívida vai se tornando mais e mais pesada.

Para poder pagar os gastos que trazem essas dívidas, os trabalhadores assalariados cortam o consumo, enquanto as empresas, esmagadas pelas dívidas, cortam seus investimentos em capital novo, pesquisa e desenvolvimento. Os governos locais, estatais e o federal pagam, também, os juros dos seus déficits, o que os leva a recortarem os gastos em manutenção de infra-estrutura e melhoramento dos serviços públicos. Esses cortes, por sua vez, derivam em um encolhimento do mercado interno, o que leva a uma queda do investimento e do emprego. Tudo isso é aplaudido como um resultado mágico da capacidade do mercado para destinar recursos. Mas quem aplaude é o setor financeiro, não a indústria.

MW: Isso significa que o sistema vai experimentar súbitas sacudidas, como falência de um banco importante —tal vez Citigroup ou Merril— e uma grande baixa no mercado de valores?

MH: A economia chega a um estágio Ponzi (2), no qual os bancos emprestam os juros aos seus clientes, para mantê-los em dia nos pagamentos. Cada vez mais empréstimos hipotecários são reestruturados desta maneira nos últimos anos. Quando os credores deixam de fazer esses empréstimos, a cadeia de pagamentos se rompe e dispara uma onda de pedidos de falência, o que traz consigo uma queda dos mercados.

MW: O dólar está condenado. Os EUA vão conseguir reduzir ambos os déficits (fiscal e comercial) e continuar atraindo capital estrangeiro no futuro? E caso venha uma recessão de verdade, os negócios diminuem e aumenta o desemprego, isso fortaleceria o dólar?

MH: Suponho que com isso do "dólar condenado" o que você quer dizer é que o dólar continuaria caindo com respeito às moedas estrangeiras, enquanto a inflação “engoliria” tudo o que os salários possam comprar. A idéia de que uma economia que vai mal pode curar-se por si mesma faz parte da ideologia hostil ao trabalho do FMI e da propaganda da Escola de Chicago. Para afirmar esse tipo de coisas são concedidos os Prêmios Nobel, garanto a você. Mas é teoria econômica-lixo. Um dólar com tendência a cair é um processo auto-alimentado. Para principiantes: as ações, os bônus e os bens imobiliários cotados em dólares valem menos em termos de euros, libras esterlinas ou outras moedas estrangeiras fortes. Isso faz com que não existam muitos incentivos para que os estrangeiros invistam aqui. E se entrarmos em uma recessão (para não falar em depressão), haverá ainda menos oportunidades para investir com lucros.

Paralelamente, a dependência norte-americana das importações continuará crescendo na medida em que a economia continue se desindustrializando, ou seja, se financeirizando. O gasto militar norte-americano no exterior vai lançar ainda mais dólares nos mercados de câmbio do mundo. De maneira que uma economia enfraquecida aqui não significa que o dólar ficará mais forte; significa, sim, que temos um mau clima para os investimentos! A austeridade vai nos tornar mais dependentes do exterior. Para que você tenha uma idéia, basta observar o que aconteceu quando o FMI impôs planos de austeridade aos países devedores do Terceiro Mundo. E lembre-se que da última vez, quando, com Clinton, foi dada liberdade a Robert Rubin para que reformasse a Rússia, o resultado foi o colapso industrial e a falência.

MW: Não séria melhor para o mundo se não houvesse nenhuma "moeda de reserva" e o valor do dinheiro dependesse simplesmente da fortaleza econômica e do equilíbrio orçamentário? Enquanto existir uma "moeda internacional", como o dólar, haverá um Império, porque o papel moeda de um país (os EUA) domina sobre o resto. É realmente possível a democracia sem uma paridade maior entre as moedas do mundo?

MH: A taxas de câmbio são independentes dos sistemas políticos. Dito isto, as economias oligárquicas tendem a falir devido à sua tendência de deslocar as cargas fiscais dos bens de raiz e da infra-estrutura monopolizada e privatizada para o trabalho e a indústria. Isso reduz sua competitividade. Por exemplo, o complexo militar-industrial opera sobre uma base de magnificação de custos, não sobre uma base que os minimize. A questão é, então, se eles podem conseguir, pela via da extorsão de outros países, suficientes tributos estrangeiros para compensar. A Espanha não conseguiu isso do Novo Mundo depois de 1492, e Roma, antes, simplesmente destruiu a Ásia Menor e outras dependências imperiais.

Os EUA dos nossos dias poderiam ter mais sucesso? Parece que a manutenção da hegemonia do dólar é a única via possível para consegui-lo. Por definição, uma moeda de reserva é um empréstimo concedido por um governo a outro. Isso termina transformando-se sempre em carga fiscal sem controle de representantes políticos. É inerentemente não eqüitativo.

Há duas razões pelas quais os bancos centrais mantêm reservas em dólares. Uma é para efeitos de estabilização, para prevenir ataques monetários como os ocorridos na Ásia em 1997. A outra é que manter reservas de dólares em forma de empréstimos em dólares aos EUA mantém baixo o preço das suas próprias moedas e, assim, o valor das suas exportações. Esse efeito também poderia ser conseguido impondo uma tarifa flutuante às importações procedentes de países cujas moedas estejam em processo de desvalorização, fornecendo esse dinheiro, como subsídio, aos exportadores. Mas os países estrangeiros ainda não estão preparados para dar um passo político dessa envergadura, que os afastaria do império financeiro norte-americano.

No que diz respeito à política fiscal, não há realmente necessidade de equilíbrio orçamentário. Começando pelos “Greenbacks” dos tempos da Guerra Civil, os EUA demostraram que os governos não precisam aumentar os impostos para gastar dinheiro. Podem limitar-se a imprimi-lo. É o que, afinal de contas, faz a banca comercial. Em qualquer caso, o dinheiro é criado espontaneamente. O Tesouro da Reserva Federal, apenas em abril passado, criou um bilhão de dólares para um crédito de salvamento do setor financeiro. Entre parêntesis, ao mesmo tempo que declarava hipocritamente que a Seguridade Social iria falir em 40 anos por causa do seu trilhão de dólares de déficit. O Iraque acrescentou outro trilhão, mais ou menos.

A lição que se pode tirar disso é que a fortaleza econômica consiste na capacidade de criar crédito que alimente o crescimento econômico. Mas o setor bancário privatizado está, neste mesmo momento, destruindo essa fortaleza nos EUA. Em vez de criar crédito para financiar a formação de capital, o que faz o sistema bancário são empréstimos destinados a salvar a nefasta piramidalização financeira.

MW: Você acha que o crescimento do setor financeiro é um desenvolvimento positivo, ou não?

MH: O comportamento desse setor acabou sendo uma antítese do desenvolvimento industrial do capitalismo. Os reformadores do século XIX, inspirados por Henri St. Sino na França, tentaram reorganizar as finanças, passando do financiamento da dívida para o financiamento por meio da emissão de ações. Mas a economia atual vai exatamente na direção contrária. O que faz é substituir as ações por bônus e empréstimos bancários (ou de fundos de compra), criando dívida que não é usada para construir a capacidade produtiva necessária para devolver essa dívida com seus juros. O resultado é aquilo que os economistas clássicos chamavam de “dívida improdutiva”.

O setor financeiro parece menos inclinado a emprestar para desenvolver produtos úteis e empresas. Prefere reempacotar a dívida de outros (como nas obrigações respaldas por hipotecas) e vendê-las à investidores crédulos. Os bancos de investimento são responsáveis pela massiva proliferação do crédito e da dívida que agora estão destruindo a classe média e arruinando o país?

É o que está acontecendo. Mas uma causa importante de que a poupança vá parar nesses bancos é que as leis tributárias tornam mais rentável esse endividamento do que o investimento em capital industrial. O sistema tributário formou um mercado em que compensa mais especular do que investir na formação de novos meios de produção. O setor financeiro foi desregulamentado, segundo a lógica de que o que gera mais dinheiro é sempre o mais eficiente. O produto que estão vendendo os bancos é dívida, e ajuda a tomar o controle de empresas, ajuda as fusões e aquisições. O crédito é um produto cuja criação sai praticamente de graça. Seu principal custo de produção são os gastos dos lobbies para comprar apoios no Congresso.

MW: Vamos voltar, então, para a política. O que você sabe dos assessores econômicos de Obama? Temos que esperar uma repetição da "Rubinomics" (3) de Clinton, quando Wall Street obteve quase tudo o que pediu, enquanto os trabalhadores norte-americanos recebiam o NAFTA, a desregulamentação monetária, a rejeição da lei Glass Steagall e outras políticas de arrocho? Há alguma esperança de que Obama empreenda um novo curso e vá em uma direção progressista? Que políticas deveria promover Obama para reviver o sonho americano e dar um novo alento à maltratada classe média?

MH: Não estou em situação de dizer o que fará o senhor Obama. No que se refere a assessores econômicos, seu papel em uma campanha política não costuma ser tanto o de definir as políticas, mas o de mobilizar seu pessoal para sustentar economicamente o candidato. O papel do senhor Rubin e seus colegas, pelo menos agora, é, portanto, o de atrair o apoio de Wall Street. Que influência acabarão tendo esses assessores depois do próximo janeiro, ainda está por ver. Vai depender, provavelmente, das circunstâncias.

Uma coisa que se pode esperar é que o senhor Obama vá por um despenhadeiro como o novo trabalhismo de Tony Blair e volte aos rumos da política clintoniana, favorável a Wall Street e hostil ao mundo do trabalho. Se isso ocorresse, poderia causar tal decepção, que a unidade do partido democrata poderia quebrar-se de maneira irreparável.

Eu espero que ocorra o contrário, e faço o que está em minhas mãos para consegui-lo. Mas no que diz respeito a políticos, eu só posso responder pelo meu amigo Dennis Kucinich. Ele me pediu para organizar um conselho de cérebros de cunho rooseveltiano, com assessores econômicos e políticos que desenvolvessem um programa para reindustrializar os EUA e salvar o país de perecer em um processo de polarização que desde do século XVI é conhecido como “Síndrome Espanhola” e que antes era conhecido como “Síndrome de Roma”: uma economia em que os magnatas ricos libertam a si próprios de toda carga tributária, a qual passam para o trabalho e a indústria, e retiram-se para seus latifúndios, enquanto a economia sofre um retrocesso para níveis de mera produção local de subsistência.

Tudo isso já aconteceu, uma e outra vez. Não há nenhuma garantia automática de progresso. É preciso dirigi-lo e orientá-lo. Agora mesmo, o único partido que dirige e orienta é o composto pelas grandes instituições financeiras, que trabalham a favor dos interesses de seus ricos clientes. Dificilmente alguém se surpreenderá de que sua atitude seja hostil ao mundo do trabalho.

Eu acredito que as circunstâncias vão empurrar o senhor Obama a fazer um giro de retorno às políticas fiscais e econômicas mais classicamente progressistas. E neste momento não vejo um candidato que esteja em melhor posição para obrigar o Congresso a acompanhá-lo em suas reformas. Pode sair e apoiar candidatos que se oponham aos congressistas e aos senadores democratas mais recalcitrantes.

MW: No programa "60 minutos" da rede CBS, Alan Greenspan admitiu que apoiou a invasão do Iraque. Não é surpreendente, dada a dificuldade de imaginar que uma nação possa entrar em uma guerra sem o apoio dos manda-chuvas bancários. Que importância têm agora as grandes instituições financeiras e as megacorporações empresariais na determinação da política exterior? É algo endêmico do nosso sistema econômico —ou das nossas instituições financeiras— o que nos empurra para a guerra uma e outra vez?

MH: Não acho que a invasão do Iraque tenha sido resultado de uma decisão do setor financeiro. No que diz respeito ao senhor Greenspan, ele é um especialista em relações públicas, não um estrategista global. Eu acho que o que os bancos fazem é manobrar o melhor possível dentro de qualquer sistema político dado. Mas, como setor, raramente apóiam guerras.

Quando eu trabalhava no Chase Manhattan, em meados dos anos 1960, Wall Street não pressionava a favor da guerra do Vietnã. O presidente do conselho de administração do banco, George Champion, deixou claro que a guerra era fiscalmente irresponsável. Desencadeou uma inflação que levou a um declínio continuado do mercado de bônus durante 35 anos.

Imagine. Trinta e cinco anos, de 1945 a 1980, de aumentos das taxas de juro, que empurravam para baixo os preços dos bônus. Os bônus sempre têm sido a chave, mais do que as ações. O aumento dos tipos de juros significa que o preço dos bônus existentes, de baixas taxas, caem continuamente. E esse foi o resultado do déficit na balança de pagamentos induzido pela guerra e a política de canhões e manteiga do presidente Johnson, estimulada pela teoria econômica-lixo de falsos keynesianos, como Gardner Ackley, o presidente do conselho de assessores econômicos de Johnson.

A moral da história é que você não pode, realmente, ficar agarrado ao império —e às guerras que vão com ele—, e ao mesmo tempo ter uma economia pujante em expansão.

Uma coisa ou a outra, como estamos vendo agora. O que é mais notável é que as pessoas não relacionam a vontade norte-americana de criar um império unipolar com a crescente polarização econômica e o vertiginoso enfraquecimento financeiro a que estamos assistindo. A indústria, por sua vez, está perdendo o pulso com as finanças, e tenta, simplesmente, fazer dinheiro pela via de financeirizar-se ela também.

MW: Paul Harris escreveu um formidável artigo no ano passado no Guardian britânico, "Bem-vindos a Richistão, EUA", no qual descrevia as gigantescas diferenças de riqueza na América do Norte dos nossos dias. Dizia:

"Os arqui-ricos norte-americanos voltaram aos tempos dos "alegres anos 20". Enquanto o resto do país luta por seguir adiante, uma enorme bolha de multimilionários vive em um mundo quase paralelo. Os ricos vivem agora em seu próprio mundo de educação privada, saúde privada e mansões amuralhadas. Têm suas próprias escolas e seus próprios bancos. Inclusive viajam separados, o que gera uma pujante indústria de aeronaves e iates privados. Seu mundo tem agora um nome, graças a um novo livro escrito pelo colunista do Wall Street Journal, Robert Frank, que o batizou como 'Richistão'.”

"Em 1985, havia nos EUA apenas 13 bilionários. Agora há mais de 1.000. Em 2005, somaram-se 227.000 novos milionários. Um relatório mostrou que a riqueza de todos os milionários norte-americanos juntos chegava a 30 trilhões de dólares, mais do que a soma do PIB da China, Japão, Brasil e a União Européia. Os ricos criaram agora sua própria economia para satisfazer suas necessidades, em uma época em que os aumentos de salário do trabalhador médio só consegue acompanhar a inflação e em que 36 milhões de seres humanos vivem, nos EUA, abaixo da linha de pobreza."

Bem, a minha pergunta é a seguinte: a classe média está sendo afetada como nunca antes, enquanto que o vão que separa ricos e pobres fica cada dia mais largo. Você pensa que estamos nos aproximando de uma fase crítica nesse abismo de desigualdade, ou estou sendo alarmista?


MH: Para que ocorra uma crise, são necessárias pelo menos duas forças ou tendências ferozmente opostas. O problema mais grave do presente dilema norte-americano é que não parece haver nenhuma força que se oponha à polarização financeira. Sem uma contraforça, sem uma oposição à contra-ilustração financeira que estamos assistindo, o horizonte econômico vai continuar encolhendo.

Estamos entrando, com efeito, em uma sociedade de duas economias. O (candidato democrata) John Edwards trouxe à tona o assunto com quase as mesmas palavras que o primeiro ministro britânico Benjamin Disraeli popularizou no final do século XIX. Disraeli criou o Partido Conservador Britânico em sua versão moderna pela via de recrutar o grupo de conservadores que ficou conhecido como a Jovem Inglaterra. Clamavam, em grande medida como os socialistas, contra a injustiça da economia de mercado na forma brutal que ela havia adotado na Grã Bretanha. Seu sonho era tornar a industrialização compatível com uma moralidade mais sensível socialmente. O grande adversário ideológico de Disraeli não foi o socialismo, mas o ideário liberal do livre mercado, que instava as nações a competirem entre si pela via de reduzir os salários (o que agora se conhece como a corrida para o abismo). Sua legislação assistencialista culminou no sistema de saúde introduzido entre 1874 e 1881, promovido com o lema: sanitas sanitatum (saúde, tudo é saúde). Compare ele com os conservadores dos nossos dias!

Em 1845, três anos antes do Manifesto Comunista e da revolução que caiu sobre a Europa em 1848, abordou os horrores de um laissez faire sem freio em um romance, Sybil, ou As Duas Nações. O subtítulo fazia referência aos ricos e aos pobres, duas nações entre as quais não há o menor ensejo de trato nem simpatia, duas nações que não são governadas pelas mesmas leis. Apesar de que Disraeli colocava suas esperanças em uma aristocracia moralmente regenerada, não deixou de atribuir os mais elevados ideais a Sybil, a filha de um operário fabril. E quando o protagonista do romance, Egremont, pergunta pelas condições de vida nas cidades britânicas, um jovem estrangeiro, modestamente vestido de preto, explica que, apesar de que "'os homens são usados uns junto dos outros, nem por isso deixam de continuar estando em situação de virtual isolamento… nas grandes cidades os homens se reúnem movidos pelo desejo de ganhar a vida. Não estão em um estado de cooperação, mas de isolamento, para fazer fortuna… O cristianismo ensina a amar o nosso próximo como a nós mesmos; a sociedade moderna não reconhece próximo algum'. 'Bem; vivemos em tempos estranhos… talvez a sociedade esteja em sua infância', diz Egremont… 'mas, diga você o que quiser, nossa Rainha reina sobre a maior nação que jamais existiu'. 'Que nação?', perguntou o jovem estrangeiro, 'porque ela reina sobre duas nações…

Duas nações entre as quais não há trato nem simpatia; tão ignorante cada uma delas dos hábitos, dos pensamentos e dos sentimentos da outra, como se fossem moradores de zonas diferentes, ou habitantes de planetas diferentes, de pessoas nascidas de linhagens diversas, nutridas com alimentos diferentes, possuindo modos diferentes, e não governadas pelas mesmas leis'. 'Você —disse, vacilante, Egremont— está falando dos ricos e dos pobres'."

Disraeli pintou os interesses financeiros com as cores da vilania (popularizando o mito do banqueiro judeu). Seu grande adversário político, como já foi dito, não foi o socialismo, mas o ideário liberal do livre mercado, que incitava as nações a competirem pela via de baixar os salários. Mas a compaixão econômica do Partido Conservador ficava limitada pelo fato de que era o partido dos latifundiários, principalmente daqueles que na Câmara dos Lordes bloquearam a proposta liberal de fiscalizar a renda da terra, em 1909. A dicotomia não ocorre somente entre uma elite e as massas, ou entre os interesses broquelados e os pisoteados, os cultos e os esfarrapados. É algo muito mais específico.

Essas duas nações, duas cidades, são, realmente, duas economias: a economia 1 (produção e consumo) contra a economia 2 (financeira e baseada na propriedade) que controla o excedente econômico em forma de poupança e investimento. As características diferentes dessas duas economias ultrapassam em muito a mera dimensão econômica. Trago este exemplo para mostrar o que poderia chegar a dar de si um conservadorismo verdadeiramente compassivo. Poderia, quem sabe, constituir um bom marco para que o presidente Obama apresentasse suas políticas de maneira tal que conseguisse atrair o maior apoio possível dos grupos que costumam chamar-se republicanos liberais.

Boa parte da comunidade empresarial poderia subir nesse carro se Obama equilibrar bem o seu programa. De fato, foi um banqueiro britânico conservador, Geoffrey Gardiner, que me chamou a atenção sobre o romance de Disraeli. O Conto das duas cidades, de Charles Dickens, expressava a mesma idéia de cidades divididas entre os ricos ociosos e aqueles que precisavam trabalhar para viver. É difícil imaginar um político escrevendo um romance assim em nossos dias, embora o socialista Michael Harrington tenha popularizado o tema nos anos 1960 com A outra América, e o candidato à vice-presidência democrata, Edwards, fez campanha em 2004 com o tema das duas Américas.

MW: Como podemos reverter esta tendência e pressionar a favor de mudanças que robusteçam a classe média ao mesmo tempo que proporcionam uma rede de segurança para aqueles se caíram devido aos cracks econômicos? Precisamos reconsiderar a forma em que tratamos as pessoas que estão presas a um ciclo demolidor, implacável, de pobreza?

MH: A esquerda costuma centrar-se nas pessoas que caíram devido aos cracks econômicos, os pobres e os sem teto, assim como nas minorias étnicas e raciais. Mas o problema mais grave está no próprio núcleo da economia. Fracassar em sua reestruturação e no controle do setor financeiro trará a exclusão de mais e mais gente do tipo de vida que você chama de classe média.

Quando o Império Romano se polarizou, a economia e seu invólucro político ficaram sem salvação possível. Tudo o que o cristianismo foi capaz de fazer foi proporcionar caridade individualmente. Pôde atuar somente sobre os sintomas, não erradicar as causas. Quando se chega a um ponto em que você só pode atuar sobre pessoas que caíram por causa dos cracks econômicos, o jogo, a longo prazo, está perdido.

O problema é que o sistema econômico como tal está falido. Ou seja, que vamos voltar ao começo desta entrevista: o que vai ser necessário é uma alternativa para a teoria econômica pós-clássica dos Chicago Boys e seus amiguinhos, os lobistas financeiros.

NOTAS

(1) A lei da depletion allowance entrou em vigor em 1913 e permitia que os proprietários de um poço petrolífero tivessem isenção, cada ano, de um 5% do valor do petróleo extraído. A lei foi modificada em 1926, aumentando a isenção para 27,5%. Assim, um proprietário que houvesse investido 100.000 dólares para abrir um poço que extraísse anualmente petróleo por valor de um milhão de dólares, em apenas um ano conseguiria deduções fiscais que praticamente triplicariam o valor do seu investimento inicial.

(2) No léxico da economia financeira, um "esquema Ponzi" é um negócio fraudulento de investimentos consistente em atrair investimentos de dinheiro com promessas de juros muito altos no curto prazo, mas pontualmente cumpridos, o que atrai uma multidão de novos investidores —ou sucessivos reinvestimentos dos antigos—, gerando, assim, um fluxo de dinheiro que permite, durante um tempo, pagar altos juros a curto prazo com o dinheiro que vai entrando em abundância. Charles Ponzi, de quem recebe o nome este truque financeiro, foi um emigrado italiano que se tornou milionário em poucos meses na Boston dos anos 1920 do século passado organizando um negócio fraudulento fundado nesse esquema.

(3) Em alusão a Robert Rubin, o todo-poderoso secretário de economia de Clinton e homem de Wall Street e da banca privada no governo.

Michael Hudson é ex-economista de Wall Street especializado em balança de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles "Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire".

Tradução para www.sinpermiso.info: Ricardo Timón

Tradução para o português: Naila Freitas / Verso Tradutores






JULIO CESAR SCHMITT - 22/07/2008
Concordo em gênero, número e grau. Infelizmente nossas vidas estão na mão de meia dúzias que dominam a economia e a difisão das informações e estes são legitimados por governos e pela classe média ocupada com seus pequenos prazeres "wekeendianos" nos shoppings da vida!!! JULIO CESAR SCHMITT


Marcio Neves - 17/07/2008
Concordo em gênero, número e grau. Infelizmente nossas vidas estão na mão de meia dúzias que dominam a economia e a difisão das informações e estes são legitimados por governos e pela classe média ocupada com seus pequenos prazeres "wekeendianos" nos shoppings da vida!!!

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