Quarta-Feira, 22 de Outubro

 

02/03/2009 - Copyleft

Que desenvolvimento é econômico e social?


Emir Sader
Emir Sader

O Brasil é o país mais desigual do continente mais desigual do mundo. Uma desigualdade que cruzou democracias e ditaduras, expansões e recessões econômicas, mas que encontrou seu ápice quando o desenvolvimento econômico foi substituído, como norte do país, pela estabilização financeira. Nunca tantos foram destituídos de tantos direitos –a começar pelo mais universal e básico dos direitos: o do emprego formal.

No entanto, não bastava manter o desenvolvimento como referência, para que fosse acompanhado de progresso social. Tivemos décadas em que houve acoplamento entre desenvolvimento econômico e extensão dos direitos sociais – como reação à crise de 1930 -, quando nos transformamos de país agrícola em país industrial, de país agrário em país urbano, de economia primário exportadora a país industrializado, com um grande mercado interno de consumo de massas.

A ditadura militar cortou esse ciclo virtuoso, desacoplou desenvolvimento econômico de progresso social. Promoveu um modelo centrado no grande capital internacionalizado e nos investimentos externos, impôs o arrocho salarial e, com ele, bloqueou o poder aquisitivo dos setores populares, destruindo ao mesmo tempo sua capacidade de resistência, pela repressão.

A democracia política não trouxe a democracia social, porque não produziu as reformas que fariam com que o país pudesse superar, em toda sua extensão, a pesada carga herdada da ditadura. Ao contrário. Em pouco tempo se impôs um modelo que favoreceu a maior transferência de renda para os setores já privilegiados da nossa sociedade, substituindo o desenvolvimento pela estabilidade, como se já tivéssemos atingido um patamar aceitável de desenvolvimento. “Virar a página do getulhismo” teve o cruel sentido de expropriar dos trabalhadores o emprego formal e a carteira de trabalho – seus passaportes para a cidadania social.

O que significa hoje desenvolvimento econômico e social? Pode haver desenvolvimento econômico sem desenvolvimento social? A quem favorece, nesse caso?

Desenvolvimento sustentável é somente desenvolvimento econômico compatível com o meio ambiente ou é também desenvolvimento socialmente sustentável?

Como disse Lula no discurso da vitória do segundo turno, “nunca os ricos ganharam tanto e nunca os pobres melhoraram tanto de vida”. Quando chega a crise e parece não mais ser possível compatibilizar a taxas de juros real mais alta do mundo e a distribuição de renda, como definir os rumos futuros do desenvolvimento econômico e social? É compatível a hegemonia do capital financeiro com a construção de um modelo com eixo nas políticas sociais? Como superar a ditadura da economia e dos mercados, para avançar definitivamente na direção de um Brasil para todos?

Que reforma do Estado é necessária para construir uma democracia com alma social e para deixarmos de ser o país mais injusto do mundo?

Um seminário sobre um projeto de desenvolvimento econômico e social discute o cerne das questões que decidirão a fisionomia do Brasil na primeira metade do século XXI.





Jorge Ernesto Couto de Castro - 26/03/2009
Belo esse artigo do Emir Sader, ele consegui resumir decadas da história do Brasil em poucas linhas. Realmente no Brasil, durante muitos anos o Brasil, alternou entre democracia e ditadura, mudou de regime e de governantes, mas em termos econômicos, principalmente de distribuição de renda, e desenvolvimento social, pouco se fez, mas eu tenho esperança, que isso mude, e que o Lula faça essa mudança, um exemplo que eu considero positivo disso é o bolsa moradia.


Anderson Luiz - 14/03/2009
Sem palavras para descrever o artigo... e com certeza vai se tornar referência em meu trabalho de conclusão de curso de Geografia, pois nele abordo a questão do Desenvolvimento Econômico da periferia do mundo no atual século. Leitura obrigatória para todos que no mínimo querem ter alguma posição acerca do mundo exclusório em que vivemos, no qual o material substitui o humano, onde o ter é mais importante do que ser. Palmas!!


roberto bohm - 07/03/2009
Caro Emir Sader despiciendo dizer que concordo inteiramente com tua analise. Neste sentido, e apenas como lembrete da correção das tuas palavras, o nosso grande sambista Arlindo Cruz diz na letra do "Sambista Perfeito", mais ou menos assim..."vivendo a vida aventureira e no bolso a carteira de trabalhador",como que a dizer, sou boêmio, gosto da noite, mas sou pricipalmente trabalhador , honesto e provo esta condição com a carteira do trabalho. Entretanto esta corja que vocês, mesmo não sendo integrantes do PIG, bondosamente chamam de elite , busca impiedosa, incessante e burramente acabar com este direito, tão singelo e tão mínimo. Um grande abraço.


Pablo Guenther Soares - 03/03/2009
Respondendo à pergunta do penúltimo parágrafo: REFORMA AGRÁRIA. É o que pode prontamente gerar empregos e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência externa para os gêneros básicos (comentei isso no artigo de Maria da Conceição Tavares). As outras bonanças vêm a reboque, acredito eu. Quero saber quem se propõe, em 2010, a enfrentar o latifúndio e as multinacionais !


Rubens Cardoso - 03/03/2009
A crise global serviu para deixar claro vários problemas que sempre existiram nos Estados Unidos, país que foi cantado em prosa e verso, pelos neolibrais brasileitros, como o exemplo a ser seguido. Hoje sabemos que eles tem sérios problemas sociais, apesar do poderio econômico. Não podemos seguir esse caminho, precisamos de um desenvolvimento que seja acompanhado de forte crescimento social, apesar da gritaria que isso pode causar na imprensa brasileira, que considera os investimentos sociais, despesas desnecessárias.


ronan wittee - 02/03/2009
Não há desenvolvimento social quando o Estado se resume a patrocinar bancos,regulamentar a mais abjeta agiotagem em nome de um progresso restrito e fadado ao fracasso.

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