Sábado, 25 de Outubro

16/05/2007 - Copyleft

Governo estuda facilitar transferência de alunos do ensino privado para o público


Rafael Sampaio – Carta Maior
Unicamp

SÃO PAULO – A segunda parte da entrevista concedida por José Aristodemo Pinotti, secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo, avalia os principais projetos de médio prazo do governo estadual para o ensino superior paulista.

Pinotti, que foi reitor da Unicamp entre 1982 e 1986, crê que o número de vagas ociosas nas universidades paulistas, públicas ou privadas, é muito alto. “Se houver um sistema comum de créditos [horas gastas com aula nas universidades], talvez seja possível diminuir a evasão através de transferências facilitadas aos estudantes dos dois tipos de universidade”, aponta como uma possível solução.

O secretário, que também é professor titular de Medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de São Paulo (USP), levanta outra questão sobre as universidades: a falta de acesso do estudante do ensino médio público. “Do lado das instituições públicas, existe a barreira do vestibular. Já nas universidades particulares, existe a inadimplência”, lembra Pinotti. Ele sublinha que é preciso aumentar as vagas oferecidas em cursinhos gratuitos e populares nas universidades, “para tentar melhorar as chances dos alunos da rede pública terem um bom desempenho no vestibular”.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Carta Maior - O senhor afirma que a Secretaria de Ensino Superior pretende melhorar e integrar a educação neste setor. Que medidas têm sido tomadas neste sentido?
José Aristodemo Pinotti - Não há pressão sendo feita nas universidades públicas para que elas aumentem as vagas. O processo [de expansão de vagas] vai continuar dentro daquele projeto bem-feito, que é o do Plano Diretor das Universidades Públicas Paulistas [elaborado em 2005]. Nós, do governo, queremos a ajuda do ensino superior público para questões da vivência do Estado. Tudo bem que a principal função das universidades seja ensinar e pesquisar, e que sua força resida na pesquisa básica, para formar bons profissionais. Mas isso não impede que a universidade seja crítica das políticas públicas de educação, de moradia, de saúde, e que ajudem o país e o estado no desenvolvimento econômico.
Digo não só com relação às universidades públicas, mas também quanto às privadas. Elas reúnem cerca de 80% das vagas oferecidas em São Paulo, e há uma diferença de qualidade, com algumas instituições melhores e outras piores. Mas todas têm um papel essencial.
O que nós queremos com a secretaria é manter e melhorar a qualidade das universidades de São Paulo. Se eu pudesse ter metas de qualidade, gostaria que as instituições públicas paulistas estivessem nas cem melhores do mundo, segundo a revista britânica Times.

CM Mas em quê exatamente as universidades deveriam atuar? O que o senhor pensa sobre integrar o ensino superior público e o privado?
Pinotti – Não vamos forçar a integração, mas eu veria com bons olhos se as universidades públicas pudessem colaborar com a melhoria das universidades privadas que tem qualidade deficitária. Há assuntos muito importantes que merecem a atenção da Secretaria de Ensino Superior. Um deles é a falta de acesso do estudante vindo do ensino médio público. Do lado das universidades públicas, existe a barreira do vestibular. Já nas particulares, existe a barreira da inadimplência. Então queremos aumentar de maneira significativa as vagas oferecidas em cursinhos gratuitos e populares nas universidades, para tentar melhorar as chances dos alunos da rede pública terem um bom desempenho no vestibular.
Porém, mesmo que o número de alunos de escolas públicas nas universidades estaduais dobre, nós temos que tomar outras medidas. Existem apenas 19 mil vagas oferecidas, para 400 mil alunos formados no ensino médio.
Já está adiantado um sistema estadual público de ensino à distância [com as universidades], que permitiria aumentar o número de vagas no ensino superior e fazer com que alunos que trabalham possam vir a estudar. O ensino à distância vai diminuir o ônus do transporte, e também vai dar ensino de boa qualidade em algumas profissões.
Além disso, as universidades públicas podem ajudar o governo a melhorar o ensino básico. Um plano que já começou é o de colocar um segundo professor nas aulas de alfabetização. Fizemos um projeto piloto na Secretaria Municipal de Educação, quando eu trabalhei nela, e os resultados foram bons. Então implantamos o projeto na Secretaria Estadual de Educação. Dentre os universitários que completam metade do curso, há uma seleção e o oferecimento de bolsas, para que eles colaborem com o ensino básico. Temos cinco mil candidatos para duas mil vagas. Mil deles foram selecionados para o programa.
Trata-se de uma integração interessante, que serve para os dois lados: o estudante no programa de segundo professor faz um estágio na rede básica, e recebe bolsa-auxílio para pagar os estudos, se estiver em uma universidade privada. Ele também ajuda na alfabetização das crianças.

CM Como a Secretaria de Ensino Superior avalia as medidas do processo de Bolonha? O que o senhor acha do projeto Universidade Nova, que tem inspiração no processo de Bolonha e foi proposto pelo reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)?
Pinotti - São duas coisas um pouco diferentes. No sentido mais amplo do termo, o processo de Bolonha é adotar uma linguagem comum entre todas as universidades em termos de creditação [cada crédito corresponde a uma hora de aula nas universidades públicas].
Esta linguagem comum pode permitir uma troca de alunos entre as instituições de ensino superior de acordo com determinados critérios. Na Europa há certas vantagens, mas ainda assim é um processo lento, que não está totalmente implantado. É interessante estudar o processo de Bolonha pra aproveitar algumas coisas boas dele, essencialmente a chance que o estudante pode ter de mudar de uma universidade para outra.
Uma das coisas que nos preocupa demais em São Paulo é o número de vagas ociosas. Você tem uma evasão nas privadas de 25% ao ano, que é brutal, e nas públicas uma evasão de 7% ao ano, que se considerarmos as características das públicas é uma evasão preocupante.
Então se você tiver um sistema comum de créditos, talvez seja possível diminuir a evasão através de transferências facilitadas entre os estudantes dos dois tipos de universidade.
Quanto à pergunta do que está sendo feito na Bahia, a questão não deve ser exatamente esta. Lá, eles querem dotar os cursos de uma fase inicial, comum a todos, que tenha um grande conteúdo humanístico, para que depois o aluno mais amadurecido possa escolher melhor a sua profissão e caminhar nela.
Eu vejo com bons olhos esta união entre humanismo e profissionalismo. Mas é preciso que a gente analise com cuidado isso, porque existe uma outra questão: a empregabilidade, a necessidade dos estudantes de trabalhar, num cenário de pobreza generalizada e que exige a profissionalização mais precoce.
É preciso estudar estes dois lados. Eu acho perfeitamente possível compatibilizar uma coisa com outra. Uma das coisas que me entusiasma, por exemplo, é a profissionalização do ensino médio, sem que isso interrompa a carreira acadêmica do cidadão que quer continuar a estudar.

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Créditos da foto: Unicamp



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