Quarta-Feira, 26 de Julho

13/04/2017 16:00 - Copyleft

A ascensão de Mélenchon e o espectro do comunismo

A mídia, o patronato, os políticos e até François Hollande tentam despertar o medo invocando Putin, Chavez e Fidel Castro contra o esquerdista Mélenchon


Leneide Duarte-Plon, de Paris*
Agência Efe

Parafraseando Marx no primeiro parágrafo do Manifesto comunista, eu poderia dizer : "O espectro do comunismo aterroriza a França. Todos os poderes desse velho país se uniram para perseguir esse espectro".
 
Marx começa o "Manifesto comunista" com a fórmula choque: "Um espectro aterroriza a Europa : o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram em uma Santa Aliança para perseguir este espectro : o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha".
 
Pois o velho Marx continua a ter razão na França de 2017.
 
O grande entusiasmo dos últimos dias em torno da candidatura de Jean-Luc Mélenchon, candidato de "La France Insoumise" (A França Insubmissa), cujos comícios reúnem em espaços abertos em Paris ou Marselha mais de 60 mil pessoas, já começou a despertar um adormecido anti-comunismo. As forças de direita pensavam provavelmente que as ideias de igualdade do comunismo estavam varridas para sempre do continente. Esqueciam que "égalité" faz parte da divisa da França.
 
Mísseis de Dassault contra Mélenchon
Ora, no discurso em Marselha, no domingo, o homem que quer dirigir o país que mais vende armas depois dos EUA e da Rússia ousou dizer : "Eu não quero guerra, nem pequena, nem média, nem grande".
 
O maior fabricante de armas de guerra francês não gostou. Dono do jornal de direita "Le Figaro", Serge Dassault reagiu. Seu jornal deu como manchete de primeira página nesta quarta-feira : "O delirante projeto do Chavez francês". Dentro, o jornal tentava em três páginas estraçalhar o programa do ousado propagador da paz.
 
Em Marselha, diante do Mediterrâneo, onde milhares de migrantes encontraram a morte nos últimos anos, tentando fugir de guerras feitas pelos ocidentais, segurando um ramo de oliveira Mélenchon ousou pedir um minuto de silêncio pelos migrantes mortos naquelas águas.
 
Nessa campanha nenhum outro político soube como ele unir o sentimento de fraternidade ao de igualdade, o leitmotiv de seu programa.
 
Fora da OTAN
Mas com a dinâmica ascendente da campanha de Mélenchon, a grande mídia, o patronato, os políticos e até François Hollande se apressaram em tentar despertar medo nos franceses invocando as simpatias de Mélenchon por Putin, Chavez e Fidel Castro.
 
No "L’Humanité" (jornal comunista) desta quinta-feira, 13 de abril, a manchete da capa dava o tom : "A cota de Jean-Luc Mélenchon aterroriza os poderosos". Dentro, o jornal reproduzia manchetes que revelam o medo de um candidato que pode ameaçar o "status quo" do capitalismo francês.  
 
Nos últimos anos, a imprensa francesa vem passando às mãos de grandes bilionários como Serge Dassault, Bernard Arnault, Patrick Drahi, Vincent Bolloré, Arnaut Lagardère, donos de empresas de luxo, de conglomerados da indústria de construção ou fabricantes de armas, como Dassault e Lagardère.
 
"Eles compram jornais, revistas e canais de televisão para defender seus próprios interesses, para influência. Eles têm interesses importantes a defender e pesando na imprensa podem neutralizar alguns políticos, graças à presença na mídia", explicou Edwy Plenel em entrevista que fiz para Carta Capital.
 
Esse medo crescente do que "Libération" chamou de "uma esquerda quimicamente pura" vem se revelando nos discursos dos outros candidatos. Mélenchon começou a virar vidraça. Como ele não tem escândalos, é atacado na ideologia que ainda faz medo a muitos eleitores de direita.
 
O candidato da direita, François Fillon, preocupado antes apenas com os dois candidatos que se posicionam à sua frente (Emmanuel Macron e Marine Le Pen) passou a atacar o "projeto comunista" de Mélenchon. "Esquecemos que Mélenchon é um extremista, anti-imperialista, anticapitalista e anti-americano", disse num comício, alertando para o demônio comunista que os franceses têm diante deles.
 
Bem-humorado, Mélenchon reage em seu blog :
 
"Anunciam minha possível vitória como a chegada do inverno nuclear, com chuvas de rãs, tanques do Exército vermelho e o desembarque de venezuelanos".
 
Ora, o único candidato que quer mudar as estruturas do país no sentido do progresso social é Mélenchon, candidato da France Insoumise que ele criou, associando-se ao enfraquecido Parti Communiste. Ele propõe uma nova Constituição, com uma Constituinte imediata, possibilidade de revocação de mandatos pelo próprio povo, inclusive o do presidente, renegociação dos tratados europeus e em caso de fracasso a retirada da França da Europa e do euro, o que ele chama de plano B.
 
Como fez De Gaulle, Mélenchon quer deixar a Otan. No plano econômico, quer mais investimento no setor público e promete mais rigor no controle da fraude fiscal e da evasão de capitais para paraísos fiscais, entre outras medidas.
 
O outro candidato de esquerda, o socialista Benoît Hamon, vem realizando uma maratona que mais parece salto de obstáculos. Literalmente abandonado pelo Partido Socialista, cuja eleição primária venceu, Hamon não pára de cair nas pesquisas.
 
E Mélenchon continua crescendo. Ele é o candidato mais bem cotado no eleitorado entre 18 e 24 anos. E passou a ocupar o terceiro lugar na disputa, emparelhado ou ultrapassando por pouco François Fillon.
 
Em Marselha
No domingo, dia 8, em Marselha, o candidato da França Insubmissa levou 60 mil pessoas ao Vieux Port sob um sol primaveril. E seu talento de tribuno, sua cultura e seu entusiasmo fizeram o resto. Com um discurso que impressiona pelo lirismo e pelo conteúdo ideológico claro, o erudito professor de francês Jean-Luc Mélenchon pode ainda ser a surpresa dessa eleição presidencial mais atípica da história francesa.
 
As pesquisas de opinião mostraram que ele foi o candidato que mais impressionou nos dois debates televisivos. O primeiro, dia 20 de março, reuniu apenas os cinco primeiros colocados nas pesquisas e do segundo,  dia 4 de abril, participaram os 11 candidatos.
 
A progressão de Mélenchon nas pesquisas é constante. Se continuar a crescer, pode causar a surpresa de tirar um dos dois candidatos tidos como quase certos no primeiro turno : Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Seus eleitores torcem por isso e continuam acreditando que é possível.
 
* Leneide Duarte-Plon é autora de "A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado" (Editora Civilização Brasileira, 2016)".



Créditos da foto: Agência Efe



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