Terça-Feira, 29 de Julho

21/02/2012 - Copyleft

Anonymous e a guerra de informação digital

Um católico que, em 1605, quase conseguiu fazer voar pelos ares o Parlamento inglês, com James I dentro, é o rosto oficial de uma nova revolta ocidental.


Eduardo Febbro - De Paris
Eduardo Febbro - De Paris

Paris - Guy Fawkes nunca pensou que sobreviveria a tantos séculos, e menos ainda que, mais de quatrocentos anos depois de suas andanças, a máscara que o representa se converteria em pleno século XXI no emblema daqueles que – desde os indignados até os guerreiros digitais do Anonymous, passando por toda a galáxia dos grupos antiglobalização – se opõem ferreamente à ordem de um mundo ultraliberal, depredador e indolente.

Este católico que, no dia 5 de novembro de 1605, quase conseguiu fazer voar pelos ares o Parlamento inglês com 30 quilos de pólvora, com o rei James I dentro, é o rosto oficial da revolta ocidental e, mais precisamente, o distintivo com o qual o grupo de hackers reunido sob a denominação de “Anonymous” se apresenta ao mundo. Suas ações já são parte da resistência permanente contra toda forma de violação de liberdade segundo os critérios com os quais Anonymous a entende.

Presente há vários anos na cena do hacking contestatório, Anonymous ganhou fama quando, em 2010, em plena ofensiva oficial contra o fundador do Wikileaks, Julian Assange, o grupo atacou as empresas multinacionais que tinham se somado ao boicote instrumentalizado pelo governo dos EUA contra todas as fontes de financiamento do Wikileaks: os portais de Amazon, PayPal, Visa, MasterCard e Postfinance, a filial dos serviços financeiros dos correios suíços, foram bloqueados pela operação Payback montada por Anonymous contra essas empresas que, sem ter nenhuma ordem judicial, trataram de impedir que o dinheiro chegasse a Wikileaks.

Era a primeira vez na história que se realizava uma ofensiva dessa magnitude não mais em nome do ciberanarquismo, mas sim em defesa de certa forma de liberdade.

Quem são e de onde vem esses valentes que ousaram penetrar as portas mais protegidas para ferir o coração do sistema? Frédéric Bardeau e Nicoals Danet, os autores de um destacado ensaio sobre Anonymous (“Anonymous: piratas informáticos ou altermundistas digitais?’), descrevem a influência desta galáxia sem hierarquia nem manual de instruções como “um movimento que modifica a relação de formas no interior da sociedade”.

De ação em ação, Anonymous instalou-se na paisagem política mundial e excedeu em muito a herança de seus pais culturais, a saber, toda a cultura contestatória norteamericana dos anos 70 perfeitamente representada por Stephen Wozniak, co-fundador da Apple, e Richard Stallman, o iniciador do projeto GNU.

Anonymous se plasmou em quatro operações muito ousadas. A primeira: os ataques contra a igreja da Cientologia, em 2008. A segunda: a ciberofensiva contra o escritório de advocacia Baylout, defensores dos direitos autorais da indústria do disco e do cinema nos Estados Unidos, e contra o portal da Motion Picture Association of America (MPAA), associação que o Anonymous persegue por suas “políticas excessivas” na proteção dos direitos autorais. Terceira: a intervenção a favor de Assange no que ficou conhecido como o primeiro episódio de uma autêntica guerra da rede. Coldblood, um dos porta-vozes do Anonymous, explicou então que a operação em defesa de Assange estava se convertendo em uma guerra, mas não uma guerra convencional. “É uma guerra de informação digital. Queremos que a internet siga sendo livre e aberta para todo mundo, como sempre foi”. O quarto episódio remonta ao dia 19 de janeiro, logo após o fechamento do site Megaupload e a prisão de seu criador, o multimilionário Kim Schmitz. Lançados dos quatro pontos cardeais do planeta, os ataques orquestrados por Anonymous bloquearam os portais do Ministério da Justiça dos EUA, da Casa Branca, da Warner, da Universal, do FBI, do organismo que supervisiona a internet na França, Hadopi, e a estrutura que administra os direitos de autor, a Sacem. Anonymous conseguiu inclusive penetrar no portal da presidência francesa e modificar as mensagens de boas vindas.

A quinta e última ação ocorreu há apenas alguns dias. Um grupo que se identificou como Anonymous divulgou a gravação de uma “reunião” telefônica entre o FBI e a polícia britânica, na qual se falava de ações contra os ciberativistas. Onde estão para conseguirem se meter nestas conversas tão íntimas? “Em todas as partes”, respondem Frédéric Bardeau e Nicolas Danet, os autores do ensaio sobre Anonymous. Estes dois especialistas observam que os Anonymous não são piratas propriamente, pois não roubam nada. Tampouco são “terroristas”, mas “um fenômeno muito mais vago cujo único fio condutor é a defesa da liberdade de expressão”. Bardeau e Nadet contam que, em certo momento, “a CIA tentou realizar um perfil dos simpatizantes de Anonymous: era tão indefinido que terminava apontando para a metade do planeta”.

Seu lema tornou-se realidade: “somos legião”. Neste sentido, Frédéric Bardeau destaca que os Anonymous não se enquadram em nenhum rótulo. “Não são nem anarquistas, nem sindicalistas revolucionários, nem marxistas. É um movimento pós-moderno, anônimo, planetário, descentralizado. Entre os Anonymous do Brasil, muito fortes e mobilizados contra a corrupção, e os da Áustria e Alemanha, todos antifascistas, não há unidade, mas sim denominadores comuns como a liberdade e a neutralidade da rede”. Diferentemente dos indignados ou de outros movimentos antiglobalização, Anonymous atua a partir do anonimato: não há partido político, nem fórum, nem cúpula, nem manifestação. Sua identidade física é a máscara de um militante católico britânico do século XVI e seus territórios são estes: irc.anonops.li, twitter@AnonOps, @AnonymousIRC, Facebook Anonymous, AnonOps.blogspot.com.

A origem do nome provém dos fóruns anárquicos 4chan (*). Neste portal norteamericano é fácil inscrever-se e cada participante recebe o pseudônimo de “Anonymous”. Estão em muitos lugares ao mesmo tempo, alguns são hackers aficionados, outros não, universitários, empregados, militantes de uma ou de muitas causas. Anonymous realiza a sua maneira o desejo não confesso de muitos cidadãos do planeta: colocar uma pedra na engrenagem da perfeição ultraliberal, abrir a cortina de sociedades ultrapoliciais que só protegem os interesses do poder. Nicolas Danet comenta que “Anonymous é um pouco como o voo dos pássaros migrantes. Formam uma massa que conhece o objetivo, mas um pássaro pode deixar o grupo a qualquer momento”. Os vídeos de Anonymous já são famosos, tanto pelo conteúdo como pela voz metálica que anuncia: “Somos legião. Não perdoaremos, não esqueceremos. Nos aguardem”.

(*) 4chan é um imageboard em inglês. Lançado em 1° de Outubro de 2003, seus sub-fóruns eram originalmente usados para postagem de imagens e discussão sobre mangás e animes. Os usuários geralmente postam anonimamente e o site já foi relacionado com subculturas da Internet e ativismo (Wikipédia)

Tradução: Katarina Peixoto





Helena Alves - 25/02/2012
O que se passa é que toda esta recente campanha de ataques informáticos é uma enorme mentira. Tratando-se, na verdade, de ataques feitos com a cumplicidade das próprias entidades supostamente afectadas. O objectivo de toda esta campanha – por trás da qual estão os próprios governos-fantoche dos grandes interesses económicos e os mencionados altos executivos das empresas – é espalhar a ideia de insegurança na Internet, para, deste modo, criar um pretexto para controlar, limitar ou mesmo acabar com o acesso a grande parte da mesma. Reparem na coincidência de ocorrências… Ataques misteriosos de uma “Anonymous”, “LulSec” etc, por um lado… SOPA, PIPA, encerramento do Megaupload.com e outras coisas, por outro… A Internet, pelo menos tal como a conhecemos, tem os seus dias contados. Pois há quem a saiba utilizar bem para se informar sobre o que é realmente importante e para partilhar essa mesma informação que certos interesses não querem que se saiba. Leiam estes comentários aqui e depois reflictam o que são os "anonymous"... ou para quem trabalham, ou ainda se estão conscientes daquilo que estão a fazer.


Caio Costa - 25/02/2012
Anonimous, não custa nada pesquisar: evitar passar vergonha e falar besteira na internet. http://pt.wikipedia.org/wiki/Guy_Fawkes


Mirse Maria de Souza Albuquerque - 24/02/2012
Pelo que li, tudo isto é para a proyeção dos direitos autorais em downloads etc... Este ano, o domínio GOOGLE, apagou todas as minhas poesias do blog que mantenho há anos. Todas as poesias estavam com os créditos do direito autoral a mim concedido. Como fica? Quem pode punir?


Anonymous - 24/02/2012
A meses a guerra contra o sistema foi declarada... Nós Somos Anonymous, Somos uma Legião, Não Perdoamos, Não esquecemos, Espere por Nós!!


Luciene Malta - 23/02/2012
As ações do Anonymous são respaldadas no direito livre a informação, que deveria permear as redes de informação tecnológica. A quem interessa rechaçar esse movimento? Os grandes "feudos" controladores da comunicação.


Anonimo, claro - 23/02/2012
Os grandes ataques são apenas de DoS (Denial of Service). Scriptkiddies sem noção, jamais vão abalar qualquer coisa no sistema.


Anonymous - 23/02/2012
Nós somos Anonymous Somos legião Não perdoamos Não esquecemos Aguardem-nos! anonbrasil.org


Anonimous - 23/02/2012
Alan Moore!! Essa é a grande origem da máscara usada pelo grupo. Faltou um pouco de empenho para ir a fundo a reportagem e sair da superficialidade. Toda a mitologia do grupo vem da História em Quadrinhos "V de Vendeta" escrita por Alan Moore que descreve um antiherói que usa essa máscara e para vencer consegue realizar uma revolução na qual todas as pessoas são levadas a utilizar a máscara. Recomendo ao autor do texto ler essa HQ ou assistir ao filme V de Vingança. Estes sim são referência para a construção deste grupo.


Guy Fawkes - 23/02/2012
É impossível "fazer parte" dos anonymous, ao meu ver. É possível apenas tomar atitudes compatíveis aos ideais de liberdade. Na internet, isso automaticamente toma a face de "anonymous", quer dizer, qualquer pessoa assume essa identidade(ou melhor, essa não-identidade) e o ideal cresce como se fosse uma organização.


Marcia - 23/02/2012
Gostaria de ler o ensaio de Frédéric Bardeau e Nicoals Danet ¿Anonymous: piratas informáticos ou altermundistas digitais?". Onde posso encontrar??


Guilherme - 22/02/2012
Lembrem-se que nós do Anonymous, ou por ser abrangente, muitos do Anonymous são incondicionalmente a favor da democracia participativa. Queremos decidir o rumo do nosso país e vemos a humanidade como um conjunto, como um todo e não esse nacionalismo "tosco" que incita guerras. E Fascismo fede.


Maria - 22/02/2012
O Anonymous é fruto da realidade virtual, numa versão contemporânea ou é apenas imitação de uma personagem? Qual o efeito da sua existência além da relatada no texto? De qual forma conhecê-los melhor, antes de ter contato com ele?


Dorival Peçanha - 22/02/2012
Só faltou dar crédito para Alan Moore e David Lloyd pela popularização da imagem da máscara de Guy Fawkes, e não por causa do razoável filme de 2005, mas sim pela magistral Graphic Novel de 1988 a qual recomendo a leitura para todos os interessados.


renato machado - 22/02/2012
Estamos vendo surgir novas e formidáveis formas de lutas e de resistência , buscando garantir direitos planetários. Não nos enganemos , eles sabem muito bem o que estão fazendo e conhecem muito bem como quem estão lidando. As tiranias do poder e da riqueza estão cada vez mais assustadas e começam a ter medo da ira dos povos , porque sabem muito bem que isto é apenas o início.


Célio Roberto de Oliveira - 06/05/2012
Os poderosos estão se sentindo ameaçados com a possibilidade de seres conscientes se organizarem, mundialmente, através da Net. A liberdade nesse veículo de comunicação está deveras ameaçado! Acordem, mobilizem-se, não fiquem "com a boca escancarada esperando a morte chegar"!!!

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