Quinta-Feira, 02 de Outubro

26/12/2011 - Copyleft

Brasil, a esperança para imigrantes ilegais haitianos


Najla Passos
Najla Passos

BRASÍLIA - Brasileia é uma pequena cidade de 20 mil habitantes cravada no sul do Acre, na fronteira com a Bolívia. É bem provável que a imensa maioria dos brasileiros jamais tenha ouvido falar dela. Fora das fronteiras locais, porém, o município faz sucesso. A cidade é a porta de entrada no Brasil de uma rota de imigração ilegal de haitianos para o país.

Hoje, a cidade hospeda 810 haitianos. Uma população que, fugida de um dos lugares mais pobres do mundo, e onde o Brasil é uma referência por comandar tropas de paz das Nações Unidas, sonha com a cidadania brasileira, que lhes daria o direito de trabalhar, de estudar, de usufruir o Sistema Único de Saúde (SUS), enfim, de viver legalmente no país.

O Brasil, porém, não possui um tratado internacional que exima os haitianos de visto de permanência. Eles também não podem ser enquadrados no conceito de “refugiado”, definido pela Convenção de Genebra, que considera como tal toda pessoa obrigada a sair de seu país, sozinha ou em grupo, devido a perseguições de caráter político, racial, de gênero ou religioso.

O combustível da fuga é a miséria. E, quando cruzam a fronteira da Bolívia o Brasil, os haitianos assumem a condição de imigrantes ilegais. Uma situação que também causa problemas para autoridades públicas brasileiras.

Em Brasiléia, 600 haitianos estão hospedados em um hotel do município com despesas pagas pelo governo do Acre. Recebem duas refeições diárias, além de café da manhã. Tudo isso significa um gasto mensal de R$ 1 milhão para os cofres de um dos estados mais pobres do país.

E este não é, nem de longe, o maior problema. “O hotel em que eles estão alojados tem capacidade para 80 pessoas e estão vivendo 800. Não há como cozinhar para tanta gente, os banheiros não comportam. Daqui a pouco, a epidemia de cólera que assola o Haiti chegará até lá”, afirma o senador acreano Aníbal Diniz (PT).

Entre os hóspedes, há 17 mulheres grávidas e crianças em idade escolar. Em Brasiléia, os sistemas públicos de educação e saúde não têm como atender tanta gente. Para conseguir documentos como CPF (Cadastro de Pessoa Física) e carteira de trabalho, precisam esperar cerca de um mês. E as perspectivas são de que o número de haitianos no município aumente cada vez mais.

Informações da Agência Brasileira de Informação (ABIN) e da Polícia Federal (PF) revelam que há 50 haitianos do lado boliviano da fronteira aguardando uma oportunidade para entrar no país. E outros que 200 já deixaram Porto Príncipe, a capital devastada do Haiti, em direção ao Brasil.

A rota identificada pelas autoridades brasileiras mostra que, do Haiti, os imigrantes ilegais seguem para a República Dominicana, que divide a Ilha de São Domingos com o Haiti. De lá, os imigrantes vão para Equador, Peru e Bolívia, até chegar ao Acre. É operada por pessoas conhecidas como “coiotes”, participantes de uma quadrilha que os serviços policias e de inteligência do Brasil tentam desbaratar.

Na cidade amazonense de Tabatinga, tríplice fronteira com Peru e Colômbia, os haitianos também chegam em grandes grupos. Lá, não é o governo do estado que acolhe os imigrantes, mas a sociedade civil organizada, principalmente por meio do trabalho da Pastoral do Migrante, da Igreja Católica.

Levantamento feito pelas Nações Unidas aponta que, atualmente, 1,1 mil haitianos estão na cidade. Em 2010, a Polícia Federal recebeu 476 solicitações de refúgio. Em 2011, foram 1075. Todas elas foram negadas, mas os pleiteadores conseguiram um visto humanitário. Muitos se deslocaram para Manaus, em busca de emprego.

É justamente na capital do Amazonas que se concentra o maior número de haitianos: 3,2 mil, a maioria mantida também pelas igrejas e comerciantes locais. Também há haitianos vivendo em Rio Branco (AC), Porto Velho (RO) e São Paulo (SP). Em todo o país, 3.274 já requereram visto de permanência e 1,3 mil receberam.

Calamidade pública
A pobreza e a miséria que, historicamente, colocam o Haiti no último lugar do ranking de desenvolvimento da América Latina e Caribe dificultam a reconstrução do país, após o terremoto de 2010, que afetou a vida de 3 milhões de haitianos e matou, de imediato, 222 mil pessoas.

“O terremoto foi terrível, mas o país já era miserável antes dele. Outros países que passam por catástrofes naturais, como Chile, conseguem se recuperar. Mas o Haiti, não”, justifica o representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Andrés Ramirez.

Segundo ele, hoje, passados quase dois anos, o Haiti continua sofrendo os efeitos da catástrofe. “Cerca de 300 mil casas foram destruídas. Mais de um milhão de pessoas continuam vivendo em acampamentos, em condições muito precárias. Por isso, o surto de cólera no país”, afirma.

Além disso, a violência vitima, principalmente, as mulheres. “A incidência de gravidez nos acampamentos aumentou de 4% para 12%, principalmente devido aos estupros que ocorrem durante à noite, em função das deficiências de iluminação”, denuncia.

Andrés Rmirez relata que a violência sexual e de gênero tem justificado, inclusive, que outros países aceitem receber os haitianos como refugiados. “Os números são modestos, mas já há 57 na Argentina, 146 no Peru e um no Chile”.

É neste contexto que os haitianos decidem deixar o país. As famílias mais abastados se organizam e enviam alguns membros pra os Estados Unidos. As de menor poder aquisitivo, agora, têm a alternativa de tentar o Brasil, que exige menos recursos e é mais seguro. Nos Estados Unidos, se descobertos, os ilegais são deportados para seus países de origem.

“A maior parte dos imigrantes ilegais haitianos é muito bem qualificada, justamente para conseguir emprego e ajudar a sustentar os que ficaram no Haiti”, diz o presidente do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), Luiz Paulo Teles Barreto, também secretário-executivo do Ministério de Justiça.

O Brasil é ume referência também por liderar, desde 2004, as forças de paz das Nações Unidas que atuam no Haiti. O ministério da Defesa diz que as tropas brasileiras vão deixar aquele país a partir de março de 2012.





Chauke Stephan Filho - 28/12/2011
Trazer haitianos para o Brasil? Que ideia brilhante!


Janes Rodriguez - 28/12/2011
Falta dizer que os estados unidos, que exploram comercialmente o Haiti tanto na devastação da autonomia haitiana na produção de arroz quanto a industria do turismo, não se responsabiliza pelo caos que ajudou a produzir. Creio que os haitianos devem ser tratados como problemas dos países que os colonizaram e exploraram: França, Estados Unidos. Clinton esteve no Haiti para cuidar dos interesses das empresas que exploram o turismo na ilha em local que ficou lon ge dos terremotos. Eles exploram obtém lucros e nós ficamos com os problemas? Sinto muito, antes de assumir esse ônus, o governo brasileiro deve tratar o Haiti como problema francês e estadunidense. Quem comeu a carne que roa os ossos.


Vinicius Zucatti - 27/12/2011
Sejam super bem-vindos, que esse papo de fronteira não ta com nada.


Ricardo - 26/12/2011
Claro que devemos nos solidarizar com nossos irmãos da América Latina. Haiti foi a primeira colônia a se emancipar e por isso foi violentamente massacrada, a França deveria recompensar o Haiti por sua dívida histórica, todavia sabemos como é o comportamento dos europeus, desgraçaram e roubaram a América Latina e não fazem questão de arcar com o peso que carregam por séculos de saque. Enquanto brasileiros devemos nos engajar no internacionalismo e nos comprometer com a humanidade. O Brasil tem condições sim de ajudar a recuperar vidas haitianas.


Dárcio - 26/12/2011
As tropas brasileiras fazem um tipo de propaganda enganosa por lá


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 26/12/2011
É lamentável que ,passados os primeiros momentos da comoção internacional com a catástrofe hatiana, o povo deste país extremamente peculiar da América Latina, pertencente a uma nação surgida de uma gloriosa luta, travada simultaneamente contra o colonialismo escravocrata francês e a favor da indepêncdencia nacional,se encontre no momento entregue à própria sorte.O que ocorre no Haiti deveria dizer respeito a todos os latino-americanos, estabelecendo um novo paradigma de assistência e ajuda mútua,com o próposito de não apenas reconstruir este país-irmão ,mas igualmente constituir e fortalecer o sentimento de unidade indispensável ao projeto de edificação da Celac.Tomar ciência de que escassa mão-de-obra qualificada haitiana está buscando abandonar o país é motivo de maior preocupação ainda.É necessário que a cúpula da Celac considere de forma mais efetiva a situação do Haiti.No ano da tragédia haitiana,em meio à grande movimentação de ONGs e aos apelos das organizações humanitaristas-ao mesmo tempo que os EUA vislumbravam a oportunidade de converter o Haiti em mais uma base militarlligada aos seus desígnios belicistas-imperialistas- sugeri em algum lugar que seria interessante que ,ao projeto de reconstrução do Haiti então cogitado,se incorporasse a implantação de uma irmã gêmea da Universidade Latino-Americana em terras haitianas,com a diferença que a sua composição discente deveria ter 50% de estudntes haitianos e 50% de outros países da America Latina,sendo o seu corpo doscente formado,em um primeiro momento,por profesores visitantes de todos os 33 países da Celac.Creio que esta ainda seria uma iniciativa emblemática para dar início não somente ao reerguimento do Haiti,mas também para qualificá-lo a se integrar de forma simétrica na unidade latino-americana com a qual sonhamos. Por outro lado deveríamos ,em vez de estar preocupados em reprimir o ingresso de haitianos no Brasil, oferecer o maior número possível de vagas em nossas universidades,institutos federais e escolas agrotécnicas, para estudantes haitianos, com a condição de que retornassem ,terminado os estudos,para servir ao seu povo-e não para abandoná-lo.


Arno - 26/12/2011
Permitir o ingresso de populações pobres em nosso (ou em qualquer país) seria o caos.


Vanessa Vila Flor - 05/03/2013
A imigração haitiana está tão intensa, pois além de está no Brasil, os haitianos estão se deslocando para a Argentina, Peru e o Chile – Os chilenos também têm a sua história de imigração aqui, no Brasil; a Editora Pontocom está lançando o livro “História oral de chilenos em Campinas”, de Vanessa Paola Rojas Fernandez, pesquisadora do Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo – NEHO-USP. Na obra, a autora analisa o processo imigratório de chilenos ao Brasil após o golpe de Estado de 1973, que destituiu o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Aprofundando-se na comunidade chilena de Campinas-SP, Vanessa Fernandez apoia-se na tomada de depoimentos orais para a construção de sua narrativa, valorizando a experiência dos sujeitos históricos que constituíram esse movimento. Baixem o livro gratuitamente, nos formatos EPUB, MOBI e PDF, no site da Editora Pontocom. www.editorapontocom.com.br

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