Quarta-Feira, 01 de Outubro

05/01/2012 - Copyleft

Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo


Eduardo Febbro - Direto de Paris
Eduardo Febbro - Direto de Paris

Alguns já o veem terminado, outros a ponto de cair no abismo, ou em pleno ocaso, ou em vias de extinção. Outros analistas estimam o contrário e afirmam que, embora o liberalismo esteja atravessando uma série crise, seu modelo está muito longe do fim. Apesar das crises e de suas consequências, o liberalismo segue de pé, produzindo seu lote insensato de lucros e desigualdades, suas políticas de ajuste, sua irrenunciável impunidade. No entanto, ainda que siga vivo, a crise expôs como nunca seus mecanismos perversos e, sobretudo, colocou no centro da cena não já o sistema econômico no qual se articula, mas sim o tipo de indivíduo que o neoliberalismo terminou por criar: hedonista, egoísta, consumista, frívolo, obcecado pelos objetos e pela imagem fashion que emana dele.

A trilogia da modernidade liberal é muito simples: produzir, consumir, enriquecer. O filósofo francês Dany-Robert Dufour refletiu sobre as mutações pós-modernas que esvaziaram o sujeito contemporâneo de narrativas fundadoras. Essa ausência é, para o filósofo, um dos elementos da imoralidade liberal que rege o mundo contemporâneo. Seu trabalho como filósofo crítico do liberalismo se desenvolveu em livros como “Le Divin Marché” (O Divino Mercado) e culmina agora em um apaixonante livro que coloca uma pergunta que poucos se fazem: como será o indivíduo que surgirá depois do liberalismo?

Dany-Robert Dufour não só lança mais uma diatribe sobre o sistema liberal, mas explora os conteúdos sobre os quais pode-se refundar a humanidade despois desse pugilato planetário do despojo e da estafa que é o ultra-liberalismo. Mas a humanidade não se funda no automatismo, mas sim através dos indivíduos. Seu livro, “L’individu qui vient...après le libéralisme” (O indivíduo que vem...depois do liberalismo) explora o transtorno liberal do passado e esboça os contornos de um novo indivíduo ao qual o filósofo define como “simpático”, ou seja, abertos aos outros que também o constituem.

O liberalismo, que se apresentou como salvador da humanidade, terminou levando o ser um humano a um caminho sem saída. Você considera o fim desse modelo e se pergunta sobre qual tipo de ser humano surgirá depois do ultra-liberalismo?

Dany-Robert Dufour: No século passado conhecemos dois grandes caminhos sem saída históricos: o nazismo e o stalinismo. De alguma maneira e entre aspas, depois da Segunda Guerra Mundial fomos liberados desses dois caminhos sem saída pelo liberalismo. Mas essa liberação terminou sendo uma nova alienação. Em suas formas atuais, ou seja, ultra e neoliberal, o liberalismo se plasma como um novo totalitarismo porque pretende gerir o conjunto das relações sociais. Nada deve escapar à ditadura dos mercados e isso converte o liberalismo em um novo totalitarismo que segue os dois anteriores. É então um novo caminho sem saída histórico. O liberalismo explorou o ser humano.

O historiador húngaro Karl Polanyi, em um livro publicado depois da Segunda Guerra Mundial, demonstrou como, antes, a economia estava incluída em uma série de relações sociais, políticas, culturais, etc. Mas, com a irrupção do liberalismo, a economia saiu desse círculo de relações para converter-se no ente que procurou dominar todos os demais. Dessa forma, todas as economias humanas caem sob a lei liberal, ou seja, a lei do proveito onde tudo deve ser rentável, incluindo as atividades que antes não estavam sob o mandato do rentável.

Por exemplo, neste momento eu e você estamos conversando, mas não buscamos rentabilidade e sim a produção de sentido. Neste momento estamos em uma economia discursiva. Mas hoje, até a economia discursiva está sujeita ao “quem ganha mais”. Cada uma das economias humanas está sob a mesma lógica: a economia psíquica, a economia simbólica, a economia política, daí o derretimento da política. O político só existe hoje para seguir o econômico. A crise que atravessa a Europa mostra que, quanto mais ela se aprofunda, mais a política deixa a gestão nas mãos da economia. A política abdicou ante a economia e esta tomou o poder. Os circuitos econômicos e financeiros se apoderaram da política, A crise é, por conseguinte, geral.

O título de seu livro, “O homem que vem depois do liberalismo”, implica a dupla ideia de uma fase triunfal e de um fim do liberalismo...

DRD: Paradoxalmente, no momento de seu triunfo absoluto o liberalismo dá sinais de cansaço. Nos damos conta de que nada funciona e as pessoas vão tomando consciência desta falha e têm uma reação de incredulidade. Os mercados se propuseram a ser uma espécie de remédio para todos os males. Você tem um problema? Pois então recorra ao Mercado e este aportará a riqueza absoluta e a solução dos problemas. Mas agora nos damos contra de que o mercado acarreta devastações.

Assim, vemos como esse remédio que devia nos fornecer a riqueza infinita não traz senão miséria, pobreza, devastação. O capitalismo produz riqueza global, sim, mas ela é pessimamente repartida. Sabemos que há 20, 30 anos, as desigualdades têm aumentado pelo planeta. A riqueza global do capitalismo despoja de seus direitos a milhões de indivíduos: os direitos sociais, o direito à educação, à saúde, em suma, todos esses direitos conquistados com as lutas sociais estão sendo tragados pelo liberalismo. O liberalismo foi como uma religião cheia de promessas. Nos prometeu a riqueza infinita graças a seu operador, o Divino Mercado. Mas não cumpriu a promessa.

Em sua crítica filosófica ao liberalismo, você destaca um dos principais estragos produzidos pelo pensamento liberal: os indivíduos estão submetidos aos objetos, não aos seus semelhantes; ao outro. A relação em si, a sensualidade, foi substituída pelo objeto.

DRD: As relações entre os indivíduos passam ao segundo plano. O primeiro é ocupado pela relação com o objeto. Essa é a lógica do mercado: o mercado pode a cada momento agitar diante de nós o objeto capaz de satisfazer todos nossos apetites. Pode ser um objeto manufaturado, um serviço e até um fantasma construído pelas indústrias culturais. Estamos em um sistema de relações que privilegia o objeto antes do sujeito. Isso cria uma nova alienação, uma espécie de vício com os objetos. Esse novo totalitarismo que é o liberalismo coloca nas mãos dos indivíduos os elementos para que se oprimam a si mesmos através dos objetos. O liberalismo nos deixa a liberdade de alienarmos a nós mesmos.

Você situa o princípio da crise nos anos 80 através da restauração do que você chama de o relato de Adam Smith. Você cita uma de suas frases mais espantosas: para escravizar um homem é preciso dirigir-se ao seu egoísmo e não a sua humanidade.

DRD: Adam Smith remonta ao século XVIII e sua moral egoísta se expandiu um século e meio depois com a globalização do mercado no mundo. De fato, Smith demorou tanto porque houve outra mensagem paralela, outro Século das Luzes, que foi o do transcendentalismo alemão.

Ao contrário das Luzes de Smith, as alemãs propunham a regulação moral, a regulação transcendental. Essa regulação podia se manifestar na vida prática através da construção de formas como as do Estado a fim de regular os interesses privados. A partir do Século das Luzes, há duas forças que se manifestam: Adam Smith e Kant. Esses dois campos filosóficos coexistiram de maneira conflitiva ao longo da modernidade, ou seja, através de dois séculos. Mas, em um determinado momento, o transcendentalismo alemão perdeu força e deu lugar ao liberalismo inglês, o qual adquiriu uma forma ultra-liberal. Pode-se datar esse fenômeno a partir do início dos anos 80. Há inclusive uma marca histórica que remonta ao momento em que Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, chegam ao poder a instalam a liberdade econômica sem regulação. Essa ausência de regulação destruiu imediatamente as convenções sociais, ou seja, os pactos entre indivíduos.

Daí provém a trilogia “produzir, consumir, enriquecer”. Você chama essa trilogia de pleonexía.

DRD: O termo “pleonexía” é encontrado na República de Platão e quer dizer "sempre ter mais". A República grega, a Polis, foi construída sobre a proibição da pleonexía. Pode-se dizer então que, até o século XVIII, toda uma parte do Ocidente funcionou com base nessa proibição e se liberou dela nos anos 80. A partir daí se liberou a avidez mundial, a avidez dos mercados e dos banqueiros. Lembre o discurso pronunciado por Alan Greenspan (ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos) ante à Comissão norteamericana depois da crise de 2008. Greenspan disse: “pensava que a avidez dos banqueiros era a melhor regulação possível. Agora, me dou conta de que isso não funciona mais e não sei por quê”. Greenspan confessou assim que o que dirige as coisas é a liberação da pleonexía. E já sabemos para onde isso conduz.

Chegamos agora ao depois, ao hipotético ser humano de depois do liberalismo. Você o enxerga sob os traços de um indivíduo simpático. Que sentido tem o termo simpático neste contexto?

DRD: Ninguém é bom ao nascer como pensava Rousseau, nem tampouco mau como pensava Hobbes. O que podemos fazer é ajudar as pessoas a serem simpáticas, ou seja, a não pensarem somente em si mesmas e a pensarem que, para viver com o próximo, é preciso contar com ele. O outro está em mim, as imagens dos outros estão em mim e me constituem como sujeito. A própria ideia de um indivíduo egoísta é sem sentido porque isso obriga a que nos esquecer de que o indivíduo está constituído por partes do outro. E quando falo de um indivíduo simpático não emprego o termo em sua acepção mais comum, alguém simplesmente simpático, digamos. Não, trata-se do sentido que a palavra tinha no século XVIII, onde a simpatia era a presença do outro em mim. Necessito então da presença do outro em mim e o outro precisa de minha presença nele para que possamos constituir um espaço onde cada um seja um indivíduo aberto ao outro. Eu cuido do outro como o outro cuida de mim. Isso é um indivíduo simpático.

Sigamos com a simpatia, mas sobre que bases se constrói o indivíduo que vem depois do liberalismo? A razão, a religião, o esporte, o ócio, a solidariedade, outra ideia de mercado?

DRD: Neste livro fiz um inventário das narrativas antigas: a narrativa do logos, da evasão da alma dos gregos, a narrativa sobre a consideração do outro nos monoteísmos. Dei-me conta de que em ambos narrativas havia coisas interessantes e também aterradoras. Por exemplo, a opressão das mulheres no patriarcado monoteísta equivale à opressão da metade da humanidade. Por acaso queremos repetir essa experiência? Certamente que não.

Outro exemplo: no logos, para que haja uma classe de homens livres na sociedade é preciso que haja uma classe oprimida e escravizada. Queremos repetir isso? Não. Refundar nossa civilização após os três caminhos sem saída que foram o nazismo, o estalinismo e o liberalismo requer uma refundação sobre bases sólidas. Por isso realizei o inventário, para ver o que podíamos recuperar e o que não, quando do passado podia nos servir e quanto não. A segunda consideração diz respeito aquilo que poderia ajudar o indivíduo a ser simpático, ao invés de egoísta. Neste contexto, a ideia da reconstrução do político, de uma nova forma do Estado que não esteja dedicado a conservar os interesses econômicos, mas sim a preservar os interesses coletivos, é central.

Qual é, então, a grande narrativa que poderia nos salvar?

DRD: Deixamos no caminho as grandes narrativas de antes e acreditamos cada vez menos na grande narrativa do mercado. Estamos a espera de algo que una o indivíduo, ou seja, uma grande narrativa. Eu proponho a narrativa de um indivíduo que deixou de ser egoísta, que não seja tampouco o indivíduo coletivo do estalinismo, nem tampouco o indivíduo mergulhado na ideia de uma raça que se crê superior, como no nazismo e no fascismo. Trata-se de uma narrativa alternativa a tudo isso, uma narrativa que persiste no fundo da civilização.

Creio que o valor da civilização ocidental radica no fato de ter colocado o acento na individuação, ou seja, na ideia da criação de um indivíduo capaz de pensar e agir por si mesmo. Não é para esquecer a noção de indivíduo, mas sim reconstruí-la. Contrariamente ao que se diz, não creio que nossas sociedades sejam individualistas, não, nossas sociedades são lamentavelmente egoístas. Isso me faz pensar que há muita margem de existência ao indivíduo como tal, que há muitas coisas dele que não conhecemos.

Temos que fazer o indivíduo existir fora dos valores do mercado. O indivíduo do stalinismo foi dissolvido na massa do coletivismo; o indivíduo do nazismo e do fascismo foi dissolvido na raça, o indivíduo do liberalismo foi dissolvido no egoísmo. O indivíduo liberal é um escravo de suas paixões e de suas pulsões. Devemos nos elevar desse caminho sem saída liberal parar recriar um indivíduo aberto ao outro, capaz de realizar-se totalmente.

Há textos filosóficos de Karl Marx que não são muito conhecidos e nos quais Marx queria a realização total do indivíduo fora dos circuitos mercantis: no amor, na relação com os outros, na amizade, na arte. Poder criar o máximo a partir das disposições de cada um. Talvez seja o caso de recuperar esse relato do Marx filósofo e esquecer o do Marx marxista.

Tradução: Katarina Peixoto





Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 12/01/2012
Ah,quase ia me esquecendo :não é verdade ( ou pelo menos trata-se apenas de uma realidade parcial,inclusive porque ,se não o fosse, não haveria luta de classes) que o indivíduo resultante da "farra libertina neoliberal"seja um indivíduo ultrafundamentalista. A não ser que consideremos os movimentos sociais que se alastram pela Europa e EUA, movimentos de inspiração fundamentalista. Que a ultradireita existe, disto não temos a menor dúvida,mas como somos marxistas que não renegam a sua obra, não ficaremos de braços cruzados diante desta ultadireita,e ,evocando o Marx político e sociológico, consideraremos estes movimentos como sendo a revelação sociológica do novo, o alvorecer de uma nova era de mudanças, e, ao lado e junto a esse movimento,por nós identificados através do "Marx sociológico",- convidaremos -agora,valendo-se do "Marx político" - a voltar sua atenção para a questão do poder,e,finalmente -desta vez inspirado no "Marx econômico"- cogitaremos na necessidade da socialização dos meios de produção, da resolução da contradição de fundo da sociedade capitalista entre a produção social e a sua apropriação privada, afirmando ,igualmente, a necessidade de que os erros cometidos em experiências passadas de construção de sociedades socialistas não voltem mais a ocorrer.Afinal não é esse exatamente o significado da negação da negação,que sempre confronta cada experiência social vivida no passado com a que se vive no presente,gerando nesta "negação da negação" aquela que será vivida no futuro? Não seria esse, afinal,a forma como todo o conhecimento humano se desenvolveu,ao longo dos tempos,sempre em zigue-zague,pleno de pequenos recuos e avanços, operando-se permanentemente por saltos,por fluxos e refluxos.Neste quadro, o fundamentalismo também não representa novidade. A Revolução Francesa igualmente o conheceu,tendo,inclusive,assistido ao seu retorno momentâneo ao poder,arrancando-o das mãos da burguesia revolucionária.A intensificação da reação,contraditoriamente, também é sinal dos tempos.Se ela não se tivesse acirrado,talvez não tivéssemos tanta certeza de que a realidade já estivesse fermentando mudanças,sinalizando novos tempos,nos dias que correm, nas lutas que se travam em todas as principais ruas do mundo,pela ação dos homens que são, ainda que não tenham consciência disto, construtores do futuro, os milhões de jovens,trabalhadores,homens e mulheres que,de forma inusitadamente globalizada, desafiam o mundo das finanças globalizadas, e despertam para um novo mundo,solidário e humano.


Alberto Navarro - 12/01/2012
O título do livro de Dufour, "Le Divin Marché" e o tipo de indivíduo criado pela imoralidade liberal através de seus mecanismos perversos, leva-me a fazer analogia com os livros do "Le Divin Marquis", ou seja, Donatien Alphonse François - Marquês de Sade (ele também considerado filósofo) e em especial "Les 120 journées de Sodome ou l'école du libertinage" (Os 120 dias de Sodoma ou a escola da libertinagem) no qual 4 homens ricos e libertinos resolvem experimentar a definitiva gratificação sexual em orgias através de abusos sexuais e tortura de suas vítimas, em um crescendo gradual de intensidade que termina em assassinato! Parece que o mesmo está a acontecer com 4 dos maiores bancos do mundo, a saber: Goldman Sachs, Citigroup, Barclays e Morgan Stanley que, em um crescendo gradual de intensidade estão começando a assassinar países para gozo perverso de suas libertinagens especulativas financeiras. Ao que parece, o indivíduo que está a surgir a partir da farra libertina neoliberal, é um indivíduo ultra-fundamentalista, haja à vista o famigerado "Tea Party" nos EUA, os "Ultraortodoxos (haredim) judeus" em Israel, o altamente autoritário "Integrismo Católico" que, na Hungria obtem o amplo apoio do papa Bento XVI e que na Espanha, o arcebispo católico de Granada, Javier Martínez, fez em uma missa a apologia do estupro nas mulheres que pratiquem o aborto! E isso tudo para não dizer dos fundamentalistas cristãos evangélicos de diversas seitas. Daí, no meu entendimento concordo com Dufour na necessidade de recuperar o Marx filósofo, para que possamos sair do "automatismo mental" imposto pelo neoliberalismo mercantilista, onde o Marx sociólogo economista não consegue ajudar-nos!


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 12/01/2012
"Tá legal, eu aceito o argumento",mas apenas por hipótese.Fiquemos com o "Marx filosófico", e passemos a ser contados entre aqueles que aceitam tudo do marxismo,"menos sua alma revolucionária"-é verdade,porque a aceitação do"Marx filosófico", em oposição ao Marx econômico e sociológico, não constitui nenhuma novidade, sendo mais antiga do que andar para frente.Dessa forma, consciente ou não, querendo ou não, passaremos -quem sabe orgulhosamente- a figurar entre os membros seletos desta escola de pensamento que se convencionou chamar "marxistas de cátedra".Bem cá estamos felizes da vida!Toda a obra de Marx já foi lançada à fogueira, exceto,é claro, os seus textos filosóficos. Mas cabe aqui uma inocente indagação: qual é o significado destes textos? Ou será que nem aqui haverá acordo?Esperemos que sim!Assim sendo, os textos filosóficos de Marx representam uma crítica da crítica crítica de Hegel, neles Marx afirma ter colocado a dialética sob os seus pés, sobre sua base objetiva, onde o demiurgo da realidade deixa de ser o pensamento, o espírito,e passa a ser o movimento da própria matéria.E mais,tal movimento não é algo que necessariamente escape à reflexão do homem; ao contrário, a consciência e o conhecimento socialmente elaborado historicamente por ela,é,a cada momento, reflexo deste movimento, correspondendo a sucessivas aproximações e reaproximações de seu objeto que , ao mesmo tempo que é cada vez mais conhecido,jamais se deixará conhecer completamente ,pois o objeto do conhecimento é infinito (negação da negação!).A essência da filosofia de Marx,em uma definição sumária, é,portanto, que o mundo é cogniscível ( a não ser que se queira também rejeitar esta conclusão, ficando com um Marx ainda mais reduzido,quem sabe aos seus textos escritos nos tempos de liceu).Isso realça o fato de ser a filosofia marxista,simultaneamente, um método e uma concepção do mundo.Nesse sentido, a filosofia marxista filia-se às ciências, na medida em que ela acata o método seguido por estas e também o seu otimismo epistemológico,ao confiar na cogniscibilidade do mundo. Se reconhecermos ser a filosofia marxista aquilo que o próprio Marx reconhecia, então,devemos fazer mais uma pergunta inocente: se ela era realmente um instrumento adequado de conhecimento do mundo, porque Marx não conseguiu,então, valer-se dela convenientemente,quando ,de posse dela,aplicou-a aos estudos do funcionamento da sociedade capitalista? De duas uma, ou ela não é adequada,e ,nesse caso, não convém preservar nem mesmo o "Marx filosófico";ou ela é pertinente,porém,não podemos estar bem certos disto,pois aquele que a concebeu -e que,portanto,detinha pleno domínio de seus princípios - não a soube usar adequadamente, durante 40 anos,não existindo ,portanto, nenhuma experiência que nos dê segurança de sua eficiência.E cá estamos todos prisioneiros de uma circularidade euclidiana.Observação:este texto foi redigido no computador de meu querido Bruninho. a quem presto meus agradecimentos.


Ricardo Melo - 11/01/2012
Mais do mesmo ! A crítica feita ao sistema capitalista no século XIX é a mesma apresentada no texto, com a roupagem de crítica ao liberalismo. Respeito o filósofo, mas é preciso tentar pensar diferente, talvez a mudança nos métodos de análise ajudaria.


Angela Caniato - 10/01/2012
Gostari de saber se o livro do Dufour dessa entrevista ja esta traduzido para o portugues


Dárcio - 09/01/2012
Caro, Darcy, não sou especialista em Lenin, nem Marx, sou apenas um leitor contumaz, mas acho que afirmar que Lenin não leu a ideologia alemã não é um 'atestado de ignorância'; faz uma diferença enorme ler as anotações esparsas que compuseram o texto e a forma como ele foi compilado em 32 e suas reedições. poderia não fazer diferença para os autores que já tinham o percurso da obra em mente, natural. Assim como faz uma diferença enorme ler os fragmentos dos 'modos pré-capitalistas de produção' e os Grundrisse editado recentemente. A diferença, em Lenin, pode ser percebida nas lacunas que aparecem sistematicamente em seus escritos sobre uma 'das fontes' do marxismo, a filosofia alemã. Talvez a leitura da ideologia alemã não faria Lenin admirar a precisão do funcionamento dos correios alemão e projetá-lo como algo que espelhasse o socialsimo. Ou aprisionar a teoria na forma partido, ainda que alertando para historicidade da estratégia, mas que, infelizmente, a III internacional impôs goela baixo acriticamente essa forma 'partido (adjetivada)de varguarda' mundo afora. Há algo de errado com vanguardas que já duram quase um século. A crítica radical do valor não brotou da nova escola francesa, ela dialoga com essa e tantas outras escolas, mas é original, no meu entendimento. Original no sentido de resgatar esse marx filosófico de que fala o autor e que, insisto, é um ilustre desconhecido da esquerda tradicional e do marxismo do 'movimento operário' e sua sociologia de classes. Dialoga tb e pq não, com todas formas congeladas e antidialéticas que reivindicam o campo marxista, com elas e apesar delas. É necessário. Por fim, para mim todas essas tentativas de desempoeirar a teoria, congelada por décadas de esquematimos, é válida, ainda que suscite arrepios dentro da esquerda tradicional tão apegadas a formas que, ironicamente, fetichizaram-se, como a forma 'partido de vanguarda'. Mas a esquerda tradicional tb se arrepia quando lê no livro III que Marx não via nenhuma desumanidade no pagamento de salário, no preço imposto a força de trabalho, desde que não houvesse fraude. A entrevista do autor me remete a 'difícil dialetização de uma idéia fixa' Há uma bom texto com esse mesmo nome que dá conta muito melhor que eu conseguiria sobre essas muitas outras divergências pra quem interessar http://www.militante-imaginario.blogspot.com/2007/08/o-socialismo-em-devir-difcil-dialetizao.html


Luciene Andrade - 09/01/2012
Muito esclarecedor, agradeço pelo texto.


rafael palomino - 09/01/2012
Não acho que podemos separar o Marx marxista do Marx filósofo. A filosofia que imagina um homem realizando-se de forma plena, longe dos circuitos mercantis, é a que prega a alienação que o liberalismo impõe ao homem, que descreve (com o instrumental da economia política) o modo como tudo se torna mercadoria no capitalismo, e que defende a revolução desse sistema - justamente para a realização plena do homem fora dos circuitos mercantis. Para separar Marx filósofo de Marx marxista, seria preciso: 1- ter em mente que a proposta de superação do capital é decorrência da aplicação do método "filosófico" (não sei se é uma boa expressão) que Marx construiu; 2- procurar mostrar que Marx aplicou mal o próprio método, e que sua conclusão sobre a necessidade de revolucionar O Capital não é autorizada por seu método "filosófico", ao contrário do que ele mesmo acreditava. Não li o livro do entrevistado, não sei se ele faz isso lá. Mas nessa entrevista, ele não dá nenhuma indicação de como fragmentar Marx em dois, salvar um e jogar o outro no lixo, sem cair em contradição.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 08/01/2012
Parte I) João Pavicic,primeiro,um abraço.Em seguida, a consideração de que ,para mim, pouco importa a forma como o filósofo francês expressou as suas opiniões.Aqui o que realmente interessa é que ele fez uma proposta e,nessa proposta ha um esquertajamento do marxismo.Tal concepção tem uma matriz bem conhecida e vincula-se -muito antes que seus brotos viessem a florescer na Alemanha dos anos 90 -à chamada "Nova Escola Francesa", que começou,já nos anos 70, a operar uma trasfiguração "crítica" do marxismo, tendente a refutar aquilo que eles consideravam os seus aspectos negativos- marcados principalmente pelos que eles deliberaram chamar de "estruturalismo" e "evolucionismo".Tais deficiêcias seriam encontradas principalmente na teoria econômica marxista.Ora, o marxismo,desde os seus primórdios, começou primeiro por operar um acerto de contas com o chamado idealismo alemão, tanto nas manifestações geniais, reconhecidas por Marx e Engels ,presentes nas idéias de Hegel, como as manifestações menos cuidadosas, relacionadas à produção dos jovens hegelianos.Foram as anotações críticas de Marx e Engels, relacionadas a esse movimento filosófico alemão,que ,no futuro, seriam compiladas, dando origem ao texto "A Ideologia Alemã",não tendo,nese formato,sido lido sequer pelos próprios autores.Afirmar,portanto,que Lênin não conhece este conteúdo, é passar para si mesmo um atestado de ignorância da obra de Lênin, que cita em vários momentos, passagens de Marx e Engels,relativas a este acerto de contas,nomeadamente as teses de Feurbach. Porém, a partir deste acerto de contas crítico, que recoloca a dialética em posição ereta, e supera o marxismo mecanicista de Feurbach,Marx considerou-se de posse de um método conveniente de avaliação dos fenômenos econômicos,políticos e sociaisPor isso que pretender opor a filosofia marxista à teoria econômica é algo totalmente absurdo,já que a teoria econômica marxista é resultado da aplicação desta filosofia -que é exalada como um ethos de "O Capital.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 08/01/2012
Parte II) Quanto a ler ou não os precursores de Marx, entendo ser isto válido,mas não necessariamente indispensável.Eu particularmente, gostei muito de ter lido Spinosa.Porém,vale lembrar que Marx sempre concebeu suas idéias não apenas como resultado do desenvolvimento do pensamento social que lhe foi anterior, mas também como fruto da interação com as idéias de sua época,com as "três fontes constitutivas".Em Marx a filosofia e demais compartimentos das ciências sociais ,devem também ligarem-se a um partido.Deste modo, não constitui novidade que as idéias de Marx também foram fortemente influenciadas pelos inúmeros homens que integravam as organizações de que ele e Engels participavam ativamente,sendo este o significado que devemos depreender quando ouvimos dizer que o marxismo é uma teoria de partido.Nesse aspecto,permito-me enxergar no marxismo um código aberto como o Linux,guardadas evidentemente as devidas proporções,sendo que esse código - ou relatos,como insiste em utilizar o nosso filósofo -pode ser estendido tanto para antes como para depois da vida de Marx.


Juca Ramos - 08/01/2012
Muito pertinente a entrevista e muito sensato o pensamento do filósofo francês Dufour. Já é mesmo hora de se repensar uma saída, de explorar "a idéia da reconstrução do político, de uma nova forma do Estado que não esteja dedicado a conservar os interesses econômicos, mas sim a preservar os interesses coletivos...". Em princípio, nada impede que se visite o outro lado da obra marxiana, embora acrescente que uma certa idealização e/ou mistificação de Karl Marx, que muitos marxistas ostentam, termina por limitar a contribuição de tantos que poderiam fazer bem mais frutífera essa inadiável e importantíssima discussão. Alguém disse com bastante reflexão que Marx foi muito perspicaz em seu diagnóstico das condições economicas e políticas de sua época, mas que a prescrição de sua(s) receita(s) foi desastrosa para o paciente (vide regime soviético, chinês, coreano, cubano), pelo simples fato de que não se pode prever para que rumo caminha a humanidade, nem como o ser humano vai reagir a essa ou àquela situação. A meu ver o filósofo está certo: cada sociedade deve discutir em busca de cenários em que possamos nos relacionar construtivamente em todos os aspectos do convívio humano, inclusive o econômico e o político, e também com o Estado que queremos e necessitamos para nos gerir os interesses coletivos. Mas a esse Estado nós, os cidadãos, vamos ceder todos os poderes suficientes apenas para nos servir, não para nos oprimir.


Antonio do Carmo Freitas da Silva - 08/01/2012
O homem sempre quer mudar os sistemas políticos (de capitalismo para socialismo ou de socialismo para capitalismo). Mas este homem não muda, sempre acha que tem a verdade absoluta. Sócrates afirmava: "Homem conhece-te". Minha conclusão como quero mudar o mundo se eu próprio pouco me conheço.


Luciana Constantino - 08/01/2012
"O Divino Mercado" descumpriu a promessa. O irremediável objeto ineficaz no sanar das demandas psíquicas e dos apetites subjetivos aponta a inauguração de um sujeito acessível e simpático ao outro, capaz de usufruir o máximo das potencialidades de cada um e hábil para realizar-se totalmente. Consagrando o lugar de sujeito enquanto protagonista da história.


Marcia Eloy - 08/01/2012
Darcy Eu admiro a sua cultura o fato de você conhecer Marx tão profundamente, o que eu lhe confesso não coneco a obra de Marx em prufundidade. Eu hoje, não sou simpatizante do partidão,acho que eles pararam no tempo e no espaço. Falam uma linguagem que o povo não entende e quando eu vejo o Plínio de Arruda Sampaio falar fico impressionada, de uma pessoa considerada inteligente, não saber adaptar idéias criadas há 2 séculos, aos dias de hoje. Agora o PCB de 60 anos atrás eu admiro, simplesmente porque eles eram ilegais, não ambicionavam cargo, poder, nada, apenas lutavam por um ideal, eram presos, torturados por defenderem uma idéia, num país que se dizia democrático. Eu admiro todos os homens que lutam por idéias, como Mandela, Luter King, Gandhi, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes. O que eles ganharam? Prisões, assassinatos, perseguições...Mas deixaram um exemplo de luta por um ideal, que hoje infelizmente não se vê mais. Eles plantaram idéias, uns chegaram a colher os frutos, outros não viveram para ver a colheita. Mas, não se pode esquecer que toda plantação vai depender do solo em que a semente é plantada, se ele está "pronto " para germinar a semente. No Brasil a maioria do povo não sabe quem foi Marx, e nem o PCB, nem nemhum partido de esquerda explica, através de cursos. o básico do Marxismo. Quando chega na época de eleição vem o PSTU e diz: Contra burgues vote 16! Faça uma pesquisa no centro da cidade e pergunte ao povo o que é burgues. Você vai ver as respostas...


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 08/01/2012
Parte III) Por último,e cada vez mais desconfiado que o nosso filósofo não leu o que ele recomenda que ninguém venha ler, o "Capital" ,como de resto toda obra marxista, é carregado de denúncias com cunho gritantemente humanista,não se limitando a reconhecer as leis que regem o funcionamento do modo de produção capitalista, mas apontando com grande indignação de quem certamente devotava aos trabalhadores e aos explorados de um modo geral, um amor sentido e profundo, as chagas e as mazelas sociais causadas por esse sistema - que se leia, só para ilustrar, o capítulo XXIV de "O Capital". Para encerrar, a propósito da luta armada e,obviamente,também da "revolução pacífica", insisto em dizer não serem ,nem uma,nem outra, questões de princípio.Devemos sempre, como amantes da paz que somos,defender o desarmamento tanto dos espíritos, como das forças oponentes,de um modo geral.Porém, não se deve também jamais esquecer que nenhuma transformação social de fundo ainda se deu sem que o uso da força tivesse tido lugar.No Chile, Salvador Allende chegou à presidência da República pela via eleitoral.A falta de atenção para a eventualidade de ter que enfrentar a violência reacionária por parte dos derrotados nas urnas, levou ao final que todos nós conhecemos.Na Venezuela, intentou-se derrubar o presidente Chaves,através de golpe elaborado pela CIA.Não tivesse Chaves condições de reagir ,com o uso da força, ao golpe aplicado, estaria a Venezuela hoje a conhecer outro destino.Somos a favor da não utilização da força, mas para isto existe uma condição: a de que os oponentes não voltem a fazer uso dela para impedir que nossos ideais de liberdade sejam alcançados.Ninguém pode renunciar à liberdade em nome da não-violência.Lembremos que as relações internacionais estão cada vez mais militarizadas. A estratégia militar americana volta-se cada vez mais contra os interesses da China,inspirada na esfarrapada política de contenção, que resultou,no passado recente, na Guerra Fria.A IV Frota estadunidense singra nossos mares desafiadoramente. Grupos paramilitares ,treinados pelos yankees, atuam em vários países latinos, sendo este modos operandi um dos atuais elementos da nova estratégia militar anunciada por Obama. Pacifistas sempre,porém sem perder de vista que dependerá somente do comportamento de nossos adversários.Se eles forem capazes de abrirem mão de seus privilégios sem resistir violentamente, então tudo será o mar de rosas com que sonha a Maria Eloy, simpatizante do velho partidão de meu tio-avô,professor Robespierre.


João Pavicic - 07/01/2012
Acho que quaisquer críticas ao entrevistado, teria que se ater à maneira pela qual ele desenvolveu seu raciocínio, isto é, por meio de um entrevista, não de um ensaio, tese ou quaisquer outros signos da produção textual acadêmica; O segundo ponto, diz respeito à uma dúvida que tenho: Quais autores e como poderíamos utiliza-las de uma maneira eficiente? Muitos dizem que, para se ler Marx, é necessário, entre outros, resgatar obras que influenciaram Marx,. a saber: Spinoza, Smith, Ricardo, Hegel, Feurbach. Ou seja uma espiral epistemológica de difícil compreensão, tendo em vista a produção do sentido textual cuja se inscreve em um período em que a linguagem acadêmica não se reduzia a critérios "objetivos, imparciais e neutros". Levando-se em conta o contexto histórico/social/cultural e econômico, de que maneira poderíamos apreender conceitos que levaram décadas para serem escrevinhados, analisados e categorizados? Além disso, há imprecisões quanto ao paradigma de revolução: Como é que se situa, para teóricos marxistas ou marxianos, o conceito de revolução: através da luta armada? pode ser aplicado na sociedade moderna/contemporânea/Pós-moderna? Não vejo eficácia na tentativa de isolar o marxismo de outras áreas do conhecimento reduzindo-se à análise, dita "objetiva"de fatores que, em última análise, também perpassam de linguagens, sejam elas materiais, ou, com o erigir da psicanálise, as ocultas. Aguardo, com certa ansiedade, pelos comentários e respostas, caso seja possível?! um abraço!


José Pascoal Vaz - 07/01/2012
Dufour termina um de seus parágrafos com "...o tipo de indivíduo que o neoliberalismo terminou por criar: hedonista, egoísta, consumista, frívolo...". Eu acrescentaria "déspota", pois o despotismo está na essencia dos mercados sem controle social.


stella - 07/01/2012
Muchas gracias x el reportaje.


Marcia Eloy - 07/01/2012
Não sou uma expert em Marx como alguns comentaristas parecem ser, mas pelo que sei, Marx nunca renegou a necessidade do progresso industrial, tanto que achava que o primeiro país a adotar o socialismo seria a Inglaterra, pois era o país mais evoluído industrialmente em sua época. Me parece que como havia muitos operários e poucos donos, os operários gradativamente, tomariam o lugar dos donos, pois estariam aptos a fazê-lo. Tanto que muito marxistas alegam que o socialismo na União Soviética não deu certo, porque a Rússia era um país quase sem indústria, um país rural, e que houve uma verdadeira guerra entre o campo e a cidade, pois era o campo que alimentava a cidade, e eles achavam que ganhavam muito pouco por isto, a divisão não era justa, o que realmente acontecia. Os camponeses foram os últimos a aderirem ao regime socialista e mataram vários formadores de opinião da"inteligencia"russa que iam ao campo tentar convencê-los da nova idéia que surgia. Toda religião prega o ser simpático. As pessoas aderem, mas na prática é difícil alguém abrir mão de determinados valores mareriais e pensar no outro. Só pessoas muito intelectualizadas e espiritualizadas conseguiram chegar a esta meta. Gandhi não era marxista, mas o outro sempre esteve presente em sua vida e chegou a abrir mão de todo bem material. Não foi só ele, outros também conseguiram chegar a este nível, sem serem considerados santos, apenas idealistas.


Antonio C. - 07/01/2012
Embora não deixe claro quais são os textos "não conhecidos" de Marx, imagino que ele queira se referir aos Manuscritos Econômico-Filosóficos, à Ideologia Alemã, à Miséria da Filosofia, aos diversos e esparsos artigos de jornal que escreveu, ou seja, anteriores ao Capital, em que deixa de lado as "questões filosóficas" e do "humanismo" para se voltar para a gênese e estrutura (com o perdão da referência) da economia capitalista. Na Ideologia Alemã, ele se dedica muito a tentar desestruturar ideias de gente como Max Stirner, a tal ponto de ser algo desproporcional, se considerarmos este pouco ou mal conhecido. O problema entre a relação do indivíduo e do social, a noção de sujeito, enfim, conceitos caros ao humanismo, são colocados em questão. Mas os "marxistas" divulgam normalmente o "Feuerbach", que é uma das partes da Ideologia Alemã. Lamento, mas não entendo o motivo.


Claudionor Damasceno - 06/01/2012
Com essa confusão de pensamento, da pra entender um pouco a razão da Europa estar tão perdida no bonde da História. Enquanto não se resolverem com o passado, e isso implica em rever os contrabandos que acriticamente repetem sobre Stalin, acho que não conseguirão sair dessa pasmaceira, que chega ao ridículo de idealizar um Marx sem o "marxismo". Enrolação. A crítica do pós-moderno não consegue escapar da luta de classes. Quando tenda, sai esse pensamento confuso do Dufour.


Chauke Stephan Filho - 06/01/2012
A classe C não entenderia a contrapleonexia.


Luiz - 06/01/2012
O tema faz pensar. Mas quando se pensa no que existia antes, parece que o liberalismo foi um meio necessario para se chegar a algo melhor. Doeu, mas foi um processo para se chegar num nivel de persepcao (não sei onde fica a cedilha) de realidades alternativas. Passar de faze e seguir evoluindo.


Darcy Brasil Rodrigues da Silvad - 06/01/2012
Bem, hoje,infelizmente, tenho que devolver o computador para o amigo que está a regressar das férias.Desculpem os comentários quase em cascata, mas é que eu sabia que este momento iria chegar.A lamentar apenas a forma imperfeita da escritura, motivada ,sobretudo, pela quase obsessão em escrever,pouco importando a dimensão da convicção em cada caso .Explica-se:há quase 11 meses sem computador e sem ler nem postar nada,seja neste portal, seja em qualquer outro, perde-se tanto o jeito para escrever quanto a noção do que vai indo pelo mundo.De qualquer sorte,recebi pelo correio,alguns livros que encomendei ao meu irmão.Decidi que está na hora de voltar a reler e estudar os clássicos do marxismo-leninismo.Sugiro que a maioria das pessoas deviam fazer o mesmo, relendo,principalmente,os textos econômicos de Marx,que nos fornecem a chave para compreender a crise em curso.Aliás,não tenho a menor dúvida de que se o nosso filósofo francês fosse sabatinado sobre a obra de Marx, seria apanhado em flagrante delito de desconhecimento justamente dos textos econômicos de Marx que ele renega.Esse fenômeno já o conheci na Uff,quando estudava Ciências Sociais,justamente entre os "mestres" formados sobre a influência da chamada "Escola Francesa", onde se operou uma verdadeira obra de demolição do marxismo ,repetindo-se precisamente aquilo que Lênin já tinha denunciado a propósito dos "socialistas de cátedra", ou seja, um trabalho de revisão do marxismo,onde aceita-se tudo , menos a "sua alma revolucionária".Não é coincidência que este movimento de "revisão do marxismo" tenha surgido novamente no seio do movimento acadêmico,pois este é ,certamente, o ambiente mais propício à influência do pensamento intelectual não orgânico,no sentido partidário.O marxismo é uma teoria que se alimenta a partir de um partido,de sua interação com a luta de classe,constituindo aquilo que se denomina práxis, e não a partir do somatório de idéias surgidas em cabeças auto-suficientes de qualquer intelectual que pensa poder encontrar sozinho, em si mesmo, as soluções dos problemas do mundo,sempre supondo que detém algo novo,jamais imaginado antes.Uma das formas mais recorrente de se combater o marxismo tem sido a de opor os textos filosóficos de Marx aos seus textos econômicos....Um grande abraço a todos e um feliz ano novo! Em Junho, se tudo der certo, creio que vai dar para comprar meu próprio computador.O meu amigo,com certeza,continuará acessando o portal Carta Maior que ele já o conhece,dado que o apresentei, e confirmou ter gostado.Valeu!


Ibsen Marques - 06/01/2012
Me parece que em havendo a queda do liberalismo algo deverá substituí-lo de pronto. O que exatamente vai fazer com que o homem abandone esse seu estado de egoísmo? Duvido que a simples derrocada do sistema seja capazde reconstruir, ou mesmo iniciar a reconstrução do homem novo. Infelizmente não sou tão otimista, inclusive com relação a essa percepção de que o liberalismo minou água. A mim me parece que a maioria das pessoas não se deu conta de nada disso, principalmente aqui no Brasil onde há uma classe emergente sedenta por realizar seu sonho liberal consumista. Tavez esse seja o grande mal dos governos Petistas, isto é, a ilusão do consumismo, a elevação de uma classe não para obter acesso à saúde e educação, mas para poder consumir, comprar seu carro, seus eletroeletrônicos etc. Os bancos por aqui se refestelam com recordes de lucro semestre após semestre. O que quero dizer é que o homem é cego mesmo na queda. Sou pessimista porque acho que destruiremos o planeta antes de nos tornarmos simpáticos, não há mais tempo para consertarmos as coisas. os motores pararam de girar, mas a inércia continua a nos mover para o abismo. Finalmente podemos chamar o filósofo Marx de Utopia, pois não há mais tempo para voltar atrás e admitir que ele estava certo.


Jorge Ernesto Couto de Castro - 06/01/2012
Mas que belo texto! E o que mais me chamou a atenção nele, foi que ele deu outro sentido para a palvara simpático, eu sempre pensei nessa palavara como sinônimo de educado, de gentil, e ele me mostrou um sentido que eu não sabia que essa palavra poderia ter, eu concordo com ele, independente de doutrinas ou ideologias, o mundo poderia ser melhor se as pessoas fossem mais simpáticas umas com as outras conforme o que ele disse, realmente o nosso mundo precisa de pessoas mais simpáticas.


carlos saraiva e saraiva - 06/01/2012
Texto interessante com elegantes conceituações e reflexões. Creio que não podemos diferenciar Marx; jovem e velho, bem como; Marx, economista e filosofo. Podemos reconhecer Marx, como um filósofo, que soube decifrar várias doutrinas e construir sua doutrina, da libertação do homem. Doutrina, radical, pois deveria ir até a raiz do homem para libertá-lo. Liberdade, que deveria ser construida com o outro. Igualdade, construida no respeito à desigualdade. Fraternidade, construida na solidariedade. Subjetidade, alicerçada na intersubjetividade. Sem senhores nem escravos, sem opressores nem oprimidos. E esse pensamento, a própria história , só poderia ser consolidada após a transformação da sociedade capitalista com a instalação da sociedade comunista. Para isso teve que estudar e escrever sobre a sociedade capitalista, cuja base se escora no fetichismo da mercadoria, na alienação, transformando o homem em uma mercadoria, com seu valor de troca ou uma coisa descartável. Assim o homem liberto do amanhã, será o homem pós capitalista. Os caminhos são muitos, os sonhos muitos mas para alcançar essa utopia, temos de continuar caminhando.


Leandro Tavares - 06/01/2012
Gostei do texto, embora não concorde que devemos esquecer o Marx maxista, mas somar a este o Marx filosófo para as reflexões sobre o mundo atualmente.


Ju - 06/01/2012
Olá, boa noite, não fui muito "simpático ao texto" acho que o autor apenas põe em relevo questões postas anteriormente de forma grosseira. Como alguns próprios companheiros puderam expressar. O tal filosofo levantou questões muito indeterminadas. Acredito que muitos outros autores trataram as suas questões muito antes e com mais propriedade. A ideia de totalidade, ou, como se tem afirmado ""totalitarismo"... não consegui compreender!!! Segundo ponto, Marx nos deu uma ¿teoria social¿ tentando explicar a origem, ascensão e as crises do sistema capitalista, e possibilitou outros autores se apropriar do seu método (materialismo-histórico e dialético) para tentar explicar a atual fase no capitalismo. A influência foi marcante no seu tempo os economistas, Hegel e dos movimentos comunistas. Marx sempre negou a denominação marxista, pois sua obra assim como ocorreu no tempo, acabou tornando suas palavras doutrinas. Terceiro ponto, Marx nunca separou individuo do mercado, refiro ao final do texto, quando se tratou no texto de afirmar o individuo fora do circuito do mercado. O próprio Marx é fruto do processo de desenvolvimento e acumulo de conhecimento, a divisão do Marx filosofo, ou, Marx economista precisa tomar os devidos cuidados. Por último sinalizar a obra do "jovem Marx" concordo com o filosofo, são obras ainda desconhecidas e muitas vezes imprecisas na sua interpretação, principalmente, e não somente por isso, após a Queda do Muro e o fim da URSS, o cenário tendeu a colocar um fim na história e um anti-marxismo. Sendo Marx essencial como obra de fundamental importância para compreendermos o momento que vivemos. Abraço


Ana Cruzzeli - 06/01/2012
Eu posso está sendo megalomaníaca, mas acho que o Lulismo é justamente isso que o filosofo fala. O hibrido, o que há de bom em todas as filosofias estão acontecendo na pratica aqui no Brasil e tudo misturado. A evolução social é um processo que nunca termina. Aprendemos que não escravizar era mais lucrativos, depois que dividir era mais sensato e barato e agora chegamos a condição que países imperiais não mais cabem no mundo globalizado. Talvez a grande pangea esteja verdadeiramente nascendo hoje. Nunca tanto povos se preocuparam com outros tão distantes. Os cabeças de planilha ainda não percebem e resistem em perceber, mas isso já não depende deles.


Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 06/01/2012
Devemos desconsiderar reflexões,como estas, tão comuns ao neoidealismo academicista? Claro que não!Como toda reflexão inteligente,fundada em razoável cultura filosófica, capaz de abarcar Kant,entre outros geniais precursores do marxismo, nelas podemos nos ver face a face com conteúdos e idéias sedutoras ,ainda mais quando- e isto o autor omite- o caldo de cultura derivado das desilusões com o fim do socialismo real ,por parte de uma pequena-burguesia encerrada nas academias, tanto da Europa como de além- mar,nos legou a obra-prima do pós-modernismo, digna de ter sido considerada por Marx em a "Ideologia Alemã", se aos "heróis hegelianos de esquerda" tivesse ocorrido a centelha que só aos gênios solitários é dado ocorrer, antecipando em mais de 150 anos a revelação divinal. Sim senhor, devemos jogar no lixo 90% das obras marxistas e nos voltarmos para os seus textos da juventude! Pena que Marx não leu Marx,sobretudo esse Marx juvenil, cheio de apelos ao humanismo puro,paz e amor, um Marx que ainda não tinha tido o espírito deformado pelos pesados textos dos economistas clássicos ingleses,e que terminaria por nos legar ,ele próprio, mais chumbo ainda,com os grossos volumes de o "Capital", produzidos por quase 40 anos de sistemático e meticuloso estudo dos mecanismos de funcionamento do capitalismo.Que pena também que-talvez através de um sonho-não pode intuir os sábios conselhos que agora temos a oportunidade de seguir.Imaginem só quantos anos de vida inútil teriam sido poupado ao pobre Marx se ele tivesse se lembrado de reler o que escrevera nos tempos em que ainda não era,nem poderia ser considerado como, um marxista! Puxa ,só em pensar a carga de sofrimento que teria sido evitada, não apenas por Marx, mais pelos milhares de marxistas que surgiram depois dele,nossa! Eu mesmo - e tenho certeza que a maioria dos leitores também- levei mais de 8 anos para estudar o "Capital".Isto há mais de 15 anos atrás.Nesse momento,coincidentemente,deliberei rever este estudo e comecei a ler, precisamente hoje, o capítulo I do volume I, aquele que Marx considera ser o mais difícil,por ser o mais abstrato.Sorte a minha ter baixado o iluminado artigo.Agora, é só rever as idéias de Marx, quando ele era ainda também um menino,contado entre os hegelianos de esquerda pois,embora nem ele mesmo o sabia, ali estaria a chave para superar a tríplice maldade produzida no século XX.


Baby Siqueira Abrão - 06/01/2012
É impressionante como o indivíduo proposto por Dufour resgata o ser humano analisado por Espinosa em sua Ética. Será que o filósofo francês contemporâneo esqueceu-se do filósofo holandês do século XVII? Outro resgate -- o nosso, como humanos -- tem suas referências em Espinosa. Não há como não lê-lo, estudá-lo, citá-lo. Foi isso, aliás, que Marx fez, e muito. Leiam-se ambos e encontrar-se-ão as influências de Espinosa no pensamento de Marx.


Dárcio Argento - 06/01/2012
Essas questões já foram levantadas, e com muito mais propriedade, há pelo menos 20 anos pelo grupo Krisis, na Alemanha, no calor do desmoronamento do socialismo de caserna, quando a esquerda tradicional andava perdida como cego em tiroteio. No entanto, esses renegados -pela direita e pela esquerda - como Robert Kurz, Rositha Scholz, Moished Postone, Roberto Schwarz entre outros continuam travando seus combates e fazendo escola ao que parece. Infelizmente esse tal 'Marx filosófico' é um ilustre desconhecido pela esqueda tradicional e sua pobre interpretação da obra de Marx, ainda mais no Brasil, onde um texto essencial - Os Grundrisse - só foi publicado recentemente. Gerações de marxistas foram formados sem ler Os Grundrisse. Lenin e Gramsci nem sequer leram a Ideologia Alemã nem os Manuscritos Fiosóficos!!! Publicados apenas em 32. Passou a hora de recuperar esse 'Marx filosófico', o marx do fetichismo, da alienação e do sujeito automático. Ainda assim será uma tarefa difícil, devido a décadas de deturpação stalinista e interpretações antidialéticas que pipocaram por todo mundo, principalmente dentro dos PC´s e afins. Senão, as esquerdas toma o bastão do poder mas continuam a nos levar, mesmo com toda fraseologia pretensamente revolucionária, a mesma alienação, fetichismo e automatismo do Capital, agora temperada com boas doses de consumismo e ultra-individualismo.


Jorge Ipiranga - 06/01/2012
Lamento a frase final do entrevistado. Indica um desprezo injustificável pela obra de Marx.


Lazaro Brandao - 06/01/2012
Concordo com o Claudionor Damasceno quanto Concordo com o Claudionor Damasceno quanto à confusão dos conceitos e acrescento: esse pensamento de esquerda "best-seller" retira o essencial do processo para se ater a especulações excentricas, como se o individuo se desvinculasse do modo de produção. As mediações são inúmeras e as possibilidades, infinitas; todavia, enquanto os conceitos como "capitalismo" e "dialética" não forem tratados seriamente, vão-se construindo relações espúrias algumas feitas por Dufour.


Roberto della Santa - 06/01/2012
Interessante argumentação, apesar e contra o que ali parece ser o central: a defesa de um suposto Marx contra um pré-suposto Outro Marx. A questão da individualidade pós-liberal foi bem explorada na polêmica seminal de Marshal Berman e Perry Anderson que, no Brasil, repercutiu via revista Novos Estudos Cebrap e Editora Boitempo, por um lado, e, por outro, em enasio de Marcelo Ridenti por ocasião do 150o. aniversário do Manifesto do Partido Comunista (depois reeditado em livro recente, Brasilidade Revolucionária).


cláudio henrique gouvêa - 06/01/2012
Esquecer o "Marx marxista" sem ao menos preocupar-se em aplicá-lo segundo a realidade atual, é o mesmo que concordar com a barbárie que se avizinha.


carlos - 05/01/2012
Belo texto, com o raro poder de organizar e gerar sentido, de apresentar uma linha historica das ultimas tres idelogias que sequestraram a liberdade, a felicidade e beleza humanas, o nazismo e stalinismo e o neoliberalismo.O poder deste texto esta em nos lembrar dos erros e apontar o unica caminho possivel : O respeito ao ser humano e a vida como valor absoluto. parabens pelo artigo.


Nelo de Carvalho - 05/01/2012
Quas são estes textos de Marx, a Carta Maior poderia publicá-los aqui. Afinal, se os textos por algum motivo ou razão foram ignorados ou ocultados, chegou a hora de se dar mais destaques a estas obras de Marx.


Eunice - 05/01/2012
No Brasil, o liberalismo representado pelo Governo FHC e continuado, com pequenas mudanças no governo Lula está sendo questionado pela população no nivel sentimental, de experiências pessoais, porém sem total consciência, ainda, mas tentando formular uma expressão e recusa que possa servir de base a uma nova fase ascendente para a humanidade.

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