Quinta-Feira, 22 de Junho

09/06/2017 16:15 - Copyleft

Israel-Palestina, meio século de conflito

O conflito Israel-Palestina passou a ser considerado uma guerra de baixa intensidade e, consequentemente, sua solução perdeu o caráter de urgência.


Leneide Duarte-Plon, de Paris*
Reprodução

Durante quase cinco décadas, o conflito entre israelenses e palestinos foi um problema cuja resolução era uma prioridade da política externa americana e européia.


No entanto, depois de tentativas frustradas de « processos de paz » o status quo da ocupação e da colonização das terras palestinas por Israel foi passando a segundo plano com a emergência de guerras e conflitos de novos protagonistas.


Aos poucos, esse status quo foi adquirindo aparência de normalidade para a Europa e para os Estados Unidos, que passaram a intervir em outras guerras.


O conflito Israel-Palestina – que Edgar Morin chamou de « câncer  do Oriente Médio » – passou a ser considerado uma guerra de baixa intensidade e, consequentemente, sua solução perdeu o caráter de urgência.


A gangrena da ocupação


Porém, em Israel existe uma consciência moral que considera que a colonização gangrena não apenas o ocupado mas também o ocupante.


O maestro e pianista internacional Daniel Barenboim é uma dessas vozes. Judeu de origem russa nascido em Buenos Aires, Barenboim tornou-se um militante dos direitos dos palestinos com quem ele compartilha o amor da música na orquestra que fundou, chamada « Divan ocidental-oriental », que reúne músicos israelenses, árabes e palestinos e se apresenta no mundo inteiro.


Esse músico extraordinário tem, desde 2008, um passaporte palestino, além do argentino e do israelense.
Sua história pessoal lhe dá autoridade moral para escrever no jornal « Libération » desta sexta-feira, 9 de junho, um artigo que aponta a responsabilidade da Alemanha e pede a ação efetiva da Europa.


Ele que lembra que no dia 10 de junho de 1967, com o fim da « Guerra dos Seis Dias », Israel começou a ocupar os territórios palestinos delimitados pelo Plano de Partilha da Palestina que criou Israel, em 1948. Por esse plano, aprovado pela Assembléia Geral da Onu em 29 de novembro de 1947, a Cisjordânia e Gaza se tornariam o futuro Estado da Palestina, com Jerusalém Leste como capital.


« Mesmo quem pensava que a guerra dos Seis Dias, que terminou em 10 de junho, foi necessária para a defesa de Israel não pode negar que a ocupação e suas consequências representam uma catástrofe absoluta. Não somente para os palestinos, mas igualmente para os Israelenses, de um ponto de vista estratégico e moral », escreve Barenboim.


Baremboim chama a atenção que 2018 marcará para os palestinos os 70 anos da « Al-Nakba », « a Catástrofe », quando mais de 700 mil palestinos foram banidos de suas terras como consequência do plano de partilha da Palestina e da criação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948.


Ora, Al-Nakba dura ainda pois mais de 5 milhões de desdendentes diretos de palestinos vivem um exílio forçado e uma solução justa com o direito ao retorno dos palestinos precisa ser negociada com Israel.
O músico vê nos alemães os responsáveis em última instância pelo status quo que reina entre israelenses e palestinos pois « sem o holocausto não teria nunca havido a partilha da Palestina, nem a Al-Nakba, nem a guerra de 1967, nem a ocupação ».


Por isso, ele convoca a Alemanha e a Europa a assumirem a responsabilidade para com os palestinos.
« Isso significa tomar medidas contra Israel e pró palestinos pois a ocupação durável é inaceitável moralmente e estrategicamente e precisa acabar ».


Nova geração de israelenses contra a ocupação


Michael Sfard é um jurista de 47 anos, neto do grande sociólogo Zygmunt Bauman, especializado na defesa de vítimas palestinas da ocupação na Cisjordânia, de soldados que se recusam a servir nos territórios ocupados e de ONGs perseguidas por incomodarem o governo de direita de Netanyahou.
Ele foi categórico na avaliação que fez numa longa entrevista ao « Le Monde » :


« Durante cinquenta anos, a ocupação foi justificada e o direito tratou de absolvê-la. A ocupação repousa sobre o tripé : a arma, a colônia e a lei ».


A geração de jovens que se opõem ao serviço militar para não serem enviados aos territórios ocupados foi o tema de um dos sete artigos que o « Le Monde » publicou para marcar os 50 anos da ocupação.


A partir do testemunho de três moças que se recusaram a servir o exército, o correspondente Piotr Smolar contou a história de quem paga com a prisão o fato de não querer participar da máquina de repressão em que se transformou o exército israelense. Essas israelenses criaram uma ONG chamada « Mesarvot », herdeira de « Yesh Gvul » (que significa « Existe uma fronteira »).


Além delas, a ONG « Breaking the Silence » reúne ex-militares que publicaram em 2015 relatos das repetidas violações dos direitos dos palestinos e da brutalidade do colonialismo. O exército se vê muitas vezes reduzido a proteger um punhado de colonos que vivem no meio de uma população de milhares de palestinos, como em Hebron.


Yuli Novak, uma jovem que serviu o exército e dirige atualmente « Breaking the Silence » vê Israel como « uma democracia em erosão ». « O racismo anti-árabe passou a fazer parte de nós mesmos », afirma Novak.


Causando horror aos defensores da colonização, o israelense Hagai El-Ad, de 47 anos, da ONG « B’Tselem », de defesa dos direitos humanos, foi ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em 14 de outubro de 2016 para expor sua visão da ocupação israelense. Ao « Le Monde », ele declarou :
« Continuam a querer evitar o debate sobre o futuro do país. O problema essencial é que há meio século se controla a vida de milhões de palestinos, privando-os de direitos por diferentes mecanismos : do exterior, na Faixa de Gaza, e pela anexação de Jerusalém Leste ou pela ocupação, na Cisjordânia ».
O diretor da mais célebre ONG israelense, « Paz agora » o publicitário Avi Buskila tem uma história de heroísmo, pois foi inclusive condecorado por Benyamin Netanyahou por ter evitado um massacre que um colono judeu queria realizar contra palestinos, num mercado de Hebron.


« A esquerda não explicou suficientemente ao público que não se trata de dar algo aos palestinos mas de devolver », diz o militante de « Paz agora », que se diz otimista pois entre as novas gerações de Israel numerosos são os que não pensam somente na sobrevivência do país mas também no seu futuro.
* Leneide Duarte-Plon é autora de « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado » (Editora Civilização Brasileira, 2016)».



Créditos da foto: Reprodução



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