Segunda-Feira, 01 de Setembro

14/07/2011 - Copyleft

O Brasil e os Estados Unidos: relações globais e bilaterais


Cristina Soreanu Pecequilo
Cristina Soreanu Pecequilo

Nos últimos meses, o Brasil e outros países emergentes como a China e a Índia foram foco de investidas norte-americanas, criticando sua projeção de poder e ações autônomas no sistema internacional. Contraposta à premissa da multipolaridade, a do domínio hegemônico ocidental foi reafirmada em inúmeras oportunidades pelo Presidente Obama e a Secretária de Estado Hillary Clinton, refutando as teses de declínio. Da mesma forma, nações africanas foram “alertadas” pelos Estados Unidos (EUA) sobre o “novo colonialismo” praticado por estes emergentes.

Paralelamente, no embate interno, a administração democrata enfrenta forte campanha midiática neoconservadora sobre a sua futura derrota eleitoral em 2012, não importando a ausência de um candidato republicando definido, e as pressões estruturais de uma economia em crise quase que permanente, vide o recente debate sobre a elevação do teto da dívida norte-americana. Diante deste cenário, prevalece a imagem, e realidade, de uma sociedade fragmentada, pressionada por grupos de interesse e dividida entre projetos polarizados.

Em meio a isso, porém, novo documento elaborado por uma força tarefa do Council on Foreign Relations (CFR) intitulado “Global Brazil and US-Brazil Relations” (disponível em http://www.cfr.org/brazil/global-brazil-us-brazil-relations/p25407) voltou a gerar, em parte do debate nacional brasileiro, principalmente nas esferas mais próximas às políticas de alinhamento com os EUA, elevado otimismo. Similar à expectativa causada pela visita do Presidente Obama em março de 2011 ao país, inclusive por abordar de forma “positiva e aberta” o reconhecimento do poder global do Brasil no atual quadro das Relações Internacionais, o texto lançado neste mês de Julho de 2011, já vem sendo muito comentado.

Todavia, estas manifestações, mais uma vez parecem descoladas da própria contextualização do relatório, um estudo sustentado nos desenvolvimentos dos últimos dez anos, e não uma reação imediatista norte-americana à nova administração Dilma Rousseff que assumiu em Janeiro de 2011. Novamente, no debate brasileiro, o arco que engloba os dois últimos anos da administração Fernando Henrique Cardoso (1999/2002) e a totalidade do governo Luis Inácio Lula da Silva (2003/2010), como sustentáculos desta transformação, principalmente a fase Lula-Celso Amorim, está obscurecida.

Igualmente, ignora-se, que este é um relatório específico, de um think tank relevante, mas, também específico. Ligado a uma parcela do establishment, o CFR é uma entidade altamente reconhecida dentro do debate político norte-americano, tradicional na realização da ponte entre setores acadêmicos, empresariais e governamentais de formulação de política externa e tomada de decisão, que, contudo, não representa consenso ou prevalece com tranqüilidade dentro da Casa Branca, do Departamento de Estado ou de Defesa. Assim, recomendações como a de que os EUA devem incluir o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSONU) como membro permanente, representam visões deste grupo, e não necessariamente a totalidade das visões que competem politicamente nos EUA.

Esta questão específica do assento no CSONU é inserida em uma proposta abrangente de fortalecimento e amadurecimento da relação, em termos discursivos e práticos, como a instalação de novas formas de contato entre as diplomacias, e uma percepção norte-americana mais ampla sobre o papel do Brasil, na região, no mundo e no sistema multilateral em geral e não só na ONU. Ou seja, apesar das boas relações que os EUA têm com o Brasil hoje, o texto considera que os norte-americanos precisam aprofundar ainda mais estes laços, baseado em uma visão histórica de prévias alianças, mas, principalmente, de necessidades futuras dos EUA, seja em termos de engajamento do poder brasileiro, como de sua contenção e dos demais emergentes.

Trata-se de um relatório bastante completo, no qual o Brasil é examinado em sua dimensão nacional, suas ações globais e regionais, e o que isso significa para as relações bilaterais. Não cabe aqui adentrar nos pormenores do relatório uma vez que o mesmo é extenso, mas é interessante destacar, por capítulo o que os EUA identificaram como pertinente no que se refere ao país. No capítulo “A Economia Brasileira: Mecanismos e Obstáculos” menciona-se a necessidade de ajustes macroeconômicos (juros, crescimento e inflação), o impacto das ações dos EUA no país (muito brevemente), e a relação comercial com a China. Nesta parte, indica-se que seria interessante que Brasil-EUA tivessem posições conjuntas para reduzir o impacto chinês em seus mercados. O capítulo se encerra com uma discussão extensa sobre os potenciais domésticos e os inúmeros pontos de estrangulamento do Brasil: infraestrutura, educação, agricultura, mineração e metalurgia, crescimento da classe média e inovação.

No segundo capítulo “A Agenda Energética Brasileira e as Mudanças Climáticas”, destaca-se o papel positivo do Brasil no uso de uma matriz variada de energia e a preocupação com o desenvolvimento sustentável. Espaço significativo é reservado à discussão das reservas do pré-sal brasileiro, assim como ao gás e ao etanol. Petróleo e etanol, porém, são o foco. Em termos de agenda climática, controle de emissões, desmatamento, Amazônia, biodiversidade são abordados, com os EUA mantendo suas posições tradicionais de ressaltar a relevância do engajamento do Brasil no tema, sua liderança no setor.

Na sequência, o capítulo “Brasil como um Diplomata Regional e Global” dá grande destaque às alianças globais do Brasil como BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), IBAS (Índia, Brasil, África do Sul), o papel na Missão de Estabilização do Haiti (MINUSTAH) e retoma o tema do assento permanente no CSONU. Temas sensíveis como Irã, Direitos Humanos, abstenções brasileiras em votações do CSONU não apoiando a posição dos EUA são discutidas, ressaltando a importância dos norte-americanos compreenderem “o porquê das posições diferentes do Brasil”, estendendo-se ao comércio multilateral e a estrutura econômico-financeira global. Segundo o relatório, os EUA não devem esperar consenso pleno do Brasil por conta de suas alianças com outras nações e sua visão de autonomia (e que isso faria parte de uma tentativa de provar independência e distanciamento dos EUA, mesmo quando o Brasil concordasse com este país). Como se percebe, uma visão norte-americana das motivações brasileiras.

No que se refere à região sul-americana, considera-se que a liderança brasileira da integração é positiva para os EUA, devido ao papel mediador e estabilizador brasileiro, em termos políticos e financeiros. Aborda-se, igualmente, a política africana do Brasil, continente no qual os norte-americanos perderam espaço para o país, a China e a Índia nos últimos anos.

O último capítulo é dedicado especificamente a “Brasil e Estados Unidos”, indicando a boa vontade mútua. Adentrando inicialmente os temas Irã e Segurança Nuclear, o capitulo segue para comércio e investimento, para voltar a temas de segurança como imigração e tráfico de drogas, saúde, biocombustíveis, mudança climática. A conclusão segue parâmetro similar, com foco em três pilares: interesses comuns, parceria madura e aproveitar o momento. Segundo o relatório, este é o tempo para avançar as relações bilaterais, alcançando benefícios mútuos.

Finalmente, não se pode negar que o documento é, realmente, um marco para as relações bilaterais Brasil-EUA, independente das ressalvas aqui colocadas. Apesar do longo histórico de relacionamento, do auge dos estudos de brasilianistas nos anos 1960 e 1970, o intercâmbio sempre foi visto por um prisma regional. Tal prisma, estruturalmente, localizava a importância do Brasil para os EUA na América Latina. Em algumas circunstâncias históricas norte-americanas nem mesmo este viés prevalecia, com a predominância de uma visão generalista da política externa dos EUA sobre o país inserido em “pacotes prontos” para o hemisfério, vide as discussões da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e propostas anteriores.

Assim como a Estratégia de Segurança Nacional de maio de 2010, publicada pelo Presidente Obama, trata-se de um documento progressista e que revela as limitações dos EUA e a sua capacidade de renovação estratégica para lidar com parceiros na dinâmica do “engajar para conter” (i.e, de reinventar a hegemonia). Ao mesmo tempo, uma renovação que disputa espaço com o declínio e o tradicionalismo, o isolacionismo, o intervencionismo e o unipolarismo, gerando as reações e contrareações hegemônicas já abordadas em artigo para Carta Maior. Reações e contrareações que não se resumem a determinados grupos, mas possuem ressonância em Washington, assim como este próprio relatório também terá. Assim, no debate nacional não podemos nos esquecer que este é um texto norte-americano, produzido e direcionado, para o público norte-americano, e que terá o apoio de uma parte desta sociedade, como visto na p.3:

As conclusões da Força Tarefa e suas recomendações são direcionadas não somente as formuladores de políticas que lidam com as Américas, mas também aqueles que nos EUA e em outras instâncias, são responsáveis por decisões em questões estratégicas globais, temas econômicos e mecanismos multilaterais nos quais a voz e a ação do Brasil são relevantes. As conclusões e recomendações deste relatório fornecem uma estrutura para políticas bipartidárias- globais, regionais e bilaterais- que levem em conta as oportunidades e desafios da ascensão brasileira, no momento em que os Estados Unidos e o Brasil enfrentam as grandes questões internacionais do século XXI.

Portanto, são conclusões e recomendações para os EUA sobre o Brasil, mas que devemos obrigatoriamente compreender sob nosso ponto de vista, dentro de um projeto nacional de reposicionamento interno e global. Mais ainda, como um poder global hoje, demonstra-nos a necessidade de melhor estudar, e compreender, nossos parceiros mais próximos, sejam eles os EUA, a China, a Índia, a África do Sul, as nações sul-americanas, os continentes africano e asiático. Somente a partir deste olhar, poderemos elaborar nossas conclusões e recomendações sobre nossos pares, para nós mesmos.

(*) Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)





David Franco - 19/07/2011
Gostei muito do artigo. Bem centrado, sem extremismos. Deve-se ressaltar que nossas exportações para os Estados Unidos tinham um valor agregado bem maior do que as compradas pela China (que compra praticamente só matéria-prima). Mas muitas dessas exportações foram absorvidas pela China. Precisamos de uma política forte de industrialização para o século XXI e pesquisa científica, se não quisermos continuar como fornecedores de matéira-prima da China. Mas uma coisa é certa: a economia manda. Se não for atrativo para as empresas se estabelecerem aqui, não adianta outro tipo de estímulo do governo. A China tem mão de obra barata e o Brasil tem matéria-prima barata, mas quando a robótica estiver mais avançada, quem ganhará? Nós, é claro, pois a robótica substituirá a mão de obra mas continuará precisando da matéria-prima. Resta agora saber quem controlará nossas matérias-primas.


Marco Martini - 16/07/2011
A nova posição do Brasil no cenário econômico e geopolítico, fruto do nosso crescimento e posicionamento nos oito anos do governo LULA, nos obriga a reformular nosso posicionamento. Não poderemos ocupar o espaço que potencialmente está à nossa disposição sem uma política externa coerente com esse espaço e com nosso projeto de país. Não se toma boas decisões com base em preconceitos da época da guerra fria. A compreensão da importância dos Estados Unidos na economia e nas relações internacionais não implica em subordinação: é compreensão da realidade para melhor definir nossa estratégia nacional. Subordinação era o que movia a equipe de Fernando Henrique: não podia ver alguém que tivesse algum poder sem ajoelhar e beijar a mão. Aquele Brasil não existe mais, e o novo Brasil que nasce precisa compreender sua estatura e seu papel.


Pablo Oyarzún - 15/07/2011
Yankes Go Home!!! ...diga me com quem andas, e te direis quem és!


edvan - 15/07/2011
Não sei, até onde, estes avaliações e necessidade de não perde de vista o Brasil são saudáveis ao nosso país, tendo em vista a exploração realizada ao longo da história, no Brasil e postura covarde que os norteamericanos tem com qualquer outro povo. Derrubada de governos populares, apoio a instauração de ditaduras e por aí vai.


Rodrigo - 15/07/2011
A relação do Brasil com os EUA, por razões diversas, é essencial; os Eua são nosso segundo parceiro econômico, é a maior economia do mundo, maior potência militar e projeta ambos interesses em todo o globo, especialmente na América Latina. O que impede o Brasil de alçar essa relação à uma condição mais promissora é a centralidade da agenda externa estadunidense. A política para o setor energético é dúbia (aumento de investimentos na matriz nuclear e levantamento de algumas barreiras ao etanol brasileiro), a política para o Oriente Médio nos deixa com a dúvida sobre se não seria ela, apenas para manter a máquina militar bombando, pois do contrário a recessão econômica nos EUA seria eminente, dramática, e faria o seu povo ter saudades de Roosevelt. A importância disso deve ser relativizada, mas no quadro da relação bilateral, seguramente haverão outros contrastes. Quanto ao CSONU, é inexirável o aumento de sua representatividade, no entanto, por que não questionamenos outros aspectos de sua razão de existência e funcionalidade? Por que não propõe-se um novo ordenamento que ponha fim de uma vez por todas a qualquer tipo de desenvolvimento de armas atômicas? Por que a ONU não pode chamar uma grande convenção econômica, aproveitar o que a sociedade civil tem a dizer sobre uma nova Ordem no mundo das trocas comerciais? E nem adianta dizer que enquanto o Brasil supostamente rebaixa a relação com os EUA estende a mão à ditadores ou fantáticos religiosos, pois a relação com Iran e Venezuela (para dialogar com os dois principais ataques ao Itamaraty) é risível perto da dedicação da nossa burocracia chancelar à manutenção de pontes para alguma agenda de cooperação com os vizinhos do Norte. O empenho brasileiro deve ser o de fazer valer o peso de nossas opiniões no que diz respeito a crise social norte africana e européia. As consequências delas decorrentes, sim, dizem respeito ao interesse do Brasil numa ordem mundial que conviva com diferenças culturais e nem diabolize expressões culturais pouco referenciadas na tradição judaico-cristã.


Eugênia - 14/07/2011
Ótimo artigo! Em especial destaco o parágrafo final: "Portanto, são conclusões e recomendações para os EUA sobre o Brasil, mas que devemos obrigatoriamente compreender sob nosso ponto de vista, dentro de um projeto nacional de reposicionamento interno e global. Mais ainda, como um poder global hoje, demonstra-nos a necessidade de melhor estudar, e compreender, nossos parceiros mais próximos, sejam eles os EUA, a China, a Índia, a África do Sul, as nações sul-americanas, os continentes africano e asiático. Somente a partir deste olhar, poderemos elaborar nossas conclusões e recomendações sobre nossos pares, para nós mesmos."


Ana Cruzzeli - 14/07/2011
Vixe Maria, depois dessa o FHC deve está se matando de tanta raiva, afinal são eles agora que estão escrevendo sobre nós e o que é pior só incluiram os dois ultimos anos do Fernandito já o anos do filho de Garanhuns foram incluidos os OITO, os OITO. Deus me perdoe mas é tão bom tripudiar da desgraça do Fernandito. Justiça tarda mas não falha, os oito anos de desgoverno que tanto causaram sofrimento ao povo agora tem suas justa recompensa.

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