Terça-Feira, 27 de Junho

04/03/2017 22:36 - Copyleft

Os três Trumps

Na história recente, nenhuma mudança de governo atraiu tanta atenção e especulação quanto a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA.


Jeffrey D. Sachs, Project Syndicate
Flickr

Na história recente, nenhuma mudança de governo atraiu tanta atenção e especulação quanto a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA. Para saber o que essa mudança significa e prenuncia é preciso desvendar três mistérios, pois há três versões de Trump.

O primeiro Trump é o amigo do presidente russo Vladimir Putin. O entusiasmo de Trump em relação a Putin é a parte mais consistente de sua retórica. Apesar de uma visão de mundo que enxerga os Estados Unidos como uma vítima de potências estrangeiras – China, México, Irã, União Europeia – Trump admira Putin ardorosamente.

Dependendo de quem observa, Trump seria um ingênuo admirador de homens fortes como Putin, ou um instrumento de longa data da inteligência russa. Há, quase certamente, uma história por trás desta crença, e que poderia destruir o governo Trump se algum dos sinistros rumores for confirmado. Já sabemos que algumas datas e detalhes importantes do infame "dossiê" sobre as relações de Trump com Putin, reunidos por um ex-oficial de inteligência britânico, foram confirmados.

Um crescente conjunto de provas circunstanciais sugere que Trump vem sendo apoiado por dinheiro russo há décadas. Oligarcas russos podem ter salvo Trump da falência pessoal, e um deles teria viajado a alguns destinos da campanha de Trump, agindo talvez como intermediário com o Kremlin. E muitos dos principais membros da equipe de Trump – incluindo o principal gestor de sua campanha, Paul Manafort; o recém-afastado Conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn; o ex-presidente da ExxonMobil e hoje Secretário de Estado Rex Tillerson; e o investidor-magnata e Secretário de Comércio Wilbur Ross – têm negócios importantes com a Rússia ou com oligarcas russos.

A segunda versão de Trump é o empresário ganancioso. Trump parece determinado a transformar a presidência em mais uma fonte de riqueza pessoal. Para a maioria das pessoas, a própria presidência já seria a recompensa, sem embolsar nada (pelo menos durante o mandato). Não para Trump. Contrariamente a todas as normas, e violando ospadrões estabelecidos pelo Departamento de Ética Governamental, Trump mantém seu império corporativo, enquanto membros da família manobram para capitalizar o nome Trump em novos investimentos ao redor do mundo.

O terceiro Trump é o populista e demagogo. Trump é uma fonte ininterrupta de mentiras, que rotula as inevitáveis correções feitas pela mídia como "notícias falsas". Pela primeira vez na história americana moderna, o presidente demoniza a imprensa de forma agressiva. Na semana passada, a Casa Branca vetou a presença do New York Times, da CNN, do Politico e do Los Angeles Times em uma coletiva de imprensa.

Muitos acreditam que a demagogia de Trump esteja a serviço de seu estrategista-chefe, Stephen Bannon, que defende a visão sombria de uma guerra de civilizações próxima. Ao elevar o medo ao nível mais alto possível, Trump pretende criar um violento nacionalismo America-first. Hermann Göring explicou a fórmula, de forma assustadora, de sua cela em Nuremberg, após a Segunda Guerra Mundial: "[O] povo sempre pode ser levado pela convocação dos líderes. É fácil. Tudo o que se tem a fazer é dizer-lhes que estão sendo atacados e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por expor o país ao perigo. Funciona assim em qualquer país."

Outra teoria é que os três Trumps – o amigo de Putin, o maximizador de riqueza e o demagogo – são, na verdade, um só: Trump, o empresário, há muito apoiado pelos russos, que o usaram durante anos como laranja para lavar dinheiro. Poder-se-ia dizer que eles ganharam na loteria, transformando uma pequena aposta – na manipulação do resultado de uma eleição que provavelmente nunca esperavam que ele vencesse – em um prêmio enorme. Nesta versão, os ataques de Trump à imprensa, às agências de inteligência e ao FBI visam especificamente a desacreditar essas organizações antecipadamente com o objetivo de neutralizar futuras revelações sobre as relações Trump-Rússia.

Nós que vivemos o Watergate lembramos como foi difícil responsabilizar Richard Nixon. Sem a revelação das fitas secretas da Casa Branca, Nixon teria quase certamente escapado do impeachment e terminado seu mandato. O mesmo ocorreu com Flynn, que mentiu diversas vezes para a opinião pública e para o vice-presidente Michael Pence sobre sua comunicação com o embaixador russo antes de assumir seu cargo. No entanto, como Nixon, ele só foi descoberto porque suas mentiras foram gravadas, agora pelas agências de inteligência dos EUA.

Quando as mentiras de Flynn foram reveladas, a reação de Trump, tipicamente, foi atacar não as mentiras, mas o vazamento. A principal lição de Washington, e da política da tirania em geral, é que mentir é sempre a primeira – e não a última – opção.

Se o Congresso tiver suficientes membros honestos, a maioria exigirá uma investigação independente sobre os laços de Trump com a Rússia, sabendo que os republicanos não policiarão republicanos. O senador republicano Rand Paul foi explícito sobre isto, declarando que "não faz sentido" para os republicanos investigar os republicanos. Trump parece concentrado em aumentar a pressão para fazer o FBI, as agências de inteligência, os tribunais e os meios de comunicação recuarem.

Demagogos sobrevivem de apoio público, que procuram manter através de apelos à ganância, ao nacionalismo, ao patriotismo, ao racismo e ao medo. Eles alimentam seus apoiadores com dinheiro de curto prazo, sob a forma de cortes de impostos e transferências de renda, pagos através de dívida pública e deixando a conta para as gerações futuras. Até agora, Trump tem mantido os plutocratas felizes, com promessas irreais de cortes de imposto, enquanto hipnotiza seus seguidores da classe trabalhadora branca com ordens executivas para deportar imigrantes ilegais e barrar a chegada de pessoas oriundas de países de maioria muçulmana.

Nada disso tornou Trump muito popular. Sua aprovação é historicamente baixa para um novo presidente, cerca de 40%, para cerca de 55% de desaprovação. As respostas da Justiça às ações executivas, as brigas com a mídia, as tensões decorrentes do aumento dos déficits orçamentários e as novas revelações sobre os laços com a Rússia manterão o clima político em ebulição – e o apoio público a Trump poderá evaporar.

Nesse caso, o mais provável é que os líderes republicanos se voltem contra Trump. Mas ninguém deve subestimar a disposição de um demagogo em usar o medo e a violência – até a guerra – para se manter no poder. E se Putin for, de fato, seu apoiador e parceiro, as tentações de Trump serão grandes.

 

Jeffrey D. Sachs é professor de Desenvolvimento Sustentável e professor de Políticas e Gestão de Saúde na Universidade Columbia, dirige o Centro de Desenvolvimento Sustentável da mesma universidade e a Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

 

Tradução de Clarisse Meireles



Créditos da foto: Flickr



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