Quinta-Feira, 22 de Junho

12/06/2017 15:23 - Copyleft

Reino Unido: O triunfo e a confusão

Se os ganhos dos trabalhistas na eleição puderem se mostrar transformadores para a esquerda, negociações para o Brexit prometem ser uma confusão prolongada


Robert Kuttner
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Há duas consequências da surpreendente eleição britânica. Primeira, há uma fome por um líder progressista e por um programa que leve em consideração o quanto a atual economia está destruindo seriamente as pessoas comuns. Contra todas as predições, Jeremy Corbyn provou ser uma versão plausível desse líder, assim como Bernie Sanders o foi nos Estados Unidos.
 
Mas, segunda, a batalha sobre a saída do Reino Unido da União Europeia atrapalhou seriamente a política mais ampla da esquerda e da direita. A confusão política será enfrentada pela confusão de um Parlamento dividido, em que nenhum partido terá maioria para governar.
 
Muito do descontentamento da classe trabalhadora britânica alimentou sua frustação econômica no referendum de 2016 sobre o Brexit. Apenas uma parte reduzida desse voto refletiu uma crítica nuançada da União Europeia como um agente da economia de mercado e do deslocamento do trabalho. A maior parte dos protestos foram puro nacionalismo – levem esses búlgaros fora de nossas cidades e parem com a burocracia de Bruxelas nos dizendo como demos viver.
 
Esse foi o tema do United Kingdom Indendence Party (UKIP) e do líder tipo Trump Nigel Farage – quando teve um momento breve nos holofotes, com o UKIP se tornando o segundo maior partido nas eleições de 2014 para o Parlamento Europeu, para desabar no ano seguinte. Entretanto, o agendo daquele colapso foi a Primeira Ministra Theresa May que, em sua essência, apropriou-se do programa do UKIP.
 
Infelizmente para os conservadores no poder, May estragou completamente a campanha nas eleições. Ao convocar uma rápida eleição, como forma de fortalecer sua mão nas negociações por vir com a liderança europeia sobre o Brexit, ela explodiu em seu rosto.
 
May apareceu como oportunista e conivente, enquanto Corbyn, há muito desqualificado tanto pela grande imprensa como pelos tabloides eurofóbicos como um esquerdista radical, surgiu como alguém com princípios, decente e que genuinamente se preocupa com os esquecidos britânicos comuns.
 
A conquista de Corbyn é algo próximo do extraordinário. Os trabalhistas tiveram mais de 40 % dos votos, em comparação com os apenas 30,6 % nas eleições gerais de 2015. Foi a maior virada dos trabalhistas desde a épica vitória de Clement Attlee’s contra Winston Churchill em 1945; Ainda recentemente, em abril, as pesquisas mostravam os trabalhistas por volta dos 20 e poucos %, e May se encaminhava para uma vitória retumbante.
 
Dadas as peculiaridades do sistema eleitoral britânico, May poderia chegar a um ganho ainda mais expressivo no voto popular – dos 36 % em 2015 para 49 % este ano – mas o ganho não se traduziu em assentos no Parlamento e ela perdeu uma maioria de 17 parlamentares em uma eleição absolutamente gratuita, vista agora como um erro épico. Ainda que May se mantenha agora, se aguarda que ela perca a liderança do partido.
 
Corbyn atraiu o voto jovem, que há muito vinha sendo afastado da política eleitoral. O comparecimento total, de 68,6 %, foi um pouco aquém daquele do referendum do Brexit em 2016, mas ele foi massivo entre os jovens entre 18 e 44 anos, de 43 % para espantosos 73 %. Seguramente isso fez a diferença para os trabalhistas.
 
Se Corbyn puder realizar uma mudança geracional duradoura trazendo os jovens para seu trabalhismo progressista, será uma conquista transformadora. Ao contrário de Sanders, Corbyn é agora a voz e a cara completamente – e a consciência – de seu partido.
 
Os trabalhistas estancaram também suas recentes perdas no norte da Inglaterra, onde a aposta era de que o apoio ao Brexit aumentaria o voto conservador nos redutos tradicionais trabalhistas da classe trabalhadora. A eleição enfraqueceu também o Partido Nacional da Escócia (SNP), em particular porque o SNP tem sido o partido dominante na década e nenhum milagre econômico aconteceu.
 
O movimento pela independência da Escócia agora está praticamente morto. O SNP, que perdeu  21 dos 56 nos assentos da Câmara dos Comuns, está agora ainda mais tendente a apoiar um governo de minoria trabalhista se esta oportunidade se apresentar.
 
Mas o que acontecerá agora?
O que acontecerá agora? A confusão parlamentar é a pior desde aquela de 1920, com nenhum partido com maioria. Isto é paradoxical, uma vez que os dois grande partidos tiveram a maior proporção do voto popular – quase 90 % - desde os anos 60. O Reino Unido está de volta a um sistema bipartidário em todo o país, menos na Câmara dos Comuns, onde pequenos partidos tiveram suficientes assentos para provocar um impasse.



Créditos da foto: .



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