Sábado, 19 de Agosto

09/08/2017 15:42 - Copyleft

Jornal 'O Dia' retirou Igreja Universal de matérias sobre Marcelo Crivella durante as eleições

Levantamento mostra que ao menos quatro matérias colocadas no ar desde o fim de 2015 foram atualizadas numa mesma data: 14 de setembro de 2016


Ruben Berta - The Intercept Brasil
 

 
A RELAÇÃO ENTRE o jornal “O Dia” e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, marcada em março deste ano pela demissão de um jornalista após a publicação de uma matéria crítica à atual gestão, teve outro episódio nebuloso. Um levantamento feito por The Intercept Brasil mostra que ao menos quatro matérias colocadas no ar desde o fim de 2015 foram atualizadas numa mesma data: 14 de setembro de 2016. Em todos os casos, o objetivo foi mesmo: retirar qualquer referência de relação entre Crivella e a Igreja Universal do Reino de Deus, da qual ele é bispo licenciado.

 

 



 
As alterações das reportagens do site de “O Dia” coincidiram com um período em que a campanha do primeiro turno das eleições de 2016 esquentava. Naquela época, o Ibope divulgara a segunda pesquisa da corrida pela prefeitura do Rio, consolidando Crivella na liderança, com mais de dez pontos percentuais à frente do segundo colocado. O candidato do PRB, porém, ainda tinha que lidar com um índice de rejeição de 24%, quarto maior entre os 11 postulantes ao cargo. Por e-mail, o presidente de “O Dia”, Marcos Salles, negou qualquer interferência política no conteúdo editorial do jornal.
 
O incômodo de Crivella em ver seu nome relacionado à Universal chegou a ser alvo de uma reportagem de “O Estado de São Paulo”, publicada durante o segundo turno das eleições cariocas. Segundo o jornal, o então candidato havia omitido no site de sua campanha o fato de ser fiel e bispo licenciado da igreja, dizendo apenas que “nunca sofreu nenhum tipo de influência de líderes religiosos”. A relação também foi muito atacada pelo seu principal adversário, Marcelo Freixo (PSOL), que chegou a questionar o opositor, durante um debate na TV Globo, sobre o “projeto político da Universal para o Rio de Janeiro”. Crivella também é sobrinho de Edir Macedo, fundador da igreja.

 



Palavras e frases cortadas
Os textos publicados em “O Dia” tiveram desde a simples retirada de palavras que faziam a relação entre Crivella e a Universal até o corte de frases inteiras. Para fazer o levantamento, TIB utilizou o site Web Archive, que possui o registro de mais de 302 bilhões de páginas em diversas datas, e comparou com as versões atuais que estão no ar, atualizadas em 14 de setembro do ano passado.  
 
No dia 7 de agosto de 2016, dias antes do início da campanha eleitoral, o jornal publicou uma entrevista com o candidato do PRB, que já aparecia no topo das pesquisas. O título era uma frase com uma provocação ao futuro adversário nas urnas Pedro Paulo (PMDB), que vinha sendo minado por acusações de agressão à ex-mulher. “Bato na trave, mas não bato em mulher”, disse Crivella, fazendo também uma referência às suas próprias tentativas anteriores mal-sucedidas de conquistar um cargo no Executivo.
 
Nesta reportagem, há um breve perfil de Crivella antes da sequência de perguntas e respostas. E é aí que surge a modificação. A frase original do texto dizia que “aos 58 anos, o engenheiro e bispo licenciado da Igreja Universal não mede também críticas aos gastos de R$ 14 bilhões da prefeitura carioca com a Olimpíada”. Na matéria atualizada em 14 de setembro, a expressão “bispo licenciado da Igreja Universal” simplesmente desaparece.

 

 



 
Uma modificação semelhante já havia sido feita na reportagem “Pré-candidato a prefeito do Rio, Marcelo Crivella vai se filiar ao PSB”, publicada originalmente em 25 de fevereiro de 2016. Atualizada no mesmo 14 de setembro, a matéria que falava sobre uma aproximação com o senador Romário – que futuramente se transformaria em rusgas – teve também a expressão “bispo licenciado da Igreja Universal” retirada, numa referência que havia sido colocada logo no primeiro parágrafo.   

 



Interferência até em nota de coluna
As alterações foram ainda além no caso de uma coluna publicada em 22 de maio de 2016 pelo jornalista Paulo Capelli, cujo tema principal também era a aproximação entre Crivella e Romário. Para que a referência à igreja criada pelo tio do atual prefeito do Rio, Edir Macedo, não aparecesse mais, foi retirada uma nota inteira: “Amigos de (Hugo) Leal (deputado do PSB) dizem que o fator religioso pesou na decisão de não compor a possível chapa: ele é ligado à Igreja Católica; Crivella, à Igreja Universal do Reino de Deus”.

 

 



 
Da reportagem “Record denuncia família Picciani, que acusa emissora de fazer campanha“, publicada em 25 de novembro de 2015, houve a retirada de uma frase inteira que, originalmente, fechava o texto: “Ainda segundo a assessoria (de imprensa do deputado), (Jorge) Picciani e filhos ‘consideram o material veiculado uma clara demonstração de que a TV Record, ligada à Igreja Universal e ao bispo Marcelo Crivella, candidato declarado à Prefeitura do Rio no ano que vem, já iniciou a campanha eleitoral’”.
 



 
A matéria tratava de uma reportagem veiculada à época pela Rede Record que relacionava a família de Picciani a uma mineradora que forneceria brita para a Prefeitura do Rio. O presidente da Alerj disse que iria processar a emissora.

 



Cobertura positiva sobre o atual prefeito
Além das alterações em reportagens antigas, a própria linha editorial adotada por “O Dia” nas matérias que envolvem o atual prefeito do Rio mostra um tom bem mais positivo do que crítico.  Em junho passado, por exemplo, no meio da polêmica em torno do corte de verbas no carnaval carioca, o jornal deu destaque a uma reportagem em cima de uma pesquisa contratada pelo próprio veículo cujo título dizia que a decisão de Crivella era apoiada por 78% da população.
 
A pergunta principal do levantamento, realizado pelo Instituto Paraná Pesquisas era: “Em São Paulo, a prefeitura destina R$ 25 por dia por crianças para as creches; em BH, R$ 20. No Rio, são R$ 10. Para destinar R$ 20 para as crianças das creches do Rio, o prefeito propôs diminuir os recursos que a prefeitura gasta com os desfiles das escolas de samba, passando de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão por escola. O sr.(a) concorda com esta diminuição?”.
 
Após a enchente que castigou a cidade em junho deste ano, uma das principais reportagens de “O Dia” sobre o assunto veio com o título “‘A cidade resistiu’, diz prefeito Marcelo Crivella após temporal no Rio de Janeiro”. Principal aposta para a sequência política da família, Marcelo Hodge Crivella, que agora adota o nome de Marcelo Crivella Filho, também tem periodicamente assinado uma coluna no jornal.

 



Prefeitura vai responder “do jeito que quiser”
Fundado na década de 1950, o jornal “O Dia” teve durante muitos anos o papel de um dos protagonistas da imprensa escrita carioca. Nos anos 1990, chegou a ter uma tiragem próxima a 500 mil exemplares aos domingos, com servidores públicos e aposentados entre os leitores fiéis. Na atual década, porém, a publicação entrou em uma grave crise, que provocou a demissão de diversos jornalistas. Em meio a atrasos de salários, profissionais chegaram a fazer uma paralisação em maio deste ano.  
 
Apesar da crise, o jornal pode ser um caminho para Crivella diante de uma realidade onde os outros dois grandes veículos impressos cariocas (“O Globo” e “Extra”) são controlados pelo Grupo Globo, adversário direto da Record, com histórica relação com a Igreja Universal.
 
Enquanto “O Dia” esconde as relações do atual prefeito com a igreja, “O Globo”, por exemplo, tem soltado constantemente reportagens que abordam o tema, como a presença de Crivella em cultos da Universal na África do Sul ou a cantoria no Senado em homenagem à igreja.
 
TIB enviou, na manhã desta terça (8) para a assessoria de imprensa do prefeito Marcelo Crivella as seguintes perguntas:
 
– O prefeito teve algum tipo de interferência, fez algum tipo de pedido para que reportagens que o relacionassem à Igreja Universal fossem editadas?
 
– O prefeito exerce algum tipo de influência editorial no jornal “O Dia”?
 
– Quanto a prefeitura gastou em publicidade em jornais impressos este ano e, deste valor, quanto foi destinado ao jornal “O Dia”?
 
Daniel Pereira, um dos assessores de imprensa da Prefeitura do Rio, ligou para a reportagem dizendo que havia se sentido “ofendido com as perguntas”. Em resposta ao pedido de que  enviasse as respostas por e-mail, afirmou que responderia “do jeito que quisesse”.
 
O presidente de “O Dia”, Marcos Salles, que assumiu o cargo em meados do ano passado, enviou por e-mail as seguintes respostas:
 
– O prefeito teve algum tipo de interferência, fez algum tipo de pedido para que reportagens que o relacionassem à Igreja Universal fossem editadas?
 
– Desde que assumi a presidência da empresa, determinei que não houvesse qualquer discriminação no nosso noticiário quanto à opção religiosa de qualquer político. Por isso, a orientação que repassei à redação é que cada um deles seja tratado exclusivamente por sua atuação no Legislativo ou no Executivo e não por sua religião, como acontecia até então. A imprensa nunca qualificou outros candidatos por sua opção religiosa, fazê-lo agora seria um ato discriminatório.
 
– O prefeito exerce algum tipo de influência editorial no jornal “O Dia”?
 
– Não há qualquer interferência política ou partidária no conteúdo editorial do jornal, o que inclui a figura do prefeito.



Créditos da foto:  



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